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De repente, 30

Semana passada, completei 33 anos, a idade de Cristo, mas penso que seja a idade de Cristo crucificado, morto e amordaçado. Logo explico.

Quando completei 30 anos, todo um conjunto de fatores se aglomerou e parece que o peso do mundo recaiu sobre mim. Sabe aquele lance de sentir o peso dos 30? Foi bem isso que senti, ou melhor, ainda sinto. É simples: constatei que passava mais tempo fora de casa, trabalhava em excesso, tantos finais de semana perdidos estudando. São tantas atribuições, que temos de correr mais do que a velocidade da luz pra dar conta. Acho que nem na época de colegial eu estudava tanto.

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E o saldo de tudo isso foi distanciamento dos amigos queridos e reuniões familiares, noites mal dormidas, horas do dia passadas sem uma refeição digna, esgotamento físico, cansaço e stress.

O engraçado é que tenho uma lembrança saudosa da minha infância. Sabe aquele poema que diz: “Ai, que saudade que tenho/Da aurora da minha vida/Da minha infância querida/Que os anos não trazem mais”? Pois bem, remete a uma infância doce e despreocupada. Era um tempo áureo, sem preocupações, sem tensões e responsabilidades. Minha única demanda era ir à escola e fazer os deveres. De resto, era brincar de bate-lata, elástico, boneca (tive várias), casinha (a ênfase às prendas domésticas ainda na infância), sete pedrinhas, pique-esconde, salada de fruta, vôlei, futebol (sim, eu joguei futebol no campinho até os quinze anos de idade). Como toda criança saudável, eu tinha disposição de sobra para correr o dia todo e não me sentir cansada. Eu até gostava de praticar esportes. Fiz vôlei, basquete e judô até os dezesseis anos.

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Um traço que faz parte da infância de qualquer pessoa era o de comer besteira sem limite: doces, guloseimas, frituras, salgados. Eu até trocava um prato de arroz e feijão em casa por um pastel frito pingando óleo na porta da escola.

E o bom disso tudo é que, naquela época, eu não sentia absolutamente nada, a não ser cãibra ou “dor de facão” quando corria demais.

Pois é, esse tempo já se foi faz tempo. Cresci – e que bom por isso. Afinal de contas, a gente aprende na escola que todo ser vivo nasce, cresce, se reproduz e morre. Fora essa parte de se reproduzir, o resto tá seguindo a sequência.

Mas é de outra coisa que pretendo falar. Não vim aqui discorrer sobre a “aurora da minha vida” pura e simplesmente. Mas, sim, evidenciar as mudanças que ocorrem nas nossas vidas depois que completamos 30 anos.

São várias as mudanças, já que somos teoricamente pessoas adultas e responsáveis. Enfim. Quando completei 30 anos, já não tinha mais a mesma disposição de outrora, o que parece óbvio, tendo em vista que os anos se passaram.

Mas o que quero dizer é o seguinte: ao me deparar com o espelho enxerguei uma balzaquiana cheia de coisas. Coisas que até os 29 anos – a fase dos “vinte e poucos anos” – não eram tão evidentes.

Aquela farra toda da infância não era mais permitida, já que tão cedo constatei que estava com alguns probleminhas de saúde que juntos formaram um conglomerado a ponto de eu me sentir um Zé Meningite, parafraseando o samba da Banda Revelação. Eu tinha de tudo um pouco. Fui diagnosticada com gastrite, h-pylore, refluxo (“o pulso ainda pulsa…”). Daí, já não podia mais me esbaldar na comilança como antes. Guloseimas, nem pensar! Pois além disso tudo, com o peso da idade poderia acarrear colesterol alto, triglicérides alterado e o escambau.  Me submeti a uma cirurgia, em 2011, para retirada de um tumor que até então não havia se manifestado nem apresentado sintomas. Foi um choque na minha vida. Eu estava no auge da faculdade, fazendo várias formações, trabalhando à beça e me recusei a dar um repouso ao corpo cansado. Quando menos esperei, descobri que estava com lombalgia que anunciava uma hérnia de disco. Tive de fazer uma atividade para amenizar as dores, e me debrucei no pilates já que estava tão sedentária e a disposição deixada na infância havia esmorecido – hoje, eu não gosto de praticar esporte. Desenvolvi alergias para além das que já tinha. Eu, hoje, tenho alergia a sabonete e hidratante comuns. Isso mesmo, parece loucura. Eu também achei quando fui informada. Mas não podia mais tomar banho com sabonete comum nem usar um hidratante desses perfumados que tem por aí, pois ao longo dos anos minha pele estava ficando esgarçada de tanto ressecamento. Agora, é cuidado extremo com sabonete de “nhenhém” e creme hipoalergênico. Isso sem contar que há alguns longos anos eu tenho de fazer uso diário de protetor labial (não só para ir à praia. É no sol, na chuva e no casamento da viúva) e repelente. Isso é sério! Repelente é uma coisa que as pessoas só usam quando vão fazer trilha, vão passar férias no campo ou na praia. Pra mim, é uso diário. Tenho uma alergia a inseto horrível, que nem eu mesmo suporto. Já tive crises a ponto de tomar injeções de benzetacil. Tem um bichinho tão pequenino e tão vil chamado maruim que, apesar de ser tão pequeno, menor que piolho, provoca um estrago enorme nas minhas pernas.

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Ahhh, ainda tem a bendita rinite alérgica. Essa não me larga. Acho que eu e metade da população do planeta sofremos desse troço.

Pense que ainda jovem eu não podia ficar perto de tapetes, urso de pelúcia, desodorizadores de ambiente – esse último, tenho verdadeiro pavor por conta de uma irritação que tive em casa quando minha irmã resolveu deixar a casa perfumada. Outra vez, lembro-me de uma situação na escola que eu e um grupo de colegas faríamos uma encenação d’Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, e uma colega da turma conseguiu o figurino, aquelas roupas de época. Pois bem, as roupas estavam fétidas de tanto mofo, que tive uma crise alérgica na escola mesmo.

A situação é, de fato, periclitante.

Outro dia, resolvi visitar a sogra e fui arrumar a mochila para passar apenas uma noite. Quando dei por conta, na nécessaire, ao invés de colônia, desodorante, escova de dente, havia protetor labial, repelente, hidratante hipoalergênico, spray nasal e comprimidos para rinite. Um inferno de Dante. Era só uma noite, mas parecia que eu ia fazer trilha no Vale do Capão – que Deus me livre dessa hora, pois sou sedentária e suficientemente alérgica para querer passar longe daquele lugar.

É isso que acontece depois dos trinta. Sabe aquela sensação de quando estica o braço e algo estala? Não é crocância por gostosura. Na juventude, isso é só um mau jeito. Depois dos 30, minha amiga, corre e vai ao ortopedista porque pode ser uma bursite, um bico de papagaio ou coisa do tipo. Aquela queimação depois de comer de montão? Quando jovem, é só uma azia, que nós curamos com um antiácido ou chá de boldo. Na minha idade, virou refluxo. Aquele mau jeito na coluna após uma noite mal dormida se transforma numa lombalgia miserável, que dá numa hérnia de disco.

Pensam que exagero? É tudo isso e mais um pouco que só senti depois dos 30.

Além do mais, antes dos 30, tudo é permitido. A irresponsabilidade de ser jovem é permissiva até os 29. Nos 30, seu pai te põe pra fora de casa se não tem um emprego, as responsabilidades que antes não existiam agora pululam no colo. Se você tem um bom emprego, que ótimo. Se não, é um delinquente. Se tem casa, carro e estabilidade, que maravilha, é o filho querido. Do contrário, é um parasita desolado. Se já entrou e saiu da faculdade e quer fazer carreira profissional, é sensato. Se não, não quer nada com a “hora do Brasil”. Aos 18, a gente faz teste vocacional para saber qual rumo profissional seguir. Aos 30, acabou-se, é crise existencial minha “cumadi”. Tu achas que alguém vai oportunar um teste vocacional pr’um marmanjo de 30? Que nada, vai dizer que tá é com crise, ou no mínimo, “discaração”, treta para não trabalhar. Daí, começam as sessões, pois pra suportar tanta responsabilidade e cobrança só fazendo terapia.

Falo sério, sei que isso parece mais uma paródia desolada, mas é a mais pura verdade. Ainda dizem que nossa expectativa de vida está aumentando ao longo do tempo. Não sei pra quem! Já que, pra mim, aos 30 tá tudo de bom tamanho.

No meu caso então, mulher com mais de trinta, a idade de ter filhos já passou. A sociedade só falta me colocar um selo de infértil por ainda não ter tido filhos. E como a prioridade de boa parte das mulheres, e também a minha, tem sido ter um emprego, sucesso e estabilidade profissional, a maternidade vai ficando cada vez mais longínqua, quase inexistente. Pois, a médio prazo, penso que daqui há uns, quem sabe, oito anos, eu pense em ter filhos. Fazendo o cálculo, estarei com 41 anos – uma mulher de quarenta. Agora, pense: tamanha insanidade minha cogitar que posso ser mãe nessa idade já não tendo disposição agora. Subir cada lance de escada hoje é quase meia maratona, imagine daqui há algum tempo! E com filhos correndo pela sala? Loucura, loucura, loucura. Melhor esquecer.

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É isso que essa vida louca nos faz. Acaba com nosso bom humor, bom senso e tudo mais que a gente pode ter de bom. Ao longo dos anos, a constatação de que estamos mais vulneráveis e suscetíveis se faz cada vez mais iminente e assustadora. Eu, que já não tenho mais a singeleza da tenra idade, me dedico a tentar preservar com cautela o espectro de uma vida que nos aponta como saudável.

 
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Publicado por em 23/07/2015 em Publicações

 

A autonomia da mulher que se toca

Depois de um longo jejum literário, volto a escrever. Confesso que também estava sentindo falta dos meus escritos, mas os acontecimentos cotidianos me acometeram à suspensão da escrita por um tempo que nem eu sabia se era ou não indeterminado. Mas, estou aqui de volta e cheia de ideias prontas para serem transcritas.

E venho para falar sobre a autonomia da mulher que se toca. Poderia falar sobre diversas coisas, mas é que no último fim de semana andei pensando muito sobre essa questão: o medo intimidador que os homens têm da mulher autônoma. Mas não é tão-somente a mulher autônoma profissionalmente. Porque a mulher que é autônoma profissionalmente tende a estender essa autonomia para outros campos da vida além deste. E é aí que as coisas ficam mais “assustadoras”.

Vemos recorrentemente o achincalhamento social que as mulheres que defendem sua liberdade sexual sofrem. Numa sociedade machista, sexista, misógina e lesbofóbica como a nossa, ainda que anormal, isso é muito comum, o que não consente que naturalizemos os fatos.

Pois bem, foi pensando nesse medo intimidador que os homens ainda têm da mulher autônoma que resolvi discorrer vagas linhas na tentativa de entender um pouco do que se sucede.

A mulher que se toca é dona de si em todos os campos e aspectos possíveis em que essa discussão possa se estender. Pois, a mulher que se toca conhece seu corpo, suas sensações, seus desejos mais íntimos, suas vontades imediatas e as longevas, e, assim, ela coordena todo o jogo de movimento que possa envolver seu corpo numa relação afetivo-sexual. Porque a mulher que conhece seu próprio corpo não aceita nem admite ser puro objeto de foda do outro. Essa mulher quer o prazer no ponto mais extremo que se possa alcançar; ela busca o ápice do gozo no mais simples toque; e, para isso, exige que o homem seja competente na hora H e não priorize somente a sua satisfação pessoal.

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E essa mesma mulher, por ter autonomia sobre seu corpo, ao afirmar quem ela quer para si, e como ela quer ser tocada, é a mesma quem diz agora como serão dados os outros encaminhamentos na sua vida.

O ponto crucial da repressão feminina se encontra principalmente no campo sexual – é por isso que quase todos os xingamentos dirigidos às mulheres atacam a sua sexualidade, ainda que a sexualidade nada tenha a ver com a conduta reprovável desta ou daquela mulher: “puta”, “vagabunda”, “piranha”, “biscate”, “vadia”, “descarada”, “rodada”… Por isso, a distinção entre “putas” e “santas”. A mulher que é feita “pra casar” – a que deve conservar-se pura, e assim resguardar-se para o marido – se distingue completamente da “pra se divertir” – aquela que é feita para o usufruto do macho alfa no afã do seu impulso animalesco de afirmação da sua masculinidade como padrão heteronormativo.

Desfeita essa repressão no imaginário de uma mulher, ela passa a ser considerada um perigo social. Pois, se ela diz com quem e de que modo quer se envolver afetiva e sexualmente, ela passa a afirmar que não precisa da interferência masculina no seu espaço doméstico. Ou seja, não precisa de um homem para chamar de seu. Essa mulher pode seguir sozinha sem construir um enlace afetivo para dar conta da responsabilidade social que é ter um marido, namorado, companheiro ou qualquer outra coisa de igual significado. Sendo assim, esta mesma mulher não quererá mais depender de um homem financeiramente. Já que ela se toca, conhece o próprio corpo, escolhe como fazer sexo e obter prazer, ela escolhe que tipo de homem terá pra si, e, no desenrolar, sua autonomia sexual agora se estende para outros campos de sua vida para além do sexo. E é justamente aí que mora o perigo, segundo dizem.

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Uma mulher que não precisa de um homem para trocar a lâmpada de casa não necessariamente é a mesma que se toca, mas o inverso é procedente. Tudo isso porque o universo social em que estamos inseridas ainda é eivado de razões e concretudes que esbanjam repressão social contra a mulher.

A mulher que se toca, porém, é a mesma que dispensa um homem na compra do supermercado, é a mesma que sai para trabalhar e volta pra casa toda cheia de si, por considerar o feito um grande ato libertador de tudo que possa lhe aprisionar como pessoa feminina que é. É a mesma que sai em busca do sucesso profissional por acreditar que isso é possível, e que suas capacidades estão além do preparo de um empadão de frango no almoço de família no domingo. Ou seja, essa mulher é a que tem ganhado espaço e notoriedade, ainda que num processo moroso socialmente.

E é justamente aí que se encontra seu poder intimidador. Que não é proposital, mas necessário, tendo em vista as razões que lhe acometem a viver substancialmente numa sociedade que solapa seus direitos mais elementares.

Então, eu, na certeza de que garantias de direitos equitativos socialmente é louvável e para todas, digo: mulheres, se toquem! Esbanjem sua sensualidade no ato de conhecer a si mesma, proporcionem-se prazer no mais íntimo dos íntimos momentos somente seus. Abracem-se, envolvam-se em seus braços, nos braços de outrem, que esse outrem seja um homem ou uma mulher. Sintam o mais profundo desejo de atingirem a completude sinestésica do seu próprio corpo num toque. Sejam donas de si, do próprio corpo, de suas vidas sem a mediação ou consentimento do outro.

Sejam felizes.

 

 
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Publicado por em 14/04/2015 em Publicações

 

ENEM e o racismo perverso da educação brasileira

ENEM 2014

CADERNO DE PROVA AZUL

QUESTÃO 21___________________________________________________________

Estatuto da Frente Negra Brasileira (FNB)

Art. 1º Fica fundada nesta cidade de São Paulo, para se irradiar por todo o Brasil, a Frente Negra Brasileira, união política e social da Gente Negra Nacional, para a afirmação dos direitos históricos da mesma, em virtude da sua atividade material e moral no passado e para reivindicação de seus direitos sociais e políticos, atuais, na Comunhão Brasileira.

Diário Oficial do Estado de São Paulo, 4 nov. 1931.

 

Quando foi fechada pela ditadura do Estado Novo, em 1937, a FNB caracterizava-se como uma organização

  1. Política, engajada na luta por direitos sociais para a população negra no Brasil.
  2. Beneficente, dedicada ao auxílio dos negros pobres brasileiros depois da abolição.
  3. Paramilitar, voltada para o alistamento de negros na luta contra as oligarquias regionais.
  4. Democrático-liberal, envolvida na Revolução Constitucionalista conduzida a partir de São Paulo.
  5. Internacionalista, ligada à exaltação da identidade das populações africanas em situação de diáspora.

 

Hoje pela manhã, ao acordar, soube que a prova do ENEM deste ano trouxe uma questão que abordava a Frente Negra Brasileira (FNB). Tive imediato arrepio, por ter inicialmente pensado que as coisas estão de fato mudando a nosso favor a ponto de a FNB estar presente na prova. Entretanto, logo após veio uma tremenda sensação de fúria contra a instituição organizadora da prova, o INEP. Foi um misto de sensações que foi do êxtase de alegria à revolta destemida por conta da sacanagem que o INEP fez ao por na prova uma questão com esse teor.

Poderia dizer que, no auge das boas intenções, o órgão tendenciosamente está cuidando do legado deixado pela Frente no momento em que sua história é contada e abordada numa questão de prova dessa magnitude. Afinal de contas, a 11.645/08 (veja aqui) está aí pra quem quiser apreciar, e falar sobre a FNB nada mais é do que tornar fidedigna a abordagem sobre a temática que trata da cultura afrobrasileira. Sim, muito válido.

Mas a questão não é essa. Explico: a Lei 10.639/03 fora implantada em 09 de janeiro de 2003, há exatos 11 anos e 10 meses. Cinco anos após sua promulgação, ela foi aperfeiçoada e transformada na 11.645/08 para englobar a temática sobre cultura indígena na educação brasileira. Ponto.

A lei foi promulgada, aperfeiçoada cinco anos depois, mas o mesmo Estado que a elaborou, aprovou e sancionou não se preocupou em criar mecanismos para exigir o cumprimento e a aplicabilidade da referida lei. Não foram gerados instrumentos de controle para que se fosse cobrada a aplicação da lei nos espaços educativos de todo o país. Os mecanismos existentes ainda são ineficientes quando se trata do assunto. Ainda que a produção acadêmica e de materiais educativos tenha tido um crescimento vertiginoso em referência ao período anterior à lei, isso não significa um avanço no campo de ações implementadas, de modo a contemplar os estudantes da educação básica com o acesso a tal.

E quando falo de sua aplicabilidade legal, não me remeto aos eventos promovidos no mês de novembro nas escolas, que correspondem ao Novembro Negro, que doravante se prestam a compor fantoche das secretarias estaduais e municipais de educação no país, pois esta não é uma política compensatória, e sim educacional, como todas as outras que constam na LDBEN/96. E como positivamente estamos avançando na garantia de cotas, penso que o mês de novembro não seja mais uma cota, no qual só fale de preto nesse período por conta do sentido simbólico que lhe fora atribuído, muito menos pelas comemorações que lhe são feitas. Não deixo aqui nenhum ar de pretenso sarcasmo ou tom pejorativo, por não caber, e pelo compromisso que tenho com a política.

Tão logo, devo enfatizar que ainda que tenha sido promulgada uma lei que garanta que seja inserido no sistema educacional brasileiro todo o legado histórico e cultural da população afrobrasileira e indígena, na prática isso não chega a ser notório. E não sou eu quem digo.

No ano passado, quando se completaram dez anos de implantação da Lei 10.639/03, alguns especialistas se debruçaram na análise do que fora feito até então sobre a lei. Uma espécie de recorte que tratasse do que vinha sendo feito até então. E o cenário não foi nada animador. O que não era nenhuma novidade para quem vive na prática a experiência da grande recusa por parte das instituições e docentes em aplicar a lei, lecionar o conhecimento proposto, bem como cuidar de garantir a diversidade no ensino básico do país, e desfazer o eurocentrismo propedêutico presente nos livros didáticos. Desvelar o racismo presente no sistema de educação nacional. Pois como disse o antropólogo, professor emérito da Universidade de São Paulo e pesquisador-visitante sênior da Universidade Federal do Recôncavo Baiano, Kabengele Munanga, a educação colabora para a perpetuação do racismo (veja aqui).

E para ratificar a afirmação acima trago o texto de Dennis de Oliveira, professor da Universidade de São Paulo (USP), coordenador do Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (CELACC), membro do Núcleo de Pesquisas e Estudos Interdisciplinares sobre o Negro Brasileiro (NEINB), e colunista da Revista Fórum. O acadêmico traça com maestria um balanço sobre a Lei 10.639/03, tudo que não foi alcançado após sua promulgação.

Diante do exposto, julgo mais que incoerente a atitude do INEP de lançar uma questão num exame nacional sobre um assunto que não é tratado nas escolas. Nem na melhor das hipóteses ou intenções – com a óbvia exceção dos cursinhos pré-vestibulares populares, que, como diz Oliveira no artigo acima citado, cumprem um papel importante e louvável na aplicação da lei, mas não atacam o cerne do problema uma vez que se trata de ações marcadas pelo voluntarismo. Enquanto o Ministério da Educação não assumir a sua responsabilidade no desmantelamento do racismo institucional na estruturação das políticas educacionais brasileiras, a aplicação da lei pouco avançará.

O que os órgãos federais de educação têm feito não passa de um boicote afrontoso à educação, em especial a pública, do país. Pois o descaso que é dispensado à aplicação da lei, bem como os instrumentos avaliativos, não exercem seu papel executivo.

Ou seja, vejam como funciona; uma lei é promulgada para garantir o ensino de História da África, cultura africana e afrobrasileira no currículo da educação básica, que logo após é modificada para contemplar a temática indígena, de 10.639/03 passa a ser 11.645/08. O caput dessa lei altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN). Não são criados marcos regulatórios que cobrem sua execução, toda prática parte de um ato voluntário e individual (mais adiante falarei da minha trajetória nesse sentido) de um e apenas um indivíduo simpático aos ditos da lei, que se propõe a um esforço próprio, hercúleo e exaustivo de pô-la em prática no cotidiano escolar. E ainda assim, os órgãos tratam de cobrar em exames de esfera nacional algo que promulga e não se aplica.

Verifica-se o que disse Jane Elliott no documentário Olhos Azuis: o racismo impede que um determinado grupo de pessoas tenha acesso a determinados conhecimentos, e depois essas pessoas são obrigadas a responder uma questão sobre algo que foi impedida de aprender. É por isso que o já citado professor Kabengele Munanga disse que o nosso racismo é um crime perfeito.

Tem-se posto aqui o objetivo central de todo processo seletivo: a exclusão. Quando a questão foi lançada na prova o objetivo não foi trazer à tona o marco legal da 10.639/03, e sim subnotificar o ato falho que é a educação brasileira. A concepção do sistema educacional no Brasil parte de um pressuposto de que este se sustenta em ações individuais e estanques, e isso só se perpetua.

É peremptório o modo como o arcabouço educacional brasileiro se sustenta, pois trata de forma excludente o alvo das metas que propõe: o corpo discente. A estrutura organizacional toda é concebida de modo a minar a educação do país.

É possível verificar a gênese do epistemicídio educacional brasileiro com relação à temática racial já no processo de formação docente. Os currículos dos cursos de licenciatura e o de pedagogia não estão restritos à obrigatoriedade do ensino da Lei 11.645/08. Deste modo, não há um caráter obrigatório de os conteúdos sobre ensino de História da África e cultura afrobrasileira atingirem esse nível de ensino. E já que não há obrigatoriedade, a deficiência na formação de professores se desdobra mais adiante, na educação básica, o campo de atuação desses profissionais. Sem acesso ao ensino sobre cultura afrobrasileira e africana, o desconhecimento diante ao que é cobrado nos exames é mais que natural. Perceberam a sacanagem na prova?

A lei 10.639/03 atinge meramente o ensino público, já sucateado, e por alguns simpáticos e engajados com a luta antirracista no país. Os chamados “militantes sem causa”, já que não existe racismo no Brasil.

A esfera privada ignora solenemente o marco legal da LDBEN/96, que versa sobre. No ensino superior, seja este público ou privado, como dito anteriormente, isso não se faz obrigatório. Como compensação, núcleos de pesquisa e cultura afrobrasileira e da diáspora formado por aqueles mesmo simpáticos da luta antirracista organizam laboriosamente formações em nível de extensão para suprir o desfalque dado na formação de profissionais docentes.

Mais uma vez e sempre, a lei tem se garantido da intencionalidade de poucos que asseguram de modo isolado suas ações.

 

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Ao longo do texto comentei sobre as ações individuais de implementação da Lei 10.639/03 e a dificuldade de executar a lei nos espaços escolares. Pois bem, como já disse em alguns textos que publiquei aqui, tenho formação em Pedagogia, pela Universidade Federal da Bahia. Ao longo da minha graduação, senti a necessidade me aproximar das discussões sobre o ensino de História da África e cultura afrobrasileira.

Tive uma formação esvaziada nesse sentido, pois o currículo do curso de Pedagogia da Faculdade de Educação da UFBA não contempla nenhum componente curricular com temáticas dessa seara. A matriz curricular do curso não é só deficiente como decisiva para o não debate desses assuntos na sua plenitude acadêmica, e isso se vê (aqui), no quadro curricular do curso. Tão logo, como desenvolvi um interesse pessoal e profissional pelo tema, resolvi sair em busca de algo que pudesse agregar à minha formação docente.

No decorrer da formação em Pedagogia, tive de conciliar a formação pedagógica eurocêntrica que preza por Piaget, Vygotsky, Wallon, Skinner, dentre outros – sem nenhum demérito ao trabalho destes – com a formação voltada para o ensino da cultura africana e afrobrasileira. Para tanto, tive de me aproximar de autores e autoras como Elikia M’Bokolo, Kwame Anthony Appiah, Stuart Hall, Ana Maria Gonçalves, Eliane Cavalleiro, Consuelo Dores Silva, Ana Célia da Silva, Marcus Vinícius Fonseca, Henrique Cunha Jr. e João José Reis, dentre outras. Fui buscar este último nos núcleos – aqueles pensados e organizados por militantes da luta antirracista – de algumas universidades públicas brasileiras.

O labor em unir duas formações, quando na verdade eu deveria ter ambas acopladas numa só, foi significativo para a proposta que dei à minha formação como profissional docente. Mas devo ressaltar que isso não deve, ou pelo menos não deveria, ser uma ação individual e exclusivamente minha. Desde quando há uma base legal para isso, a garantia ao acesso torna-se primordial.

Tive a ajuda de profissionais docentes que encampam a luta antirracista, militantes do Movimento Negro, e acadêmicos que resistem na luta e prezam pela garantia do ensino da 10.

O Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB) da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), o Programa de Educação sobre o Negro na Sociedade Brasileira da Universidade Federal Fluminense (PENESB-UFF) e o Programa de pesquisa e formação em relações raciais, cultura e identidade negra na Bahia – Brasil (A Cor da Bahia) da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH) da UFBA (foi para todos esses lugares que tive de me deslocar, tanto física como ciberneticamente, já que a Faculdade de Educação não deu conta dessa demanda) colaboraram no meu processo formativo. Nessas instituições realizei algumas formações em nível de extensão para entender as demandas que se sucedem com a Lei 11.645/08.

Digerir os conteúdos foi algo surreal a quem não tinha a menor aproximação com o tema, absolutamente nenhuma referência de como pensar sobre essas coisas e jamais tinha visto nada sobre durante toda a vida escolar. Entender a cartografia do continente africano foi tão sofrível quanto compreender os meandros do raciocínio simbólico de Foucault e Arendt.  E a título de ilustração relembro uma atividade de um curso que realizava pela UDESC, na qual tinha de entender a cartografia do continente africano e situar-me geograficamente na África Ocidental do Popó Grande, Popó Pequeno, Fernando Pó, Agudá, Porto Novo e tantos outros nomes estranhos pra mim. Minha capacidade de abstração para digerir essa gama de informações havia desaparecido pelos instantes que me consumiam. Entender de cartografia, compreender a leitura, e visualizar no Google Maps tudo que o texto trazia era algo que eu não tinha o menor domínio. Eu olhava, olhava, olhava e não conseguia entender nada daquilo.

Criar aproximação não foi tarefa das mais fáceis, mas era isso que pretendia e estava destinada, já que prezava por uma educação diferenciada dos moldes eurocêntricos a que estive subjugada.

Desfazer-se das amarras conceituais que a Pedagogia me moldava provocava tamanho estranhamento, inclusive, aos demais profissionais de licenciatura, que não entendiam o porquê d’eu relacionar esses estudos à minha área. Era como se eu estivesse adentrando um espaço reservado somente aos profissionais de História, Antropologia, Filosofia.

Prossegui nas formações, concluí o curso de Pedagogia, com a certeza iminente de que ainda terei de traçar um longo caminho caso queira dar continuidade ao que comecei lá no início. E para isso, realizo uma especialização na área de educação e relações raciais. Ou seja, estou dando prosseguimento ao que me propus.

Mas reitero que essa não deve ser uma tarefa individual. Pois o interesse, o cuidado com a formação, e o zelo pelo serviço que se presta deve emanar ainda no processo formativo dos profissionais de educação, para que posteriormente seja ofertado e cobrado dos discentes.

Eu certamente não teria dificuldade alguma em responder a questão do ENEM sobre a FN, pois me propus ao desafio de realizar um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) no qual inclinei uma parte de um capítulo a falar sobre o trabalho que a Frente desenvolveu no cenário sociopolítico e educacional. Tão logo, não me causaria estranheza alguma responder a assertiva. Mas para realizar tal façanha, recolhi nas formações que realizei ao longo do caminho conteúdo necessário à compreensão do assunto. Me aproximei de acadêmicos que entendiam do assunto. Além disso, não estamos falando de mim, uma pessoa que já tem uma graduação concluída e fez um TCC sobre a FN e outras instituições. Estamos falando de estudantes que acabaram de sair, e que, em alguns casos, ainda estão, no ensino médio. Essas informações também devem estar acessíveis a quem está nessa fase dos estudos.

Aqui está mais uma mostra de um ato voluntário e individual que abordei aqui. Mas isso não se estende ao que os organizadores do exame fizeram quando da proposição da questão. Para além da ação de cada indivíduo, a aplicação da lei deve ser cobrada com mostras de resultados pela sua execução. Caso contrário, o resumo da ópera será sempre esta: cada um no seu quadrado externando o mar de ações e conteúdos programáticos numa luta solitária e extenuante que é a educação no Brasil.

Como disse o advogado e professor de Direito Samuel Vida, quando o assunto é luta política, a melhor forma de garantir que nada será feito é a aprovação de uma lei, pois dá a falsa sensação de vitória.

 
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Publicado por em 12/11/2014 em Publicações

 

Meritocracia ou mentirocracia?

Minha mãe e meu pai sempre cuidaram para que eu tivesse acesso à educação. Eu estudei em escola privada até a antiga 5ª série (atual 6º ano). Depois, ingressei no Colégio da Policia Militar do Estado da Bahia. E só a título de curiosidade, escolas militares, federais e de ensino técnico/tecnológico estão entre as melhores na qualidade de ensino público do país. Para ingressar no CPM, no ano de 1995, tive de fazer um teste de admissão em 1994. Ou seja, a escola selecionava seu público já na porta de entrada, dizendo quem podia ou não adentrar. Eu era a única da rua a estudar numa escola desse porte. Saí de lá em 2001, quando concluí o Ensino Médio.

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Passado um tempo, eu me esforcei para entrar na faculdade. Fiz cursinho pré-vestibular em 2008, e, em 2009, ingressei no curso de Pedagogia da Universidade Federal da Bahia. De cara, na primeira tentativa. Saí de lá em fevereiro deste ano, 2014, e já ingressei em outra universidade pública federal (UFF – Universidade Federal Fluminense). Tive mais uma vez a oportunidade de estudar na melhor universidade pública do meu estado, ao tempo que alguns poucos amigos estavam em faculdades privadas se esfolando para pagar a mensalidade e vivendo do subemprego por garantia.

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Sou servidora pública pelo município de Salvador desde 2007. No fim do mês, o meu tá na conta. Faça chuva ou faça sol. Não preciso ficar me tremendo todo fim de temporada à espera de um corte de pessoal, para que eu volte a ficar de pires na mão sobrevivendo do seguro-desemprego assim como muitos dos meus amigos e conhecidos vivem hoje.

E apesar de tudo isso, eu ainda penso que o resto do mundo tem que se esforçar para ter acesso a uma educação pública de qualidade, igual a que eu tive, estudando em escola e universidade públicas de excelência. Caso o contrário não passarão de uma corja de preguiçosos que ficam à espreita de mixaria de governo, quando na verdade deveriam ir à luta e batalhar para ter o seu.

A igualdade de oportunidades nesse país meritocrático ainda se organiza num processo moroso, e que demanda uma série de políticas que visam minimizar os efeitos das assimetrias sociorraciais escamoteadas no tecido da nossa sociedade.

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É um ultraje pensar que minha vizinha, meu primo, o amigo de meu irmão, o coleguinha do prédio não têm acesso a uma educação pública de qualidade que segue da educação básica ao ensino superior por preguiça ou descaso. Eles bem que poderiam estudar numa escola boa, não o fazem porque não querem.

É um acinte depositar toda credibilidade nas esferas de poder que minoram os efeitos catastróficos da miséria em que vivemos, e nos convence que somos fracassadas.

Ser contra as políticas sociais que dão conta de nos manter longe dos extremos da pobreza é pensar que o privilégio que lhe contempla é só seu e de mais ninguém, e alguns simplesmente não os têm por não merecê-lo.

Eu entendo que educação de qualidade deveria ser para todas. Deveriam existir universidades públicas que pudessem abrigar um contingente volumoso que vive à margem de tudo: saúde, educação, moradia, emprego, lazer e tantas outras coisas.

Mas não é assim que funciona. E por não ser assim que eu não devo pensar que o que é meu é porque conquistei com muito labor, e o resto do mundo que se f…….

Afinal de contas, não basta querer ter algo. É preciso ter condições para buscar o que quer. Não dá para pensar em virar astronauta sem saber física. Não dá para pensar em virar atleta de alto rendimento sem ter comida na mesa, material de qualidade para treinar e patrocínio para viajar e dedicar-se exclusivamente à prática esportiva. Não dá para pensar em virar ministra do Supremo Tribunal Federal sem ter sido ao menos alfabetizada.

Devo reconhecer que, no quesito educação, fui privilegiada. Mas é pouco. Eu quero ver muitas de mim ocupando as universidades públicas, e preterindo esses lixões maquiados de faculdades privadas que só reproduzem massa de manobra para o subemprego.

Quero ver gente minha na UFBA, UNEB, UFOB, UFRB, UESB, UEFS e tantas outras. Quero ocupar os espaços de poder que me são negados a todo o tempo, porque simplesmente “eu não me esforço”.

Quero pensar na possibilidade viável de ter mais médicos, advogados, fisioterapeutas, engenheiras, arquitetas, todos oriundos das classes baixas deste país. A faxineira de lá de casa deixou de lavar minha privada porque quis entrar na faculdade. O jardineiro da casa de praia resolveu estudar para ser doutor.

Mais igualdade de oportunidade, e menos massacre social. É isso que queremos.

Eu fui apenas uma a furar o cerco. Quero poder arrombar a porta para o povo entrar e juntos comemorar. Ou como disse Léo Santana, “de onde eu venho, tem mais”.

 

 
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Publicado por em 27/10/2014 em Publicações

 

AH! BRANCO, DÁ UM TEMPO! CARTA ABERTA AO SENHOR MIGUEL FALABELLA

(Por Blogueiras Negras)

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Você me pergunta se vou dizer que você é racista, me responda você!

Racismo não é polêmica, muito menos rancor ou falta de humor. Mais que ninguém, que se pensa um defensor dos direitos de seus pares negros e portanto um aliado na luta contra o racismo, deveria saber disso. Deveria saber também que cogitar tal hipótese e ainda enumerar amigos negros para se defender, é viver num mundo tal de privilégio onde se pode rebater a crítica dizendo que as vozes de mulheres negras são apenas controvérsia, ou fazer um grande esforço para esconder o próprio racismo. Quem sabe os dois.

Ah! Branco, dá um tempo! Você diz que “dói” ver luta de seus colegas negros, menosprezados e invisibilizados por sua cor. No caso da mulher negra, tudo se agrava. Você certamente tem ciência das recentes e tristes notícias sobre Neuza Borges, uma das maiores atrizes que temos, mas que por seu lugar de mulher negra não encontra lugar na televisão brasileira. Vive na carne a falta da carne em seu prato porque a próxima novela não acontecerá tão cedo. Vai depender da “boa vontade” de alguém, não do seu talento.

Você me pergunta se o problema é o sexo ou “as nega”, querendo desacreditar nossas críticas fundamentadas não em pré-julgamento, mas em fatos veiculados na mídia. Notícias essas que agora dão conta que de repente a Globo, antes tão entusiasmada com seu projeto, parece que já não está tão feliz assim. Você argumenta que se trata de uma prosódia pura e simplesmente. Alega que o título da série veio de uma mulher negra. Aliás, me pergunto se essa mesma mulher recebeu os devidos créditos e bufunfa por sua colaboração já que foi descrita por você como nada mais que um estereótipo, alguém que não merece nome, muito menos sobrenome.

Não tem problema branco, vou enegrecer tudo novamente.

As negas, volto a explicar, não é uma questão de prosódia.

Tal expressão transforma o corpo da mulher negra em peça, como eram chamados os escravizados, a ser consumido por uma sociedade racista. Nos coloca no lugar de mercadoria de segunda mão que não receberá o mesmo tratamento da carne branca e delicada, aquela que não é “suas nêga”. A expressão é embuída não apenas de pensamento escravocrata, mas também de machismo, cujas consequências sentimos na pele por sermos mulheres negras. Trata-se portanto de uma dupla violência que categoriza mulheres de acordo com sua cor de pele, qualidade que determinará qual o valor e o lugar que têm.

Ainda sobre o nome da série, temo que muitas pessoas não saibam a diferença entre um adjetivo racista e um adjetivo comum. Na Bahia, nego e nega tem conotações diferentes das que tem em Recife, por exemplo. E dependendo do uso da frase, do tom com que se fala, de quem recebe e de quem envia a mensagem, você ofende ou elogia. No entanto, a construção “não sou tuas nega” não permite outro significado possível que não o racismo num contexto hediondo de 350 anos de escravização. E se alguém perpetua adjetivo racista, que nome isso deve ter? Ah! Branco, me diga você!

Sua ideia, aos olhos poucos atentos ou interessados apenas em gerar lucro, pode até parecer de grande monta. Porém, está longe de gerar visibilidade ou dignidade. Aliás, exatamente o contrário. Como quase sempre acontece com literatura e dramaturgia feita por brancos sobre negros, nos trata como simples objeto de estudo, algo que pode ser manipulado e observado justamente como você faz, nos ensina a professora Lígia Fonseca Ferreira. Nada mais é que negrismo e não negritude, como tem insistido o escritor e jornalista Oswaldo de Camargo.

Sim, estou dizendo com todas as letras que quem deve escrever para o negro e pelo negro deve ser ele mesmo, não uma pessoa branca. Chame isso de racismo reverso se quiser. Para gente o nome disso é visibilidade, esta sim capaz de nos ter algum benefício, com poderes para mudar o modo como seremos retratadas na próxima novela, na próxima minissérie. Sem isso, nada mudará, seguiremos sendo uma sociedade estruturalmente racista e machista onde a mulher negra nada mais é que um estereótipo para racista se divertir ou entreter.

Uma sociedade em que nós, mulheres negras, não somos protagonistas nem mesmo num seriado a quem damos o nome. Sim, as notícias têm mudado, mas as primeiras davam conta de uma branca como a atriz principal. Ela que, atrás de um balcão de bar, vai nos observar como animais num zoológico, ela quem fala em nosso lugar. Nossa história, sofrimento e capacidade de discursar sobre nós mesmas são meros detalhes. A narradora da trama, nesse caso narrador, é alguém isento desse mesmo sofrimento. Não é bobagem, nem caretice, nem ditadura do politicamente correto como alguns vão afirmar. É critica e zelo por nossa memória e existência.

Você argumenta que “um programa que refletisse um pouco a dura vida daquelas pessoas, além de empregar e trazer para o protagonismo mais atores negros” seria desejável. E na verdade seria mesmo. Desde que escrito, produzido e protagonizado por negros. Não por alguém que nem se deu ao trabalho de creditar a mulher negra que deu o título à série. Esse detalhe é causa e ao mesmo tempo consequência de todos os outros: a fetichização de nossa sexualidade e corpos, a ênfase nos estereótipos, a violência simbólica que a série representa.

Como pretender que nos desumanizar é visibilidade? Desde quando nos tratar como a carne mais barata do mercado como canta Elza, a Soares, é ser aliado? Ah! Branco, dá um tempo! Suas palavras apenas enfatizaram suas intenções, a cada parágrafo tivemos a certeza de que nossas críticas são fundamentais e muito bem fundamentadas, por isso incomodam tanto. Seguiremos denunciando o racismo e o machismo daqueles que se fiam no privilégio para destilar veneno e cometer tais violências contra a mulher negra.

Isso não é sobre sexo. É sobre denunciar um sistema perverso que exclui as mulheres negras de todas as esferas e nos torna menos que humanas. Sistema esse que também incide sobre o homem negro, alvo primeiro e preferencial da violência policial e da hipersexualização do seu corpo: o “homem do pau grande” é resultado da brutal animalização do corpo negro, sempre pronto pro sexo. Onde está a crítica desse sistema na televisão brasileira? De certo não está em seu seriado, muito menos em sua fala.

Repudiamos suas palavras porque fomos estupradas nas senzalas e continuamos a ser na dramaturgia feita por brancos sobre nós através de imagens estereotipadas em seriados, novelas e minisséries. Esse é um dos mecanismos que a aliança entre o racismo usa para se perpetuar: hipersexualizando a mulher negra que se torna desprezível para outros papéis sociais. Você fala da mulata quente, gostosa, fogosa. Somos muito mais que isso. Precisamos ser mostradas como as mulheres do dia-a-dia, que trabalham, dançam, fazem festa e querem sexo sim, mas que não são apenas isso.

Não estamos aqui menosprezando nem dizendo que não somos camareiras, domésticas, cabeleireiras: também somos trabalhadoras domésticas, cuidadoras. Mas sobretudo, com as nossas conquistas e a nossa luta, galgamos lugares, posições: somos diretoras, bailarinas, advogadas, publicitárias, escritoras, professoras e médicas. Onde elas estão no seu seriado? Será que elas não moram em Cordovil? Será que elas não estão nas periferias? Duvido muito. NÃO aceitaremos mais ser caricaturas! Por isso a critica vai além do nome da série, o que por si só é deveras problemático.

Ah! Branco, dá um tempo! Nem queremos crer que você está se comparando e recorrendo a Spike Lee para credibilizar seu trabalho. Não, nos recusamos. E não é somente porque Spike Lee é preto, é porque não vemos nada, absolutamente nada de crítica racial em “Sexo e as Nega” como vemos em “Faça a coisa certa”. O gueto é paisagem, mas também é a vida, é a teia, é o sangue do autor que não está só observando e contando sua versão dos fatos: Spike Lee está no gueto, ele é o gueto. E não alguém que não é “as nega”, alguém que pretende que nosso único objetivo de vida é ter um parceiro sexual.

E por favor, respeite nossa memória e retire suas palavras ao nos chamar de capitães do mato.

Não estamos perseguindo as atrizes negras desse seriado, muito menos as mulheres reais que são representadas pelas suas personagens. Quem conhece um pouquinho de história e dela faz um uso bem intencionado, sabe que existem outras versões além daquela em que fomos escravizados sem lutar, viemos sem resistência num navio negreiro. Não se faça de desentendido, quem criou capitães do mato não foram os próprios negros.

Acusar alguém de “se tornar capitão do mato” é algo muito mais complexo do que formular uma frase. É impossível que sejamos algozes de nós mesmos, isso é falácia. Retire sua fala e reflita sobre o que significa nosso boicote e critica que têm como alvo um modelo e um sistema historicamente racistas, em que nem o direito de falar, contar nossas próprias histórias e tecer criticas nós temos. Repito: isso não é uma caçada ao povo negro nem à mulher preta e pobre. É sobre o racismo enrustidamente manifesto, sem nem se sentir ou admitir.

Manifestamos profunda oposição a esse mundo, de quem bate e finge entender a dor daquele que apanha. Esse mundo onde racismo agrada, é piada pronta para gerar audiência e naturalizar o racismo. Estamos fartas do seu discurso, de programas que usam blackface, que transformam toda mulher negra em empregada doméstica ou mulata globeleza. Nossos corpos não espaço para seu deleite, divertimento, lucro ou usufruto. Nós somos mulheres negras de pena e teclado, ciosas e autoras de nossos próprios enredos e objetivos de vida.

Ah! Branco, dá um tempo! Quem nos silencia é racista sim.

 

Fonte original do texto: Blogueiras Negras

 

 
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Publicado por em 13/09/2014 em Publicações

 

A questão racial e o sistema prisional brasileiro (breve histórico sobre a marginalização do negro)

Por: Raphael Lisboa de Souza*

O sistema carcerário brasileiro tem cor. Essa é uma consideração, que infelizmente não pode ser vista como absurda, já que ao avaliar as condições humanas, em que a população negra foi submetida, será fácil perceber que, essa se encontra em grande vulnerabilidade social. Durante o pós-escravidão, a população negra brasileira, foi jogada a esmo, ficando a margem da sociedade, que via o ideal de “perfeição”, algo similar ao perfil europeu. Dessa forma, não houve nem um espaço para o negro, e nem para o indígena, no que tange a “evolução” da sociedade brasileira.

Durante o final do século 19 e começo do século 20, o Brasil passa por uma grande transformação em sua estrutura social e urbana. Com advento da segunda revolução industrial, e após os conhecimentos da evolução humana, proposta por Darwin, muitos dos valores, que antes eram considerados como normais- a escravidão que antes era vista como algo normal, passa a ser vista com maus olhos- foram caindo por terra. As lutas abolicionistas, que bebiam muito dos ideais positivistas, e evolucionistas da época, não tinham apenas o intuito de livrar o negro da senzala. Escritores abolicionistas como Joaquim Manoel de Macedo, afirmava que o contato do homem branco, com o homem negro, era algo extremamente danoso para o homem branco. As ideias que estavam sendo amplamente divulgadas nessa época, traziam em seu bojo um ideário, da existência de uma “raça superior”. Dessa forma, todas as raças consideradas não brancas, eram tidas como “menos evoluídas”.

Dentro dessa conjuntura os negros foram excluídos e tiveram suas imagens marginalizadas. Muitos por causa do descaso do Estado, e do restante da sociedade, sem poder gozar do status pleno de cidadão, terminaram por buscar alternativa em praticas ilícita. Nina Rodrigues e Thobias Barreto, dois dos principais divulgadores das ideias eugênicas, afirmavam que os negros se encontravam em situações degradantes, por causa da sua inferioridade racial. Recorriam a praticas da antropometria- mediam partes dos corpos como nariz, córtex cerebral, dizendo que pessoas que supostamente, tivessem traços fenotípicos de um negro, seriam marginais em potencial – estudos como esse, foram um combustível para o desenvolvimento da antropologia criminal. Um caso que pode servir como “ilustração” desses perfis de criminosos, foi o recente caso do ator que ficou preso 16 dias, sem ter ao menos uma prova cabal contra ele. A justificativa para tal prisão foi que ele parecia com um suposto assaltante. Não é preciso dizer que esse ator, era negro, e mesmo ele estando “bem vestido”, não escapou do estigma de ser um suposto bandido.

Seguindo essa lógica, o homem negro ficou mais longe da sociedade, e esteve mais perto do cárcere. Cabe dizer que de escravizado, ele passou a ser um “criminoso” em potencial, tendo seus hábitos, religiosidade, e imagem, passiveis de criminalização. Muitos foram presos apenas por estarem cultuando o candomblé, ou jogando capoeira (as casas de candomblé para funcionar, deveriam ser registradas na delegacia de jogos e costumes, e a capoeira foi proibida até a década de 30). Essa é uma forma evidente, que mostra o racismo estampado na historia da nossa sociedade. Racismo esse, que gerou sequelas existentes ainda hoje em nosso seio social.

Um fato histórico não fica enterrado no passado, longe do nosso presente. E sabendo disso, pode-se perceber os péssimos frutos colhidos por esse sistema excludente, que foi instaurado no Brasil durante anos. Atualmente, mais que da metade do numero de presos, são pertencentes à raça negra. Segundo o Departamento Penitenciário Nacional (2013) cerca de 54% dos detentos são pretos e pardos.Há quem queira recorrer para os estudos da eugenia,e afirmar que estes presos,são a prova viva dos experimentos de Nina Rodrigues.Muitos preferem ignorar o fato,que muitos desses que estão presos,são na verdade vitimas do racismo institucional.O racismo institucional,funciona basicamente,com ampla e total deficiência do sistema publico -falhas na educação,falta de emprego,lazer,aumentam a proximidade com a criminalidade.Segundo uma pesquisa,feita pelo IBGE (2010) aponta que,a taxa de alfabetização entre negros e brancos é algo completamente desigual.Os dados mostram que pretos e pardos apresentaram taxa de analfabetismo de 14,4% e 13% respectivamente,enquanto brancos apresentaram 5,9%.Com essa deficiência,só restam as vagas nos sub empregos,ou a criminalidade.

O sistema carcerário, não é apenas uma forma de corrigir um sujeito, por um ato infracional cometido. Ele na verdade, é uma forma de desumanização e exclusão da humanidade, da pessoa que venha cometer um delito. Para Foucault (1975) a prisão servia para manter os corpos “dóceis”, obedecendo as lógicas do meio social. Porém, as prisões se mostram como o local onde a redenção, e a inclusão do marginalizado, se tornam verdadeiros mitos, e o numero de reincidentes, se transformam em regras concretas. Essa precariedade do sistema prisional,mesclado com o racismo velado,faz com que muitos desses “marginais”, permaneçam na mesma posição social.

Esses agravantes devem ser resolvidos com seriedade, e devem ser enxergados como problemas urgentes. Não se pode mais ignorar o fato do racismo institucional, e ter a ignobilidade de não perceber os efeitos disso, dentro da nossa sociedade. Cabe tanto ao poder público, quanto ao restante da sociedade brasileira, um verdadeiro combate ao racismo, e uma verdadeira garantia de equidade e de humanização das minorias que se encontram em vulnerabilidade social. Só dessa maneira, será possível retirar a população negra da sombra da criminalidade.

 

* Licenciando em História pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, da Universidade Federal da Bahia.

 
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Publicado por em 30/07/2014 em Publicações

 

Ariano Vilar Suassuna, este sim vai fazer falta!

(*16 de junho de 1927 – † 23 de julho de 2014)

 

A cultura nacional hoje perdeu um dramaturgo, romancista, ensaísta e poeta, grande cânone literário brasileiro. Ariano Suassuna foi uma figura célebre que exerceu com seriedade seu papel na arte de escrever e criar personagens, histórias e outras aventuras literárias. Natural de João Pessoa, radicado em Recife desde 1942, nordestino nato, ele conseguiu transpor as barreiras impostas ao povo da região Nordeste do país com seus escritos.

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Com respeito, desenvoltura e soberania levou sua arte aos quatro cantos do Brasil com a sobriedade que lhe era peculiar. Defendeu a sua obra e propagou seu rico conhecimento até os últimos instantes. E é com respeito que o reverencio.

Na última quarta-feira, há exatamente uma semana do seu falecimento, Suassuna esteve no Teatro Castro Alves, em Salvador, para ministrar uma aula-palestra. Hoje, com a notícia de sua morte, lamentei imensamente o fato de não ter estado presente na única e última oportunidade de sorver um pouco da sua sabedoria.

Membro da Academia Brasileira de Letras desde 1989, ocupante da cadeira de número 32, este célebre imortal escreveu obras como Auto de João da Cruz, Os homens de barro, Uma mulher vestida de Sol, Farsa da boa preguiça, e tantas outras, sendo a mais famosa adaptada para a TV no ano de 1999, O Auto da Compadecida. As interpretações de João Grilo e Chicó, feitas por Matheus Nachtergaele e Selton Mello, são memoráveis.

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Esta última trouxe um pouco do cotidiano do povo do sertão e quebrou rigores estéticos presentes na religiosidade cristã. Suassuna ousou inovar quando nos agraciou com o Jesus Cristo negro, estrelado por Mauricio Gonçalves. O ultraje do escritor provocou espanto, riso e muito incômodo. Mas quem disse que Jesus Cristo não pode ser negro? Ariano Suassuna mostrou que pode – até porque na região em que dizem que Jesus nasceu, ele jamais poderia ser branco, loiro e de olhos azul-piscina.

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É com esta nota publicada na Folha de São Paulo, em 07 de março de 2000, que rendo loas ao imortal romancista que ousou o novo, e desfez a lógica do padrão estético eurocêntrico presente na cultura brasileira.

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“Racismo e capitalismo

ARIANO SUASSUNA

Foi em 1955 que escrevi o “Auto da Compadecida”. Naquela época, com exceção do admirável “Teatro Experimental do Negro” – criado por Abdias do Nascimento -, os movimentos negros não se tinham, ainda, organizado no Brasil. Brasileiro branco e privilegiado que sou, os poucos acertos que, naquele tempo, me ocorriam ao refletir sobre o racismo originavam-se apenas de uma apaixonada busca da verdade e da justiça – coisa que, graças a Deus, desde muito moço nunca me faltou (às vezes acompanhada por uma indignação nem sempre medida e justa).

Foi a partir da década de 80 que, convivendo com Adelaide Lima, Josafá Mota e outros participantes do Movimento Negro Unificado, passei a ter uma visão mais clara sobre o problema dos negros, no Brasil e no resto do mundo. Passei a frequentar o MNU; e, no curso de uma de suas reuniões, tive oportunidade de ouvir uma verdadeira aula, pronunciada por Joel Rufino dos Santos, que explicou por que a sociedade brasileira encara com tanta naturalidade a tortura (desde, é claro, que praticada contra os pobres, os negros e os desvalidos de qualquer natureza): é que, durante quatro dos cinco séculos do Brasil “branco”, a tortura era não só tolerada ou permitida, mas legal e prescrita por documentos oficiais. Chegava-se a discriminar, cuidadosamente, caso a caso, o número de chibatadas e castigos piores que deveriam ser aplicados aos escravos, de acordo com a natureza e a gravidade dos “crimes” que tivessem cometido. “Assim formada” – dizia Joel Rufino dos Santos naquela aula -, “não admira que a sociedade brasileira branca ache que é natural prender e torturar os brasileiros pobres e negros por ela considerados como marginais.”

Noutra reunião do MNU, uma moça, Inaldete Pinheiro de Andrade, perguntou-me se, na época em que escrevera o “Auto da Compadecida”, eu já era devidamente esclarecido sobre o problema negro. Respondi-lhe que não. E ela retrucou que, mesmo assim, o aparecimento, no palco, do meu Cristo negro fora uma das grandes emoções de sua vida.

Agradecendo suas generosas palavras, contei como chegara a ele. Durante os dias em que escrevia a peça estava acontecendo, nos Estados Unidos, uma campanha destinada a impor legalmente a presença de crianças negras nas escolas brancas. Em revide, os brancos racistas organizavam manifestações contra a integração; e eu vi, na revista “Life”, a fotografia de um desses comícios: na frente do grupo de “brancos, anglo-saxões e protestantes”, uma mulher (aliás, e não por acaso, horrorosamente feia) exibia um cartaz no qual se lia: “Ao criar raças diferentes, Deus foi o primeiro segregacionista”.

Foi nesse momento que, movido por uma daquelas indignações a que me referi a princípio, resolvi apresentar como um negro a figura de “Manuel”, isto é, a imagem popular do Cristo que iria aparecer em minha peça. E concluo pedindo que se reflita um pouco para ver como são semelhantes, por um lado, a cabeça e o coração da mulher do cartaz e, por outro, a cabeça e o coração daqueles que afirmam que Deus é capitalista porque foi ele quem criou as desigualdades e injustiças do regime que tem no lucro e na produção a qualquer custo seu objetivo fundamental.”

(Clique aqui para ler o original da coluna.)

Os que dantes se foram estiveram só de passagem. Ariano Vilar Suassuna, mas popularmente conhecido como Ariano Suassuna, abre passagem para todas aquelas que admiram seu trabalho carregar consigo o conforto de ter tido uma pessoa do seu quilate entre nós, reles mortais.

 

P.S.: na caixa de comentários do texto que escrevi sobre João Ubaldo Ribeiro, um sujeito pediu para eu escrever um texto sobre Ariano Suassuna. Aqui está. Como disse o Capitão Nascimento, “missão dada é missão cumprida”.

 
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Publicado por em 24/07/2014 em Publicações

 
 
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