Sejamos cada vez mais sonoras, visuais e a(l)tivas

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Cresce a cada dia o movimento de mulheres, em especial o de mulheres negras, o que denota não só a força do empoderamento feminino frente a questões que nos atingem diretamente, bem como a conquista por espaços de poder antes nunca experimentado por muitas de nós.

Falo isso com a certeza que tenho ao discorrer por essas linhas do poder que uma mulher negra possui quando transmite sua fala adiante horizontes eivado de vícios que solapam nossa imagem e representatividade atuante.

Frente a essa questão, não desconsidero os ataques vis e deletérios que sofremos no mundo real e virtual. Isso apenas demonstra o quanto nossa atuação/presença tem sido incômoda e sinônimo de afronte aos que querem renegar-nos ao silenciamento de um espaço/lugar social subalternizado – estamos em processo de transformação, e isso leva tempo.

A fala, a escrita e especialmente a presença física da mulher negra em alguns espaços sociais causam a fúria de muitos a ponto de provocar a externação do ódio que uma sociedade alimenta todos os dias a conta-gotas. Em doses homeopáticas para que não tenhamos dimensão da agressão.

Isso tem sido quase que cotidiano nas mídias sociais. Diversos são os casos registrados de/por mulheres negras com significativa visibilidade social que são agredidas pública e mordazmente por indivíduos que nos consideram seres desprezíveis, e, portanto, merecedores dos ataques mais covardes.

Atentemos para o fato de que se trata de mulheres negras com significativa presença na mídia televisiva, o que por sua vez, não diminui o impacto das agressões.

Agora, invertamos essa lógica para o universo das mulheres negras que vivem no anonimato. Como é o reflexo dessa violência simbólica e diária no nosso cotidiano? Pois então, é esta a nossa rotina: desafiar e ser desafiada todos os dias nos lugares sociais aos quais somos relegadas, expor nossas necessidades como forma de combate à violência simbólica, física, sexual e tantas outras que sofremos. E, ainda assim, ocupar espaços novos para muitas de nós. Espaços que nossas gerações anteriores jamais puderam adentar.

Os espaços que conquistamos são fruto de muita luta que teve início com/em nossas predecessoras. Os bancos das universidades são um deles e todo dia aparece quem nos diga que não deveríamos estar lá, que a universidade não é nosso lugar e que descaradamente duvidem dos nossos desempenhos acadêmicos. Os altos cargos ratificam a epopeia que é enfrentar a misoginia estatal – sim, vivemos num Estado misógino que corrobora com as agressões das quais somos vítimas – e evidenciam a dureza de poder prosseguir para que possamos abrir espaços, a fim de que outras tantas mulheres negras cheguem ao alto escalão. É uma jornada árdua, mas necessária.

É nesse sentido que assinalo nossa necessidade de sermos cada vez mais sonoras, visuais e a(l)tivas. Reforcemos o empoderamento da mulher negra em todos os contratos sociais que firmarmos nas situações e locais mais inusitados que possam surgir. Esse é o único modo de sermos vistas.

É bem verdade que a escrita é uma ferramenta de poder que possui um uso para além do simbólico. O pleno domínio no mundo letrado ainda é uma realidade a que temos chegado aos poucos, e da qual devemos fazer uso ad eternum. E é por meio dele que devemos fazer-nos presente.

A sonoridade, a visibilidade e a altivez da nossa imagem devem e são representadas por escolhas que reafirmam nosso lugar social. Nosso lugar de fala é por demais importante no processo de reconstrução de imagem isento de estereótipos. E é por intermédio da fala que surgirão outros componentes tão importantes para o construto dessa representatividade positiva que tanto ensejamos/almejamos.

Por isso, usemos mídias sociais, veículos de comunicação oficiais ou não para referendar nossa atuação e presença.

É certo que toda batalha é severa e requer muitos esforços, a fim de que consigamos tomar assento em determinadas situações. Mas, reafirmo que é sim necessária, ainda que longevo possa ser o vislumbre do sucesso. O triunfo não será gozado por nós em vida, mas certamente abriremos espaços para que outras possam usufruir dos direitos e garantias sociais que buscamos. Assim foi feito por nossas mães, avós e bisavós – que não estão mais aqui para ver o fruto das batalham em que se envolveram. Elas abriram espaço para que ocupássemos os bancos das universidades, para que estivéssemos à frente dos cargos de chefia por elas não experimentados.

Para além da fala e da escrita, façamo-las representar visualmente com o reforço da nossa identidade étnica, do nosso credo/religiosidade e do sentido que está em reafirmar a pluralidade dos indivíduos.

Deixemos que a estética transite não só pela nossa beleza física, mas também pela nossa voz, pelo nosso letramento e nossa competência acadêmica. Chega de aparecer na televisão somente como passistas de escola de samba ou como negras gostosas a atiçar os instintos mais sacanas da macharada. Temos muito mais a falar do que nós mesmas podemos imaginar. Que toda e qualquer tentativa de silenciamento das nossas falas caiam em solo infértil, pois nossa capacidade de abstração caminhará a passos largos no universo letrado que ocupamos.

Avante, isso é só o começo.

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