Fernanda Torres, o machismo e sua irritação desamparada

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Hoje, ao acordar, quase como de costume, acessei a internet e a primeira notícia que vi foi sobre um texto que a atriz e escritora Fernanda Torres publicou no blog da Folha, site do qual ela é colunista, falando sobre sua irritação frente à vitimização do discurso feminista.

Fernanda Torres

Logo pensei: ora, não deve ser nada de tão aviltante o que ela publicou frente à figura que representa e o canal que veicula suas publicações; vindo de onde veio, só podemos esperar isso mesmo. Resolvi ler o texto para tirar minhas próprias conclusões. E em resposta a atriz, escritora e colunista da Folha, escrevo esse texto.

Cara Fernanda, concordo contigo quando diz que “a vitimização do feminismo te irrita mais do que o machismo”. Devo concordar também com o fato de você afirmar textualmente que, “Não me incomoda o machismo, confesso, talvez seja uma nostalgia de infância que carrego. A geração que me criou era formada por machões gloriosos, de Millôr a Miéle, irresistíveis até nos seus preconceitos”.

Pode parecer estranho, mas o machismo se faz nostálgico quando não atinge nem vitimiza em larga escala mulheres brancas, de classe média alta, muito bem nascidas, mas tão bem nascidas, que só precisou ter saído do ventre de Fernanda Montenegro para ter acesso às benesses que só você tem e usufrui. Mulheres como você nunca vão sofrer na vida o desamparo e a agressão que o machismo dispensa a quem não nasceu no mesmo berço esplêndido que você. Nunca há de passar na sua cabeça de escritora quantas das mulheres têm sido assassinadas e violentadas por seus companheiros, pais, irmãos, colegas de trabalho, vizinhos e tantos outros homens que lhes são próximos. Sim, porque a violência contra a mulher parte de quem lhe é mais próximo.

Não há de pairar sobre ti também a dor da violência verbal ao ouvir um fiu-fiu, que a sua babá Irene, a tal mulherão, ouvia quando saía contigo pelas ruas. Tampouco, sentirá a dor que só o estigma da violência sexual a trará, deixando marcas que jamais se apagarão sobre seu corpo, sobre sua alma e seu inconsciente; elas sempre estarão ali lembrando-a de que foi vítima de uma violência tão brutal por ser mulher, e muitas das suas dirão que foi por merecimento, e que no mínimo você deve ter provocado usando uma saia curta, uma blusa decotada, um vestido que denotasse a sinuosidade do seu corpo sutil.

Foi simultaneamente interessante e assustador perceber a veemência que a sua fala traz sobre sua simpatia com o machismo, a ponto de considerá-lo nostálgico. E partindo desse pressuposto, o machismo pode até ser nostálgico, mas quando ele não nos atinge, ou melhor, não só quando ele não nos atinge, mas quando não nos compadecemos com a outra. Quando afirmamos publicamente que o machismo irrita muito menos que os discursos sobre a “vitimização feminista”. E isso só denota o egoísmo que lhe envolve como ser humano incapaz de se compadecer com a violência que o machismo provoca em grandes e estratosféricas escalas. Afinal de contas, boa parte dos homicídios no Brasil são oriundos do machismo. O mesmo que lhe parece simpático.

A tal “vitimização feminista” que tanto fere os seus brios tem sido um grito de socorro das muitas mulheres, que ao contrário de você, tiveram a chance de nascer Fernanda Torres, ser uma mulher que ostenta o patrimônio da cor – a branquitude num país racista como o Brasil lhe é de todo conveniente – uma mulher que nunca precisou deixar os filhos em casa para cuidar dos filhos de outras mulheres, assim como a sua babá Irene provavelmente fez com os delas enquanto cuidava para que você tomasse banho, fosse bem alimentada e fizesse as lições de casa.

Fernanda, assim como você, sei que existe zilhões de mulheres que pensam do mesmo jeito e sob a mesma lógica de que o mundo é esse cercado em que você vive, cheio de seguranças e babás, em que nem o porteiro do prédio onde mora levanta a cabeça para cumprimentá-la em sinal de obediência/subserviência porque simplesmente você é branca e bem nascida, ou como dizem por aí, você é a madame.

Então, peço-te encarecidamente, da próxima vez que publicar um texto com esse caráter, jogue suas cartas fora. Sim, suas cartas. As cartas de alforria das serviçais que te servem e sofrem desse machismo simpático e nostálgico. Libertem-nas do desagrado de conviver com um ser insensato e sem nenhum espírito de humanidade para com a outra. A Irene vai te agradecer por isso.

 

 

 

 

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