Considerações sobre o afrogenocídio em curso no Brasil

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Há pouco mais de um ano no bairro do Cabula, em Salvador, aconteceu uma chacina que exterminou doze jovens na localidade de Vila Moisés. Um ato arbitrário, covarde e cruel perpetrado pela PM baiana e abertamente aplaudido pelo governador do Estado, senhor Rui Costa, quando afirmou publicamente que a ação dos policiais assemelhava-se ao de jogadores de futebol: “é como um artilheiro em frente ao gol, tem que decidir em alguns segundos como é que ele tenta botar a bola para dentro do gol”, (…) “depois que a jogada termina, se foi um golaço, todos os torcedores da arquibancada irão bater palmas e a cena vai ser repetida várias vezes na televisão. Se o gol for perdido, o artilheiro vai ser condenado, porque se tivesse chutado daquele jeito ou jogado daquele outro, a bola teria entrado”. Diante de tal declaração, não há argumentos que contradigam o posicionamento do Estado frente à truculência/violência cometida por policiais no estado da Bahia, e não só aqui.

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De todo modo, nos assombra pensar que se um chefe de Estado se posiciona desta maneira, não temos a quem recorrer frente à situação de calamidade em que nos encontramos. É lamentável dizer, mas situações como estas são recorrentes na cidade de Salvador, bem como em todo o país. Os casos de assassinatos de jovens pretos nas periferias das grandes cidades saltam a olhos nus frente às estatísticas e os altos índices de violência na sociedade.

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0Parte-se do princípio de que “todo pobre e preto é vagabundo” e que “bandido bom é bandido morto”, o que confirma o modus operandi das polícias brasileiras em todo o território nacional.

O mais aviltante é ver que a força que o Estado exerce suprime qualquer reação contrária à sua arbitrariedade. Pois no acontecido de Vila Moisés, a grande mídia teve acesso às notícias, o caso foi exibido e noticiado nacional e internacionalmente, movimentos sociais fizeram frente ao acontecido, comissões de justiça organizaram moções de repúdio à violência do braço-armado estatal e de apoio às famílias vitimadas. E, um ano depois do acontecido, por uma infeliz coincidência, era carnaval, e, como presente à população, o governador do estado, presenteou-a com uma festa momesca “democrática” – um carnaval sem cordas para os foliões pipocas –, um investimento de mais de R$ 60 milhões, como um cala-boca para a população que há um ano fora violentada pela força policial.

(Isso não significa que a população de Salvador esqueceu-se do primeiro aniversário da chacina. Houve quem fosse ao Curuzu no dia da saída do bloco Ilê Aiyê para constranger o governador sobre o ocorrido há um ano.)

O que é isso, senão a política do pão e circo para todos? Ou melhor do circo, pois o pão e o circo eram dados pelos imperadores romanos, os governantes atuais só dão o circo. Quer comer pão? Vá comprar!? A conjuntura social em que vivemos só vem a ratificar o estado de calamidade pública a que estamos submetidos. Truculência, arbitrariedade, agressões, política de extermínio, esses e outros compõem a prerrogativa máxima do braço armado do Estado, que é a polícia.

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Não obstante disso, contamos ainda com a virulência social em que tudo isso se transforma em estado de repressão.

Casos como o de Vila Moisés não estão estanques ao que acontece cotidianamente. O assassinato do menino Joel, no bairro do Nordeste de Amaralina, ocorrido no ano de 2010 é mais uma prova cabal de quanto a força policial é grotesca e assassina. Apesar de ser noticiado, e o caso ter servido de inspiração para um documentário, as autoridades negaram-se a reconhecer a ação desastrosa dos policiais envolvidos e, em represália ao acontecido, impediram que o documentário sobre a vida do garoto fosse exibido aos moradores no bairro onde ele morava.

Esses e outros casos ilustram o cenário de guerra em que se encontra o estado da Bahia, mas não só ele, o Estado nacional, que consente que forças policiais ajam com truculência e arbitrariedade contra a população sob a justificativa de prender bandidos e promover a paz.

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E para além desses casos de violência policial, não há como não interseccionar o quesito raça em ambos os casos, e isso se faz notório inclusive nas notas de jornais quando se faz referências a “jovens” quando se trata de pessoas de classe média/classe média alta e brancas, e quanto falam de “menores” quando se referem aos adolescentes pobres, por redundância negros, oriundos das zonas de pobreza.

A relação raça/cor mais que se imbricam na ação policial. O Mapa da Violência 2012 nos mostra claramente qual a cor do homicídio no Brasil.

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Com base nesses dados, e nas ações que são perpetuadas no nosso cotidiano, não nos resta dúvida de qual alvo a polícia escolhe como “bandido”.

O propósito fiel de exterminar negros no Brasil está se firmando há séculos. Pois, esta era umas das premissas do nosso projeto de nação pós-abolição da escravatura, e quando da importação de europeus como mão de obra barata para compor o quantitativo de gente para o trabalho livre em algumas regiões do país. A tendência era povoar o país com europeus, exterminar negros e ao longo dos anos extinguir a mancha deixada pelo escravismo no Brasil. Projeto este que foi fadado ao fracasso, pois a escravidão sozinha não cuidou de eliminar toda a raça negra do país, tão logo as investidas para seu extermínio se ergueram por meio de ações estatais que impermeabilizaram a inserção social do grupo, mantendo-os à margem das garantias e direitos sociais.

Isso está refletido nas ações que o Estado perpetuou como garantia de solapar os direitos necessários à população negra, e a força policial é uma das garantias de extermínio da população negra no país.

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O que Nina Rodrigues, ancorado pelos estudos de Cesare Lombroso, fez no século XIX, se ratifica no plano de governo de Rui Costa e seu secretário de segurança pública. Guardadas as devidas proporções, o cenário se ressignifica, pois o racismo com o passar do tempo se sofistica.

 

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O projeto político que Nina Rodrigues e demais construíram há dois séculos, se firma com doses de chumbo nos dias atuais. A perpetuação do racismo vilipendia a população negra e a abate como porcos. A violência policial é um sinal grotesco dessa política de estado que reafirma seu compromisso vil fundado nas bases do extermínio sob a égide de promover a paz. Pois, crê-se na máxima de que “bandido bom é bandido morto”. Mas qual é a cor desse bandido?

No Brasil esse bandido tem raça, cor e endereço. O preto, pobre, da periferia nunca deixará de ser a bola da vez do grande lance futebolístico, em que nós estaremos com espectadores e impossibilitados de promover ações enérgicas contra quem que escolhe pelo tom de pele seu alvo.

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