Da Mulata Assanhada à Faixa Amarela: o racismo, o sexismo, a cultura de violência e as molas propulsoras da Música Popular Brasileira

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Semana passada, estava assistindo a um programa de TV exibido no canal fechado Bis sobre uma turnê do DJ holandês Tiësto em Kuala Lumpur, na Malásia. Em seguida, começou um outro programa musical de samba cuja cena inicial foi um clip em que o cantor e compositor Dudu Nobre cantava a música Mulata Assanhada, composição de Ataulfo Alves, na qual um dos trechos diz o seguinte: “Ai, meu Deus, que bom seria/Se voltasse a escravidão/Eu comprava essa mulata/E prendia no meu coração.”

Distraída que estava, fiquei estupefata ao ouvir a composição e, ato contínuo, me dediquei a buscar sua letra e ver em versos o que sua composição trazia.

A música foi interpretada por grandes ícones da MPB, Elza Soares & Thiaguinho, Elis Regina, e por assim sê-la está passiva de ser questionada. Só que não.

Ciente da “licença poética” concedida aos compositores para rabiscarem em verso e prosa as maiores atrocidades em ritmo musical, sei que confrontar o que se entende como MPB é quase um desacerto, senão um desacato, ou quem sabe até um crime de lesa-pátria. Mas, devo confessar que, diante de tamanha atrocidade expressa na letra desta música, não me permiti ser passiva, como assim o fiz diante de tantas outras que cantarolaram por aí.

É notório que a escravidão no Brasil durou oficialmente 388 anos – e estamos no processo moroso de reparo social há apenas 127 anos; a PEC das Domésticas , o sistema de cotas  e os ataques ao Programa Bolsa Família  estão aí para mostrar o quão tenso e conflituoso é tentar mexer – ainda que timidamente – no nosso passado escravista a fim de reparar os nossos crimes históricos. Ou seja, ainda estamos bem longe de promover cidadania e garantia de direitos equânimes aos oriundos do regime escravista. Tão logo, musicar um evento desastroso para a nossa sociedade atrelando a isto relação de amor é de uma conotação agressiva, que trata de violar os direitos mínimos necessários adquiridos por aqueles que foram vitimados pelo regime. É então, tratar com descaso o ocorrido e invalidar a luta social estabelecida em prol da sua extinção.

Lembrei-me da cena de abertura do primeiro capítulo da minissérie Suburbia, em que Érika Januza estreou na carreira de atriz interpretando uma trabalhadora doméstica que foi estuprada pelo patrão ao som de uma música de Roberto Carlos. A Rede Globo, como sempre, prestou mais um enorme desserviço à sociedade brasileira ao nos fazer acreditar que estupro e sexo são a mesma coisa. Gilberto Freyre pouco é bobagem.

Falar da escravidão com o descompromisso e sem se ater à tragédia que proporcionou é de uma leviandade sem precedentes, pois tende a invalidar conquistas promovidas por políticas de reparação que há muito tentam se firmar.

E há um propósito fiel nas composições que retratam situações do cotidiano, e até mesmo eventos fatídicos e de tragédia com tamanho desdém que se isentam de qualquer responsabilidade. Pois, trata de garantir que o fosso e as assimetrias de classe/cor se esvaiam a ponto de criar pontes nas conjunturas sociais que se valem da violência a fim de corroborar com o desnível social que nos achaca.

Mas não só da escravidão se atém os compositores. A cultura da violência ultrapassa as fronteiras do permissivo e invade o cotidiano das pessoas a fim de pormenorizar sua prática. Ao que temos então a música Faixa Amarela, de composição de Zeca Pagodinho, que traz o seguinte: “Mas se ela vacilar/ dou um castigo nela/ dou-lhe uma banda de frente/ Quebro quatro dentes e cinco costelas/Vou pegar a tal faixa amarela/Gravada com o nome dela/E mandar incendiar/Na entrada da favela.”

A composição incute no imaginário popular que a violência contra a mulher não só é comum, mas necessária, pois torna digno de ser quem o pratica. Mais uma vez cantada em verso e prosa, se traveste de amor um ato de violência que se justifica numa sociedade em que esta prepondera.

Ou seja, tratamos aqui de abordagens que partem do nosso passado histórico e recaem sobre o senso comum.

A explorar um pouco mais desse vasto universo musical, vos trago outra composição muito conhecida e interpretada por um das maiores figuras da música brasileira, Elis Regina: “Nega do cabelo duro/Qual é o pente que te penteia/Qual é o pente que te penteia/Qual é o pente que te penteia, ô nega”.

Semelhante a essa há também, “Nega do cabelo duro/Que não gosta de pentear/Quando passa na Baixa do Tubo/O negão começa a gritar”, interpretada por Luiz Caldas, grande músico baiano – segundo dizem -, considerado o “pai da Axé Music”.

Perante os padrões de beleza que se configuram, tratar a diversidade com deboche e desprezo é firmar o contrato social que garante que o bom e o belo é ser branco e ter cabelo liso, adiante isso foge-se à regra.

Questionar o inquestionável é ferir os brios de um grupo privilegiado que por ter assegurado o direito que os acomoda num conforto social ditado pelas assimetrias de classe, cor e gênero.

A música é mais um veículo a transmitir essas assimetrias, e através dela se estabelecem padrões de beleza, regras sociais, estilos de vida em comunidade, e tantos outros fatores que acomete quem está em desvantagem frente ao privilégio de não ser fruto de um sistema de classe que não preza pelo respeito e diversidade entre os povos.

A variedade musical da nossa sociedade nos mostra o quanto ainda estamos confortavelmente ancorados nesse sistema, que ainda preza pela cultura de violência, pela negação social, e, sobretudo em tratar como insólito e inválido o outro.

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Uma resposta »

  1. É evidente que o processo histórico que construiu o racismo , passou fundamentalmente pela música, e passa até os dias de hoje. Infelizmente, nossos escritores e compositores não tem senso critico suficiente para perceber a reafirmação do racismo em suas letras musicais. Eu já conhecia essa naba de música, Martinho da vila também tem muito disso em muitas de suas letras.

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