“O dia em que a Terra parou”

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Reuniões desmarcadas, contratos de trabalho cancelados, negócios desfeitos, relacionamentos amorosos em crise, amizades estremecidas, compromissos casuais por hora também suspensos. Um simples “bom dia” deixou de ser dado porque o WhatsApp está desativado por 48h no Brasil, em virtude de uma decisão judicial.

Hoje, acordei e, ao ligar meu celular, fui bombardeada com mensagens sugerindo a instalação de outros apps na tentativa de “manter a comunicação”, visto que o “zap” parou. Não sabia se ria ou se tentava discursar filosoficamente sobre a dependência quase química das pessoas a um equipamento tecnológico, e tão recente nas nossas vidas quanto é o celular e todas essas novidades que pululam nas prateleiras das lojas e nos anúncios publicitários todos os dias, enfim.

A “aplicativização” (um caso grosseiro de neologismo) da vida é algo que tem mudado a vida das pessoas. E quando digo “mudado”, estendo a discussão que parte do melhor para o pior sentido que isso possa ter. Quase ninguém mais se dá ao trabalho de procurar nada com paciência. Há aplicativo para tudo: para rastrear correspondências nos correios, para movimentar a conta bancária, para pagar a fatura do cartão de crédito, para medir a frequência cardiorrespiratória durante a corrida noturna, para ver os filmes em cartaz e comprar ingressos de cinema, para jogar xadrez, para identificar chamadas telefônicas feitas a partir de números não gravados na agenda do celular, para ler livros em formato ebook ou epub, para pegar receitas culinárias, para chamar um táxi, para saber quais ruas e avenidas estão congestionadas e quais estão livres. Somados a todos estes (e muitos outros que eu nem sei que existe e para que servem), há aplicativos para quem está na pista à procura de sexo casual e descompromissado e para “fazer amizades” – seja lá o que isso signifique. Aquela história de cuidar do corpo, tomar um banho de uma hora, vestir a lingerie da sacanagem e uma roupa provocantíssima por cima, colocar aquele perfume, dar um trato no cabelo, por uma maquiagem específica de “tô na pista pra negócio” e sair para caçar não existe mais.

A coisa é tamanha que nós não sabemos mais viver sem recorrer a esses benditos aplicativos. Quando um deles (ou todos eles) ficam desativados sabe-se lá por que razão, nós só faltamos rasgar as nossas vestes de desespero. E agora? O que será de mim? Como é que eu vou viver? O que eu vou fazer? E se aquela pessoa que sempre visualiza as minhas mensagens e nunca respondeu a nenhuma delas resolver fazer isso hoje? É o horror, o horror, o fim dos tempos, O APOCALIPSE! Seremos jogadas na fornalha seca, onde haverá fogo e ranger de dentes…

Eu diria até que seria um caso de endogênese digital. Sim, porque a endogênese corresponde à qualidade do que se forma no interior de algo. Ou seja, a endogênese digital prepondera que a qualidade de nossas vidas e por consequência nossas relações estão imersas em sua era digital e nada mais. Funciona como um processo celular – no sentido biológico da palavra – e não digital, do qual trata esse texto, mas a simbiose dos sentidos semânticos ratifica o que quero dizer em ambos os casos. A analogia tem validade. Mas como eu ia dizendo anteriormente, o uso de aplicativos hoje tem tornado a nossa vida um sucesso quando nos confere a capacidade de resolver quase tudo de que precisamos através de um único equipamento, o celular. Ou um fracasso quando nos denota a incrível capacidade que fomos perdendo ao longo do tempo de nos comunicar de modo mais objetivo com as pessoas, em que se constata o efeito sinestésico da vida; dar um oi pessoalmente, cumprimentar com um abraço, sair de casa para ir à pizzaria e voltar para comer a pizza em casa, discar no telefone o número de um táxi no momento de emergência, seja ela boa ou ruim. São ganhos e perdas ao qual estamos condenadas quando ingressamos nessa nova era digital. É o mundo líquido do qual nos fala Zygmunt Bauman.

E não que eu seja saudosista, piegas, ou até mesmo antiquada, mas confesso que sou da época – expressão que denota discretamente que minha geração já está pra lá de ultrapassada – que amigas se comunicavam por cartas. Sim, cartas, e todas manuscritas, é claro. O ato de escrever manuscritamente está quase caindo em desuso, pois, quando me arrisco, tenho a impressão de que vou desenvolver, no mínimo, uma tendinite (lembrei as minhas aulas de biologia sobre a lei do uso e do desuso de Lamarck, que disse que o uso constante causa hipertrofia e o desuso, atrofia). Mas ainda preservo as cartas, todas bem guardadas como símbolo de um tempo que sei, e lamento, não voltará mais. Aquele tempo em que, como disse Karnal, lambíamos muitos selos. Enfim.

 

Essa plasticidade que o mundo tem adquirido de lidar com quase tudo nos torna cada vez mais dependente e menos autônomos de nós mesmos. Esvai-se a capacidade mínima que possuímos de administrar coisas e pessoas num simples toque. A vida digital é assim. Tudo apenas num toque.

Mas não o toque singelo de dois indivíduos. É o toque que reconhece nossas impressões digitais e nos concede o acesso a um mundo inteiramente feito e comandado por códigos binários que se alternam na composição dos signos digitais. O biopoder foucaultiano.

O binarismo na era digital é o logos que rege toda sua dinâmica sensorial. O que na vida moderna é de uso único e exclusivo dos equipamentos. Ou seja, estamos fadados ao fracasso de sermos binários. O que em poucas palavras define-se em ser bom ou ruim, feio ou belo, doce ou amargo. A extensão da vida nos permite sermos muitos mais que isso. A vida nos deixa extenuantes de sensações e sentidos que extrapolam o limite do maniqueísmo. Não, não somos. Ainda que o mundo queira estabelecer esse muro simbólico, a fim de desafiar ou conformar os significados do caráter do ser humano, não somos interligados por efeito binário. E que bom.

Mas para além do binarismo tecnológico, o que aqui se faz redundante, mas necessária à compreensão por parte de quem os está lendo, desmoronamos numa cascata digital que determina desde o tipo de pessoa com a qual devemos nos envolver afetivamente, até ao que podemos antropofagicamente consumir: comida, bebida, leitura, estilo de roupa, tudo que se adeque para o nosso bem-estar social. Tão logo, isso envolve o ethos. A formação da nossa moral e caráter agora totalmente dependentes da era digital.

Percebamos o quão isso nos torna frágil diante um mundo que nos controla, nos vigia e nos cerceia tal qual um tribunal. Um mundo que ao lhe conferir acesso a essa rede de conexão mundial estabelece qual estilo de vida devemos adotar. Num modo bem otimista de pensar, estamos todas, infinitamente todas, sendo monitoradas e controladas pelo Big Brother tal qual foi concebido por George Orwell no livro 1984. Foi o que esse mundo se tornou, fonte de informações, notícias e dados que nos vincula a um único lugar, o WhatsApp. E aqui nos vemos presos a essa teia que nos limita a cada instante de ser quem somos, seres humanos.

E voltando ao título do texto, O dia em que a Terra parou, foi um sábio presságio feito por Raul Seixas, o eterno Maluco Beleza, a tudo que estamos passando hoje.

 

P.S. Abaixo segue um vídeo que é um comercial de um banco. Abrindo a ressalva de que não estou aqui fazendo propaganda gratuita, muito menos tentando alavancar seu índice de visualizações, e por consequência, ajudar a promover a imagem de um dos bancos que mais injetou dinheiro no período da ditadura civil-militar no Brasil (leiam o livro 1964: a conquista do Estado, escrito por René Dreifuss para entender o que eu estou falando). O que julguei interessante foi a mensagem transmitida no comercial, e que aqui se faz perfeitamente cabível ao que discorri no texto.

 

 

 

 

 

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