De repente, 30

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Semana passada, completei 33 anos, a idade de Cristo, mas penso que seja a idade de Cristo crucificado, morto e amordaçado. Logo explico.

Quando completei 30 anos, todo um conjunto de fatores se aglomerou e parece que o peso do mundo recaiu sobre mim. Sabe aquele lance de sentir o peso dos 30? Foi bem isso que senti, ou melhor, ainda sinto. É simples: constatei que passava mais tempo fora de casa, trabalhava em excesso, tantos finais de semana perdidos estudando. São tantas atribuições, que temos de correr mais do que a velocidade da luz pra dar conta. Acho que nem na época de colegial eu estudava tanto.

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E o saldo de tudo isso foi distanciamento dos amigos queridos e reuniões familiares, noites mal dormidas, horas do dia passadas sem uma refeição digna, esgotamento físico, cansaço e stress.

O engraçado é que tenho uma lembrança saudosa da minha infância. Sabe aquele poema que diz: “Ai, que saudade que tenho/Da aurora da minha vida/Da minha infância querida/Que os anos não trazem mais”? Pois bem, remete a uma infância doce e despreocupada. Era um tempo áureo, sem preocupações, sem tensões e responsabilidades. Minha única demanda era ir à escola e fazer os deveres. De resto, era brincar de bate-lata, elástico, boneca (tive várias), casinha (a ênfase às prendas domésticas ainda na infância), sete pedrinhas, pique-esconde, salada de fruta, vôlei, futebol (sim, eu joguei futebol no campinho até os quinze anos de idade). Como toda criança saudável, eu tinha disposição de sobra para correr o dia todo e não me sentir cansada. Eu até gostava de praticar esportes. Fiz vôlei, basquete e judô até os dezesseis anos.

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Um traço que faz parte da infância de qualquer pessoa era o de comer besteira sem limite: doces, guloseimas, frituras, salgados. Eu até trocava um prato de arroz e feijão em casa por um pastel frito pingando óleo na porta da escola.

E o bom disso tudo é que, naquela época, eu não sentia absolutamente nada, a não ser cãibra ou “dor de facão” quando corria demais.

Pois é, esse tempo já se foi faz tempo. Cresci – e que bom por isso. Afinal de contas, a gente aprende na escola que todo ser vivo nasce, cresce, se reproduz e morre. Fora essa parte de se reproduzir, o resto tá seguindo a sequência.

Mas é de outra coisa que pretendo falar. Não vim aqui discorrer sobre a “aurora da minha vida” pura e simplesmente. Mas, sim, evidenciar as mudanças que ocorrem nas nossas vidas depois que completamos 30 anos.

São várias as mudanças, já que somos teoricamente pessoas adultas e responsáveis. Enfim. Quando completei 30 anos, já não tinha mais a mesma disposição de outrora, o que parece óbvio, tendo em vista que os anos se passaram.

Mas o que quero dizer é o seguinte: ao me deparar com o espelho enxerguei uma balzaquiana cheia de coisas. Coisas que até os 29 anos – a fase dos “vinte e poucos anos” – não eram tão evidentes.

Aquela farra toda da infância não era mais permitida, já que tão cedo constatei que estava com alguns probleminhas de saúde que juntos formaram um conglomerado a ponto de eu me sentir um Zé Meningite, parafraseando o samba da Banda Revelação. Eu tinha de tudo um pouco. Fui diagnosticada com gastrite, h-pylore, refluxo (“o pulso ainda pulsa…”). Daí, já não podia mais me esbaldar na comilança como antes. Guloseimas, nem pensar! Pois além disso tudo, com o peso da idade poderia acarrear colesterol alto, triglicérides alterado e o escambau.  Me submeti a uma cirurgia, em 2011, para retirada de um tumor que até então não havia se manifestado nem apresentado sintomas. Foi um choque na minha vida. Eu estava no auge da faculdade, fazendo várias formações, trabalhando à beça e me recusei a dar um repouso ao corpo cansado. Quando menos esperei, descobri que estava com lombalgia que anunciava uma hérnia de disco. Tive de fazer uma atividade para amenizar as dores, e me debrucei no pilates já que estava tão sedentária e a disposição deixada na infância havia esmorecido – hoje, eu não gosto de praticar esporte. Desenvolvi alergias para além das que já tinha. Eu, hoje, tenho alergia a sabonete e hidratante comuns. Isso mesmo, parece loucura. Eu também achei quando fui informada. Mas não podia mais tomar banho com sabonete comum nem usar um hidratante desses perfumados que tem por aí, pois ao longo dos anos minha pele estava ficando esgarçada de tanto ressecamento. Agora, é cuidado extremo com sabonete de “nhenhém” e creme hipoalergênico. Isso sem contar que há alguns longos anos eu tenho de fazer uso diário de protetor labial (não só para ir à praia. É no sol, na chuva e no casamento da viúva) e repelente. Isso é sério! Repelente é uma coisa que as pessoas só usam quando vão fazer trilha, vão passar férias no campo ou na praia. Pra mim, é uso diário. Tenho uma alergia a inseto horrível, que nem eu mesmo suporto. Já tive crises a ponto de tomar injeções de benzetacil. Tem um bichinho tão pequenino e tão vil chamado maruim que, apesar de ser tão pequeno, menor que piolho, provoca um estrago enorme nas minhas pernas.

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Ahhh, ainda tem a bendita rinite alérgica. Essa não me larga. Acho que eu e metade da população do planeta sofremos desse troço.

Pense que ainda jovem eu não podia ficar perto de tapetes, urso de pelúcia, desodorizadores de ambiente – esse último, tenho verdadeiro pavor por conta de uma irritação que tive em casa quando minha irmã resolveu deixar a casa perfumada. Outra vez, lembro-me de uma situação na escola que eu e um grupo de colegas faríamos uma encenação d’Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, e uma colega da turma conseguiu o figurino, aquelas roupas de época. Pois bem, as roupas estavam fétidas de tanto mofo, que tive uma crise alérgica na escola mesmo.

A situação é, de fato, periclitante.

Outro dia, resolvi visitar a sogra e fui arrumar a mochila para passar apenas uma noite. Quando dei por conta, na nécessaire, ao invés de colônia, desodorante, escova de dente, havia protetor labial, repelente, hidratante hipoalergênico, spray nasal e comprimidos para rinite. Um inferno de Dante. Era só uma noite, mas parecia que eu ia fazer trilha no Vale do Capão – que Deus me livre dessa hora, pois sou sedentária e suficientemente alérgica para querer passar longe daquele lugar.

É isso que acontece depois dos trinta. Sabe aquela sensação de quando estica o braço e algo estala? Não é crocância por gostosura. Na juventude, isso é só um mau jeito. Depois dos 30, minha amiga, corre e vai ao ortopedista porque pode ser uma bursite, um bico de papagaio ou coisa do tipo. Aquela queimação depois de comer de montão? Quando jovem, é só uma azia, que nós curamos com um antiácido ou chá de boldo. Na minha idade, virou refluxo. Aquele mau jeito na coluna após uma noite mal dormida se transforma numa lombalgia miserável, que dá numa hérnia de disco.

Pensam que exagero? É tudo isso e mais um pouco que só senti depois dos 30.

Além do mais, antes dos 30, tudo é permitido. A irresponsabilidade de ser jovem é permissiva até os 29. Nos 30, seu pai te põe pra fora de casa se não tem um emprego, as responsabilidades que antes não existiam agora pululam no colo. Se você tem um bom emprego, que ótimo. Se não, é um delinquente. Se tem casa, carro e estabilidade, que maravilha, é o filho querido. Do contrário, é um parasita desolado. Se já entrou e saiu da faculdade e quer fazer carreira profissional, é sensato. Se não, não quer nada com a “hora do Brasil”. Aos 18, a gente faz teste vocacional para saber qual rumo profissional seguir. Aos 30, acabou-se, é crise existencial minha “cumadi”. Tu achas que alguém vai oportunar um teste vocacional pr’um marmanjo de 30? Que nada, vai dizer que tá é com crise, ou no mínimo, “discaração”, treta para não trabalhar. Daí, começam as sessões, pois pra suportar tanta responsabilidade e cobrança só fazendo terapia.

Falo sério, sei que isso parece mais uma paródia desolada, mas é a mais pura verdade. Ainda dizem que nossa expectativa de vida está aumentando ao longo do tempo. Não sei pra quem! Já que, pra mim, aos 30 tá tudo de bom tamanho.

No meu caso então, mulher com mais de trinta, a idade de ter filhos já passou. A sociedade só falta me colocar um selo de infértil por ainda não ter tido filhos. E como a prioridade de boa parte das mulheres, e também a minha, tem sido ter um emprego, sucesso e estabilidade profissional, a maternidade vai ficando cada vez mais longínqua, quase inexistente. Pois, a médio prazo, penso que daqui há uns, quem sabe, oito anos, eu pense em ter filhos. Fazendo o cálculo, estarei com 41 anos – uma mulher de quarenta. Agora, pense: tamanha insanidade minha cogitar que posso ser mãe nessa idade já não tendo disposição agora. Subir cada lance de escada hoje é quase meia maratona, imagine daqui há algum tempo! E com filhos correndo pela sala? Loucura, loucura, loucura. Melhor esquecer.

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É isso que essa vida louca nos faz. Acaba com nosso bom humor, bom senso e tudo mais que a gente pode ter de bom. Ao longo dos anos, a constatação de que estamos mais vulneráveis e suscetíveis se faz cada vez mais iminente e assustadora. Eu, que já não tenho mais a singeleza da tenra idade, me dedico a tentar preservar com cautela o espectro de uma vida que nos aponta como saudável.

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  1. Paula, passou rapidinho, continuas com a carinha de adolescente, continuo sem contatos seus e sentindo saudades dos nossos encontros rápidos mais cheio de glamor, das mensagens que fazia -me rir e sempre com retorno.Te gosto muito amiga, me de notícias

  2. Paula minha querida,

    agradeço pelo texto! Muito interessante e me deixou bastante reflexiva. Durante a leitura fiz uma retrospectiva da minha vida bem rapidamente e percebi que agir de forma correta quando, em um dado momento, precisei fazer determinadas escolhas para balancear a minha atenção as pessoas que muito importam em minha vida e ao mesmo tempo cumprir com outras necessidades e vontades pessoais. Ainda falta muito para dar conta de tudo, mas aos poucos estou conseguindo. Ainda não cheguei nos 30, mas estou bem pertinho.

    Você me estimulou mais e mais a continuar meu trajeto equilibrando aquilo que me é indispensável, como a busca pela formação profissional, mas, sobretudo, o que é imprescindível: viver a cada dia com intensidade priorizando está sempre ao lado de pessoas que amamos. No meu caso, além das outras que já existiam em minha vida (esposo, pais, irmãos, amigxs, enfim), chega mais uma que está prestes a radiar neste mundo que é o meu bebê e que amo a cada segundo.

    Então, mais uma vez, agradecida por tudo e pelo privilégio de tê-la em meu círculo de amigxs!!!! Suas palavras sempre contribuem!!!

  3. Bom dia Paula,parece que as história de vida se parece e muito, no meu caso tenho 55 e luto no dia a dia pela minha sobrevivência,a cada fase que me resta, vivo o máximo que posso e dai diminuo o peso,estudo tenho muito pouco e no lugar desse tenho o trabalho doméstico em boa parte da minha vida, dessa forma tento cobrar o que esta sociedade perversa me deve e ela ta me pagando, aos pouco, é claro, não como eu queria mais pelo menos não perco de tudo.Saiba que é muito bom lê o que vc escreve e me ajuda muito nesse processo resgatar e aproveitar o que ficou perdido na minha vida, na minha história,no “quem sou eu”Agradeço por isto e continuarei cobrando ao mundo por isto.Raimunda Oliveira 

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