A autonomia da mulher que se toca

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Depois de um longo jejum literário, volto a escrever. Confesso que também estava sentindo falta dos meus escritos, mas os acontecimentos cotidianos me acometeram à suspensão da escrita por um tempo que nem eu sabia se era ou não indeterminado. Mas, estou aqui de volta e cheia de ideias prontas para serem transcritas.

E venho para falar sobre a autonomia da mulher que se toca. Poderia falar sobre diversas coisas, mas é que no último fim de semana andei pensando muito sobre essa questão: o medo intimidador que os homens têm da mulher autônoma. Mas não é tão-somente a mulher autônoma profissionalmente. Porque a mulher que é autônoma profissionalmente tende a estender essa autonomia para outros campos da vida além deste. E é aí que as coisas ficam mais “assustadoras”.

Vemos recorrentemente o achincalhamento social que as mulheres que defendem sua liberdade sexual sofrem. Numa sociedade machista, sexista, misógina e lesbofóbica como a nossa, ainda que anormal, isso é muito comum, o que não consente que naturalizemos os fatos.

Pois bem, foi pensando nesse medo intimidador que os homens ainda têm da mulher autônoma que resolvi discorrer vagas linhas na tentativa de entender um pouco do que se sucede.

A mulher que se toca é dona de si em todos os campos e aspectos possíveis em que essa discussão possa se estender. Pois, a mulher que se toca conhece seu corpo, suas sensações, seus desejos mais íntimos, suas vontades imediatas e as longevas, e, assim, ela coordena todo o jogo de movimento que possa envolver seu corpo numa relação afetivo-sexual. Porque a mulher que conhece seu próprio corpo não aceita nem admite ser puro objeto de foda do outro. Essa mulher quer o prazer no ponto mais extremo que se possa alcançar; ela busca o ápice do gozo no mais simples toque; e, para isso, exige que o homem seja competente na hora H e não priorize somente a sua satisfação pessoal.

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E essa mesma mulher, por ter autonomia sobre seu corpo, ao afirmar quem ela quer para si, e como ela quer ser tocada, é a mesma quem diz agora como serão dados os outros encaminhamentos na sua vida.

O ponto crucial da repressão feminina se encontra principalmente no campo sexual – é por isso que quase todos os xingamentos dirigidos às mulheres atacam a sua sexualidade, ainda que a sexualidade nada tenha a ver com a conduta reprovável desta ou daquela mulher: “puta”, “vagabunda”, “piranha”, “biscate”, “vadia”, “descarada”, “rodada”… Por isso, a distinção entre “putas” e “santas”. A mulher que é feita “pra casar” – a que deve conservar-se pura, e assim resguardar-se para o marido – se distingue completamente da “pra se divertir” – aquela que é feita para o usufruto do macho alfa no afã do seu impulso animalesco de afirmação da sua masculinidade como padrão heteronormativo.

Desfeita essa repressão no imaginário de uma mulher, ela passa a ser considerada um perigo social. Pois, se ela diz com quem e de que modo quer se envolver afetiva e sexualmente, ela passa a afirmar que não precisa da interferência masculina no seu espaço doméstico. Ou seja, não precisa de um homem para chamar de seu. Essa mulher pode seguir sozinha sem construir um enlace afetivo para dar conta da responsabilidade social que é ter um marido, namorado, companheiro ou qualquer outra coisa de igual significado. Sendo assim, esta mesma mulher não quererá mais depender de um homem financeiramente. Já que ela se toca, conhece o próprio corpo, escolhe como fazer sexo e obter prazer, ela escolhe que tipo de homem terá pra si, e, no desenrolar, sua autonomia sexual agora se estende para outros campos de sua vida para além do sexo. E é justamente aí que mora o perigo, segundo dizem.

2.2

Uma mulher que não precisa de um homem para trocar a lâmpada de casa não necessariamente é a mesma que se toca, mas o inverso é procedente. Tudo isso porque o universo social em que estamos inseridas ainda é eivado de razões e concretudes que esbanjam repressão social contra a mulher.

A mulher que se toca, porém, é a mesma que dispensa um homem na compra do supermercado, é a mesma que sai para trabalhar e volta pra casa toda cheia de si, por considerar o feito um grande ato libertador de tudo que possa lhe aprisionar como pessoa feminina que é. É a mesma que sai em busca do sucesso profissional por acreditar que isso é possível, e que suas capacidades estão além do preparo de um empadão de frango no almoço de família no domingo. Ou seja, essa mulher é a que tem ganhado espaço e notoriedade, ainda que num processo moroso socialmente.

E é justamente aí que se encontra seu poder intimidador. Que não é proposital, mas necessário, tendo em vista as razões que lhe acometem a viver substancialmente numa sociedade que solapa seus direitos mais elementares.

Então, eu, na certeza de que garantias de direitos equitativos socialmente é louvável e para todas, digo: mulheres, se toquem! Esbanjem sua sensualidade no ato de conhecer a si mesma, proporcionem-se prazer no mais íntimo dos íntimos momentos somente seus. Abracem-se, envolvam-se em seus braços, nos braços de outrem, que esse outrem seja um homem ou uma mulher. Sintam o mais profundo desejo de atingirem a completude sinestésica do seu próprio corpo num toque. Sejam donas de si, do próprio corpo, de suas vidas sem a mediação ou consentimento do outro.

Sejam felizes.

 

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  1. Que legal!!!… Parabéns.Amei o seu comentário, pois tocou=me profundamente.Acho que sou em grande parte esta mulher, pois lutei, sofri e batalhei muito pela minha liberdade profissional e afetiva. Hoje usufruo um pouco dessa minha luta. Apesar de morar sem a presença dos meus entes queridos que Deus os chamou à sua presença – mesmo sozinha não sinto solidão porque creio profundamente na presença de um Deus que me ama e me ama muito. e assim com o meu maior amigo JESUS CRISTO, remo o meu barco com a ajuda dle e sou feliz.

  2. Belo Texto! Assino embaixo! Abraços! 

    Adilbênia Machado

    Mestra em Educação (UFBA)

    Bacharela e Licenciada em Filosofia (UECE)

    Tutora (UFC) 

    Lattes: http://lattes.cnpq.br/1983904257583624

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