Meritocracia ou mentirocracia?

Padrão

Minha mãe e meu pai sempre cuidaram para que eu tivesse acesso à educação. Eu estudei em escola privada até a antiga 5ª série (atual 6º ano). Depois, ingressei no Colégio da Policia Militar do Estado da Bahia. E só a título de curiosidade, escolas militares, federais e de ensino técnico/tecnológico estão entre as melhores na qualidade de ensino público do país. Para ingressar no CPM, no ano de 1995, tive de fazer um teste de admissão em 1994. Ou seja, a escola selecionava seu público já na porta de entrada, dizendo quem podia ou não adentrar. Eu era a única da rua a estudar numa escola desse porte. Saí de lá em 2001, quando concluí o Ensino Médio.

2

Passado um tempo, eu me esforcei para entrar na faculdade. Fiz cursinho pré-vestibular em 2008, e, em 2009, ingressei no curso de Pedagogia da Universidade Federal da Bahia. De cara, na primeira tentativa. Saí de lá em fevereiro deste ano, 2014, e já ingressei em outra universidade pública federal (UFF – Universidade Federal Fluminense). Tive mais uma vez a oportunidade de estudar na melhor universidade pública do meu estado, ao tempo que alguns poucos amigos estavam em faculdades privadas se esfolando para pagar a mensalidade e vivendo do subemprego por garantia.

3

Sou servidora pública pelo município de Salvador desde 2007. No fim do mês, o meu tá na conta. Faça chuva ou faça sol. Não preciso ficar me tremendo todo fim de temporada à espera de um corte de pessoal, para que eu volte a ficar de pires na mão sobrevivendo do seguro-desemprego assim como muitos dos meus amigos e conhecidos vivem hoje.

E apesar de tudo isso, eu ainda penso que o resto do mundo tem que se esforçar para ter acesso a uma educação pública de qualidade, igual a que eu tive, estudando em escola e universidade públicas de excelência. Caso o contrário não passarão de uma corja de preguiçosos que ficam à espreita de mixaria de governo, quando na verdade deveriam ir à luta e batalhar para ter o seu.

A igualdade de oportunidades nesse país meritocrático ainda se organiza num processo moroso, e que demanda uma série de políticas que visam minimizar os efeitos das assimetrias sociorraciais escamoteadas no tecido da nossa sociedade.

1

É um ultraje pensar que minha vizinha, meu primo, o amigo de meu irmão, o coleguinha do prédio não têm acesso a uma educação pública de qualidade que segue da educação básica ao ensino superior por preguiça ou descaso. Eles bem que poderiam estudar numa escola boa, não o fazem porque não querem.

É um acinte depositar toda credibilidade nas esferas de poder que minoram os efeitos catastróficos da miséria em que vivemos, e nos convence que somos fracassadas.

Ser contra as políticas sociais que dão conta de nos manter longe dos extremos da pobreza é pensar que o privilégio que lhe contempla é só seu e de mais ninguém, e alguns simplesmente não os têm por não merecê-lo.

Eu entendo que educação de qualidade deveria ser para todas. Deveriam existir universidades públicas que pudessem abrigar um contingente volumoso que vive à margem de tudo: saúde, educação, moradia, emprego, lazer e tantas outras coisas.

Mas não é assim que funciona. E por não ser assim que eu não devo pensar que o que é meu é porque conquistei com muito labor, e o resto do mundo que se f…….

Afinal de contas, não basta querer ter algo. É preciso ter condições para buscar o que quer. Não dá para pensar em virar astronauta sem saber física. Não dá para pensar em virar atleta de alto rendimento sem ter comida na mesa, material de qualidade para treinar e patrocínio para viajar e dedicar-se exclusivamente à prática esportiva. Não dá para pensar em virar ministra do Supremo Tribunal Federal sem ter sido ao menos alfabetizada.

Devo reconhecer que, no quesito educação, fui privilegiada. Mas é pouco. Eu quero ver muitas de mim ocupando as universidades públicas, e preterindo esses lixões maquiados de faculdades privadas que só reproduzem massa de manobra para o subemprego.

Quero ver gente minha na UFBA, UNEB, UFOB, UFRB, UESB, UEFS e tantas outras. Quero ocupar os espaços de poder que me são negados a todo o tempo, porque simplesmente “eu não me esforço”.

Quero pensar na possibilidade viável de ter mais médicos, advogados, fisioterapeutas, engenheiras, arquitetas, todos oriundos das classes baixas deste país. A faxineira de lá de casa deixou de lavar minha privada porque quis entrar na faculdade. O jardineiro da casa de praia resolveu estudar para ser doutor.

Mais igualdade de oportunidade, e menos massacre social. É isso que queremos.

Eu fui apenas uma a furar o cerco. Quero poder arrombar a porta para o povo entrar e juntos comemorar. Ou como disse Léo Santana, “de onde eu venho, tem mais”.

 

Anúncios

Uma resposta »

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s