Ariano Vilar Suassuna, este sim vai fazer falta!

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(*16 de junho de 1927 – † 23 de julho de 2014)

 

A cultura nacional hoje perdeu um dramaturgo, romancista, ensaísta e poeta, grande cânone literário brasileiro. Ariano Suassuna foi uma figura célebre que exerceu com seriedade seu papel na arte de escrever e criar personagens, histórias e outras aventuras literárias. Natural de João Pessoa, radicado em Recife desde 1942, nordestino nato, ele conseguiu transpor as barreiras impostas ao povo da região Nordeste do país com seus escritos.

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Com respeito, desenvoltura e soberania levou sua arte aos quatro cantos do Brasil com a sobriedade que lhe era peculiar. Defendeu a sua obra e propagou seu rico conhecimento até os últimos instantes. E é com respeito que o reverencio.

Na última quarta-feira, há exatamente uma semana do seu falecimento, Suassuna esteve no Teatro Castro Alves, em Salvador, para ministrar uma aula-palestra. Hoje, com a notícia de sua morte, lamentei imensamente o fato de não ter estado presente na única e última oportunidade de sorver um pouco da sua sabedoria.

Membro da Academia Brasileira de Letras desde 1989, ocupante da cadeira de número 32, este célebre imortal escreveu obras como Auto de João da Cruz, Os homens de barro, Uma mulher vestida de Sol, Farsa da boa preguiça, e tantas outras, sendo a mais famosa adaptada para a TV no ano de 1999, O Auto da Compadecida. As interpretações de João Grilo e Chicó, feitas por Matheus Nachtergaele e Selton Mello, são memoráveis.

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Esta última trouxe um pouco do cotidiano do povo do sertão e quebrou rigores estéticos presentes na religiosidade cristã. Suassuna ousou inovar quando nos agraciou com o Jesus Cristo negro, estrelado por Mauricio Gonçalves. O ultraje do escritor provocou espanto, riso e muito incômodo. Mas quem disse que Jesus Cristo não pode ser negro? Ariano Suassuna mostrou que pode – até porque na região em que dizem que Jesus nasceu, ele jamais poderia ser branco, loiro e de olhos azul-piscina.

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É com esta nota publicada na Folha de São Paulo, em 07 de março de 2000, que rendo loas ao imortal romancista que ousou o novo, e desfez a lógica do padrão estético eurocêntrico presente na cultura brasileira.

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“Racismo e capitalismo

ARIANO SUASSUNA

Foi em 1955 que escrevi o “Auto da Compadecida”. Naquela época, com exceção do admirável “Teatro Experimental do Negro” – criado por Abdias do Nascimento -, os movimentos negros não se tinham, ainda, organizado no Brasil. Brasileiro branco e privilegiado que sou, os poucos acertos que, naquele tempo, me ocorriam ao refletir sobre o racismo originavam-se apenas de uma apaixonada busca da verdade e da justiça – coisa que, graças a Deus, desde muito moço nunca me faltou (às vezes acompanhada por uma indignação nem sempre medida e justa).

Foi a partir da década de 80 que, convivendo com Adelaide Lima, Josafá Mota e outros participantes do Movimento Negro Unificado, passei a ter uma visão mais clara sobre o problema dos negros, no Brasil e no resto do mundo. Passei a frequentar o MNU; e, no curso de uma de suas reuniões, tive oportunidade de ouvir uma verdadeira aula, pronunciada por Joel Rufino dos Santos, que explicou por que a sociedade brasileira encara com tanta naturalidade a tortura (desde, é claro, que praticada contra os pobres, os negros e os desvalidos de qualquer natureza): é que, durante quatro dos cinco séculos do Brasil “branco”, a tortura era não só tolerada ou permitida, mas legal e prescrita por documentos oficiais. Chegava-se a discriminar, cuidadosamente, caso a caso, o número de chibatadas e castigos piores que deveriam ser aplicados aos escravos, de acordo com a natureza e a gravidade dos “crimes” que tivessem cometido. “Assim formada” – dizia Joel Rufino dos Santos naquela aula -, “não admira que a sociedade brasileira branca ache que é natural prender e torturar os brasileiros pobres e negros por ela considerados como marginais.”

Noutra reunião do MNU, uma moça, Inaldete Pinheiro de Andrade, perguntou-me se, na época em que escrevera o “Auto da Compadecida”, eu já era devidamente esclarecido sobre o problema negro. Respondi-lhe que não. E ela retrucou que, mesmo assim, o aparecimento, no palco, do meu Cristo negro fora uma das grandes emoções de sua vida.

Agradecendo suas generosas palavras, contei como chegara a ele. Durante os dias em que escrevia a peça estava acontecendo, nos Estados Unidos, uma campanha destinada a impor legalmente a presença de crianças negras nas escolas brancas. Em revide, os brancos racistas organizavam manifestações contra a integração; e eu vi, na revista “Life”, a fotografia de um desses comícios: na frente do grupo de “brancos, anglo-saxões e protestantes”, uma mulher (aliás, e não por acaso, horrorosamente feia) exibia um cartaz no qual se lia: “Ao criar raças diferentes, Deus foi o primeiro segregacionista”.

Foi nesse momento que, movido por uma daquelas indignações a que me referi a princípio, resolvi apresentar como um negro a figura de “Manuel”, isto é, a imagem popular do Cristo que iria aparecer em minha peça. E concluo pedindo que se reflita um pouco para ver como são semelhantes, por um lado, a cabeça e o coração da mulher do cartaz e, por outro, a cabeça e o coração daqueles que afirmam que Deus é capitalista porque foi ele quem criou as desigualdades e injustiças do regime que tem no lucro e na produção a qualquer custo seu objetivo fundamental.”

(Clique aqui para ler o original da coluna.)

Os que dantes se foram estiveram só de passagem. Ariano Vilar Suassuna, mas popularmente conhecido como Ariano Suassuna, abre passagem para todas aquelas que admiram seu trabalho carregar consigo o conforto de ter tido uma pessoa do seu quilate entre nós, reles mortais.

 

P.S.: na caixa de comentários do texto que escrevi sobre João Ubaldo Ribeiro, um sujeito pediu para eu escrever um texto sobre Ariano Suassuna. Aqui está. Como disse o Capitão Nascimento, “missão dada é missão cumprida”.

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  1. Ariano Suassuna foi de fato um grande defensor da nossa cultura e seus textos eram ricos por trazer de forma positiva (sem ser medíocre e paternalista) o povo como protagonista. Porém, no final do século XX, motivado pela sua militância em prol de uma pureza cultural, deu uma “leve” derrapada na sua trajetória intelectual ao considerar o Movimento Mangue Beat uma tendência sob influência dos Estados Unidos da América, ignorando a sofisticação e a profundidade cultural do que Chico Science e sua galera vinha fazendo (e a essência negra/africana da música no nosso continente). Em resposta, o pernambucano Fred Zero Quatro e sua banda, Mundo Livre S/A, fizeram: O Africano e o Ariano.

    Vale a pena conferir:

    O Africano e o Ariano (Mundo Livre S/A)

    Há quatro séculos a alma humana tem sido um motor
    Da inquietação, da resistência, da transgressão
    O negro sempre quis sair do gueto
    Fugir da opressão fazendo história
    Ganhando o mundo com estilo
    O africano foi levado para sofrer no norte e gerou,
    entre outras coisas, o jazz, o blues, gospel, soul,
    r&b, funk, rock’n’roll, rap, hip hop
    No centro, o suor africano fomentou o mambo, o ska,
    o calipso, a rumba, o reggae, dub, ragga,
    o merengue e a lambada, dancehall e muito mais
    Mas é o ariano que ignora o africano ou
    é o africano que ignora o ariano?” […]

    Abraço

    Fabio Valente

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