Vinte e três crianças terão as suas vidas salvas pela doação de um jogador alemão. E as outras, nós vamos deixar morrer à míngua?

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A notícia que badalou os jornais de hoje, 17 de julho, e agitou também as redes sociais: O jogador Mesut Özil, titular da Alemanha, doou cerca de 880 mil reais do seu patrimônio privado, grana faturada com a conquista do tetracampeonato na Copa do Mundo 2014 no Brasil, para salvar a vida de 23 crianças brasileiras doentes.

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Devo considerar que fora um ato de tamanha nobreza a doação feita pelo alemão às criancinhas pobres do Brasil. Mas uma coisa que também pude observar foi a pedestalização de muitos por aqui ao jogador, sem falar nos comentários do tipo: “Cadê os jogadores da seleção brasileira que não fizeram a mesma coisa? Grande Özil! Os alemães mostraram que também são campeões de humildade” e otras cositas más.

Mas devo dizer que:

1. Doar seu próprio patrimônio a crianças miseráveis que não tem do que viver, ou sequer saúde pública de qualidade, não faz ninguém melhor ou pior que outrem;

2. Dinheiro pessoal é de uso pessoal. Desculpem a redundância, mas o dinheiro que a gente ganha, só nós decidimos o que fazer com ele. Se quisermos comprar uma esquadra inteira de maconha, ou uma coleção que caiba no Maracanã de jatinhos para fazermos escalas RJ/Búzios, como nas novelas “manoelescas”, ou encher carros-tanques de água potável e comida para os subnutridos do Malawi, isso é unicamente decisão de quem doa. É um ato de vontade, no qual ninguém poder meter o bedelho. É muita babaquice fazer enquete social sobre o destino do pecúlio de cada um;

3. A doação do jogador só exibe o que nós já sabemos e hipocritamente sequer mencionamos: o descalabro da saúde pública no Brasil. Sim, porque se esse tal de Özil não doasse esse montante, essas 23 crianças morreriam antes mesmo de chegar à adolescência, assim como todas as outras que não receberam o benefício do compadecimento alheio e irão pro céu na próxima curtida que você der numa nota sobre essa bendita doação do Özil;

4. PQP!!! A imprensa brasileira deveria ter vergonha de divulgar uma notícia como essa. Quando, na verdade, o que está por trás da cortina é o câncer social da falta de saúde pública eficiente, em que muitas de nós morremos nas filas dos hospitais, mulheres dão à luz na rua por não encontrar vaga nas maternidades públicas, ou até mesmo muitos morrem na porta pedindo socorro;

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5. Precisou vir um europeu da casa da porra para ver a merda que é saúde pública no Brasil para se compadecer e doar essas migalhas de 880 mil reais. Sim, são migalhas. Essa grana, ele faturou só num campeonato jogando apenas sete partidas. Ele fatura muito mais que isso – em euro, o que é melhor – com o contrato que mantém com o Arsenal, e as campanhas publicitárias que abarca.

Ahhhhhhhh, mas que isso, Paula, você também, hein? Chata pacas.

Pode ser, mas cada um expressou sua opinião aqui nos comentários que exaltavam o jogador europeu, daí resolvi explanar alguns pontos dessa deficiência disfarçada de benemerência.

E ponto.

 

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Uma resposta »

  1. Como sempre, Paula, pontuou o assunto com maestria e com muita propriedade. Mais uma vez parabéns.

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