É possível produzir um filme infantil sem clichês machistas e sexistas? Malévola nos mostra que sim.

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Fui ao cinema esta semana a fim de ver a comédia Os Homens São de Marte… e É pra Lá que Eu Vou, mas como os ingressos da sessão a que pretendia assistir haviam se esgotado, acabei ficando sem opção. Foi quando resolvi aceitar a sugestão de uma espectadora na fila do cinema que falou maravilhas sobre o filme Malévola. Dizia ela que o filme era lindo, muito bom, super-recomendado e tales coisas. Resolvi acreditar e fui conferir.

 

Logo no início, me perguntei o que estava eu fazendo ali vendo um filme sobre fadas. Imaginei que havia caído numa cilada sem tamanho. Ninguém merece sair de casa para ver comédia e terminar vendo fadas.  E isso me atormentava, mas já que estava ali, o jeito era se conformar e ficar até o fim. Era o tipo: “tá no inferno, abraça o capeta”.

Mas a película me surpreendeu – positivamente, é claro. A mensagem embutida nos filmes de bela adormecida normalmente recorta a mocinha que dorme num sono profundo e só despertará com um beijo de amor verdadeiro a ser dado por um príncipe ou seu amado.

Nesse sentido, Malévola ganha pontos por trazer outro viés do beijo de amor verdadeiro.

De fato, há uma princesa que cai no sono da morte após furar a ponta do dedo indicador direito numa roca de fiar e só despertará com um beijo de amor verdadeiro. E este beijo é dado por um príncipe inicialmente, mas a bela não desperta quando é beijada.

O tão amoroso beijo que irá despertá-la é o dado por uma fada, aparentemente má, interpretada por Angelina Jolie, na personagem que dá nome ao filme. E que também é a fada madrinha que lançou o feitiço sobre a bela adormecida.

A trajetória do filme circula em meio à vingança de Malévola a Aurora, a bela adormecida, interpretada pela jovem Elle Fanning, filha do rei Phillip, interpretado pelo ator Brenton Thwaites. Seu então amigo de infância.

Quando criança Malévola vivia numa terra de fadas, enquanto Phillip era um curioso menino do mundo dos humanos que rondava sua terra. Mas Phillip cresceu no mundo dos humanos, e com ele a ambição tornou-se seu maior defeito.

Pois, foi vivendo numa corte que surgiu a possibilidade de ele se tornar rei do esplendoroso castelo e adquirir direitos e poderes pomposos. Mas para isso, ele teria de conquistar a terra das fadas para os humanos e acabar com sua anfitriã, Malévola.

A amizade que ambos tinham não permitiu que este a matasse e a trouxesse como prêmio, mas fez com que ele tirasse parte de seus poderes. Foi quando resolveu cortar suas asas, que eram preservadas pela fada desde criança.

Sem as asas, Malévola não só perdia parte dos seus poderes, mas toda a confiança depositada num humano que ela tinha como amigo. Furiosa, ela resolve se vingar lançando o tal feitiço a Aurora, filha do seu amigo traidor.

Para além do beijo de amor verdadeiro dado por Malévola em Aurora que fez com que esta despertasse do sono da morte, a película recorta também a ideia que se faz sobre as relações de amizade, e quebra clichês maniqueístas.

No filme o bem não vence o mal, ou vice-versa. O que há é uma fada que pensava ter um amigo, mas quando traída mostra toda sua fúria, fazendo-o percebê-lo que uma doce amizade quando enganada pode se transformar num furor irreparável.

A quebra de clichês que o filme traz é muito positiva, no sentido de desconstruir essa visão machista presente nos filmes infantis de que toda menina/mulher precisa de um grande amor para despertar ou viver.

É aquela ideia de que a mulher não possui desenvoltura suficiente que a faça viver feliz sem a presença de um homem. Na tradição fílmica, machismo e sexismo se correlacionam. Malévola consegue quebrar esse encanto sem precisar de um macho para isso.

Tem outro ponto relevante acerca do conceito maniqueísta de mundo em que o bem e o mal, o céu e o inferno, o belo e o feio se opõem. Na trama, há o bem e o mal numa só pessoa. Não há dissociação do que seja uma pessoa do bem, ou uma pessoa do mal. E isso advém da construção do ethos, que na filosofia fala sobre a construção do caráter do indivíduo.

Ou seja, mais que um filme, Malévola é uma nova roupagem dada às produções fílmicas voltadas para o público infantil. E tem sido positivo o recorte e as mensagens embutidas em suas tramas.

Devo considerar que este também não é uma perfeição do cinema que se lança nas telonas. Mas devo ressaltar a magnitude em não referendar o machismo e/ou sexismo em mais um veículo de informação ao público.

Descortinar clichês também desfaz essa nuance bíblica presente nos filmes que tanto se repete no nosso cotidiano. E isso tem de ser considerado.

As coisas estão mudando, meu povo. A passos muitíssimo lentos, a bem da verdade, mas estão mudando.

 

 

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