Vamos brincar de índio

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Acabo de finalizar uma formação sobre culturas e histórias indígenas no Brasil, oferecida pelo Núcleo de Estudos Afrobrasileiros da Universidade do Estado de Santa Catarina extremamente relevante para os docentes simpáticos e praticantes da Lei Federal 11.645/08, bem como para quem não sabe nada de nada, mas tem vontade de começar a inteirar-se do assunto.

Ao longo da formação, estive envolvida com temáticas dantes totalmente desconhecidas por mim. E há um tempo tenho me aproximado de conteúdos e materiais que versam sobre a lei, mas devo confessar minha inclinação para as discussões sobre a cultura afrobrasileira, ainda que a lei trate da história e cultura afrobrasileira e indígena.

Precisamos conhecer a história dos povos indígenas brasileiros, pois o legado civilizatório deixado por eles é tão importante e merecedor de crédito e respeito quanto o afrobrasileiro. Além disso, a escravização e o genocídio perpetrado contra estes povos foram tão perversos e atrozes quanto os praticados contra a população trazida compulsoriamente do continente africano para cá.

Mas o que pretendo abordar aqui vai além do caráter didático que uma formação para profissionais docentes pode dar. Venho notificar que vemos todos os dias na TV disputas por posse de terra que envolvem inclusive confrontos armados entre indígenas e milícias a mando do agronegócio brasileiro. E o que mais provoca nosso espanto é ver como esses selvagens afrontam as pessoas de bem numa luta desnecessária e indevida para o requerimento de terras que não lhes pertence. Não sei para que índio quer terra! São preguiçosos, um rebanho de vagabundos que não gostam de trabalhar. A terra deve ficar para quem trabalha e produz nesse país. (sic!)

Essa é a mensagem que a mídia distorce e exibe todos os dias nos seus noticiários, nos fazendo acreditar que a luta por terras pela comunidade indígena no Brasil é uma luta entre “selvagens” e “civilizados”, como nos tempos coloniais. E isso repercute no imaginário popular com uma força tão avassaladora a ponto de conformar qualquer bom cidadão na ideia de que índio se traduz no mero “mim ser índio, mim mata homem branco”, ou que índio é somente o cara que anda nu, todo enfeitado, com o corpo pintado e faz a dança da chuva o tempo todo. Pelo menos, é essa a representação equivocada feita na comemoração pelo Dia do Índio, no dia 19 de abril, nas escolas.

Casos como os do grupo Tupinambá, que vivem no sul da Bahia, são registrados diuturnamente como alvoroços organizados por indígenas em tom de afronta aos produtores rurais (leia-se mangangões do agronegócio) na disputa de terra.

O que não é contado é que essas mesmas terras são de propriedade dos Tupinambás desde longa data. A área em disputa envolve o território dos municípios de Buerarema, Ilhéus e Una, no sul da Bahia, que foi ocupada ainda no século XIX com a cultura cacaueira, o que se intensificou no início do século XX (as obras de Jorge Amado retratam isso muito bem).

Buerarema

Ou seja, estamos falando mais uma vez de terras tradicionais que foram ocupadas por não-índios, roubadas e agora tornaram-se moeda de troca num jogo que só quem ganha é quem tem apadrinhamento político ou influência financeira suficiente, a fim de fazer valer a lei de quem tem mais.

01

Comunidades indígenas como os Tupinambás veem a duras penas seu direito a terra ser negado de modo tão acintoso. O mesmo acontece com os Guarani Kaiowá, povo indígena com maior população no Brasil que segue sendo vitimado pelo genocídio indígena nesse país varonil.

<p><a href=”http://vimeo.com/32440717″>À Sombra de um Delírio Verde</a> from <a href=”http://vimeo.com/midiatecacopyleft”>Midiateca Copyleft</a> on <a href=”https://vimeo.com”>Vimeo</a&gt;.</p>

O que se vê são comunidades tradicionais de povos indígenas sendo engolidas pela grande máquina do agronegócio, que está vinculada a jogatinas de partidos políticos, interesses da iniciativa privada, e que visualizam nessas terras, montantes galopantes de dinheiro a sair pela culatra. E que não poupam esforços quando o assunto é exterminar aldeias e populações inteiras e transformar as terras destas em áreas de plantio de cana para etanol, eucalipto e soja.

Tratam-se de terras utilizadas para exploração do biocombustível ou pelo setor pecuarista. Rememoramos um tempo em que comunidades tradicionais vêm sendo extintas e exterminadas, enquanto brincamos de índio, igualzinho como se fazia no Xou da Xuxa em 1989.

 

 

 

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  1. Parabéns pelo texto crítico professora Ana Paula! Você traz uma discussão contemporânea pertinente e, na maioria das vezes, oculta nas mídias e nos debates com o fito de escamotear as ações do agronegócio e dos interesses privados. Os problemas enfrentados pelos povos indígenas em diversas partes do Brasil, ainda que haja desconhecimento entre a sociedade civil, devem vir à tona e serem amplamente tematizados. Devemos acabar com a ideia do índio romantizado, nu e de arco e flecha, lembrado apenas no dia 19 de abril como um elemento passivo de passado histórico. Os povos indígenas não estão acabando, os índios brasileiros não precisam da história para ressaltar sua presença, na realidade, os ameríndios precisam de respeito e seriedade nos assuntos que envolvem os seus direitos e suas respectivas condições de existência. Respeito à diferença, respeito à alteridade, respeito ao seu modo “diferente” de vida e pensamento, respeito aos seus direitos conquistados com muita luta na Constituição Federal Brasileira de 1988. Grande abraço e seguimos dialogando sobre questão candentes em nosso país!

  2. Assino embaixo!

    Abraços,  

        Adilbênia Machado Mestra em Educação – UFBA Bacharel e Licenciada em Filosofia (UECE)

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