“Matei por amor”: a complexa noção do ataque vil às mulheres

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O que faz um homem esfaquear sua ex-companheira numa passarela da cidade de Salvador e levá-la à morte por desconsiderar a hipótese de ela não querer mais viver uma relação contigo?

Foi essa a pergunta que o meu companheiro fez hoje à noite após eu ter contado a ele um caso que vi no jornal a respeito de uma mulher de 20 anos de idade, moradora do Parque São Cristóvão, que foi brutalmente assassinada pelo ex-marido, um homem de 35 anos, com 15 facadas quando estava a caminho do trabalho, num grande shopping center de Salvador.

Respondi a pergunta dele da seguinte forma:

A complexa noção de que mulheres são (estão) subordinadas ao poder do homem. O poder do patriarca, chefe de família. E o poder do homem sobre a mulher passa do pai para o marido nessa maldita sociedade machista em que vivemos.

Somos criadas (adestradas) desde a mais tenra idade a pensar e agir sob a tutela de um ser masculino (pai, avô, tio, irmão e, posteriormente, o marido). Não detemos de autonomia suficiente para gerir sequer nossa vida e sermos donas dos nossos corpos. E assim segue.

A religião cristã nos diz isso quando prega que uma mulher fora extraída da costela de um homem, e por isso lhe deve obediência. Não se submetendo a tal obediência, só lhe resta o castigo. Tão logo, Eva foi expulsa do Jardim do Éden, e toda a sua geração paga pelo feito até hoje. Está posto nas Sagradas Escrituras.

A família nos ensina isso a todo o tempo, desde quando nascemos, quando separa roupa e brinquedos de menina X menino (a ambivalência do rosa X azul). Quando a nossa mãe diz que devemos sentar de pernas fechadas, nos comportar e nos resguardar sexualmente para sermos consideradas “moças direitas”, e o nosso irmão adquire o consentimento para fazer o quer e bem entende, pelo simples fato de ser “homem”.

A escola também nos educa nesse sentido, quando planeja campeonato de menina X menino, e nos instrui a sermos boas mães e cidadãs.

A TV exibe a todo instante que “mulher tem que se dar ao respeito”, caso o contrário é considerada uma “periguete”.  A exemplo, temos a “periguete” Valdirene, interpretada por Tatá Werneck na novela Amor à Vida, e o  sommelier  “conquistador”, interpretado por Cauã Reymond que come todo o elenco feminino da série Amores Roubados.

Entender o que se passa na cabeça de uma criatura que dá golpes de faca em uma jovem por não aceitar o fim do relacionamento perpassa pela análise socioantropológica do cotidiano que nos cerca, da sociedade que se sustenta numa base patriarcal que nos agride de modo vil. É ter a perspicácia para notificar tais ações e se valer dos sentidos que estão imbricados em tudo que se passa.

É isso que se passa na cabeça de um homem que mata a mulher com quem se envolveu pelo fato de esta não mais querer se envolver com ele.

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  1. Minha querida esse artigo me faz lembrar certa vez , quando meu filho Lucas no início da adolescência empolgado se sentindo o garanhão, perguntei-lhe estava indo.
    Ele responde-me que estava indo ver uma cachorra.
    Chamei para conversarmos e lhe perguntei-lhe o que seria uma mulher cachorra e se ele queria ver alguém usando essas palavras pejorativas comigo ou com uma de suas irmãs, ele baixou e cabeça e respondeu-me que não. .
    Disse-lhe: então que nunca mais queria vê-lo usando estes termos com qualquer mulher que fosse, pois deveria respeitar todas elas, pois ele tinha nascido de uma mulher, esta poderia ser uma prostituta não o caberia julga-la, ele também poderia ter uma mãe prostituta e o que ele faria e se seu sustendo pudesse vir de uma mãe prostituta, seus olhos encheram-se de lágrimas e até o dia da sua partida nunca mais ouvir usar tais termos:
    Passou a usa os seguintes termos carinhosos como muitas vezes utilizava com a minha pessoa tais como: paçoquinha, pituquinha, cocota, dentre outros.

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  3. Pingback: “Matei por amor”: a complexa noção do ataque vil às mulheres – Por: Paula Libence | Áfricas - Notícia minuto a minuto

  4. A questão, entre outras coisas, é que a figura masculina sempre foi exaltada neste país e muitos deles se apropriam desta legitimidade para agir de forma brutal com as mulheres, chegando ao ponto de imaginar que somos suas propriedades e, portanto, qualquer objeção a isto, é motivo para se fazer valer a violência que aparece não só em sua forma física, mas também verbal, sexual, etc. A morte passa a ser o ápice do tamanho desrespeito e desconsideração pela pessoa humana.

    A proposta aqui não é vitimizar a mulher. Mas de uma coisa tenho certeza: esta história de dizer que não nos respeitamos e não nos valorizamos pelo uso do shortinho e/ou coisa do tipo são falácias de quem quer nos fazer engolir a estupidez das ações machistas e ridículas!

  5. Até quando vamos viver para presenciar essa cena lamentável? O que vamos fazer para nos proteger de “homens podres” As leis que protegem as mulheres não estão alcançando-as. Só nos resta a esperança por uma mudança radical nesse sistema falido.

  6. Realmente essa é uma situação rotineira e lamentável, na medida em que uma pessoa tira a vida da outra por imposição. O pior que nessa escalada de violência e intolerância as mulheres são as maiores vítimas e as mulheres negras por conseguinte. Penso que é necessário que possamos combater as raízes dessa violência, muito bem elencada por Paula.

  7. Achei bastante coerente, entretanto, quero perguntar o que resta a uma sociedade machista? respondo; a continuidade da imposição do poder e a brutalidade, sou homem e me envergonho como tal quando assisto uma reportagem como essa ao lado de uma mulher, sinto vergonha de ser humano, e de todas qualificadoras masculina que me faz sentir poderoso ao lado de uma mulher, herança maldita machista, que nos impregna!

  8. creio que o que ocorreu retrata sistemática do poder no regime capitalista;aquele que sobrepõe aos homens o direito ao exercício da força sobre a mulher.Nesse sentido é doloso ver com as mulheres não são contempladas na sua dignidade humana, através do direito inalienável a vida…Falhamos e as medidas protetivas não foram acionadas na urgência devida, e mais uma mulher se vai, deixando a todos e todas perplexos por que a justiça não fez a sua parte…Ou talvez nós não tenhamos nos unidos o suficiente…..

    • Penso Rô, que suas colocações estão perfeitas. Quero lembra também que tivemos um movimento feminista , no Brasil, que pouco contribuiu para destruir as raízes dessa violência racista e de gênero, mas consolidou uma abertura de espaços privilegiados para as mulheres branca e rica em postos de trabalhos qualificados, deixando a maioria das mulheres as margens de todo processo.

  9. Sem mais!! Belo texto, Paula.

    E sempre motivo de indignação todos os tipos de atrocidades que são cometidas contra a vida humana, e sobretudo em uma sociedade extremamente machista e preconceituosa, na qual uma mulher foi a delegacia, deu queixa do infeliz, e acabou sendo mais uma vítima dessa tortuosa sociedade, e querendo se defender, pagou com a própria vida, enquanto o canalha dificilmente irá preso ou ficará o tempo necessário na cadeia!!

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