O efeito pastoreio nas redes sociais

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Em comemoração ao Dia das Crianças, algumas pessoas no Facebook resolveram homenagear a data pondo fotografias suas dos tempos de infância. Acho lícito. Se você tem um perfil pessoal, não há nada que o impeça de usá-lo como quer e bem entende. Partindo da premissa de que não agrida ou ofenda a outra, tá valendo.

Mas, até agora, o que não consegui entender foi essa ação em massa de revirar o baú das lembranças familiares, do tempo em que fotografias eram tiradas naquelas máquinas hoje consideradas de uma breguice sem tamanho, com aquele velho filme Kodak de doze, vinte e quatro ou trinta e seis poses, a fim de recuperar fotografias dantescas e colocarem no perfil de uma rede social. Se isso for uma brincadeira por conta do Dia das Crianças, eu acho meio sem graça, o que não me parece ser.Pastoreio

A ação transparece uma suposta ideia de pastoreio. Sim, pastoreio. Um homem num pasto vai pastoreando as ovelhas. Isso é pastoreio.

Despido de qualquer sentido político, as pessoas seguem sendo pastoreadas por uma rede social. Isso muito me assusta, pois pensando que o Dia das Crianças não passa de uma data pura e exclusivamente comercial (como todas as outras “datas comemorativas” existentes ao longo do ano), criada para alimentar os anseios capitalistas e a necessidade de um mercado que nos exaure, penso que seja uma tremenda falta de bom senso.

Daí devo inferir o quanto é fácil manipular a outra. Como é fácil colocar as pessoas para fazer o que alguém, sabe-se lá quem, diz. O bom e velho “comportamento de manada”, em que as pessoas fazem algo sem nem saber o que estão fazendo. Todo mundo fez, eu vou fazer também.

O Terceiro Reich, liderado por Adolf Hitler na década de 1930, exterminou milhares de judeus, ciganos, negros e homossexuais numa ação igualzinha a que se repete no Facebook. Os ideais nazistas foram introjetados na mente do povo alemão quase que da mesma maneira: a máquina de propaganda, liderada por Joseph Goebbels, elaborou várias peças publicitárias, filmes, cartazes e livros com o intuito de enfiar a ideologia nacional-socialista na cabeça das pessoas e todas elas compraram a ideia sem nem saber o que estavam levando. Sem contar os discursos do Führer, apoteóticos, espetaculares, cheios de efeitos especiais e jogos de cena, tudo para levar o público ao êxtase e fazê-lo entender que aderir ao projeto nazista e executar tudo o que o líder mandava era certo e recomendável.Hitler 1

O único fator que se difere é que a ação proposta pelo ditador estava eivada de sentido político: matar pessoas que não pertencessem à raça ariana. Hitler e os demais oficiais tocavam as ovelhas do seu exército dizendo que eles deveriam matar todo e qualquer cidadão que não fosse da raça ariana.Hitler

Pode parecer exacerbada a analogia, mas se essa ação do Facebook partisse de um pressuposto político como as revoltas que aconteceram no Brasil no mês de junho faria sentido – o que não é o caso. O que fica explícito é o caráter manipulável das pessoas, e por isso demonstro aqui minha indignação, não com o propósito de condenar quem o faz, mas de sinalizar que ações como essas denotam nada mais nada menos o fator de vulnerabilidade da opinião pública. É também por isso que a Rede Globo faz tanto sucesso num país como o Brasil.

E aproveito para socializar pela enésima vez um texto que publiquei já há algum tempo sobre o que a voracidade capitalista faz conosco sem que percebamos: Feliz Dia Das… – As Felicitações que o Capitalismo nos Impõe.

 

 

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  1. Olá Paula Libence,

    Saudações

    Achei interessantes estas suas reflexões e, se me permite, gostaria de interagir com o assunto,

    Entendo as redes sociais como uma revolução nas tratativas sociais de toda ordem e também como um depurador do processo civilizatório contemporâneo, na medida em que nivela
    em um mesmo patamar discursivo (em razão da agilidade e dinâmica das atualizações) pobres, ricos, brancos, negros, ateus, ortodoxos religiosos, apolíticos, militantes, radicais, conservadores
    e todo tipo de antagonismo social de que se tem notícias.

    Estas ferramentas digitais deste turbulento século 21 trazem à tona e fazem aflorar os mais obscuros dos pensamentos humanos, bem como as mais previsíveis das reações de uma espécie
    (no caso, o Homo Sapiens), tida como gregária e com tendência a agir e reagir de forma coletiva.

    Sobre o verificado com “as fotos para o Dia das Crianças”, difícil determinar se a mania tratou-se de uma ação sutilmente orquestrada por algum “marketing expert” visando um lucro financeiro de
    qualquer espécie ou se foi fruto de um gesto espontâneo que se transformou em mais uma “febre digital” de alcance, provou-se, relevante.

    De qualquer forma o verificado, ao meu ver, ilustra o caráter behaviorista da pessoa humana, segundo o qual as massas sociais podem, a grosso modo, ser classificadas em três macro-grupos
    distintos: os líderes, os liderados e os anarquistas.

    Talvez seja razoável a previsão de que o comportamento supra-coletivo das fotos antigas dos tempos de infância não fique somente nisto: ainda teremos outras datas que vão criar o mesmo
    tipo de impulso sob a mesma forma de estímulo, que seja a noção do “pertencimento” (eu tenho que colocar a minha foto porque todos fazem e se todos fazem é porque é “bom”, é “legal” e é “preciso”).

    A ausência de um pragmatismo crítico coletivo é o paraíso de toda e qualquer mente com tendência draconiana: é alí que serão aplicadas tanto a retórica da dominação das turbas quanto as estratégias de repressão dos incautos, ambos capazes de produzir efeitos nefastos e perversos na experiência humana da vida em sociedade. Adolf Hitler e Sadam Husseim são dois exemplos clássicos dos tempos contemporâneos, para ficar apenas em dois.

    Mas entendo ser lícito observar que a maioria das religiões ir seculares também utiliza da mesma dialética para obter resultados bem semelhantes via ortodoxias pseudo-doutrinárias de veracidade e idoneidade questionáveis.

    Muito construtiva a sua proposta e agradeço a oportunidade em poder interagir com o tema.

    Abraços fraternos – Durval

  2. Como é bom ter uma pessoa com a lucidez e coerência da Paula. Parabéns minha querida. Também me incomodei com o que vc sitou, mas não sabia o que escrever para rebater. Vc lavou minha alma e escreveu o que eu teria escrito.

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