Pelo direito de ser puta: uma discussão sobre sexualidade, gênero e raça no Brasil

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Imagino que ser puta seja uma tarefa árdua. Chamá-las de “mulher de vida fácil” é uma tremenda desonestidade, pois a vida das mulheres que, por (falta de) opção, caíram na prostituição é tudo, menos fácil. Ficar na rua, exposta ao relento, sem nenhuma segurança, correndo o risco de levar um golpe de taco de beisebol desferido por um pitboy; entrar num carro sem saber se sairá dele viva; atender um cliente nojento, grosso, repugnante, que quer te tratar como lixo, te obrigar a satisfazer os desejos sexuais mais inconfessáveis e ainda chamá-lo de “gostoso” sem ter a menor garantia de que ele pagará o programa e de que ele não te matará de porrada. Sem contar as enormes chances de pegar uma doença sexualmente transmissível e/ou de engravidar de um homem que você nunca mais verá na vida, e ter de parir e criar uma criança que será chamada pelo resto da vida de “filho da puta”. Vocês acham que levar uma vida dessa é fácil? Eu, não.

<p><a href=”http://vimeo.com/14814248″>A PONTE</a> from <a href=”http://vimeo.com/user1075619″>joaowainer.com</a&gt; on <a href=”https://vimeo.com”>Vimeo</a&gt;.</p>

No entanto, o que mais provoca incômodo numa sociedade de base patriarcal e fundada nos pilares machistas na qual vivemos é a liberdade sexual que as putas detêm. Uma mulher que faz o que quer com o próprio corpo, dá para o homem que bem entende e ainda ganha uns trocados por isso é uma coisa que definitivamente põe em perigo o lugar social das senhoras casadas e das “moças de família”. Afinal, saber que é possível viver de outra forma que não casar, virar dona de casa, engravidar, cuidar dos filhos, lavar, varrer, passar, esquentar a barriga no fogão e esfriá-la no tanque é mesmo muito afrontoso aos machos. Ah, isso com certeza é motivo de ódio por parte das outras que por pudor ou hipocrisia não se deleitam ao prazer de ser quem é.

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O texto que escrevi há três meses sobre o Bonde das Maravilhas gerou muita discussão e feriu os brios de uma gente hipócrita que insiste em patrulhar a sexualidade alheia e puni-la no tribunal inquisitivo da moral e dos bons costumes. Houve quem o considerasse polêmico. Eu discordo por pensar que tudo que soa polêmico faz parte de algo que deve ser negado ou não discutido. Algo que visa manter uma conveniência óbvia e perfeita. Ser condenado à vala comum do silêncio e do esquecimento.

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Mas o que vou discorrer nessas linhas parte de uma discussão sobre o texto do Bonde, e que, por ser polêmico, tornou-se ofensivo aos olhos puristas da nossa sociedade.

O texto foi repostado em vários outros blogs e sites da internet, e alavancou outras discussões a respeito do grupo por parte de outras pessoas que também defendem o direito das integrantes de dançar e não ser condenada por isso. Daí, socializei todas as repostagens e resultados: o que provocou mais que incômodo; o que pude ver foi o ódio explícito e mordaz. Não dimensionei o furor que as meninas do Bonde provocariam.

Tudo começou com a repostagem que fiz no Intelectualidade Afro-brasileira, um grupo do Facebook defendido por alguns membros por ser voltado para discussões axiológicas, epistemológicas, e que funda os princípios da hermenêutica discursiva. Ponto. Houve até quem dissesse que este detinha de um nível mais elevado de discussões.

Tento entender o que é um “nível mais elevado de debate” que não caiba o viés de sexualidade, gênero e raça. Eu, do alto da minha ignorância, imaginei que um grupo com esse nome sustentasse discussões a respeito de racismo também. Enfim.

Até que uma pessoa, também membro do grupo, desferiu contra mim toda sorte de agressões, e finalizou chamando-me de “puta”. Puta por defender o direito de garotas que dançam e detêm autonomia sobre seus corpos e o direito de usá-los como bem entendem, fazem sucesso na mídia e estão cagando para o que outros proferem a seu respeito. E mais: puta e pedófila por defender, e, assim, “propagar o abuso sexual de crianças” veiculando meu texto.

Por que escolhi ser puta

Por que escolhi ser puta 2

Confesso que foi um choque. Nunca havia entrado num debate tido como intelectual e ser chamada de puta como se estivesse na ponta de um brega. E olha que o grupo é de um nível mais elevado, fico pensando se não o fosse.

Pois bem, sou puta, e até gostei da alcunha.

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Sou puta, pois sou livre para ser quem sou e não temer maiores rechaços por proferir o que penso. Sou puta por defender o direito de expressar-me discursiva ou sexualmente do modo que mais me convém.

Ser puta na nossa sociedade, como já foi dito no início do texto, não é tarefa fácil, principalmente quando nos deparamos com ideias machistas em quase todos os campos de atuação. Puta no feminino é algo ruim, e traz consigo todo o desprestígio de ser quem o é. Puto no masculino carrega o aspecto positivo, e mais uma vez machista de conceder ao homem a condição proeminente de ficar puto e assim sustentar sua verve de macho por conta disso.

Puta quando é atribuído à mulher tem o dom de colocá-la na vala da sociedade como o pior dos seres que a habitam. Puta quando é atribuído ao homem, neste caso me refiro aos homoafetivos, tem o poder de descaracterizá-lo e remetê-lo ao lugar da mulher, que, por convenção social, idealização religiosa ou prepotência discursiva é inferior ao homem.

O objeto de desejo do texto sobre o Bonde é levantar um questionamento pertinente aos rechaços que as garotas vêm sofrendo por serem que são: negras, faveladas e jovens de sucesso. Sim, sucesso que não confere somente a Anitta, criadora do quadradinho de quatro, e que só não o faz para parecer fina. Onde está a fineza de Anitta? Está no ataque às garotas?

A capacidade abstrata de algumas pessoas é, de fato, um fator relativo quando se trata de leitura mais densa e complexa. Até aí, tudo bem. O que não entendo nem admito é ser agredida por pessoas que não detêm dessa capacidade abstrata, e por isso, desferem toda sorte de ódio contra isso. Liberdade de expressão? Talvez. Eu diria que isso passa pela liberdade de opressão. Sim. O direito que alguns investem para oprimir o outro por não concordar com suas ações.

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O direito de ser puta é meu por excelência, e isso ninguém tira. Então só tenho a lamentar por todas que não se permitem ser quem é, ou falar o que pensa.

Se ser puta é defender o direito de outras mulheres fazerem com seus corpos o que bem entenderem, sou puta.

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Se ser puta é marchar contra a violência física, verbal e simbólica contra a mulher, sou puta.

Se ser puta é defender o direito ao aborto, pois entendo que o corpo é propriedade minha, e não do Estado, sou puta.

Se ser puta é acreditar na possível sociabilidade de termos mulheres se amando com outras mulheres e constituindo famílias em seus lares, e não serem ofendidas por conta disso, ou serem agredidas física ou verbalmente, sou puta.

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Se ser puta é pensar que posso conviver com mulheres que usam seu corpo como instrumento de trabalho, e não me sentir superior a elas por conta disso, sou puta.

Se ser puta é ter consciência de que dançar e cantar funk não é justificativa para os casos de abuso sexual de jovens e adolescentes, e para isso, eu desafio quem me apresente tais estatísticas que comprovam a relação do funk com os estupros, sou puta.

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Ah! Finalizo esse texto com a declaração feita por Nilton Luz, negro, gay, economista, militante do movimento negro e LGBT. Imensos agradecimentos pelas palavras.

“Eu quero entrar nessa briga e ser chamada de puta pelos machistas, até que essa palavra deixe de significar a escravização do corpo das mulheres. As putas são livres, as putas sabem viver, eu sou puta com muito orgulho.”

Ele também é puta.

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  1. Pingback: Nós, mulheres pretas, também temos o direito de amar – e ser amadas | Escrevivência

  2. Oi Paula,

    Como sempre, o seu texto é maravilhoso! Só li hoje esse texto, mas você realmente pontua questões fundamentais nessa questão do direito ao corpo e a sexualidade. Adorei. Vou compartilhar!
    Bjs.

  3. Primeiramente queria dar-te parabéns pelo texto extremamente bem escrito e compreensível e pela enorme coragem que tem em falar de um assunto tão polêmico. Eu, pessoalmente, não concordo com alguns aspectos que você defende, mas reconheço que és uma pessoa de garra.
    Gostaria de perguntar-te se já ouviu falar do 9 Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero promovido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Secretaria de Políticas para as Mulheres. Se não, ainda resta tempo até as 18:00 de amanhã (30) para inscrever-se no concurso de artigos científicos. Tenho plena certeza que suas ideias serão muito apreciadas. Dê uma conferida: igualdadedegenero.cnpq.br

    Atenciosamente,
    S. A.

  4. Uma das coisas mais lúcidas que já li em português sobre esse debate! Parabens!

    E você coloca bem o dedo na ferida: TODA mulher é puta, nos olhos de alguma pessoa, em algum lugar. Não é um fato empírico e sim uma acusação ou opinião.

    Daí, quando mulher quer se distanciar da puta, e coloca essa em outra categoria (diferente dela, “boa moça”), ela – sem querer – autoriza a violência contra todas as mulheres.

    Se pode com puta, então pode com você. É simplesmente uma questão de opinião quem é e quem não é puta. Acho incrível quanta feminista auto-declarada não entende esse fato básico!

    É como homem achar que viado não tem nada a ver com ele, pois não é gay. É opinião, irmão. Só. Se pode com viado, pode com você. Pode com seu filho, seu irmão. Basta alguém achar você viado. E você acha que eles checam sua identidade sexual antes de fazer isto?

    De qualquer maneira, parabens!

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