Mãe solteira: os impactos de uma solidão feminina

Padrão

Creio que ser mãe solteira deve ser uma barra muito pesada para uma mulher enfrentar na vida. Pois, ser mãe solteira não significa apenas o fato de ter de criar seu filho sozinha, mas trazer consigo os impactos sociais que supostamente nunca serão superados. A “culpa” de ter gerado um filho, muitas vezes fruto de uma gravidez indesejável, a “necessidade” embutida no imaginário de muitas mulheres da presença masculina, e, consequentemente, a maternidade como função social e algo que possa torná-la, de fato, mulher. São vários os fatores que resultam numa maternidade que não é acolhida.02

Historicamente, muitas mulheres passam pelo dissabor de ser mãe e não poder contar com a presença de um pai (e eu não falo só das mulheres pretas, pobres e faveladas). A representação simbólica de um pai numa relação parental não é permissiva apenas à procriação. Muitas de nós, mulheres, sabemos disso, até mesmo sem ter experimentado a maternidade.

Mas o que proponho explicitar aqui é o fato de que muitas mulheres se tornam mães solteiras na presença ou ausência de um homem. E isso não deveria acontecer, mas é um caso muito comum.

Mulheres ainda jovens se enlaçam no matrimônio, que são orientados pelo mito bíblico do “crescei e multiplicai-vos”. E muitas delas se deparam com a maternidade cedo ou tarde (muito mais cedo do que tarde, diga-se de passagem). Não importa o tempo. A maternidade ainda que no último minuto tem de ser contemplativa à sua figura.

Não devo aqui preterir as tantas mulheres, e nesse bojo eu me insiro, que não almejam na maternidade seu ideal de vida e satisfação plena. Mas não falo delas. Remeter-me-ei aqui tão somente às mulheres mães, por escolha ou falta dela.01

Pois bem, venho falar de muitas mulheres que, imersas numa moral cristã, se constituem mães, a fim de satisfazer e compor um ideal de família bem próximo do modelo judaico-cristão – que coordena as estruturas sociais da nossa cultura ocidental – e, por sua vez, a maternidade ressoa como uma condenação. Uma condenação que subjaz às demais estruturas que lhe são impostas pelo simples fato de ser mulher. Tão logo, isso se contrapõe à ideia de que ser mãe é alcançar o refrigere de um padecimento edênico. O fato de ser mãe, por si só, remete à mulher assumir a responsabilidade única de internalizar esse papel como se a acometesse aos deveres que agora são seus, exclusivamente seus, e por isso, não cabe a outro fazê-lo. Afinal de contas, a criança cresce dentro do ventre feminino, portanto é a mulher que tem de segurar a barra sozinha.

Estou deste modo a dizer que mulheres se tornam mães muitas vezes por entender que assim elas terão permissividade suficiente para assumir lugares longe de qualquer outra condenação moral – o da “boa moça”, mulher “de família”, “senhora de respeito” e “boa mãe” – , mas que lhes proporcionam tantas outras dores e desconfortos.

Um exemplo claro do que acabo de dizer é o fato de mulheres com parceiro fixo, que se representa na figura de um namorado ou marido, se submeterem à maternidade por puro capricho e necessidade masculina. E, aliada a essa necessidade presente na figura do homem, impera o descompromisso inerente a uma figura paterna que possa representá-lo. Ou seja, várias dessas mulheres engravidam, carregam seu feto no ventre durante nove e longos meses, sentem a dor do parto, produzem dentro de si o alimento para sua cria succionar, e assumem toda responsabilidade por aquela criança.

04

Tudo isso remete à ideia de toda e qualquer isenção de responsabilidade paterna. Assumir a paternidade perfaz algo mais que constar do nome no registro de nascimento, ou até mesmo prover as condições materiais necessárias ao crescimento e desenvolvimento da criança (e ela que se vire para dar conta do resto). Ser pai pressupõe cuidado, acolhimento, envolvimento, e, sobretudo, participação.

Gerar um filho não é uma tarefa unilateral. Não é uma tarefa única e exclusivamente feminina. Tanto a maternidade quanto a paternidade se constituem na conjunção carnal. Quando dois indivíduos se envolvem sexualmente, e desse envolvimento provém a fecundação. Toda e qualquer responsabilidade gerada a partir dali passa a ser dupla. E mais que isso, a maternidade e a paternidade tendem a ser constituintes de um processo responsável, muito longe de ser um jogo de regras em que uma é penalizada em detrimento de outro que se isenta.03

Diante disso, não é válido analisar a maternidade solitária num espectro desvinculado da presença do homem. Há mães que são solteiras mesmo na presença de seus companheiros. São porque o querem (ou não). Porque entendem que sua condição física-social é um passaporte para as agruras que a vida possa lhe impor, e com isso não veem e/ou buscam meios de infringir esse processo. Várias são as razões que condenam uma mulher a uma maternidade solitária.

Assumir a responsabilidade social de ser mãe solteira porque o homem que ajudou a gerar seu filho foge à responsabilidade também é algo a ser ponderado aqui. E isso difere de qualquer analogia à maternidade independente. Ser mãe por uma vontade inconsolável de querer gerar e assumir sozinha uma criança não deve, de forma alguma, ser posto em evidência quando trato tangencialmente dessas questões que envolvem a maternidade solitária. Essa abordagem ultrapassa os limites que aqui apresento.

Ter um filho e cuidar dele porque o pai se ausentou física, simbólica e oficialmente desse papel é um retrato cruel na vida de muitas mulheres. Para todos os efeitos, ele está ali, mas, na prática, ele não se ocupa com nada relacionado à criação do filho ou da filha.

Trato aqui dos muitos casos de mulheres casadas que geram filhos, mas assumem a responsabilidade desse filho única e exclusivamente sozinha. Ou seja, para ser mãe solteira não basta não ter a presença de um pai ainda que no registro de nascimento. Há mães solteiras, com pai presente no registro e em casa. O pai que atinge a paternidade, mas não a contempla. O pai que ao lado de sua mulher e filho ignora a responsabilidade de assumi-los.

Assumir um filho perpassa pelo cuidar, acariciar, alimentar, levar ao médico, trocar fralda. Participar ativamente de todas as etapas de sua criação, mas que por conta da cultura machista em que fora criado, essa postura não lhe cabe, pois isso é coisa de mulher. Mulher é quem cuida, dá banho, acalma o choro, acalenta, alimenta e muito mais. Portanto isso não o cabe.

O homem só quer saber da criança quando ela está de banho tomado, cheirosa, sadia, alimentada, bem cuidada e bem tratada. Pois quando o filho ou a filha dele traz alguma queixa da escola para casa ou precisa de que ele resolva algum impasse dentro de casa, a primeira coisa que ele diz é “pergunte à sua mãe”.

As estatísticas que versam sobre mães solteiras apontam para os casos de mulheres que geram e criam seus filhos solitariamente. Mas não tratam dos muitos casos em que o pai presente fisicamente se ausenta simbólica e paternalmente.05

Os impactos de uma maternidade solitária promovem efeitos tão catastróficos quando aos de uma mãe solteira por ausência física. A inércia paternal dos homens que optam por assim se comportar é muito mais cruel e mordaz devido às responsabilidades que lhe escapam e sobrecaem na mulher.

Buscar razões para explicitar os diversos casos que acometem as mulheres nesse aspecto é desnecessário, pois sabemos quais são, mas a atenção a esses casos é primordial. Eles existem e passam despercebidos por todas nós. Isso aqui é só uma provocação.

Anúncios

»

  1. Pingback: Nós, mulheres pretas, também temos o direito de amar – e ser amadas | Escrevivência

  2. Olha aqui, me desculpa, eu até estava gostando do texto, mas perdi todo tesão em ler-lo quando me deparei com a seguinte citação: “e eu não falo só das mulheres pretas, pobres e faveladas” – não pertenço a nenhum das “RAÇAS” que vce citou, mas se tem uma coisa que abomino nessa vida eh preconceito. Preconceito, o tal, que vce mesma cita a cima quando fala de mães solteiras, todo e qualquer preconceito, eh preconceito e te torna igual.
    Que vergonha!! Que horror.

  3. UMA PESSOA MAE SOLTEIRA VENCE SE QUIZER POIS E SO PEDIR FORÇAS A DEUS E LUTAR , MA SISSO SE ELA FOI DESPREZADA PELO PAI DA CRIANÇA ,JA VI MUITOS CASOS QUE A BRANCO E O FILHO . MAS TEM QUE SE DEDICAR MUITO MAE MUITO VENCEU A BATALHA E HOJE E FELIZ POIS QUEM CUIDA DELA JA DE CABELOS E O FILHO.

  4. Eu fiquei muito constrangida com o seu comentário… e triste também!
    Antes de sair acusando alguém de criminoso abertamente ( já que plágio é um crime previsto no Código Penal), procure saber quais são os tipos de plágio. Se você observar, TODOS os juristas defendem que o plágio só ocorre quando não há citação da fonte. Eu não apenas cito o seu Blog, mais também divulgo o link do texto por inteiro. Qualquer pessoa que entrar na minha página e clicar no link automaticamente é direcionada ao seu Blog.
    Você não gostou porque não coloquei o seu nome!
    Porque você queria ler de acordo com Paula Libence… porque você quer mídia, mais do que você já tem!
    E digo mais, pretendo colocar seus textos integralmente em minha página, citando a fonte.
    É por uma causa nobre!
    Se você não quer que as pessoas “abram a cabeça”, ampliem a visão de mundo reflitam sobre racismo e discriminação, ao lerem os seus textos. Então, não os publique na internet!
    Conversei com colegas advogados, e fiquei mais tranquila, porque não há plágio.
    Infelizmente, hoje em dia… as pesssoas se aproveitam de qualquer situação para ganhar dinheiro fácil e principalmente para denegrir e humilhar os outros.
    OBS: Não apaguei o seu comentário porque não sou a favor da CENSURA.

  5. Paula, Boa Noite!
    Sou a administradora do Blog Tucanafro SERGIPE.
    Li o seu comentário.
    Eu cito as fontes!
    Verifique por favor…
    Mas mesmo assim, peço perdão…
    Luto pelo mesmo ideal que você!
    Uma sociedade melhor para todas as mulheres brancas e negras.
    O seu Blog foi devidamente citado!
    Não existe plágio…
    O seu texto é excelente, pretendo publicar novamente os textos do seu Blog, dessa vez por inteiro, no entanto,peço a sua autorização. Autoriza-me?
    Creio que o seu material é de domínio público, se você não quisesse que textos tão ricos como os seus não fossem vistos, não os teriam publicado na internet.
    Eu estou divulgando o seu Blog…
    Creio que talvez não curtiu o meu Blog por questões políticas partidárias.
    Sinto muito…
    Anna Marília Paiva

  6. Ao autor ou autora do artigo duas considerações: 1º se não fosse o “mito bíblico” do crescei e multiplicai-vos, este artigo não teria sido escrito, pois o tal ou a tal não existiria, certo? a 2ª é que pessoas frustradas em seus relacionamentos tendem a rotular todas as outras experiências de relacionamentos como negativas. sou cristão com toda minha família e somos absolutamente realizados. portanto recomento o casamento no padrão que Deus estabeleceu, a despeito dos desafios de se viver junto, somos provas vivas de que a família no padrão de Deus dá certo, e muito certo. abraços.

  7. No meu caso grávida de seis meses ,o pai simplesmente disse que nada tem a oferecer além da ajudA financera,me sinto perdida pois não tenho experiencia alguma e me bate um desespero tão grande ..

  8. Gostei do texto, só queria ter lido isso ha uns 10 anos… Passei quase 9 anos num relacionamento terrível, com traições, abusos e muitas agressões físicas, me separei ha 1 ano, meus filhos passaram o ano de 2013 com a minha mãe em outra cidade, para que eu tivesse algum tempo pra montar uma casa, já que sai desse relacionamento apenas com minhas roupas, agora eles voltaram a morar comigo, mas não estou nada bem, pq não tenho ajuda de absolutamente niguém na cidade que eu moro, fico pensando que só vou poder “retomar minha vida” quando forem adultos.

  9. Ainda há muito esteriótipos há serem quebrados sobre ser mãe solteira, sou uma delas e enfrento diariamente os dissabores e delícias dessa tarefa tão árdua, não me arrependo de ter feito a escolha entre ser mãe solteira feliz ou ser mãe casada e solitária. Casar nunca foi minhas prioridades na vida, ser mãe sim, e sinto que não falta mais nada. Confiança é tudo.

  10. Não sou mãe mas li e texto e gostei bastante, concordo com muita coisa. Só discordo desse trecho e gostaria que outras pessoas comentassem o que pensam sobre isso:

    “Gerar um filho não é uma tarefa unilateral. Não é uma tarefa única e exclusivamente feminina. Tanto a maternidade quanto a paternidade se constituem na conjunção carnal. Quando dois indivíduos se envolvem sexualmente, e desse envolvimento provém a fecundação. Toda e qualquer responsabilidade gerada a partir dali passa a ser dupla.”

    Eu penso que a responsabilidade é dupla mas quem gera o filho é a mulher. Durante nove meses, dentro do útero. Diante desse meu ponto de vista penso que cabe a mulher, e somente a nós, decidir por um aborto, por exemplo.

    • Com certeza, se o feto que ela carrega no ventre foi gerado somente por ela, é uma falácia dizer que o pai não tem direito sobre o feto pois o mesmo tem obrigações desde o primeiro dia, de fecundação é mutuo, se uma mulher pedir pensão para um nascituro ela ganha, e quando uma mulher pede pensão o Juiz calcula os retroativo desde a gestação, se o Homem tem obrigação tem direitos também…

  11. Pingback: Mãe solteira: os impactos de uma solidão feminina | Africas

  12. Pingback: Mãe solteira: os impactos de uma solidão feminina | Fulanas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s