A decisão de não ser mãe

Padrão

Falar sobre cultura machista, ideal cristão, vida social e família são fatores centrais na definição dos papéis que homens e mulheres devem desempenhar na nossa sociedade, e que explicam parte da má sorte que mulheres ao redor do mundo sofrem pelo simples e grandioso fato de ser mulher. Mas não me deterei a versar sobre a violência contra a mulher, a assimetria social perpetuada entre homens e mulheres e que fomentam outras séries de questões. Não que essas abordagens não sejam importantes. Mas por hora, me prontificarei a falar de algo tão constante na vida das mulheres, e que ganham pitadas de bom humor por quem os pratica: a maternidade.

Desde pequenas, somos amestradas a cuidar da casa, ter filhos e ser boa mãe e esposa. Isso se instaura no nosso primeiro momento de vida, quando nossas mães e nossos pais decidem que a cor do nosso quarto será rosa e não azul, que devemos brincar de boneca e não jogar bola, quando só devemos pensar em namorar após completar 18 anos, ao contrário dos nossos irmãos que deve arranjar uma namoradinha na pré-escola, e que nós devemos ficar bonitas e prendadas para arrumar marido ao invés de estudar e ter uma profissão.

Brinquedos sexistas

Essa gama de fatores está imbricada no nosso cotidiano e senso comum de tal modo que não nos permitimos questionar a inversão de valores que propositalmente possa ser posta.

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Para adentrar mais sobre essas questões, tomarei como exemplo alguns acontecimentos cotidianos que me cercam.

Hoje, 15/07, completo 31 anos, e tenho sentido o peso da idade desde o ano passado, quando completei 30. Nunca pensei que os 30 pudesse pesar tanto na vida de uma pessoa. Afinal de contas, nessa sociedade machista, sexista e misógina em que vivemos, uma mulher com mais de 30 anos “já está velha”, enquanto os homens que já passaram dessa marca estão “ficando mais experientes”.

Claro que não é por questão estética, muito menos por eu achar que preciso de um botox para esconder um pé de galinha que surge. Não é nada disso. Afinal de contas, se eu não quisesse envelhecer já teria tomado uma providência eficaz diante disso, e não estaria escrevendo esse texto.

O peso dos 30 surge da cobrança que venho veementemente sofrendo por ter chegado até aqui e não ter tido um filho. Ainda, como ouço.

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Eu sou a caçula de uma família com quatro filhos e a única que não gerou um filho. E a cobrança surge por parte de toda a família. Com exceção, é claro, do meu pai e da minha mãe, que não me criaram para ter família, muito menos para ser mãe.

Hei de confessar que a decisão de não ter filhos surgiu quando eu ainda era ainda mais jovem do que eu sou, e se confirmou quando eu completei 15 anos. Pois a ideia de ter filhos e constituir família me remetia ao fato ter de lavar, passar, cozinhar e cuidar do marido e dos filhos sem ter vida própria. E isso era tudo o que eu não queria.

Ter filhos era como se fosse viver fadada ao fracasso de não fazer outras escolhas na vida. Não poderia estudar, trabalhar, nem pensar em algo mais audacioso. Isso tudo foi imputado em mim quando eu era muito jovem, pois minha irmã engravidou ainda na adolescência e escolheu não tocar a vida, e por isso meu pai dizia que minha sina seria a mesma, afinal de contas, eu tinha um espelho enorme dentro de casa.

Isso provocou um efeito contrário na minha vida. Internalizei tudo isso e temi imensamente que aquilo acontecesse comigo. E atrelando falta de informação e temor, preferi não arriscar.

Com o passar do tempo, a ideia foi amadurecendo de tal modo, a ponto de eu me manter a todo o tempo na defensiva e encrespar algumas vezes que alguém cogitava a possibilidade de eu ter um filho. E, até hoje, mantenho uma postura extremamente áspera diante alguns comentários a respeito.

Quando eu tinha 19 anos, arranjei um namoradinho de porta que logo de cara disse que estava apaixonado, coisa e tal, e que queria ter um filho meu. Pirei total. Eu era uma garota. Tinha apenas 19 anos, e tudo em que eu não pensava era ter um filho. Isso foi motivo suficiente para eu não passar de beijinhos e abraços com o dito cujo, se é que vocês me entendem.

O tempo foi passando, fui cuidando da vida e cogitando outras possibilidades mais interessantes. Vários eram os fatores que insistiam para que eu gestasse: adolescente pobre, preta, favelada, com precedente histórico de gravidez juvenil na família, sem muita perspectiva de ter sucesso na vida, e com a maioria das colegas e vizinhas de bairro com pelo menos um filho enfileirado.

Não estou deste modo reforçando a ideia de que toda adolescente pobre e periférica está fadada à maternidade pela falta de perspectiva de vida e futuro. Mas os fatores adversos agem em sintonia para os acontecimentos dos fatos. A falta de informação adequada, a falta de oportunidade e perspectiva de vida, a situação de miséria em que muitas vivem são fatores condicionantes para uma gravidez indesejável.

Eu vi muitas jovens que cresceram comigo e moravam no mesmo bairro não terem tido outra dimensão da vida a não ser ter sido mãe solteira e trabalhar num subemprego – quando surgia. Talvez por não terem sido apresentadas a outros mundos, ou até mesmo por alguém lhes terem dito que aquela seria sua sina e seu lugar, e portanto deveria se conformar. Não era isso que eu queria para minha vida, e aposto que muitas delas também não.

A possibilidade de uma garota com oportunidade de estudo e trabalho prosperar na vida é muito maior do que uma que não tem sequer ensejo para tal.

Eu almejava e ainda almejo realizar vários projetos na vida, que uma maternidade só tenderia a interromper metade, senão boa parte das minhas realizações pessoais – apesar das forças contrárias se unirem para festejar meu fracasso. Pois preta e pobre moradora de periferia tem que trabalhar, ou melhor, lavar privada de branco, não inventar modismo de estudar. Estudar é pra filho de doutor. Filho de empregado tem de ser empregado também.

Esse é o pensamento vil de um grupo que insiste em manter e se beneficiar das assimetrias sociais e conter a ascensão social de muitas jovens negras.

E muitas sabem que não falo nenhuma mentira.

A tensão em que eu vivia era tanta que afetava inclusive as relações amorosas. Uma gravidez indesejada me atemorizava a ponto de eu evitar me relacionar com medo de fazer sexo e engravidar. A relação de namoro, sexo e gravidez foi construída de modo tão brutal que eu ignorava os métodos contraceptivos e sua eficácia.

Falta de informação, medo de repetir as estatísticas do bairro paupérrimo onde morava; adolescente e grávida, pânico de não prosperar na vida por conta do rumo que ela tomaria depois de ser interrompida com a presença de um bebê, insucesso escolar e fracasso profissional. Uma série de questões assolava meu imaginário hiperbólico.

E com isso a resistência aumentava, e os importunos também.

Essa situação só foi melhorando por volta dos vinte e cinco anos. Lembro que certa vez uma cabeleireira disse-me que uma mulher que não se torna mãe não atinge sua completude. Para tudo. A maternidade é o ápice da vida de uma mulher? E quem não a realiza não se torna mulher? Tô lascada…

Em outro momento da minha vida, um momento extasiante de pura felicidade, quando finalmente consegui entrar na universidade, no ano de 2009, fui à casa de uma amiga dos tempos de escola dividir essa alegria. A mãe dela, cuja filha já estava cursando faculdade paga (pois esse povo não estuda em faculdade privada, e sim em faculdade paga), ao conhecer meu namorado e atual marido, disse que já era tempo de eu ter um filho. A duras penas, eu havia acabado de ingressar na faculdade. Essa mesma criatura, que disse que eu deveria ter logo um filho, e meu namorado deveria convencer-me a tal, já que a ideia não me agradava, afirmava que a filhinha mais nova dela, de 21 aninhos, tinha de estudar, e se opunha ao fato dela ter namorado.

Entenderam como funcionam as coisas? A filhinha dela branquinha que estudava em faculdade paga não podia namorar, pois tinha de estudar. Já eu, pretinha, tinha de largar a faculdade para cuidar de filho, e quem sabe, depois arranjar um bico de empregada lavando as calcinhas da filha dela para comprar o leite da criança, e sobreviver de ajuda humanitária.

Pimenta no rabo dos outros é refresco! A dor mais suportável é, de fato, a dor do outro.

Meu irmão mais novo tem uma filhinha de um ano. Era o sonho da vida tornar-se pai. Lembro que, desde o primeiro casamento, ele queria realizá-lo. Para minha insônia. Depois que ele tornou-se pai, as pessoas não se detêm a outra coisa a não ser encher meu saco perguntando quando virá o meu (filho).

E para ser mais inconveniente, meu marido é o filho dos três irmãos que também ainda não teve filhos. Sofre horrores com as pressões alheias (“só falta o seu”).

Lembro que em meio a essas discussões de ter ou não ter filhos, uma ex-colega de trabalho resolveu me explicar a importância de ter filhos: nós precisamos de alguém para cuidar de nós na velhice. Minha cara de tédio e má vontade foi tanta que a aspereza da resposta criou um estranhamento entre nós quando disse que se ela visitasse os asilos da cidade veria o contingente de idosos abandonados por seus filhos. E que ter filhos não nos dava nenhuma garantia de cuidado na terceira idade, para isso deveríamos recorrer a um geriatra ou cuidador, parecia ser mais seguro.

O engraçado (ou estranho) é a invasão de privacidade e total devassa que as pessoas fazem na nossa vida, e suas reações quando respondemos à altura, pois elas se dão ao direito de se sentir ofendidas – mas acham que os absurdos que falam sobre a minha vida são a coisa mais natural do mundo.

A decisão de ter ou não filhos parte do pressuposto de condições mínimas e necessárias para cuidar de uma criança. Aquelas palavrinhas bonitas disfarçadas de direitos sociais que estão no texto da nossa constituição: lazer, saúde, educação e moradia são princípios básicos a serem instaurados antes de pensar em ter um filho. Ou pelo menos deveria.

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Ter um filho e não ter sequer espaço físico para colocá-lo é demais assombroso. Aquela ideia de que “casa de pobre é igual a coração de mãe: sempre cabe mais um” não me apetece. Até porque vivi minha infância e adolescência morando num quadrado com meio mundo de gente, e sequer tinha espaço para me coçar. Não gostei da experiência, portanto não pretendo repeti-la.

Pior que isso é ter de ouvir que para ter filho não precisa pensar, basta fazer. Depois cada um dá uma coisa e assim ajuda-se a criá-lo. Há maior estado de miséria que esse? Isso beira a calamidade pública, porque depois de feito eu terei de amealhar as migalhas sociais que temos de nos contentar e dizer que estou criando um filho.

Eu não preciso pensar, mas fazer. E depois que o filho estiver no mundo, um dá uma coisa, outro dá outra, e assim vai levando. Mas se eu aparecer na porta de quem disse isso com uma criança nos braços para pedir o leite e a fralda, essa mesma pessoa olhará para a minha cara e dirá que, agora, eu tenho de me virar. “Se vire, dê seus pulos. Arranjou filho sem ter condições de criar? Agora, aguente!! Sou eu que vou ter de sustentar filho dos outros agora?”

Portanto, não. Eu não pretendo ter filhos. Filho não é e nunca foi projeto de vida para mim.

Diante a atual situação de vida que levo, ter um filho seria estar fadada ao fracasso e não prosperar pessoalmente.

Viver de migalhas, eu já vivo. Viver sem saúde, educação, moradia e lazer, eu sei bem o que é isso, e não desejo a ninguém.

As privações que passei e passo na vida são suficientes para não querer reproduzi-las ao próximo, ainda mais esse próximo sendo meu dependente direto.

Ser mãe é padecer no paraíso para quem tem condições de criar um paraíso. Do contrário, ser mãe é purgar na terra e ansiar pelo inferno.

Até a próxima.

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  1. Muito bem escrito! Eu queria ter coragem de mandar esse texto para o meu pai, mas tenho certeza de que ele se ofenderia. Me identifiquei muito! Saiba que não está sozinha nessa.

  2. Compartilho o seu pensamento e tenho as mesmas preocupações. Tenho pavor de assunto ligado a maternidade, isto é uma coisa que não consta na minha lista. Pretendo ainda viajar muito e estudar e ter filhos para mim, não entrar no meu programa. Não somos únicas e nem exceções dentro desta sociedade a idealizar nossas vidas longe das previsões que esta bendita sociedade fez para nós. A pouco tempo, estava lendo uma carta que uma escritora francesa -Linda LÊ- de origem chinesa, realizou para o filho ou filha que ela nunca ia ter. O título da obra é esta : “À l’enfant que je n’aurai pas”, uma carta repleta de emoção onde ela inúmera todas as razões do mundo que fazem que ela nunca terá esse filho. Ela também conta do seu trauma infantil e o papel da mãe dela muito imponente… enfim, se tiver um tempinho te conselho esta leitura.
    Sou uma leitora do teu blog e adoro o que faz.

    Abraços e muito sucesso.

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