A taça do mundo é nossa!

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A Copa das Confederações é o evento que tem causado um tremendo e insuportável caos nas cidades-sedes dos jogos. Verdadeiros colossos trajados de arenas de futebol, reconstruídos com verba pública, e que, depois da Copa do Mundo, ficarão inutilizados.

O estádio do Maracanã, situado no Rio de Janeiro, por exemplo, foi reinaugurado dia 2 de junho com o amistoso entre Brasil e Inglaterra. O povo brasileiro está empolgadíssimos por ter a honra de ser o país com o maior número de títulos de futebol no mundo e que em 2014 sediará a Copa do Mundo. “Penta! Penta! Penta! Somos penta campeão do mundo”, gritaria Galvão Bueno se estivesse escrevendo esse texto.

Não sei se alguém lembra qual o país sediou a última copa do mundo, mas acho importante relembrar: África do Sul. Esse país sediou a copa do mundo de futebol no ano de 2010 e muitas pessoas que nem sabiam que ele existia passou a pronunciar com ênfase e veemência seu nome. Afinal de contas, África é tudo a mesma coisa. País, continente, essa distinção geográfica não tem muita importância, lá só tem africano mesmo!

Mas o que eu sei que poucos lembram é de como se deu essa euforia futebolística da Copa do Mundo que agora vivemos no Brasil. Sei que alguns remeterão à vuvuzela. Não seria exatamente sobre isso minha abordagem. Penso que seria inútil falar sobre esse souvenir ensurdecedor que se tornou febre nos estádios onde aconteceram os jogos. Não me deleitaria sobre isso, pois abriria uma seara de problemáticas que por ora dispenso. Só sei que o Brasil também tentou ter sua vuvuzela, mas foi uma ideia que não deu muito certo. O mestre Brown, capitão do mato que tentou capitaneá-la não teve tanto sucesso quanto esperava, enfim.

O que muitos, de fato, não lembram é que cidadãos sul-africanos tiveram de ser desalojados de suas cidades e de suas casas para serem amontoados em blikkiesdorp (palavra da língua africâner, que significa, em português, cidade de lata), containers situados a quilômetros de distância dos estádios que sediaram os jogos. Nada diferente do que já era feito na época do apartheid, em que a população negra era expulsa das grandes cidades e colocadas para “morar” em regiões extremamente distantes das vistas da sociedade branca. Foi assim que surgiram os bantustões, sendo o mais conhecido deles o de Soweto, habitado atualmente por mais de dois milhões de pessoas.

E o efeito mais cruel, se é que ser despejado de sua casa e alojado num container seja menos cruel, é que muitos dos estádios que foram construídos com verba pública dos contribuintes sul-africanos hoje são verdadeiros mausoléus, pomposos elefantes-brancos que não servem nem para visitação pública dos turistas. Ou seja, educação, saúde, moradia e emprego não foram garantidos em prol de um acordo numerário entre a FIFA e o governo sul-africano. Será que alguém lembra esse ínfimo detalhe? Creio que poucos. 

BLIKKIESDORP

Além de residências, houve vários casos em que escolas públicas primárias foram desativadas para serem transformadas em alojamentos para trabalhadores. E as crianças também foram, pasmem, colocadas em “escolas” improvisadas em containers.

Nós, aqui no Brasil estamos vivendo um déjà vu. Isso mesmo. Um déjà vu futebolístico de tudo o que aconteceu na África do Sul se repete aqui no Brasil com a mesma brutalidade capitalista que se soma aos interesses de governo e as empreitadas magistrais das grandes negociatas estrangeiros, e nacionais, diga-se de passagem.

O que está sendo feito nas cidades-sedes ultrapassa os limites do acinte social. A FIFA impõe uma ordem, e os governos das cidades acatam (afinal de contas, os governos são nada mais do que fantoches do grande capital). Até aí, acho “pertinente”, pois o dinheiro que essa gente tá levando por trás desses eventos não é pouco, e acatar uma decisão da FIFA não seria muita coisa. Certamente não seria nada de mais, se essas imposições não gerassem tantos transtornos em cidades que, como as da África do Sul, não detêm da menor infraestrutura pública.

Salvador está no rol das grandes cidades do país. Não sei muito bem por quê, já que a cidade é um ovo, sua geografia é péssima, não funciona com um sistema público de transporte adequado. Pelo contrário, se você, turista que queira conhecer Salvador, quiser vir visitá-la vai ter que se locomover de ônibus, e com uma frota que chega a ser piadística de tão pequena.

Não há metrô, ou melhor, há um projeto que desvia dinheiro público há mais de dez anos. Há uma linha de trem, que faz um trajeto minúsculo (Paripe-Calçada), pois funciona num raio de menos de cem quilômetros e não transporta nenhum ser que more além do subúrbio ferroviário de Salvador. Isso com muita boa vontade. Sem trem e sem metrô, Salvador avançou do bonde para o ônibus.

Ah, e sem contar que as vias de tráfego na cidade são caóticas, pois com a geografia desfavorável, as ruas muito estreitas e as obras urbanas que a cidade vem passando na tentativa de “viabilizar” o acesso de veículos, o único jeito é viajar de helicóptero. E isso o governador do estado sabe muito bem, pois é o meio de transporte que utiliza. Ao tempo em que reles mortais que não ocupam o mesmo posto que ele vão às favas nos quilometráveis congestionamentos que a cidade exibe como sinal de avanço por ser a mais nova metropóle urbana.

Posto tudo isso, ainda há quem creia que a Copa das Confederações e a Copa do Mundo vieram para trazer emprego e renda para os baianos. Renda, eu até concordo, mas não para os baianos. Já emprego, eu argumento. Se vender sandulixo dentro do estádio e aprender a falar outro idioma para perguntar se o turista quer acarajé ou cerveja é emprego, eu desconheço o sentido de subemprego.

Mas voltemos à geografia da cidade. Com as fortes chuvas que têm assolado Salvador, além dos congestionamentos, outro problema a ser enfrentado é o escoamento das águas pluviais. Salvador é uma cidade que não possui boca-de-lobo. Incrível isso. Eu também acho. Não consigo imaginar como é possível.

Sem contar outro detalhe importante que é o fato de que rios urbanos, que ao longo do anos se tornaram fossas públicas, foram transformados em avenidas, ou seja, pavimentados. O que era pouco virou bobagem.

Com as chuvas e sem escoamentos adequados, as estradas e avenidas tendem a absorver a água da chuva inflitrando-as, ou seja, abrindo verdadeiras crateras que parecem mais com o buraco da camada de ozônio. Foi isso que aconteceu na semana passada na BR-324, a via de entrada e saída da cidade, na altura do Porto Seco Pirajá.

O tamanho do buraco cabe um navio de tão grande, e tudo isso tem gerados trasntornos incomensuráveis ao tráfego. Sem contar que já se passou uma semana e nada foi feito. E no sábado próximo já iniciam os jogos da Copa das Confederações. Ou seja, a manutenção desse buraco torna-se um ponto estratégico para manter toda a população do bairro de Cajazeiras, Castelo Branco, Pirajá, Valéria, Águas Claras, Palestina e demais longe da Arena Fonte Nova. Não se construíram containers. Na verdade, nem precisou, mas o isolamento da periferia através de algumas estratagemas “ocasionais” funcionam com mais eficiência do que se possa imaginar.

BR-324

O mesmo acontece na Baixa do Fiscal, a via de saída de quem mora no subúrbio ferroviário de Salvador. Trafegar por aquele trecho tem sido uma aventura épica. Obras de recapeamento asfáltico realizadas no local, mas precisamente entre o Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico e a Feira do Curtume, têm travado todas as vias de acesso afluentes e bairros adjacentes da região: Largo dos Mares, Calçada, Viaduto dos Motoristas, Largo do Tanque, Fazenda Grande do Retiro, San Martin, Liberdade, São Caetano. Quem segue nesse sentido simplesmente não sai dali, passa o tempo todo no ônibus. Está insuportável transitar por aquela região!

E pensar que coincidentemente esses acontecimentos na BR-324 que isola um bairro como Cajazeiras, o maior em índice populacional, considerado o maior bairro da América Latina, e a “obra” na saída da Avenida Suburbana, que impede a saída de moradores do segundo maior bairro também a nível populacional, na véspera dos jogos é mero acaso do destino é sem dúvida não ter a mínima percepção crítica para visualizar o que acontece ao nosso entorno.  Na África do sul há o blikkiesdorp, a cidade das latas, e no subúrbio de Salvador, no bairro de Paripe há a Cidade dos Plásticos. Lá é como cá!

No mais, vamos pra frente, pois a taça do mundo é nossa, com brasileiro não há quem possa!

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  1. Mais um belíssimo e buliçoso texto Paula. De fato, as esferas governamentais tem trabalhado arduamente para que a copa não chegue a todos. Na verdade, o que tem que chegar mesmo é saúde, educação, moradia e emprego de qualidade, mas aqui é Brasil, um país de tolos… todos. Morador de São Caetano City, sei bem a loucura que a indiferença e complacência do querido anão/prefeito dessa cidade tem causado pelos quatros cantos da cidade. A omissão do bebum governador, que lava suas mãos sobre esse metrô (assim como fez o município) enquanto a cidade incha, e é pintada de vermelho cor de sangue! A copa (assim como as políticas públicas municipal, estadual e federal) é para todos, mas todos, tem um significado diferente, que não é totalidade nem maioria, muito menos metade. Creio que “todos” se refira a uma certa pequena parcela $$$

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