A última fronteira do feminismo: abrir uma garrafa de vinho

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Desde pequena, sempre achei estranho algumas coisas que aconteciam à minha volta, e no meu ambiente familiar.  Não as entendia bem naquela época como as entendo hoje, enfim.  

Tive uma família relativamente grande, e meu pai era o mantenedor dessa família – pelo menos ele achava que era, como se todo esforço que a minha mãe fizesse não tivesse serventia. Afinal de contas, ele era o patriarca que saía para trabalhar, enquanto minha mãe tinha de cuidar dos filhos e da casa.

Tomemos um exemplo: meu pai trabalhava fora e quando chegava em casa, era minha mãe que tinha de esquentar a comida dele e pôr na mesa. Caso contrário, ele não comia e ainda brigava. Ele pensa(va) que essa era a obrigação que minha mãe tinha como mulher e dona de casa.

Eu, ainda garota, não entendia o porquê daquilo, já que era ele que iria comer, por estar com fome, mas era minha mãe que tinha de fazer o prato. Eu não entendia a razão do acontecido, muito menos sabia explicar a lógica dos fatos. Como eu já disse, eu era apenas uma garota quando comecei a perceber tudo isso.

O tempo foi passando, e eu entendia cada vez menos o comportamento da minha mãe e de outras mulheres à minha volta. E desde cedo decidi que não queria casar nem ter filhos, pois o sinônimo de casamento e procriação pra mim era levar a vida que minha mãe levava, e isso eu não queria nem a pau. Tinha pavor só de pensar, ou melhor, ainda tenho.

Pois bem, foi vendo algumas coisas pelas quais minha mãe e algumas mulheres da minha família passavam é que fiquei irritada com tudo aquilo e cada vez mais rebelde e questionadora.

Meu pai até hoje não suporta esse meu jeito questionadora e retruquenta (não é à toa que não conseguimos viver por muito tempo no mesmo espaço). Isso me lembra daquele lance de dois corpos não ocuparem o mesmo lugar no espaço. Nós dois somos assim. Ele é do tipo “eu mando e você obedece”, e eu sou do tipo que não aceita receber e obedecer ordens. Imagine o confronto em viver assim.

Ele diz(ia) que sou muito “osada”. Hoje, consigo dar poucas e boas risadas com isso, apesar de entender o significado escroto do seu pensamento machista.

E assim fui crescendo. “Osada”.

O engraçado de tudo isso era que o mesmo homem que dizia que lavar prato, cuidar da casa e dos filhos eram atribuições da mulher, me criou com um jeitinho peculiar e um pouco intrigante. Ele, como militar, me inseriu muito jovem num universo tipicamente masculinizado por natureza, para que eu aprendesse a “marra” que o militarismo poderia propiciar. Fui parar numa escola militar para formalizar o “pensamento de menino” que deveria ter pra não pensar em casamento.

Meu pai desde cedo – quando eu nem sabia direito o que era a vida – dizia que eu tinha de estudar e trabalhar. E nada de querer saber de homem, “porque homem é uma raça que não vale nada”. E assim segui. Ouvi direitinho o que ele me dizia. Afinal de contas, saber que homem não presta era fácil, bastava olhar pra ele e ver as atrocidades machistas que ele fazia.

Essa “educação de homem” que ele me deu não foi pura benemerência. Ele sabia muito bem o que fez com as filhas dos outros, e por isso não queria nem imaginar a filhinha caçula passando por metade das escrotices que ele já aprontou por aí. Postura que ele mantém até hoje.

Pimenta nos olhos das filhas dos outros é colírio. Nos da filha dele, arde.

Logo comecei a cuidar de mim com toda a responsabilidade e desenvoltura de quem não precisa de um homem pra trocar a lâmpada queimada. Isso mesmo. Sempre quis ter autonomia. Ser dona das minhas vontades. Falar por mim e fazer tudo que me fosse permitido sem precisar do consentimento do outro. Tudo isso que estou relatando pode ter um viés feminista (haverá quem diga). Nunca parei para pensar se tenho ou não um declínio para o feminismo. Na verdade não curto nenhum tipo de rótulo, principalmente aqueles atribuídos por conta dos ideais que defendo. Esse é o meu jeito de ser e pensar. Autônoma.

Mas se é pra ser, que seja. Creio que isso seja mais uma questão de gênero a ser quebrada. Defendo a ideia de que mulher não precisa de homem pra ser feliz (nesse aspecto, discordo totalmente de Tom Jobim quando ele diz que “é impossível ser feliz sozinho”). Defendo a ideia de que mulher não representa nem de longe o “sexo frágil” da relação. Aliás, não sei quem foi o imbecil que propagou esse merda.

Defendo a vontade de cada mulher fazer sexo com quem queira e não ser chamada de puta. Defendo a ideia de que mulher não nasce pra ter filhos, e assim sua completude feminina seja alcançada com a maternidade. Há muitas mulheres sem filhos e felizes pacas por aí. E gosto disso.

Defendo todo e qualquer direito da mulher ter quantos parceiros ela possa e queira ter. Homem com várias mulheres nessa maldita sociedade ocidental é garanhão, já mulher que pega dois numa balada é vagabunda. Que é isso? As mulheres também têm o direito de “se divertir”.

Mulher trabalha, faz faculdade, aula de idioma, escreve livros, dá palestras e consultorias, enfrenta fila em banco, troca a lâmpada, troca o botijão do gás e a resistência do chuveiro, dirige e pega trânsito congestionado (troca pneu e faz calibragem), conserta a maçaneta, ajeita o parafuso frouxo do disjuntor, toma cerveja com as amigas, vai ao shopping, joga conversa fora, fala abertamente sobre sexo, pede para usar camisinha, vai ao supermercado, abre latas de condimentos usando o abridor, enfim. Tudo isso mulher faz sem precisar de homem nenhum pra auxiliá-la. Confesso que mais da metade das coisas que citei realizei sem precisar de um homem pra isso.

Ah! Quanto ao abrir latas de condimento usando o abridor foi algo extremamente inusitado na minha vida. Passei vinte e nove anos sem saber pra que um abridor funcionava. Aí vocês me perguntam se eu nunca havia aberto uma lata. Mas é claro que sim. Eu usava uma faca. Esse era o modo mais prático que usei pra abrir as benditas latas. Até que alguém me ensinou a tal finalidade do abridor. Depois desse dia, não aceitava que mais ninguém abrisse uma lata para mim. Fique muito feliz.

Agora só me resta a última fronteira a vencer: abrir uma garrafa de vinho.vinho Nooosssaaa!!!! Se há alguma coisa que me martiriza por não saber fazer é tirar uma rolha de uma garrafa de vinho. Mas deixa estar, daqui a pouquinho essa não será mais uma barreira, e sim uma atribuição. Que assim seja. É assim que penso. É assim que sou. Isso também é uma questão de gênero.

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  3. Realmente muito bom o texto! venho a algum tempo reformando minhas opiniões,
    pois somos criadas em uma sociedade machista, então é preciso desconstruir limites impostos, em nossas mentes e implantar os novos valores. Que eu acredito que cada dia irá me tornar mais livre independente e dona de mim mesma!

  4. O mundo é machista porque as mulheres “escolhem” assim porque também vejo um certo conforto em ser o sexo frágil. Sou tão frágil quanto a agua, depende de meu estado e do meu objetivo.

  5. Á e quanto a “Abrir a Garrafa de Vinho” não se preocupe pois essa dificuldade não é só sua. Voltando as atitudes dos nossos pais, o meu dizia que isso não era tarefa de mulher; entre outras tantas que passavam em sua mente. Eu até hoje tenho dificuldades para abrir a bendita garrafa. Já a minha mãe sempre nos ensinou que o fato de ser mulher, não significava só aprender a lavar, passar, cozinhar e parir ela achava que deveríamos aprender de tudo um pouco. Sabiamente dizia:” Lá fora temos que fazer e aprender um pouco de cada coisa mesmo essas sendo de funções masculinas.”

  6. Bom texto concordo totalmente com você, mesmo porque a minha criação não foi tão diferente, meu pai em algumas vezes tinha postura parecida com o seu. Quando eu e minhas irmãs fomos chegando á fase da adolescência, ele tinha o habito de nos chamar e dizer que nós tomássemos cuidado com essas histórias de namoro e que não queria os moleques na porta dele. Coisa que naquela época era comum os rapazes pedirem autorização para namorar; e como ele dizia que eu era mais ousada que a minha irmã mais velha eu cheguei a levar um moleque para namorar na porta mas ouvi dele tanta asneira que me chateie e não levei mais nenhum. E assim foram outras tantas histórias escabrosas e assim como você, aprendi desde cedo a mim desenvolver principalmente ajudar a minha mãe a cuidar dos irmãos menores pois ela tinha que trabalhar como domestica para ajudar ao meu pai, principalmente na nossa educação coisa que ela não abria mão apesar de ser criticada por ele e outras pessoas, que como ele achavam que para nós a educação ou seja o ensino didático não seria necessário.

  7. Sem querer querendo, você é bem feminista. Compreendo o fato de não querer se fechar especificamente como sendo uma. É bom poder se demoninar libre para ser o que queria. Já o que diz respeito a sua educação, não podemos julgar muito nossos pais, pois eles foram criados assim : pai trabalhava fora e a mãe dentro de casa. Temos somente que agradecer o fato de não sermos obrigadas a repetir o mesmo caminho das nossas mães. O nosso olhar mudou bastante, por conta da nossa educação e vontade de irmos ainda mais longe nas nossas carreiras. Isto fez de nós mulheres fortes e determinadas, queremos sempre mais liberdade e também quebrar certos padrões machistas que até hoje estão de atualidade, como o caso das mulheres não poderem ter mais de um amante. rsrsrs

    Todavia, ainda não temos toda essa liberdade que pensamos, pois o fato é que sexo continua sendo um tabu.

    Voltando ao assunto, seu pai talvez sabe a dívida que ele tem (tinha) na rua, faz-me lembrar do meu, porém dentro de casa sempre quer ser visto como o exemplo e apagar assim o verdadeiro exemplo de luta que são nossas mães. O NOME DISSO É O FAMOSO ORGULHOMASCULINO.
    rsrsrs

    Grosso modo não te preocupas, abrir uma garrafa de vinho é bem mais fácil do que lutar por seus ideias e conseguir consilhar vários trabalhos ao mesmo tempo.

    Aquele abraços.

  8. Adorei o texto, moça (:
    E pode deixar que eu te ensino a abrir a garrafa de vinho!!

    E sobre o rótulo, nem sempre eles são ruins, você é feminista sim e isso não é um problema! É a solução.

  9. Adorei, porque este texto, tem tudo de como penso e como atuo na minha, quanto ao abrir, uma garrafa de vinho,já tenho resolvido, e posso te explicar. beijos

  10. Muito bom texto. Na verdade eu desde pequeno nunca consegui entender bem essa prática. Sentia minha mãe sempre correndo de um lado pra outro, hoje eu sinto muito por não ter percebido, mais cedo, e ter brigado por sua liberdade de senta embaixo de uma ávorre e comtemplar a natureza como todos nós incluindo meu pai sempre fazíamos. Obrigado por te me brindado com tão lindo e profundo texto.
    abraço

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