A representação da criança negra nos livros de literatura infantil: como se dá e quais são os pressupostos

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O livro de Júlio Emílio Braz, Felicidade não tem cor, retrata a história de um garoto negro chamado Fael, que, por se sentir incomodado com os apelidos que recebia devido à cor da sua pele, resolveu procurar Cid Bandalheira, locutor da rádio Roda-Viva FM, em busca do endereço do pop star Michael Jackson, com vistas a descobrir o segredo para se tornar branco. Um traço marcante do enredo do livro é que quase todos os personagens, em particular, as crianças da história, têm apelidos por conta de uma característica física ou comportamental que traz. Como se não bastasse, Fael, o personagem central da história, é, desde o início, chamado somente por apelidos. O nome dele mesmo só é revelado na página 13.

Confesso que nada há de engraçado na história de uma criança negra que, por conta de sua cor, é chamado sempre por vários nomes que só servem para desqualificá-lo. É muito comum que no período da infância, e entre amigos de escola, algumas crianças tenham o hábito de criar apelidos para designar alguns indivíduos do seu círculo. Todavia, essa prática, no imaginário de uma criança pode lhe trazer vários traumas e estigmas que certamente irá interferir em alguns aspectos da sua vida, ainda que na posteridade. Isso me faz lembrar o que Consuelo Dores Silva nos diz acerca do significado do nome para uma criança negra no seu processo de socialização extra-familiar, quando ela afirma o seguinte:

No processo de socialização fora da família, o primeiro elemento de sua identidade, que o negro perde, é o nome.  O sentido de inferioridade, a baixa estima, a falta de conhecimento das lutas, das conquistas e da resistência cotidiana de seu povo passam a contribuir com a construção de uma identidade negativa e a deixá-lo no lugar que os herdeiros da mentalidade escravocrata desejam que ele continue na escala da pirâmide social.[1]

Na história, há também a presença da boneca negra, igualmente rejeitada pelas crianças da escola na caixa de brinquedos, que atua como narradora, a Maria Mariô. Que se faz solidária a Fael, pelo fato de também ser negra e rejeitada.

No meio de suas aventuras, há Romãozinho, o garoto que importuna Fael, dando-lhe apelidos como “carvão”, “zoião”, “negão”, “Pelé”, “picolé de asfalto”, “macaco”, “anu” e tantos outros. Dentre todos esses, o que mais incomoda Fael é o de “carvão” ser chamado por essa palavra o deixa furioso. E quanto mais ele se irrita com os apelidos que lhe são dados, mais zombam dele. E Romãozinho não larga do seu pé.

Mas tudo começa quando a Dona Evangelina, professora, resolve pedir uma redação aos seus estudantes, com o título “O que eu quero ser quando crescer”. Fael, já incomodado por ser tão pretinho e motivo de chacota na escola, resolve dizer na sua redação que quer ser branco. Para constrangimento da Dona Evangelina, que não entendeu por que o garoto havia dito que queria ser branco. Afinal de contas, até a professora o chamava de “escurinho”. (Isso só mostra o quanto o racismo é insidioso, pois a pessoa que mais deveria combater esses apelidos ofensivos à cor da pele do menino termina, na verdade, usando a sua posição de autoridade para incitar os colegas de turma a humilhá-lo sistematicamente). Ela acabou ficando sem saber o que dizer. Nesse contexto, a personagem que representa a professora ignora as implicações existentes no processo educativo e de socialização de uma criança, a ponto, de ela também criar uma identidade negativa para o garoto. Esse comportamento só denota o despreparo de boa parte das educadoras com a pedagogia antirracista, pois lidar com questões de heterogeneidade, seja ela racial ou de classe é algo que precisa ser estimulado já na formação, com o fito de chamar a atenção delas para a problemática racial brasileira e principalmente com as manifestações do racismo presentes na nossa linguagem cotidiana. E a psicologia social nos diz que a autoestima de um indivíduo depende também de suas origens sociais. Tão logo, advém daí a importância de valorizar essas origens na construção da identidade pessoal de uma criança.

Após o acontecido, Fael, que era importunado pelos colegas, passou a não ter mais paz. Desse dia em diante, até a boneca Maria Mariô se compadece do escárnio que é feito com o garoto e resolve ouvir toda a sua lamentação por conta dos abusos.

Além da boneca Maria Mariô, sua eterna e fiel ouvinte, Fael tem como companheiro o garoto “Cera”, de nome Geraldo, mas que leva essa alcunha por dizerem que ele não toma banho e seu ouvido vive cheio de cera. Juntos, eles são rejeitados por toda a escola.

Na tentativa de compartilhar algumas angústias, Fael apresenta a boneca ao seu companheiro, mas este a rejeita por entender que brincar de boneca é coisa de menina. E ele é um menino, ora bolas! Cera, de nome Geraldo, que é comumente reconhecido pelo apelido, é mais uma criança que cresce envolvido no conceito infundado de “coisa de menina” e “coisa de menino”. É revoltante ver presente no livro didático aspectos que reforçam o sexismo e a heteronormatividade como padrão na sociedade, tendo em vista que corpos masculinos e corpos femininos, coisa de menina e coisa de menino, não passam de construções sócio-históricas, e a família, bem como a escola, como instituições sociais, atuam nesse processo educativo, que de certa forma perpetua os padrões heteronormativos existentes.

Nesse âmbito abre-se uma seara para discutir questões sobre diversidade sexual e gênero nos espaços formais de ensino. Que tipo de cidadão pensa-se em formar quando o embutimos o conceito de que usar rosa é de menina e usar azul é de menino? O contrário não se insere no campo da permissividade? Se não, abrimos aí uma demanda de seres que na tenra infância cresce aos ensinamentos de que boneca é para meninas, e carros é para meninos, e desenvolve conceitos firmados de que sua heteronormatividade é algo a ser seguido e firmado a todo o instante, incitando assim comportamentos sexistas, que posteriormente gerarão implicações diversas acerca da formação identitária de cada um.

Nesse aspecto, não paro de questionar que tipo de ensinamento essa literatura nos traz. E Moscovici (1978) nos diz que “A representação social funciona deste modo como uma preparação para a ação, não sendo somente na medida em que guia o comportamento, mas na medida em que remodela e reconstitui os elementos do meio em que o comportamento teve lugar”.

Fael gostava de falar muito da família, e esta é pequena, composta por sua mãe, Dona Juliana, e seu pai, Seu Gilberto, muito conhecido como “Gil da Banana”. É que ele tem uma barraca de frutas na feira, e é a maior barraca que lá existe. Mas por lá Fael também tinha apelido. Como seu pai era chamado de “Gil da Banana” por conta de sua grande barraca de frutas, seu filho era então chamado de “Bananinha”, para desgosto de Fael. Isso o deixava enfurecido. Ou seja, ninguém se referia a ele pelo nome de batismo, e sim por apelidos. Vilma Reis tem uma fala extremamente pertinente nesse aspecto, pois ela nos diz que o racismo se encarregará de nos nomear inferiorizando-nos como pessoas que somos, caso não reconheçamos a importância de dizer nosso nome e sobrenome onde estivermos. Temos de nos apresentar como nome e sobrenome, senão o racismo se encarregará de atribuir.

Seu Gil da Banana era muito famoso entre todos. Isso porque ele era diretor de bateria da escola de samba do bairro. Ele era sambista dos bons e isso o deixava muito alegre. Noto mais uma vez aqui a imagem do negro como sambista, bom de bola, cheio de molejo. Qualidades estas inerentes ao homem negro. Universo que perfaz a associação da imagem do negro contemplada apenas nessas esferas. Não tenho nada contra os sambistas e jogadores de futebol, antes que alguém pergunte. Só estou questionando essa definição de lugar. O que de fato me causa indignação é o modo como ele está representado. Um homem negro, bonachão, de bom coração, vendedor de frutas e sambista. É a velha dinâmica da escala social em que o negro só serve para trocar as pernas numa gingada de capoeira, ou tocar os tambores de um lundu.

Ele e Dona Juliana eram pais maravilhosos para Fael, que sentia imenso orgulho dos dois. Mas o que a boneca Maria Mariô não conseguia entender era como pessoas tão animadas e bem dispostas, como elas tinham um filho tão cabisbaixo e triste que vivia pelos cantos. Maria Mariô não conseguia entender o porquê daquilo, e isso lhe causava aflição, já que ela era amiga e ouvinte do garoto.

Fael não costumava comunicar a Dona Juliana sobre as reuniões de sua escola, e pouco falava sobre o que lá acontecia. Mas sua mãe, muito observadora que era, resolveu conversar com o filho, e numa manhã Fael resolveu perguntar à sua mãe por que eles eram daquela cor, tão pretinhos. Dona Juliana ficou sem saber o que dizer diante da pergunta, mas queria entender o motivo da pergunta de seu filho, e ele apenas dizia que ninguém gostava de gente assim tão pretinha. Fael ainda insiste e questiona a mãe se ela gostava de ser preta… e fica sem resposta, para sua decepção. E mais uma vez Maria Mariô cede seus ouvidos às reclamações do garoto diante das respostas que nunca lhe eram dadas.

Maria Mariô ouvia pacientemente todas as aflições de Fael e tentava explicar algumas coisas pra ele, afinal de contas, ela bem sabia o que ele passava. Ela era uma boneca negra rejeitada no meio das bonecas brancas da caixa de brinquedos. E isso me faz lembrar o teste do racismo feito com crianças negras, em que ao serem postas de frente com bonecas negras e bonecas brancas, e questionadas sobre qual elas achavam má, as crianças apontavam às bonecas negras. E quando se questionava sobre qual boneca elas gostavam, elas afirmavam que gostavam da branca. Ao final do teste foram questionadas com qual boneca elas se pareciam, e elas apontavam na direção da boneca negra. É terrível pensar que o racismo manifesta seus efeitos também na infância, quando uma criança negra se reconhece como má por ser negra.

Então, ela sabia do aperto que o garoto passava, mas quem disse que ele ouvia? Ela era só uma boneca. Fael não a ouvia, mas com ela desabafava todas as suas angústias. E numa dessas conversas, Maria Mariô tenta explicar ao garoto que ele devia esquecer essa história de ir atrás do Michael Jackson em busca da tal fórmula que o fizesse ficar branco de uma vez, pois se já enchiam a paciência dele chamando-o de “carvão”, se ele fosse branco o Romãozinho não perderia a oportunidade de chamá-lo de “branco azedo”, “leitinho”, “branquelo”, e por aí vai. E se ao invés de branco, a fórmula desse errado e ele ficasse amarelo, que nem os “japa”. Ah, aí sim ele não gostaria nem um pouco porque vários nomes lhe seriam atribuídos, e um deles deveria de ser muito “engraçado”, “Fujiro Nakombi” ou “Tesujo Akueka”. Já imaginaram se Romãozinho resolve agora enchê-lo com esses nomes de “japa” por conta da sua cor amarelada?

E se ele ao invés de amarelo ficasse agora meio vermelhinho? O Romãozinho o chamaria de “Índio”, “Bugre”, “Aritana” ou até mesmo “Raoni”. Pode? Romãozinho não o deixaria em paz. E se diante de tudo Fael ficasse com jeitão de nordestino? Romãozinho poderia chamá-lo de “Paraíba”, pois assim ele já era chamado e ele não gostava.

Mas Maria Mariô não deixava de cogitar as nuances de Fael caso ele não ficasse branco com a tal fórmula de Michael Jackson.

E se agora ele ficasse azul da cor do céu? Ou laranja? Ou melhor, rosa? Aliás, melhor não. Rosa é “cor de menina”, talvez Fael não gostasse. Hummmm… Maria Mariô tenta achar uma solução e pensa. E se Fael fosse um camaleão que pudesse mudar de cor conforme o lugar em que estivesse? Mas no fim ela pensou que bom mesmo seria que ele fosse de todas as cores e assim esqueceria essa ânsia de ser de uma cor só, branco, já que ela não via o que havia de errado em ser da cor que ele era.

Diante das nuances e estereótipos descritos pela narradora, e então boneca Maria Mariô, nota-se mais uma série de preconceitos instituídos aos grupos sociais representados por orientais e seus descendentes, quando ela sugere a cor amarela ao seu amigo e ouvinte Fael, e ao mesmo tempo lhe atribui uma série de novos vulgos, de cunho discriminatório e segregacionista. Para além do amarelo, tem-se o índio, que aqui é personificado como “bugre”, o que também não seria uma solução viável para o garoto, sendo que aí está embutida a ideia do índio como ser desprovido de qualquer conhecimento do mundo civilizado. Há também a rejeição por conta da regionalidade, em que a boneca ainda o compara com seu importuno colega Romãozinho, que é chamado de “Paraíba” por ser de origem nordestina, diz-se ser de “cabeça chata”, uma característica peculiar atribuída às pessoas desse grupo.

Ao fim, ela infere que Fael tem de ser mesmo é de todas as cores. Vejo aqui o mito da democracia racial existente nesse país, em que diz que somos uma mistura de raças a constituir um só povo, ou melhor, somos todos mestiços.  Seria desse modo um reforço das ideias presentes no negacionismo racial em que vivemos? É por não termos um regime de apartheid presente no país, que demarca lugar de preto e lugar de branco, bairro de preto e bairro de branco, escola de preto e escola de branco, não temos um racismo cruel que nos discrimina a todo o instante em que vivemos? Sendo assim, desconsidera-se qualquer hipótese viável neste campo de discussão. Afinal de contas, é muito mais fácil negar o racismo em que vivemos do que escancará-lo. Ao tempo em que existiu nos EUA e África do Sul, regimes separatistas raciais, Toni Morrison (2004) nos mostra o seguinte: “Não, não, eles dizem. Você não pode entrar aqui. Afastem-se da porta. Esta escola é somente para crianças brancas”. (tradução minha). Ou ainda Morrison nos mostra o que temos na imagem abaixo[2].

De volta à escola, Fael participa de um jogo com seus amigos, e ele manda bem no jogo. Mas para seu azar Romãozinho nesse dia resolve encher seu saco soltando mais ofensas do que comumente, e o ápice do ataque foi quando Fael perde um gol e Romãozinho grita: “Tá com o pé torto, negro burro?”

Dessa vez Fael se enfurece e parte pra cima de Romãozinho. E os dois danam-se a brigar, a ponto de todos se reunirem em volta e ficarem gritando até chamar a atenção do diretor, que veio aos dois e deu uma bela suspensão. Creio que dessa Fael não escapa.

Mais tarde em casa, depois do acontecido na escola, ele leva uma bronca de seu pai. Seu Gilberto fala, e fala demais. E Fael mais ainda fica chateado por saber que ele não havia provocado aquilo, mas seu pai fala tanto que parece até sermão e lhe diz: “Em preto todo mundo presta atenção. Quando você faz alguma coisa correta, não fez mais do que a sua obrigação. Quando erra, mesmo que erre pouco, todo mundo diz que nós somos assim mesmo, que não merecemos confiança e que não temos educação”.

Ivete Sacramento (ex-reitora da UNEB) recebeu uma carta anônima enviada um dia depois da aprovação do sistema de cotas na universidade, em que a pessoa que escreveu diz, dentre outras coisas, que espera que os 40% de negros que entrarem na UNEB através das cotas tenham um mau desempenho para mostrar que preto é burro mesmo. Vejam trechos da carta aqui. 

Essa fala nada mais é do que o retrato mais nítido do ditado racista que diz que “preto quando não caga na entrada, caga na saída”. O que seria a representação da fala de Seu Gilberto ao passar essa bronca em Fael? Ou não é notável na construção discursiva do personagem a ideia que reforça que independente do que faça o negro jamais terá razão, e tudo que fará não será mais que um dever a ser cumprido? Fael não concorda e tenta se defender, seu Gilberto não deixa, mas ele insiste e diz: “Se ele fosse branco não teria que ouvir nada daquilo, e que ninguém cobra nada de menino branco”. Aqui, vale recordar o que disse Winnie Mandela (1988): “Na mais tenra idade, tive consciência de que os brancos se julgavam superiores a nós. E podia ver quão inferior meu pai parecia em comparação com os professores brancos. Isso fere nosso orgulho, quando se é criança”.

Depois da bronca, Fael está decidido e diz ao pai que irá atrás da fórmula mágica que fez Michael Jackson ficar branco. Ele irá de qualquer jeito atrás disso. O pai se espanta ao ouvi-lo e diz que é bobagem.

No mesmo dia à noite, Fael resolve voltar à escola, pegar sua parceira e ir atrás de Cid Bandalheira em busca do endereço do astro. Ambos atravessam a cidade à procura da rádio Roda-Viva FM. Fael quer porque quer falar com Cid e pegar o tal endereço. Ele não vê a hora.

Ao chegar à rádio, ele faz mil peripécias para conseguir falar com o Cid. Afinal de contas, todos querem falar com o radialista. Depois de muito pelejar, ele finalmente consegue.

Ao se deparar com o Bandalheira, Fael se assusta ao ver um homem que adora música e dançar preso a uma cadeira de rodas. No intervalo entre uma música e outra, Cid questiona o que de fato ele foi fazer por lá. Ele, meio que sem jeito, pede o endereço e diz o motivo. Cid Bandalheira, com um sorriso largo, pergunta qual era a razão que ele tem para querer ficar branco que nem o Michael Jackson. E Fael diz que se ele for branco ninguém mais o chamará de “carvão”, mas Cid ainda o questiona se ele fosse branco se gostaria de ser chamado de “branco azedo”. E Fael se espanta dizendo que não.

Exibida numa visão simplista, a fala do personagem de Cid Bandalheira remonta mais uma ideia sobre o “racismo às avessas”. Será mesmo que o efeito causado numa criança negra ao ser chamada de “carvão”, “negão”, “picolé de asfalto”, é o mesmo efeito numa criança branca ao ser chamada de “leitinho”? Cabe aqui uma imensa ressalva a ser feita, pois o significado que há por trás das palavras que ofendem uma criança negra é muito mais contundente, tendo em vista seu precedente histórico. E este é muito mais aflitivo, porque os apelidos colocados nas crianças negras trazem a marca da inferioridade e remetem a contextos que só lhes reservam a qualidade de incapaz, em que está subjulgado. Enquanto que a branquitude é sempre associada à ideia de bondade, inteligência, honestidade e bom caráter.

Isso só vem a reforçar o ideal de brancura ao que lhe é atribuída e os privilégios que a sua cor lhe traz. Pois ser branco no Brasil, é a garantia de um caráter patrimonial que a cor oferece, já dizia Muniz Sodré.

Na sua cadeira de rodas, Cid explica que quando era criança também tinha um monte de apelidos, mas que ele dava um jeito fazendo o que os outros faziam com ele. Colocava apelidos também, e depois de um tempo as outras pessoas acabavam esquecendo e ele seguia sua vida. Mas Fael olha para ele sem continuar entendendo o que deveria fazer para se livrar daqueles apelidos, e Cid resolve explicar o que é preconceito. Cid diz que preconceito são algumas bobagens que pensamos e dizemos aos outros. “Era como se fosse assim, quando acreditamos que somos o que as pessoas dizem da gente ou pra gente. É aquela coisa que eu penso e você acaba acreditando que é verdade”. E Fael questiona se Cid não queria ficar branco. Ao que ele responde que se isso não o deixaria mais bonitão, nem faria com que ele tocasse guitarra como Jimi Hendrix, ele não queria ficar branco.

Desconsidero aqui o significado de preconceito, pois, segundo o dicionário Houaiss, preconceito é o julgamento ou opinião concebida previamente; opinião formada sem fundamento justo ou conhecimento suficiente. No contexto em que a história discorre, adaptar o conceito de preconceito ao universo infantil se faz necessário, por conta das adequações de fala que o autor que se dedica a esse público deve fazer. O que não é o caso no presente discurso, tendo em vista todo o recorte que os personagens tiveram. Falar que preconceito “são algumas bobagens que pensamos e dizemos aos outros” é desprezar os efeitos degenerativos que este causam. Sendo assim, vejo de modo proposital a explicação que é posta e está longe de ser inócua, inclusive pelo seu caráter mais uma vez simplório que lhe é dado.

Fael após ouvi-lo resolve seguir seu conselho e esquecer a ideia de ir atrás de Michael Jackson. Os dois, como se parecessem bons e velhos amigos, agitam a rádio; Fael pede para tocar suas músicas favoritas e Cid avisa aos seus pais onde ele se encontra para que se tranquilize, já que era tarde e não sabiam onde Fael havia ido.

No dia seguinte, na escola, todos querem falar com Fael e saber como ele havia se tornado amigo do famoso Cid Bandalheira. Todos vêm até Fael e tenta conversar e saber mais sobre o acontecido, e ele todo contente explica. Após a noite na rádio, todos se aproximam do garoto amigo de Cid, e, enquanto ele brinca com as crianças da escola, ninguém mais o importuna com os apelidos chatos que lhe tiravam a paciência. Sua aparição no programa fez ficar notado na escola e fazer novos amigos. Nota-se aí a presença de uma mensagem subjacente e falaciosa de que as pessoas negras sofrem preconceito por conta da exclusão e da invisibilidade social a que são postas. Pois quando uma pessoa de pele preta fica rica e famosa, ela automaticamente se torna imune aos efeitos do racismo.

Ao final do enredo, o autor nos traz como desfecho que toda aflição vivida pelo protagonista finda com sua aparição na rádio local, em que ele é anunciado e acaba se tornando amigo do radialista famoso, e conhecido por todos, ganhando fama e notoriedade. Como se a solução dada para o desaparecimento dos preconceitos contra ele fossem maquiadas nas relações que agora constituiria. Seus amigos esqueceriam que ele era negro pelo simples fato de ele ter aparecido na rádio. Ou melhor, sua nova condição de estrela pelos seus quinze minutos de fama havia apagado todo o seu martírio em torno do preconceito racial em que vivia. Será mesmo? Será que isso ficará claro no consciente de nossas crianças quando resolvermos trabalhar esse material em sala de aula, depois na enxurrada de preconceitos que se viu até aqui? Ou será responsabilidade docente executar a tarefa de desfazer do imaginário infantil todo esse circo de horrores que está posto nos livros de literatura e didáticos? Os e as profissionais da educação são tão poderosos assim a ponto de fazer com que uma criança passe a não mais acreditar naquilo que vê e é reforçado diuturnamente? Pois o currículo escolar é o da reprodução da cultura dominante e do controle social dos dominados, e ainda segundo Ana Célia da Silva, nele consiste:

Tal qual o esquema histórico racial elaborado por Fanon1, a partir da visão do outro, do branco, tecido com detalhes, anedotas, contos, no Brasil, a imagem que o branco faz do negro é construída com detalhes, anedotas, contos, provérbios, noticiários de jornais, artigos de revistas, programas e anúncios de TV. Essa representação tem como um dos seus principais veículos de disseminação o currículo escolar brasileiro.[3]

Não creio que doravante seja somente de responsabilidade docente desfazer tudo que vem sendo veiculado nos livros. A escola não está fora da sociedade, e as pessoas que trabalham nela nasceram e foram criadas no mesmo mundo que as demais pessoas, e por isso receberam o mesmo condicionamento cultural que todas as outras pessoas também receberam. Pois construir uma ideia ou uma identidade é tarefa menos árdua que desfazer toda uma construção feita em torno de algo. Afinal de contas, tivemos mais de trezentos anos de negação de nossa cultura e identidade, e por isso não precisamos prosseguir nessa linha. Pois o massacre feito à população negra até os dias de hoje é oriundo dos anos de extermínio físico e cultural que a sociedade brasileira ainda insiste em negar. A nossa história é, até hoje, marcada pela resistência a todas essas formas de extermínio a que estamos submetidas.

Se inventariarmos todos os ataques à cultura, identidade, modo de vida, aspectos da religiosidade, contribuição da culinária, notaremos que ainda temos um saldo devedor que não nos foi pago. Os nossos ainda são mortos e atacados nas favelas, nas avenidas e praças deste país. Digo isso sem medo de fugir às estatísticas, pois ao constatar o que está nas geladeiras dos IMLs veremos que não há nada de exagero na minha fala. O que mostro é a maneira nada sutil de ataque à população negra, e esta se faz também na tenra idade.

Ainda acham que felicidade não tem cor? Pois saibam que felicidade não só tem cor, como endereço e status social. Estipular que uma criança negra que passa toda a sua infância sendo discriminada por conta da sua cor, e com isso todas as oportunidades lhe são negadas, por ela pertencer a um grupo social que representa a minoria nesse país, terá a mesma sorte que uma criança branca que, ainda que pertencente à mesma classe social da negra, trará consigo os atributos que a branquitude lhe ofertará, e isso irão amenizar os percalços a seguir, é mais que do que precisamos discutir. Os lugares sociais de brancos e negros podem até ser os mesmos, mas a branquitude oferece uma vantagem social ao branco que nem ele mesmo faz ideia. Afinal, quantas vezes vocês já ouviram um branco pobre olhar para a cara de um preto pobre e dizer “pelo menos eu não sou preto”?

  • BRAZ, Júlio Emílio. Felicidade não tem cor. Coleção Girassol. 2ª ed. São Paulo. Ed. Moderna, 2002.
  • HOUAISS, Antonio. VILLAR, Mauro de Salles. Minidicionário Houaiss da língua portuguesa. 3ª edição revista e aumentada. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008. p. 597.
  • LIONÇO, Tatiana. DINIZ, Débora (organizadoras). Homofobia e educação: um desafio ao silêncio. Brasília: Letras Livres: EdUnB, 2009.
  • MORRISON, Toni. Remember: the journey to school integration. New York: Houghton Mifflin Company, 2004. p. 32.
  • MOSCOVICI, Serge. A representação social da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar. 1978 Apud SILVA, Ana Célia da.  A representação social do negro no livro didático. Salvador: EDUFBA, 2011. p. 27.
  • SILVA, Ana Célia da. A discriminação do negro no livro didático. 2ª ed. Salvador: EDUFBA, 2004. p. 41
  • SILVA, Consuelo Dores. Negro, qual o seu nome? 2ª Edição – Belo Horizonte: Mazza Edições, 1995.  p. 14.
  • SODRÉ, Muniz. Entrevista no Programa Roda Viva, em 25/06/2012. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=LPxH2Z2Dzi0. Acessado em 27/08/2012)
  • VAIL, John J. Winnie e Nelson Mandela. Coleção Os grandes líderes. São Paulo: Ed. Nova Cultural, 1988. p. 19.

[1] SILVA, Consuelo Dores. Negro, qual o seu nome? 2ª Edição – Belo Horizonte: Mazza Edições, 1995.  p. 14.

[2] MORRISON, Toni. Remember: the journey to school integration. New York: Houghton Mifflin Company, 2004. p. 40

[3] SILVA, Ana Célia da. A discriminação do negro no livro didático. 2ª ed. Salvador: EDUFBA, 2004. p. 41

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