Carta aberta à minha amiga Allana Paim

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 “…reservar cotas para negros no meu entendimento é uma forma de racismo”

É assim que começarei a falar sobre o sistema de cotas no Brasil. Primeiro quero explicar por que inicio o texto com essa frase. Participo de uma rede social, e nela publico toda sorte de coisas que acredito, defendo ou até mesmo repudio, enfim. E numa dessas postagens, uma amiga fez o seguinte comentário: 

Cara amiga Allana, quero dizer que sou a favor, sim, de uma escola pública de qualidade e que possa contemplar a todos. Afinal de contas, você, minha amiga, bem sabe que sou pedagoga, e mais do que ninguém anseio por uma escola pública de qualidade. Primeiro, por conta da minha formação: não tenho pretensões de me integrar à rede privada de ensino, até então, e não espero ser cooptada por esta, porque também acredito nos direitos que não são individuais e privilégios de uma minoria, mas coletivos e que toda e qualquer pessoa deve ter acesso. Sou oriunda de escola pública. Estudei até a antiga quinta série na rede privada, depois ingressei na rede pública. Estudei numa das melhores escolas públicas do estado – Colégio da Polícia Militar; lá, fiz o ensino fundamental e médio. Tive educação militar, porque se as escolas militares, juntamente com as federais e as de ensino técnico, são as melhores escolas da rede pública de ensino no país hoje, imagine na década de noventa. Só para você ter uma ideia, eu tive de me submeter a uma seleção pública para ser admitida no CPM (o que significa dizer que esta escola não queria, como ainda não quer, qualquer pessoa lá dentro). Ou seja, não estudei numa escola pública qualquer. Hoje, sou estudante da melhor universidade do estado em que moro – UFBA – que é uma universidade pública federal. Achas mesmo que não desejo uma escola pública de qualidade?

Agora, vou falar por que eu defendo o sistema de cotas no Brasil, especialmente por que sua constitucionalidade não se dá no campo do segregacionismo. Não sei, minha querida amiga, se você, moradora do bairro de Valéria, um bairro paupérrimo em Salvador (assim como Cajazeiras, bairro onde eu moro), foi contemplada com uma boa escola que oferecesse ensino de qualidade e oportunidade de ter ingresso nas melhores universidades do seu estado. Se não me falha a memória, você estuda na Faculdade Jorge Amado, uma faculdade particular, que foi feita para produzir mão de obra barata e de má qualidade para esse mercado de trabalho voraz que temos. Ou seja, você é mais uma a compor o exército industrial de reserva do sistema capitalista (como bem disse Karl Marx em O Capital), que tem por função fornecer mão de obra farta e barata e baixar os salários.

E onde entra o sistema de cotas até aqui?

Acredito que você, que estudou o ensino secundário em escola pública, teve aulas de história, como eu tive. E nas aulinhas de história, suponho que você não tenha aprendido nada sobre o sistema escravista e seus resquícios para a sociedade atual. Eu também não aprendi tudo que sei na escola. Mas tive de me esforçar para tentar entender o que acontecia no meu entorno. Sim. E sabe por quê? É simples. Minhas avós eram lavadeiras e marisqueiras lá em Mar Grande, distrito do município de Vera Cruz. Elas não tiveram chance de entrar numa escola, porque tiveram de trabalhar desde cedo para ajudar no sustento da família (entrar numa faculdade era algo com que elas nunca tiveram sequer a oportunidade de sonhar). Já meus avôs também não tiveram chance de estudar. E sabe por quê? Porque tinham de sair de madrugada pra pescar e, quando retornavam, tinham de encher os tonéis de água para os veranistas da ilha. Eles eram o que se chamava no período escravista de aguadeiro (função que meu pai posteriormente também exerceu). E assim foi com meu pai e minha mãe, que só tiveram a oportunidade de estudar até à antiga quarta série primária. Eles só precisavam mesmo aprender a escrever o nome. Meu pai teve a sorte de entrar no serviço público porque foi ‘catado’ na feira. Ãhn, como assim? Isso mesmo, na década de 1960 (mais precisamente, após o golpe civil-militar de 1964) havia um coronel da PM que estava à procura de homens para reforçar o braço armado do Estado e ir para o sertão caçar cangaceiros, enfrentar matadores de aluguel e correr atrás de ladrões de carga nas estradas. E foi nessa que meu pai se tornou funcionário público da Secretaria de Segurança da Bahia (ele só tem uma aposentadoria que lhe permite viver com um mínimo de dignidade humana hoje por causa disso). Minha mãe não teve a mesma sorte. Ela sempre trabalhou em casa de família, tomando conta dos filhos dos outros, costurava, vendia doces, enfim, se virava para ter seu trocadinho e sustentar a família. Ah, tem também minha querida tia Celina (irmã dela), que tem quase setenta e cinco anos e é analfabeta de pai e mãe (e não é aquela analfabeta funcional que temos hoje). Minha tia não conhece nem dinheiro, tanto que ela mora num além do interior de Feira de Santana, e é lesada pelo pastor da igreja. Sem meias palavras, além de tudo isso ela é roubada com a ajuda da alienação religiosa. Agora, tem a terceira geração da família, composta por mim e meus irmãos. Nós tivemos acesso à educação, porque isso meu pai sempre achou importante oferecer aos filhos dele. Eu sou a caçula de quatro filhos e a única que ingressou na universidade. Minha irmã mais velha só completou o ensino fundamental e trabalhou na casa de família a vida toda. Meu irmão sequer concluiu o ensino médio e trabalha como vigilante e cobrador de Topic (ele tem que se virar, pois a filha dele nasceu mês passado e ele precisa comprar o leite e a fralda dela). Meu outro irmão concluiu outro dia o ensino médio por exigências do trabalho, e também trabalha como vigilante – em dois ou três lugares diferentes, pois ele tem mulher e cinco filhos para sustentar.

Fazendo uma breve análise sobre os precedentes históricos de negras e negros no Brasil, dá pra explicar porque o sistema de cotas é constitucional – e fundamental para corrigir as abissais distorções entre brancos e negros no Brasil. É uma política de reparação, sim. E que tem por meta começar a saldar uma dívida história com a nossa sociedade, especialmente com os descendentes das pessoas que foram arrancadas da sua terra, trazidas para cá em condições subumanas, obrigadas a trabalhar debaixo de porrada, mutiladas, torturadas, estupradas e assassinadas quando resolveram gritar contra a indignidade em que viviam. Porque muitos negros e negras lutaram e morreram para que eu pudesse estar na UFBA hoje. Só que eu sou a exceção no meio dessa ilha de miséria que vivemos. A regra se vê todo fim de semana nas geladeiras do Instituto Médico-Legal à espera de reconhecimento da família para serem enterradas.

Ou você, Allana, gostaria que um português de Coimbra viesse ao Brasil, te levasse para seu país, lá te impusesse uma nova fé, uma nova língua, e te escravizasse para que produzisse riqueza pra ele, além de te chibatear quando dissesse que estava cansada, precisava de água e comida e não aguentava mais trabalhar – e no entremeio desse regime de terror, ainda te obrigasse a satisfazer todas as taras sexuais dele. E a única coisa que você receberia em troca seria mais chibata, agora em praça pública para servir de exemplo e nunca mais desrespeitar seu dono quando se recusasse a cumprir uma ordem dele. Depois disso tudo (e muito rapidamente), você estaria velha e inútil diante de tanta exploração. E ele, do alto da sua generosidade e caridade cristãs, resolveria te libertar para que aproveitasse seu fim de vida pedindo esmolas nas ruas, dormindo nos bancos das praças e tomando porrada da polícia por incidir no crime de vadiagem. Só que com um grande detalhe: você não teria dinheiro, não saberia falar a língua nata de Portugal, não saberia ler e escrever e não saberia o que fazer para voltar para o Brasil e rever sua família em Valéria. Ou seja, você estaria na merda.

Isso foi o que aconteceu com negras e negros escravizados no Brasil de 1500 até 1888. Mais de trezentos anos de escravidão. E agora vem você me dizer que não é favor de cotas pra negros porque parece inconstitucional? Inconstitucional é a pobreza, a miséria, o desemprego, o subemprego, os baixos salários, a violência policial, a falta de educação e atendimento médico de qualidade, a carência de perspectivas, a humilhação, a invisibilidade social, a exclusão, ser vista e tratada como bandida até que se prove o contrário. Faça-me o favor!!! Sugiro que conheça um pouco mais da história da construção da sociedade em que está inserida e perceba o que acontece à sua volta, ao invés de ficar soltando ideias como essa que não contribui em nada para ajudar a consolidar políticas públicas de reparação e igualdade de um povo que resiste para manter sua dignidade e o futuro de seus descendentes.

Se quiser a minha ajuda para isso, fique à vontade. Estou à sua disposição.

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  6. Adorei seu texto. É surpreendente a quantidade de pessoas que vem com essa lorota de ser contra cota, mas a favor de uma reforma do ensino, que sabemos que não vai acontecer nunca. Então, que fiquem as cotas.

    “Inconstitucional é a pobreza, a miséria, o desemprego, o subemprego, os baixos salários, a violência policial, a falta de educação e atendimento médico de qualidade, a carência de perspectivas, a humilhação, a invisibilidade social, a exclusão, ser vista e tratada como bandida até que se prove o contrário”

    O máximo!

  7. Paula, eu sou o professor Fabio Valente de Moraes, do colégio Sara Kertész. Aquele que pediu para que suas/seus alunas/os fizessem uma resenha do seu texto “Meu cabelo, o racismo e o mito da caverna”. Você chegou a receber alguns comentários de algumas alunas minhas das turmas de 1º Ano do Ensino Médio. Lembra?

    Parabéns pelo seu texto.

    É incrível como todos os argumentos contrários às cotas que tenho lido e escutado são fracos, porém, não deixam de ser perigosos (ainda mais nas Redes Sociais). De Demétrio Magnoli, passando por Ali Kamel, ao posicionamento “infeliz” que ilustra este post, tudo não passa de olhares limitados acerca de algo muito mais complexo do que se pensa ou do que se quer enxergar.

    As pessoas precisam ler mais, discutir mais, ir para um lugar bem tranquilo (sem Internet, sem samartphone…) e refletir mais sobre as coisas do mundo, sobre si mesmas. Ou, como se faz, em alguns países: assumir que é racista e pronto.

    Racismo é uma ação de poder, na nossa sociedade quem tem poder são os brancos. Instituir o sistema de cotas nas Universidades Públicas é, no mínimo, uma atitude responsável diante de um sistema perverso e historicamente pautado na segregação. A atitude do STF é honrosa, mas, antes de tudo é resultado de lutas e de muita pressão dos movimentos sociais. Cota não é racismo às avessas, não existe racismo às avessas.

    Uma escola pública de qualidade se conquista. Jamais essa “educação norueguesa” será resultado do altruísmo dos nossos queridos representantes – como se, numa espécie de surto psicótico, acordassem um dia com muita vontade de fazer exatamente aquilo que deveriam estar fazendo. O caminho é inverso. Muita coisa precisa melhorar na escola pública (e na escola privada também), contudo, nós temos que conquistar.

    As/os alunas/os de escola pública são conscientes sim, são cidadãs e cidadãos que refletem e formulam opiniões, podem ter problemas com aquilo que é chamado pela pedagogia de “competências e habilidades” (ou não), mas, são seres pensantes, muito mais antenadas/os do que se pensa por aí. Questionam, problematizam, são criativas/os, indignam-se, reivindicam…sonham.

    Precisamos conhecer para evitarmos os preconceitos.

    Este ano, quatro alunas e um aluno foram aprovados em cursos do Bacharelado Interdisciplinar da UFBA. As cotas facilitaram? Na verdade, não. As cotas permitiram um traçado menos injusto entre a periferia e o Pavilhão de Aulas da Federação da UFBA.

    São jovens do Rio Sena e do Alto da Terezinha (Subúrbio Ferroviário de Salvador). Estudam na escola onde leciono desde o 6º Ano do Ensino Fundamental. Para fazer a prova do ENEM, como painho e mãinha não tem carro, tiveram que enfrentar a famigerada redução de ônibus do final de semana. Elas e ele nunca foram ao teatro, não possuem internet banda larga em casa, não possuem TV por assinatura, nunca entraram numa biblioteca, nunca foram a um museu ou a uma exposição de arte, moram em áreas violentas, suas ruas sofrem com falta de esgoto, alguns dos seus colegas de infância foram mortos em “confronto com a polícia”, estão à mercê de postos de saúde precários, vivem em bairros sem área de lazer, sem espaços culturais etc. Duas dessas meninas foram mães com menos de 18 anos…suas famílias não tem bacharéis, não programam viagens nas férias para além da Ilha de Itaparica, não sabem o que é um diploma.

    Hoje Carla, Jessica, Laiane, Fernanda e Juliano (assim como Denise, Ester, Paula, Claudineia, Leisilene e Daniele, de anos anteriores) são estudantes da Universidade Federal da Bahia. Usaram as cotas, superaram desafios, fugiram das estatísticas e estão ocupando um lugar que lhes pertence, um lugar distante para seus pais e antepassados, mas, que com certeza, seus filhos verão de perto.

    Um novo desafio: utilizarei as cotas em prol do ensino noturno, da EJA. Afinal, eles também merecem sonhar…Quando puder, veja:

    Continue com seus textos sensatos e indignados.

    Grande abraço

  8. Acho que ao invés de perder tempo quem esta certo ou errado, temos que nos unir, e pressionar as nossas autoridades e governantes para que, eles resolvam nosso problema.
    E Tb ate sugerir um projeto que filho de político teria obrigatoriedade de estudar em escola publica, porque ai sim n seriam só (negros) mais sim toda a sociedade sairia vitoriosa, sendo assim penso que é perda de tempo esta discutindo esse assunto, acho eu que todo mundo tem capacidade de ser estudar na UFBA, temos que debater sim, porque essas pessoas n têm condições de disputar uma vaga e tentar solucionar o mais rápido possível.
    N sei se vocês esqueceram, eles assinam mais quem manda é o povoo e se todo mundo apertar e exigir resposta rápida concerteza eles vão resolver ate porque estamos em ano de eleição…
    Acho essa minha ideia valida e quero que todos pensem sobre isso…

  9. Paula, bela resposta! Pena que a Allana nem se quer procurou outras leituras para que com isso conhecesse a nossa história de verdade, sem mentiras, ladainhas e falsa democracia racial e mantém a mesma opinião.
    Cotas Sim! Reparação Já!

    P.S.: Leio sempre suas postagens e comento com meus amig@s. Voc~e se expressa muito bem, sempre. Parabéns!

  10. Por que será que a nossa sociedade se incomoda tanto com as cotas? O pior é que ideias como de sua amiga tem encontrado muita cabeça vazia pra entrar. Outro dia, minha sobrinha (negra), que estuda no Anchieta (diga-se de passagem) me veio com essa lorota… achou que eu concordaria com ela! Na verdade, eu só fiz perguntar pra ela duas coisas: quem é maioria na escola pública, brancos ou negros? Vc acha que com um ensino público que nega conhecimentos básicos aos alunos, estes estudantes, brancos ou negros, teriam condições de competir com vc, que vem do Anchieta, no vestibular da Ufba, por exemplo? Eu tenho certeza que essa ideia que tentaram implantar na cabeça dela partiu de algum professor estúpido cooptado por esse sistema predatório!

  11. Desculpa, cara amiga se você não conseguiu entender o que quis dizer, talvez eu não soube me expressar ou talvez diante de tanta mágoa você não tenha conseguido compreender. Não foi minha intenção em momento algum ofendê-la. Mas, mantenho a mesma opinião. E nunca que esqueça que sou tua amiga e que te adoro. Bjos e fica com Deus.

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