A branquitude subentendida

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Há algum tempo, converso com um cara que mora nos Estados Unidos através de um programa de compartilhamento de arquivos, que tem um chat. Logo no início do nosso bate-papo, conversávamos sobre músicas, estilo musical que nos atraía, enfim.  Nesse meio tempo, resolvemos nos apresentar, falar um pouco de nós, ou pelo menos tentar. Tínhamos em comum o gosto pelo jazz, em especial pelo saxofonista John Coltrane, que é fantástico.

Foi quando falei meu nome, e a partir de então senti que meu companheiro de bate-papo estava do outro lado retraído na conversa. Não havia entendido. Pensei que havia soltado alguma gafe, uma indelicadeza, visto que conversávamos em língua inglesa. Ele não tem a menor noção de português e eu sou uma reles iniciante no idioma inglês.

Tentei conversar novamente com ele e perguntar se havia algum problema, ou se eu o tinha ofendido, qualquer coisa do tipo que me trouxesse uma justificativa válida para aquela retração. Foi quando meu amigo disse que é um homem negro. De cara, não havia entendido exatamente o que ele queria me dizer com essa afirmação. Sim, e daí? Algum problema? Você é um homem negro, até aqui não vejo nada de mais. Ele perguntou: “mas como? E seu nome?” Novamente questionei: O que há de errado com o meu nome? Ele insistiu: “seu nome parece nome de mulher branca”. Ãhn? Depois disso, entendi menos ainda. Foi quando resolvi dizê-lo que eu sou uma mulher negra. A sensação de espanto e alívio foi notável mesmo estando longe um do outro.

De fato, não havia entendido a relação do meu nome com a cor da minha pele; nunca tinha pensado nisso com tanta perspicácia. Mas depois tudo ficou claro, pois nos Estados Unidos, o que não é diferente no Brasil, as pessoas levam consigo o nome de acordo com a sua classe social, e com isso sua etnia. Claro! Isso parecia óbvio, não sei por que não havia percebido isso há mais tempo.

Querem um exemplo claro do que acabei de falar? Quando minha ex-vizinha teve sua primeira filha, ela pôs o nome na menina de Brenda Evelyn. Nossa! Fiquei em choque na época, tanto que cheguei a comentar com minha mãe se não havia nome melhor pra ter posto na garota. Cheguei a dizer que parecia mais nome de cachorro de madame.  Só salientando, a minha ex-vizinha é preta e pobre, ou seja, aqui está um exemplo de nome de preto/pobre.

Certa vez, em conversa com uma colega sobre processo seletivo para trabalho, ela havia me dito que um amigo seu trabalha no setor de RH de grande empresa e seus superiores contratavam as pessoas pelo nome que tinham e pelo bairro onde moravam. Perguntei para ela: mas como assim, pelo nome? Ela me disse que a chefia da empresa disse que conhece pobre pelo nome, a exemplo de Richarlysson, Michael Kelvin, Raphaella Ysterfanny, Alisson Jonh, Richelion, Elvisson, Vanderglaidson. Depois desse relato, confesso que fiquei estupefata, mas depois entendi como as coisas funcionavam. Já que não se pode mais colocar a foto no currículo, nem exigir que as candidatas tenham ‘boa aparência’, porque já está visado, o processo se dá agora pelo chamado “currículo oculto”, ou seja, pelo nome. É o racismo utilizando-se de outros estratagemas. Perceberam?

Agora, vejam alguns casos de “nomes de rico”.  O nome do primogênito do casal Luciano Huck e Angélica é Joaquim. Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert batizaram seus gêmeos de João e Francisco. O filho de Fábio Assunção foi batizado como João, e por aí vai. Ou seja, é fácil perceber se uma pessoa ‘tem berço’, ou não.

Os ricos não colocam nomes pomposos nos seus filhos porque não precisam. Eles já tem sobrenomes chiques, e por isso pouco importa batizar o filho com o nome de João, Francisco ou Joaquim. Já os pobres, não. Como eles “não são ninguém”, é necessário colocar um nome extravagante, cheios de letras duplas [“ll”, “nn”, “mm”…] e trocar o “i” por “y”, por exemplo, para dar um ar estrangeirado ao nome da criança. Afinal, é preciso colocar um nome “diferente”, que “nem todo mundo tem”, para que aquela pessoa se diferencie no meio daquele mar de invisibilidade social em que vive.

Depois desse mal-entendido, continuamos nosso bate-papo quase que diariamente. Mas tive de esmiuçar todo o acontecido para que entendessem o que de fato quero explicar.

Esse foi só um exemplo das coisas que cotidianamente acontecem comigo, essa associação da minha cor com características sociais e comportamentais. Porque pode parecer estranho, mas as pessoas não me concebem como uma mulher que estuda, é independente, não tem filhos – porque, na minha idade, grande parte das minhas amigas de infância são mães; apesar de morar numa periferia, não estou detida aos trabalhos subalternizados que conhecemos (sem nenhum demérito a estes), mas tive a opção de escolher o que queria fazer da minha vida, optei por estudar e colher os frutos. Além disso, gosto de jazz (as sessões de Jazz no MAM que o digam), blues, leio livros (ultimamente tenho lido bastante), escrevo artigos, tenho uma produção literária bastante singular, tenho artigo publicado em livro, adoro comida vegana, vinho, filmes (feliz ou infelizmente, por influência da minha formação de pedagoga, conservo na minha estante apenas filmes com caráter educativo), estudo língua inglesa, falo com outras pessoas ao redor do mundo em inglês, como já havia dito no início desse post, enfim. Todas as características que não competem a uma preta, pobre e favelada que sou.

Parece estranho, não? Mas é assim que sou, e é justamente assim que as pessoas não me veem. Por eu ter supostamente a cara da empregada doméstica da casa de fulaninha, da vendedora ambulante da esquina, da garçonete daquela lanchonete vagabunda do bairro, da vendedora de AVON, Natura e similares, e por aí vai.

*  *  *

Atribuo a isso a referência da branquitude subentendida. Isso mesmo, a associação que as pessoas fazem de uma pessoa com a cor que deve ter. Que tipo de atributos devem trazer.

Sabem aquela sinalização de masculino e feminino do banheiro público que conhecemos? Pois então, quando olhamos para aqueles bonecos desenhados, isso pode parecer estranho, mas não percebemos que a representação daqueles bonecos é de pessoas brancas. Mas como assim? Simples. Quando alguém nos pede para fazer um desenho de pessoa negra, o que destacamos nessa pessoa, a fim de diferenciá-la como negra? O cabelo rasta ou black, não é mesmo? E se fosse um índio, faríamos um cocar. Se fosse um oriental, faríamos os olhinhos puxados. Perceberam a malícia? Eu também não tinha percebido com minúcia esse detalhes tão corriqueiros no nosso dia-dia. É a branquitude como regra, com padrão a ser adotado.

Outro caso a ser observado é o sinônimo da brancura como bondade, pureza, limpeza, honestidade, hombridade, boa saúde e bom caráter. No domingo, minha mãe resolveu me fazer uma visita e no meio da conversa e dos “causos” que ela me relatava, ela disse que uma conhecida havia sido roubada por uma suposta vendedora, dessas que sai de porta em porta para vender seus produtos. A tal vendedora tinha batido em algumas casas e não obteve sucesso, foi que na última ela conseguiu entrar e anunciou o assalto à conhecida de minha mãe. Minha mãe falava: “ela era loira e bem vestida, não tinha ‘cara de assaltante’, quando sacou o revólver e botou nas fuças de fulana.” Pois é, loira, bonita, bem apresentável, não tem cara de ladra. Afinal de contas, loira e ladra? Se fosse pretinha? Conseguiram notar a relação?

Isso acontece muito com os turistas estrangeiros que vem ao Brasil, em especial à Bahia. Porque uma parte significativa vem atrás do turismo sexual, quanto a isso não tenho dúvidas, e quando chegam aqui, principalmente no Pelourinho, e veem aquelas mulheres negras retintas, encorpadas, cheias de gingado (!), ficam loucos. E a recíproca é verdadeira, porque muitas dessas mulheres veem esses estrangeiros como bom e belo. E logo pensam, são estrangeiros, falam outra língua, com certeza é gente boa. Tem algo mais explícito que isso? A faceta da branquitude mais escancarada que essa? A imagem do bom e do belo afeitas ao homem branco?

Dia desses, numa conversa com um colega de trabalho, ele disse que tinha um amigo que trabalhava numa clínica num bairro nobre de Salvador que só atende as grã-finas da cidade. Esse amigo, às escondidas, tirou algumas fotos das pacientes da clínica, todas loiras, lindas e aparentemente saudáveis. E perguntou pra ele: “e aí cara, você pegaria essa loiruda aqui”? Ele, todo entusiasmado, disse: “pô, velho! Essa loiraça aí, pego sim. Toda linda, carinha de boneca.” O amigo continua: “pois é, linda, loira e aidética”. Ele grita: “o quê, velho? Que isso? Essa mulher? Tem certeza? Essa mulher com essa cara? Toda linda? Quem vai dizer que essa mulher é barreada?” O amigo continua: “pois é, você não dá nada aqui, mas lá só vai mulher assim, loira, em cima do salto, bem vestida, mas toda podre por dentro. E depois a gente fica nessa achando que só as minas do nosso bairro que é doente porque saem pegando geral (como se as branquinhas com corpinho de modelo e carinha de boneca não dessem adoidado por aí)”. Mais uma vez, a branquitude como sinônimo de salubridade.

Lembro-me de um caso recente acontecido no interior da Bahia, em Alagoinhas, de jovens de classe média, filhos de fazendeiros, famílias abastadas e de prestígio na cidade que saqueavam passageiros de ônibus e carros e roubavam caminhões de carga nas estradas próximas à região de Alagoinhas. Quando foram pegos pela polícia devido às denúncias que foram feitas, o caso causou espanto na cidade, a ponto da jornalista que fez a reportagem dizer que por serem de classe média, ricos e brancos, não tinham justificativa válida para cometerem os crimes que cometeram. Ou seja, branco e rico não tem motivo para ser ladrão. Quem rouba é preto e pobre, porque sua índole o induz ao feito.

Conseguiram acompanhar até aqui a relação dita no início do post com os exemplos dados até então? Pois são nessas relações que muitas vezes nos deixamos levar pelo padrão imposto ao qual estamos acostumados a ver. Não estou aqui querendo mostrar o quão somos preconceituosos e racistas, mas quero só esclarecer o quando estamos eivados de estereótipos, sejam eles racistas, tendo o preto como ladrão, ou os ditos padronizados, tendo o branco como bom. Até porque num país que teve o precedente histórico que o Brasil teve, é difícil negar os resquícios preconceituosos que essa herança nos deixou, e os males que tem feito à sociedade, trazendo consigo vícios que muitas vezes passam despercebidos e nos achacam todos os dias por carregarmos conosco um conceito formal do que vem sendo adotado até então.

São as ditas regras da formalidade dominante.

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  1. Grata a todas pelos comentários.
    Sarah, obrigada pelo comentário. Espero um dia desses publicar sim meu livro.
    Del Fernando, fico extremamente feliz por estar contribuindo à sua formação escolar, fique sempre à vontade para ler e socializar meus escritos.
    Lucia Isabel, adoraria escrever um livro porque, de fato, tenho muitas histórias pra contar, até lá vou socializando minhas ideias aqui com vocês. E fico na espera de alguém que queira um dia publicar meus escritos.
    Carol, estou sem palavras. Feliz é o sentimento que trago comigo por saber que minhas palavras te contemplam. É imensa a satisfação,saiba disso. E continuemos nessa luta árdua e constante.

    Grande abraço e até mais.

  2. Amei o texto,já o comecei a lê-lo pois a indicação de DEL é uma prova de qualidade.Concordo com Sarah,publique um livro,acho que você deve ter muitas histórias para contar e nós para lê-las.Parabéns.LUCIA

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