Aniversário de Salvador. Qual presente lhe dou?

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É aniversário de Salvador e a programação na cidade para comemoração de mais uma primavera baiana está diversa.

Salvador é uma cidade idosa, tanto pela data de sua fundação, afinal de contas são 463 anos, como pelos aspectos notáveis demonstrados pela péssima infraestrutura que apresenta comparada às demais capitais que conhecemos. Porque ao contrário do que disse a ilustre estrela da música baiana Ivete Sangalo, em carnavais passados – não lembro agora em que ano isso foi dito – Salvador não é uma cidade de 463 anos no corpinho de 200, não. Na verdade, a artista estava mais querendo fazer média com os políticos locais na sua passagem pelo circuito carnavalesco.

Em 2014 ela será uma das subsedes da Copa, ou pelo menos é o que dizem. Mas isso é assunto pra outro post, por enquanto quero me deter a outros aspectos que julgo ser mais importantes. Vamos lá:

Um breve passeio pela nossa história mostrará como se constituiu a cidade de Salvador. E a própria capital fala por si. No centro histórico há muito a se encontrar. Salvador foi a primeira capital do Brasil a receber negros escravizados trazidos da África, e as contribuições para formação do povo que temos hoje foram gigantescas. Em terra habitada por colonizadores europeus, indígenas nativos e negros escravizados há muito pra se contar. E é aqui que surge a minha singela pergunta: por que em terras de maioria populacional negra (a população de Salvador ainda continua sendo de maioria negra até hoje. Isso não mudou do século XIX para cá), com um legado histórico abrangente, ainda insistimos em negá-los? Negá-lo? Sim.

As contribuições deixadas pelos negros escravizados que aqui foram despejados são muitas, e o que vimos é a exaltação de outras figuras que tiveram seu grau de importância elevado ao extremo do que lhe é devido. E isso é simples, basta olhar o nome das praças, ruas, avenidas, escolas e até do aeroporto da cidade de Salvador. Acham que exagero? Vou mostrá-las.

Comecemos pelo Conde Joaquim Pereira Marinho, um dos maiores traficantes de escravizados da Bahia no século XIX. Esse cidadão nomeia um edifício situado no bairro do Comércio, que abriga a Fundação Clemente Mariani, pertencente à família Mariani, herdeira de parte das riquezas adquiridas com o tráfico de escravizados praticado pelo Conde. Em 1850, Pereira Marinho, com o fim do tráfico de escravizados por conta da Lei Eusébio de Queirós, investiu seu capital em ações financeiras, e foi daí que surgiu o Banco da Bahia, em 1857 (que foi liquidado na década de 1970),  capitais que eram anteriormente aplicados pelo Conde Pereira Marinho no comércio de escravizados.

A senhora Clarita Mariani, esposa do senhor Clemente Mariani, o que leva o nome na Fundação, também fora homenageada, é claro. Ela nomeia uma escola pública estadual no bairro de Águas Claras. Será que alguém sabe disso? Até aqui vocês viram o nome de algum escravizado de Pereira Marinho em algum logradouro público? Nem eu. O fato é que um comerciante de negros escravizados fez fortuna com o tráfico e ainda é homenageado. Isso “só se vê na Bahia, só se vê na Bahia…”

Sabem quem é Duque de Caxias? Creio que muita gente também não sabe, mas logo lembram o nome de uma escola da rede estadual, no bairro da Liberdade, que é o bairro com a maior população negra do Brasil. Duque de Caxias foi um dos maiores caçadores e assassinos de negros no séc. XIX no Brasil. Além de arrasar vários quilombos, foi ele um dos organizadores do ataque covarde à única divisão militar rebelde que não havia sido derrotada pelas tropas legalistas na Guerra dos Farrapos (1835-1845): o corpo de Lanceiros Negros. Como os legalistas não conseguiram vencê-los no campo de batalha, as tropas do general Moringue (aliado de Caxias) atacaram os Lanceiros às duas horas da manhã do dia 14 de novembro de 1844 na região de Porongos e chacinou os combatentes enquanto estes estavam dormindo. Enquanto isso, Caxias fingia negociar a paz com o comando rebelde. Mera coincidência ou coisa da minha cabeça? Não é estranho que um assassino de pretos escravizados nomeie a principal avenida e a principal escola pública de um bairro eminentemente negro? A Avenida Lima e Silva, faz referência ao Duque de Caxias, por conta do seu nome, Luís Alves de Lima e Silva.

* * *

Buscando a história mais recente da cidade, recaio sobre a família Magalhães – aquela do senador Antonio Carlos Magalhães, o ACM – o cabeça branca da Bahia, também conhecido pelo vulgo de “Toinho Malvadeza” que era sinônimo de Ação, Competência e Moralidade no estado, ou como prefiro dizer, o “coronel” da Bahia. Qual foi o legado histórico que o governador biônico da década de 1970 (ele foi nomeado governador da Bahia pelo regime militar pela primeira vez em 1971) deixou para cidade? Até onde sei, nenhum. Mas aí os carlistas de plantão podem gritar que quando o dito-cujo era vivo Salvador era melhor, tanto que ganhou até notoriedade nacional, inclusive no cenário político do país. Será mesmo? Será que ACM tinha um espírito tão bondoso a ponto de promover Salvador e não obter ganhos com isso?

Essa família só fez fortuna com os jogos ilícitos promovidos por esse calhorda, e é claro, lançou seus herdeiros à roleta da fortuna. Não podia ser diferente, afinal de contas, o muito ainda é muito pouco para essa gente.

A filial da líder de audiência nacional aqui na Bahia pertence à família Magalhães. Temos uma avenida enorme em Salvador com o nome de ACM. Ele até mandou construir em outra avenida da cidade um monumento (uma estátua) em homenagem ao seu filho, o Deputado Luis Eduardo Magalhães na época do seu falecimento. E esse monumento tinha vigilância diuturna de guardas do Estado. Isso mesmo. Policiais militares pagos pelo Estado para fazer segurança ostensiva da população (teoricamente) é que faziam a guarda do elefante branco. Ops! Da estátua do finado.

Ah! No Pelourinho, centro histórico de Salvador, há um centro de memória também em homenagem ao velho. Tudo isso sem contar o número de escolas públicas que levam o nome da família (Colégio Modelo Luís Eduardo Magalhães, Colégio Estadual Senador Antonio Carlos Magalhães, Ginásio Arlete Magalhães). E não posso esquecer o nome do Aeroporto Internacional 2 de Julho, que levou esse nome por conta da data fazer homenagem a Independência da Bahia, e que fora mudado para Aeroporto Internacional Dep. Luís Eduardo Magalhães, mais uma vez um golpe do velho na jogada. Acho que já basta de família ACM, né!

Até aqui você viram o nome de algum negro que em 1835 fez a Revolta dos Malês estampado em algum lugar?

Para não dizer que tudo vai de mal a pior, temos uma praça em Salvador, que é a Praça da Piedade, onde negros escravizados eram torturados e iam à execução. E lá está a homenagem aos negros que no séc. XVIII fizeram a Revolta dos Búzios ou a Conjuração Baiana. Uma revolta pelo fim da escravidão e pela independência da província da Bahia, movimento inspirado nos ideias revolucionários franceses de Liberdade, Igualdade e Fraternidade. A praça dispõe de quatro entradas que fazem referência aos quatro mentores da revolta: Manoel Faustino dos Santos, João de Deus Nascimento, Luiz Gonzaga das Virgens e Lucas Dantas. Agora o engraçado de tudo isso é que os bustos feitos em homenagem aos revoltosos não existem mais, foram roubados, seus nomes estão impressos no chão da praça, lugar onde todos pisam, cospem e ninguém vê. Mero acaso ou implicância minha? Tirem suas conclusões.

A parte trágica de tudo isso (que chega a ser acintosa) é o ultraje de membros do poder público que sem o menor escrúpulo resolvem homenagear com um pequeno lisonjeio, déspotas que serviram a um regime de horror que foi o regime escravista no Brasil. Um país que até hoje tem uma dívida diante da sua população com o regime que serviu. Preservar as referidas denominações, nada mais é do que manter acesa a chama dos anos de tortura escravista e de afronta à dignidade humana que esta nação viveu. E mais que isso, é preservar na memória de quem de fato contribuiu na história a imagem beatificada de criminosos desta. Sujeitos que obtiveram lucros, dizimaram povos, e fomentaram ideais que até hoje são preservados visando manter o retrocesso nas diversas áreas em que esse povo possa agir.

É lamentável ver tudo isso, e pior, é deixar que isso se perpetue nos logradouros públicos como se a população corroborasse com tais decisões. Salvador é uma cidade histórica, teve seu legado renegado na construção desse país. E boa parte da sua população fora massacrada e devastada durante a escravidão, enquanto que alguns, num país dito democrático, defendem a memória daqueles que promoveram anos de terror que perduraram por séculos e deixa resquícios do regime nas relações sociais em vigor.

Enquanto isso na terra encantada do Mágico de Oz, Magary Lord anima a massa nessa grande farsa.

É o Panis et Circensis. Temos o circo, só nos falta o pão.

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  1. OI! querida Paula, muito bom seu artigo, realmente o nosso Aeroporto Internacional 2 de Julho, poucos sabem que 2 de Julho, trata-se de uma data, que custou milhares de vida na batalha pela Independência da nossa Bahia e que deveria ser uma data comemorativa nacionalmente e se chamar Independência do Brasil, pela Bahia, o nosso aeroporto que teve seu trocado de nome como se a data não tivesse nenhuma significação histórica, simplesmente por capricho, imposição do poder mandatário “faço o que mando”. Poucos sabem que lei 6.457 de 1997, proibe a da nomes de pessoa vivas a prédios ou repartições que pertençam a União.
    Embora a lei exista, sabemos que existem brechas e em nosso país infelismente as leis so funciona para alguns e na maioria das vezes não sai do papel.

  2. Ana Paula,

    Adorei este extraordinário e elucidativo artigo, explicitando os problemas e obstáculos sofridos na nossa cidade-mãe, primeira capital do Brasil e cidade com maior população negra fora do continente africano, aniversariante de hoje. Numa metrópole onde a reparação e a equidade socioeconômica não passam de uma utopia, temos mesmo que aprimorar o débil sistema educacional público. E mais: nossa memória está praticamente esquecida, e é por isso que vamos lembrar, cada vez mais, os heróis das nossas lutas populares. Parabéns, Salvador, pelos 463 anos, porém há muito o que melhorar.

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