Não sou machista, racista nem homofóbico. O que disse foi apenas um equívoco

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Confesso que há tempos queria escrever este post, e não sei por que só agora resolvi resgatá-lo, para então publicizá-lo com meu público leitor. Coisas de quem escreve.  Enfim, aqui estou e vamos ao que interessa. Tudo começou numa mesa de bar no bairro da Mouraria, em Salvador, no dia sete de julho do ano passado (fiz questão de registrar o dia do acontecido porque algo me fustigou a escrever sobre). Era uma conversa prosaica com um colega depois de uma enfadonha reunião de trabalho (o famoso happy hour). Conversávamos sobre diversas coisas, afinal de contas, mesa de bar é espaço pra tudo que é conversa. Desde as conversas da vida alheia, até as conversas tipo banca examinadora (resquícios do academicismo). Fazer o quê?

Lembro-me que foi num desses diálogos que enveredamos a falar de mulher, relacionamento afetivo, solteirice entre outras.  E esse meu colega de trabalho comentava que apesar de ser bonito, inteligente, trabalhador, bem apessoado, ter boas perspectivas de vida para o futuro (tudo isso, segundo ele) estava solteiro porque não encontrava mais mulheres comprometidas. Pera lá! Comprometidas? Com o que mesmo? Ele disse que as mulheres hoje em dia não querem saber de estudar, trabalhar, fazer algo que preste na vida. Elas só queriam mesmo era saber de pagode, festa, farra, curtição e nenhum compromisso (como se isso fosse um direito inalienável somente dos homens; afinal, mulher virtuosa e respeitável é aquela que fica em casa cuidando dos afazeres domésticos, das crianças e esperando o marido voltar do trabalho com um belo jantar e uma cerveja bem gelada à mesa). E até parece que estudar e trabalhar faz uma mulher melhor que outra nesse cotidiano fantástico que vivemos. Minha mãe, por exemplo, estudou até a quarta série primária e nunca teve nenhum trabalho formal, ou seja, nunca passou pelos bancos da academia e nem cultiva títulos, e também nunca se deleitou nas farras e fanfarras desse mundo, por pura opção, e é uma pessoa maravilhosa e cheia de virtudes. E nem por isso ela sofre de crises existenciais ou se sente inferior a uma mulher que tem pós-doutorado na Universidade de Oxford.

Além de tudo isso, ele ainda afirmou que as mulheres hoje eram do tipo que pegavam qualquer um (!), eram as ditas “piriguetes” (termo tipicamente baiano usado para designar mulheres com vontade e estímulo próprios e donas de si como putas). Foi difícil, mas tentei ouvi-lo sem fazer interferências. Estava na verdade colhendo as informações que ele arrotava justamente na minha cara. Parece piada.

Fiquei estupefata com o que ele falava e defendia piamente, como se tudo aquilo fosse uma verdade absoluta e inquestionável.

Em outra conversa, ele disse que seu irmão namora uma garota “meio gordinha”. Coisa que ele jamais faria. Teve a pachorra de me dizer o seguinte: “imagine Paula, namorar uma mulher gorda? Mulher gorda por tudo fica toda suada. Eu não tenho nada contra as gordinhas. Tudo bem, pode até ser gorda, mas tem que ser limpinha”. Nesse momento o questionei com ar de fúria, acho que nada poderia me deter. Como assim, as gordinhas não são limpas, por acaso elas não tomam banho? Ele ainda insistiu: “não, Paula. Não é nada disso, você entendeu errado.” Espera um pouco, além de surda, agora sou burra também? Será que não ouvi direito ou você que falou algo errado? “Tá bom, Paula, é verdade, você tem razão, mas não foi isso que quis dizer. Só me expressei mal”.

Na tentativa de se retratar do que havia dito, ele resolveu enveredar por outra conversa, o que mais tarde constatei ser outra cretinice, ou melhor, mais um desses “ismos” que conhecemos, pois cretinice é uma coisa e preconceito e atitude discriminatória são outras completamente diferentes, mas que não se excluem. Dessa vez, resolveu me contar o caso de um amigo muito bacana que havia acabado de conhecer, que trabalha, estuda e lhes dá dicas fantásticas de leitura. Sei que falando desse tal amigo, eis que uma pérola surge, visto que esse meu colega estava extasiado com o amigo fantástico: “ele é inteligente pra caramba, Paula. Sugeriu-me alguns livros, sabe. Ele é negão, mas é gente boa!”. Ops, de novo! Não creio, ou melhor, não queria acreditar no que acabara de ouvir. Como é? Ele é negão, mas é gente boa? Por acaso, os negões não são gente boa? Os negões são predestinados a ter má índole? Ou isso é a ideia reforçada lá do século XIX com os ditos de Nina Rodrigues que afirmava que os negros eram naturalmente degenerados, e tinham propensões naturais para o crime? (ideias retomadas do médico legista italiano Cesare Lombroso, o qual Nina Rodrigues era adepto). Ele de novo se explica, ou pelo menos tenta: “não Paula, não foi isso que quis dizer”. De novo? Ou eu, de fato, estou ficando equivocada? Então, explica. Me diz o que você acha que eu não entendi, ou que você sugere que eu entenda diante do que ouvi. “É o seguinte: não foi isso que quis dizer. Falei apenas que esse meu amigo é gente boa, ele é negro sim e gente boa”. Novamente acho que algo de estranho paira aqui, porque o que ele havia dito fora enfatizado por uma pequena e notável partícula adversativa da nossa língua padrão, o bendito “mas” (nossa, não sou expert em língua portuguesa, mas isso todo bom leitor sabe). E ele ainda insiste que, de fato, eu novamente entendera tudo errado. Nessa hora me senti uma toupeirinha perto do “equivocadinho”.

Não vou nem questionar a vocês, se realmente entendi tudo errado, ou ele não passa de um mascu preconceituoso. Isso mesmo. Não é possível tanto engano numa despretensiosa e prosaica conversa numa mesa de bar. E olha que por conta da situação e do momento, eu até tentei desconectar do radar antirracista, antissexista, anti-homofóbico, mas não dá. De verdade, não dá pra se desligar de alguns ordenamentos sociais assim de uma hora pra outra, muito menos se estes atingirem ou ofenderem os direitos da minoria. Fato. E não quero aqui hastear a bandeira da boa moça, samaritana, defensora das causas das minorias, ou até mesmo ser rotulada como defensora, debatedora e discursiva sobre as injúrias ditas e postas contra os homossexuais, as mulheres, os negros e demais, como esse tal colega certo dia disse em tom de piada na tentativa de fazer pouco caso das coisas que acredito e defendo.

Acontece que estou cansada das palavras mal ditas, ou melhor, mal entendidas de muitos calhordas por aí disfarçados de bom moço, e que na verdade não passam de fomentadores de todos esses ideais preconceituosos que já foram postos aqui. Porque é nesse mote que surgem os Danilo Gentili, Jair Bolsonaro, Ivaldo Rodrigues, Rafinha Bastos e não percebemos. É um gracejo aqui, um afronte ali, uma injúria acolá e por aí vão se constituindo esses acintes forjados de mal-entendidos.  Até porque ninguém diz o que pensa nas fuças do outro (Monteiro Lobato, por exemplo, em carta endereçada a Godofredo Rangel, disse que usava da literatura infantil para difundir as ideias em que acreditava porque não podia dizer o que queria abertamente). É esse racismo cordial nos envolvendo nesse bolodório democrático de mestiçagem, na tentativa de escamotear o que está explícito nas relações postas entre nós. E a sensação que nos provoca é de que somos loucos, alienados, extremistas, alarmistas. Não. Não é isso, até porque a discussão é bem mais ampla do que se imagina. O discurso aqui é outro e perpassa por uma série de fatos e acontecimentos que explicam as razões das condições de vida que temos e muito do que nos descaracteriza.

Mas de fato, só queria explicitar meu descontentamento diante uma conversa que tive. Conversa essa que era até para descontrair um pouco pelo dia pesado que tive, mas acabei me arrependendo imensamente pelo fim que esta levou. Não me refiro somente ao que fora dito por esse colega de trabalho, mas pela falta de respeito que ele preserva diante às minorias e ainda se arvora no direito de estar sempre equivocado (e nunca se preocupar em corrigir os “equívocos” e achar que tudo se resolve com um “não foi isso que eu quis dizer”). É sempre assim, eles nunca lançam pérolas de preconceito aos nossos ouvidos, nós é que o interpretamos erroneamente.

E eu ainda questiono: até quando?

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  2. Realmente é inadimissível aceitarmos esse panorama que nos aflinge,tendo como objeto comecarmos desde ja a desfazer esse descaso.
    Obrigado pela sua iniciativa,Boa tarde!
    Daiane Messias.

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