Coisa de preto versus idiossincrasia de branco

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Semana passada, numa conversa informal com duas conhecidas sobre higiene pessoal sudorese e coisas do tipo, ouvi uma delas dizer algo estarrecedor. Nós estávamos falando sobre o fato de Salvador ser uma cidade extremamente quente e nós suarmos muito. E isso para quem passa o dia inteiro na rua é péssimo, ou melhor, é fétido. Principalmente nós, mulheres, que sofremos com esse maldito higienismo que determina que temos de ser e estar sempre lindas e perfumadas, exalando essências das mais refinadas possíveis – mesmo após ter passado o dia inteiro na rua em uma cidade quente como Salvador.

Foi então que uma das pessoas com quem estava conversando, alienada com coisas de cheiro, essência, aromas,  disse que seu namorado só está com ela porque ela é limpinha(!). E ainda que ela transpire o dia todo, sempre estará perfumada (acredita ela, pois eu acho que nem os desodorantes antitranspirantes com proteção por 24 horas garantem isso realmente. A não ser nos seus rótulos). Já a outra conhecida afirmou ter um problema sério de transpiração. Disse já ter feito tratamento e tudo mais, inclusive porque suas axilas são escurecidas (coisa que ela disse não suportar). Ela ainda disse que esse problema de excesso de transpiração foi “herdado” da família de seu pai, que é “mais escura” que a família da mãe (palavras dela), cujos membros possuem cheiro muito forte quando suam e ficam com “odor de negro”. Ãhn, para tudo! Odor de negro? Como é isso? Por acaso tem odor de negro? Foi o que a perguntei. Ela disse com veemência: “tem, Paula. Tem odor de negro, que é aquele cheiro forte quando fica suado, que é diferente do odor de branco que é característico de branco. Sabe?”.

(Perceberam o racismo linguístico? Quando é “odor de negro”, é “cheiro forte”; quando é “odor de branco”, é “cheiro característico”. E eu é que vejo racismo em tudo).

Agora, imaginem a minha cara diante dessa explanação fantástica. Não me contive, como sempre, até porque tem certas coisas que são impossíveis de controlar. Eu diria até que nem faço questão de controlá-las, porque me afrontam em demasia. Meu senso antirracista sempre fala mais alto, aliás, ele esbraveja, na verdade. Virei pra ela toda sensata (se é que se consegue manter a sensatez numa hora dessas) e disse: como é? Tem cheiro de preto e cheiro de branco? Cuidado com suas palavras, minha cara, pois se alguém do Movimento Negro ouve isso, te processa com toda pompa.

 

* * *

Frantz Fanon foi bem feliz ao nos alertar sobre os aspectos racistas embutidos na nossa linguagem, num capítulo do livro Pele Negra, Máscaras Brancas.  E isso só me remete às situações cotidianas de pessoas que vivem a proliferar atitudes racistas em algo que veem como meras brincadeiras, ou constatações do que nos parece óbvio na estrutura racista em que vivemos.

E para isso preciso elencá-las, para que visualizem com mais clareza tudo que acabei de expor, e me retifiquem, caso esteja errada.

– negro correndo é ladrão. Branco correndo é atleta;

– negro subindo montanha está voltando pra casa. Branco subindo montanha está fazendo alpinismo;

– negro vestido de branco é macumbeiro. Branco vestido de branco é médico;

– negro andando de bicicleta no calçadão é aviãozinho. Branco andando de bicicleta no calçadão é ciclista.

– negro só vira gente quando está usando o banheiro, alguém bate na porta e ele grita: “tem gente”.

– você é mais enrolado que cabelo de africano.

– preto quando não caga na entrada, caga na saída.

– preto andando de carro é porque foi preso e tá no camburão. Branco andando de carro é classe média.

– preto de pulseira está algemado. Branco de pulseira é empresário.

– preto indo pra escola é quando ela está em construção. Branco indo pra escola é pra garantir o futuro.

– preto só sobe na vida quando a casa dele explode e ele vai junto. Branco quando sobe na vida é ascensão social.

– preto de asa é morcego. Branco de asa é anjo.

 

Acho que basta, porque não quero aqui corroborar com as piadas ditas aos negros, muito menos reforçá-las, ou até mesmo fomentar sua publicidade ou antipublicidade. Quero apenas mostrar que situações como essa são tão corriqueiras que nos parecem normais. Isso mesmo. Normais. Mas Paula, isso vai de encontro a tudo que expôs aqui, vai de encontro ao que fala, defende, vive e acredita.

Calma, não estou aqui para diagnosticar culpados para as nossas ações mal ditas e mal postas sobre essa condição de “bem estar social” diante da sociedade racializada em que fomos criadas (retomo a ideia do maldito mito da democracia racial). Não é isso. Só quero tentar mostrar, se isso for possível, o quanto temos a mentalidade formatada pela normalidade racial e de quanto estamos imbuídos do determinismo que fomentam ações tidas como racistas, como se estivéssemos sempre tentando achar um culpado pra isso. Somos tão contaminados por essa lógica que nem nos damos conta do que mencionamos.

Eu sei que isso parece assustador para alguns, mas infelizmente é um fato constatado. Não se trata aqui de um novo conceito que acabei de criar. Nada disso. Só sugiro que tomemos mais cuidados com o que dizemos, porque diante do cenário de colonização e escravidão que passamos, diante dos resquícios escravistas que ficaram, e ainda tendem a se perpetuar, temos de nos questionar a todo o momento o porquê daquela expressão existir. Em que contexto ela se aplica, de que modo isso foi criado e por que é tão fomentado, e quais estruturas visam manter.

É pensando assim que as ratifico. Não quis expor as duas conhecidas à situação de constrangimento e tachá-las de racistas, até porque o racismo não é um problema individual. Não é isso. Só sustento a ideia de que estamos tão condicionados a achar que o negro é sempre o feio, o ruim, o lixo da sociedade, que proliferamos teorias criadas para manter o status quo de um grupo social que não tem o menor interesse em perder seus privilégios e crê piamente que suas idiossincrasias de branquitude devem ser mantidas em contraposição ao que tomamos como “coisas de preto”.

Isso nada mais é do que a defesa explícita da manutenção de benefícios que visam preservar privilégios e sustentar a supremacia da branquitude, enquanto os sujeitos desfigurados e desprestigiados socialmente permaneçam onde estão por mais longos e sutis séculos escravocratas – nas sarjetas da sociedade, como disse Sueli Carneiro.

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  1. Pretos, afro descendentes, pardos, mestiços ou o como lhe convier chamar possuem um cheiro mais pronunciado, e para os que não estão habituados, é mesmo mau! Esta é uma verdade objetiva, uma realidade biológica. Mesmo outras raças, como dravídicos indianos, e orientais da China e Tailândia, possuem um odor corporal marcante, diferenciado dos europeus , por conta de hábitos alimentares inclusives.
    Só lhe fica mal esta vitimização, se não sente diferença é porque está acostumada, por ser de um destes grupos citados. Viaje mais e vivencie outraos culturas antes de repetir estes chichês ideológicos que apenas demonstram o problema de grande parte dos negros., que é simplesmente odiar ter nascido negro e rejeitar inclusive as mulheres negras em primeira escolha. Passe bem.

  2. “odor de preto” julgar unicamente como um comentário racista é canalhice sua. Aqui nos comentários mesmo o Tiago Campos que é preto confirmou que o preto tem um odor mais forte mesmo. Vocês sociólogos de merda são contra a verdade, são contra a biologia porque ela os desmentem. Pegar uma verdade e a usá-la contra a pessoa de forma a incriminá-la é pura CANALHICE. Odeio o racismo e também odeio gente canalha que não aceitam a verdade e ainda a usa para incriminar as outras pessoas.

  3. Mas preto quando sua tem um cheiro mais forte mesmo, porra. Falar a verdade é ser racista? Claro que se um branco não tomar banho vai feder, ou seja, não é só um preto que pode feder, isso é óbvio. Mas eu pego busão e no calor sempre são os pretos com um odor mais forte. Nesse seu texto você não comprova que isso não é verdade, simplesmente disse que é racismo. Ah, vá te catar, racismo é o caralho. Se não é um fato determinado pela biologia, então eu sempre tive o azar de andar em busão com pretos que possuíam menor higiene que os brancos.

  4. Oi gente….sempre que vemos um texto como este, nos impressionamos pelas reações vindas ao fato de quem a originou…. Isso se deve por dois motivos: – o primeiro, de quem aplicou a afirmação, de certa forma “abusada”, sem ter um “desconfiômetro” que regula até que ponto fere quem irá ouvir…….. o segundo: – do interlocutor que recebe uma informação que de certa forma não é mentira, porem , por falta de respostas conclusas, reage de forma incorreta….
    Eu sou negro, e já passei por este constrangimento algumas vezes. Até um dia, com a ajuda da tecnologia, busquei informações complementares sobre esse fato que não devemos burlar.
    Conclusão é a das mais simples, as proteínas, que estão associadas a pigmentação da pele, ou seja, ao ser disposto um branco e um negro aos raios solares, tem o negro tem maior quantidade de proteínas melanina no tecido da pele. Cuja, sua função de pigmentação ao expormos no sol, junto com a transpiração, surge o odor……… odor das proteínas e não da pele negra……Pessoas branca não tem tanta melanina, esse configura a conclusão de exalar menos cheiro ( das proteínas). Fica ai uma boa resposta, para quem vier a passar por isso no futuro. Não é nada complicado, e podemos sim mudar esse fato real que acontece com muitas pessoas, ou seja, mudando seus “hábitos alimentares”.
    beijão…..

    • Finalmente alguém com cérebro. Agora tudo é racismo, não se pode dizer A REALIDADE porque ela pode ofender. Na cabeça dessa mulher que escreveu o texto o mundo tem que ser cheio de mentiras a fim de agradá-la. Óbvio que isso é uma verdade desagradável de se ouvir, mas mentir e pior, julgar a pessoa como racista por dizer uma verdade é coisa de canalha.

  5. Pingback: Por que eu acredito na educação « Escrevivencia

  6. Como sempre seu olhar sobre o mundo te torna uma pessoa sensivel a uma das nossas piores realidades, mas somos nos educadoras que faremos as mudanças, nisso creio!
    Vai uma … tenho que o negro tem realmente um odor diferenciado do branco… na labuta, no suor, na escaldante Salvador todos fedem ao vencer dos desodorantes independente da cor por que fedor só a bailarina não tem.

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