Mulheres ricas. E as pobres, onde ficam?

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Ano Novo, vida nova e novas propostas de mudanças. Esses foram os votos para 2012; aliás, todo ano é a mesma coisa. As pessoas fazem votos de um mundo melhor para se viver, sem guerras, sem violência, mais vida digna para as pessoas, condições salutares a todos, e esperam que, num passe de mágica, uma simples virada de noite tudo mude. O engraçado é que continua tudo a mesma coisa. O caos, a miséria humana, as desigualdades sociais abrindo um fosso maior do que nossa capacidade de respeitar o outro, enfim.

E prova do que venho falando é o reality show exibido pela TV Bandeirantes, no aflorar do novo ano, o Mulheres Ricas. Não se assustem, pois esse é o nome do programa. Fala de quê? Bem, o nome por si só já diz: mulheres ricas. Além de ricas, burras, fúteis e desprovidas de qualquer bom senso, ou melhor, senso para olhar ao seu redor e perceber que a miséria mora ao lado. Afinal de contas essas riquinhas metidas a socialites não percebem isso simplesmente porque não veem nada além da imagem de si mesmas refletida no espelho. A desigualdade socioeconômica existente no Brasil é suficiente para manter os pobres e miseráveis convenientemente afastados do campo de visão delas. Para as mulheres ricas, a pobreza e a miséria, bem como os pobres e os miseráveis, são invisíveis.

Ingenuidade minha achar que elas se preocuparão com o estado de miséria que milhares de pessoas vivem nesse país. Pra que pensar nessas coisas chatas se posso tomar espumante numa taça de ouro maciço?

O que mais me assusta é ver uma emissora de TV, que, diga-se de passagem, é uma concessão pública, exibir um programa como esse. O que me deixa indignada é o fato de saber que num país em que pessoas não têm o que comer, a TV leva ao ar pessoas que ostentam sua riqueza com ar de simplicidade, e eu diria até, um pouco de sarcasmo. Sarcasmo, sim. Não fiquem assustadas (os). Pois ouvir uma socialite dizer que comprar um avião é o mesmo que comprar uma blusa nova é uma afronta à minha pobreza – tudo porque ela quer viajar de São Paulo a Paris sem escalas. Faça-me o favor. É um soco no estômago. É mais que isso, é mexer com meus brios. É saber que, diante dessa situação, nada será feito. Porque num país mais sério, a população iria à frente da emissora exigir a retirada desse espetáculo de cretinice aguda do ar. E certamente com esse poder, o programa não seria exibido nem mais um dia.

Como o que me resta é escrever e publicizar a minha indignação, porque esse direito ainda não me tiraram, assim o farei.

Vocês podem até pensar que tive o desplante de sentar em frente à TV para assistir a esse espetáculo do circo dos horrores. Não se preocupem, não me dei a esse trabalho. Até porque o nome do showzinho não me convida, como não me convidaria a assisti-lo por nada nesse mundo. Apenas tive o desprazer de ler uma nota na internet que criticava o programa.

O pior, não sei se é pior, porque não sei até que ponto chega o desastre humano, é saber que milhares de telespectadores endeusam mulheres como aquelas exibidas no programa. Mulheres loiras, magras, lindas e endinheiradas. Pessoas que sequer tem grana pra pagar o transporte pra procurar um emprego, mas que sonham em ter a condição de vida que elas têm. Pessoas que as usam como parâmetro de vida, num país de miséria e caos extremo. Mesmo sabendo que vivemos para além da linha da miséria; vivemos abaixo do pré-sal da dignidade humana.

Falar do cotidiano da mulher rica é bom e agradável aos ouvidos dos alienados e alienáveis. O difícil (e indesejável) é falar do cotidiano da mulher pobre, favelada, trabalhadora, mãe solteira, chefe de casa. Dessas, ninguém quer saber – a não ser quando precisamos de alguém para limpar a nossa sujeira dentro de casa. Não creem? Façamos o seguinte, falarei agora de mim, da minha mãe e de algumas mulheres batalhadoras que conheço e fazem parte do meu convívio. Já que a BAND teve a pachorra de falar das mulheres ricas, eu vou falar das pobres.

Eu me chamo Ana Paula, muitos me conhecem como Paula. Sou uma mulher de vinte e nove anos, negra, pobre e trabalhadora. O que faço? Trabalho, estudo e cuido de casa. Acordo todo dia às cinco da manhã para ir à faculdade, de lá saio voando para o trabalho, onde fico até nove e meia da noite. Retorno depois da dez. Pensam que acaba por aí? Nada disso. Chego em casa um caco, tenho de tomar um banho pra ver se o cansaço diminui e vai embora pelo ralo, procuro algo pra morder em meio a arrumação da boia e dos apetrechos para o dia seguinte, porque a batalha não para. Quanto tempo gasto do meu dia só nesse vai e vem? Soma aí. Oito horas de trabalho, mais quatro ou seis de aula, hummmm… e mais quatro de ida e volta para esses lugares. Em torno de dezoito horas do meu dia, sem contar o tempo dos afazeres do fim de noite. E quantas horas eu durmo por dia? Em torno de quatro horas e meia a cinco. Tá bom pra você? Nem pra mim. Ah, sem falar que moro de aluguel, pago contas e faço malabarismo com o orçamento. E tenho olheiras, afinal de contas, dormindo o tanto de horas a menos que o recomendável para uma pessoa da minha idade, ter olheiras não seria surpresa, mesmo tendo vinte e nove anos. Não uso fórmulas reparadoras de sinais, nem botox pra corrigir as imperfeições do tempo na minha face (até porque o dinheiro não dá). Já deu pra perceber que não nasci com a bundinha virada pra lua.

Agora falarei um pouco da minha mãe, minha Linda que amo tanto. Minha mãe é uma menina da terceira idade. Mulher preta de setenta e poucos anos, aposentada – de salário mínimo, só pra salientar – e que deu anos de contribuição trabalhando de tudo um pouco pra ajudar na despesa da família. Ela fazia de um tudo pra garantir o dinheiro do pão. Pensam que só por estar aposentada ela parou por aí? Desde sempre, ou pelo menos, de quando eu tenho lembrança, ela vende geladinho, doces, salgadinho. Tudo de quitandinha. Ainda pra garantir o dinheirinho do pão, afinal de contas viver de aposentadoria é mais que um abuso nesse país. Só não é um abuso se a aposentadoria for a de um ministro do Supremo Tribunal Federal. Sigamos em frente.

Num belo e encantado dia resolvi sair com meu digníssimo pra descontrair um pouco e resolvemos ir à banca do acarajé na praça. Lá chegamos, tomamos uma cervejinha, comemos um belo de um acarajé – não resisto – e papeamos. Foi quando conhecemos Conceição, uma catadora de material reciclável e seus dois filhos na banca. Enquanto nós estávamos ali por mera distração, pra desanuviar o estresse da semana, Conceição e seus dois filhos estavam fazendo sua única refeição do dia (depois das oito da noite, só para ressaltar o absurdo).

Quando meu marido foi pagar a conta, a ouvimos pedir mais um bolinho e pôr na conta, pois ela estava sem dinheiro. A baiana, apesar de sensata em fiar os bolinhos, disse que sua conta já estava alta e não mais o podia fazer. Meu marido, estarrecido com o que ouviu, resolveu quitar o débito de Conceição e fiar mais um acarajé. Foi daí que passamos a encontrá-la com certa frequência, até porque ela coletava material reciclável nas imediações da nossa residência e foi dali que acompanhamos um pouco da realidade daquela mulher. Mulher pobre, sem emprego, com filhos pra criar, que não estudam porque se eles forem à escola serão menos duas pessoas a ajudar na coleta, que resultará em menos material recolhido e menos grana em casa. Ou seja, a situação de miséria é tanta que Conceição não tem sequer a grana do pão pra levar pra casa. Tem de comprar um acarajé e dividir com dois filhos no final da noite, porque aquela certamente é sua única refeição.

Bom pra vocês? Pior pra mim. Depois de relatar situações semelhantes de três mulheres diferentes, é difícil ignorar esse descaso com o povo que batalha, que sai pra labuta, pega ônibus cheio pra chegar no horário no trabalho, mora de aluguel, não tem o que comer. Agora imaginem o quão acintoso é saber da existência desse programa e do descaso ao exibi-lo.

Saber que existem criaturas como essas é fato, assistir ao programa e sonhar em ter o mesmo padrão de vida nababesco enquanto quem está ao meu lado não tem moradia e ainda é visto como criminoso até que se prove o contrário. Isso nos mostra o estado vigente da insensibilidade humana que coloca programas como esse na TV como ópio para as desgraças e mazelas no mundo.

Findo por aqui com a certeza de que desabafei e falei por milhares de mulheres como eu que sabem o quão difícil é ter as coisas na vida pra ter que aceitar o afronte televisivo nos dizer que somos tão miseráveis quanto idiotas ao se pôr como telespectadora de mais um abuso e desrespeito à humanidade.

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  1. Pingback: A decisão de não ser mãe | Escrevivência

  2. pois muito bem, continuem pobres para continuar a nossa podre sociedade e engordar os ricos, quando e que isto vai mudar??????????????????????????????

  3. Pingback: Por que eu acredito na educação « Escrevivencia

  4. Muito pertinente o texto, realmente, sem sentido algum este programa, primeiro porque as mulheres nem mesmo são tão ricas.

    Como a mídia vem divulgando, a Narcisa está falida, a Barbie Velha idem, a Sayeg mais exibe do que tem, a Débora ex-sem-terra-peladona está lá mais para aparecer pois é no máximo classe média alta…

    Mas o destaque no quesito farsa é a Valdirene lá, a tal do jatinho, que veio dos confins do Brasil Rural e foi esculachada pelo ex amante, um bilionário casado velho, dono de um frigorífico, que pintou bem o que ela é: prostituta de luxo, ele falou inclusive que ela tinha amantes de 200kg e nem acreditou quando ela disse que ele era o pai dos filhos dela. Tudo o que ela tem arrancou do tal velhote, sabe-se lá tendo que fazer o que pra agradá-lo, até que ficou velha e ele cansou daquilo, mas sobrou a pensão dos filhos (a danada arrumou gêmeos!) pra torrar. Uma mulher que se sujeita a isso não pode ser considerada rica. E olha que ela é vista como a mais rica do programa daí já se vê o nível…

    Mas além de ser uma farsa, pois são umas falidas querendo aparecer, o programa passar em canal aberto, num país feito o Brasil, com seu IDH horrível e tanta desigualdade social, é mesmo ridículo. A BAND copiou a idéia das Kardashian e Real Housewives of Beverly Hills, ambos programas americanos, mas são transmitidos na TV aberta, o que é mais razoável. Colocar no horário nobre, em canal aberto, nesta nossa nação, este programa, é mesmo ridículo.

    Assim como vc, Ana Paula, trabalho muito e estou longe de ter grana pra comprar um jatinho. Para comprar um carro popular, tive que juntar grana um ano… e também acho o fim a BAND transmitir esse programa, não só pela farsa contida nele (já se divulgou que os carros e helicópteros são emprestados, que o tal francês que a Valdirene ia arrumar pra Barbie Velha era um figurante contratado etc) mas pela afronta a quem trabalha e tem que correr atrás para ter o que quer, como vc bem ressaltou.

    • Só corrigindo: Kardashian e Real Housewives of Beverly Hills são programas da TV fechada americana, respectivamente, dos canais E! e BravoTV.

  5. Pois é paula, enquantos muitos não tem nem o que comer, alguns poucos ostentam fortunas. Já estamos cansados de tanta desigualdade nesse país…E chega de tanto besterol na televisão brasileira que só serve de alienação para a população…

  6. “…Pois ouvir uma socialite dizer que comprar um avião é o mesmo que comprar uma blusa nova é uma afronta à minha pobreza…” Adorei!

  7. Não minha amiga Paula, você eu e demais trabalhadoras não nascemos com a budinha para lua e sim para o sol, que é quente e escaldante como nosso dia a dia e para não esquecermos vem ai Big Broder, que não tem nada cultural para nossa população que perde tempo em frente a TV vendo uma programação tão insignificante.
    E quanto a você Filipe não é crime ser rico, mais o pobres são merecedores de uma educação, lazer e saúde digna e igual para todos esta na constituição, será que nós temos tudo igual aos ricos?
    Pagamos também impostos concorda comigo.
    Ou será crime ser pobre?

    • nao disse que os pobres nao merecem vida digna, mas apenas estou dizendo q se eles tem dinheiro, tem o direito de gastar como, onde e quando quiserem.

      pra ter esses direitos do artigo 6º atendidos de forma digna, obviamente nao eh necessario oferecer de um jeito igual ao dos ricos, afinal o estado nao tem dinheiro de mandar todo mundo mundo fazer tratamento em nova york, se divertir na disney e ter um policial pra cada habitante. nem nos paises desenvolvidos as coisas sao assim.

      • Felipe, o problema não são essas mulheres que têm dinheiro vazando pela calcinha..é a emissora que ao invés de passar algo mais útil na tv aberta, afronta o pobre e aguça ainda mais a vontade do pobre querer ser rico..e como ele fará isso? Da forma mais fácil e rápida, independente das consequencias.

      • Na verdade Felipe é um desabafo propocionado graças as experiências dela…é a percepção que tem da realidade tomando coomo referencia suas experiências pessoais e acumulos conquisatadas ao longo da vida, assim como você que certamente tem os seus acumulos relavantes. Pelo que pude perceber a questão central, talvez, não seja o ser rico ou pobre, mas se refere muito mais as posturas adotadas frente a essas desigualdades, a banalização da riqueza e os efeitos que essas exibições(me refiro ao rality) irão causar em parte consideravel da população, como por exemplo o consumo exagerado por parte das pessoas menos abastardas. Essa é uma longa discursão.
        Ana Paula parabenizo a sua postura sou de total acordo, embora não descarte de todo as uma ou outra opinião do Felipe.

      • Thiago

        que absurdo isso q vc escreveu.

        1 – a funçao da tv tb eh entreter. qual o problema de passar coisas “inuteis”? eu escrevo entre aspas pq o q pode ser util pra vc pode nao ser util pra mim. as pessoas querem diversao tb e assistem o q quiserem para se divertir. se nao fosse assim, o big brother nao seria esse pico de audiencia q eh, por mais “inutil” q seja. se vc quer programaçao “cabeça”, soh assista tv cultura.

        2 – o pobre nao pode ter vontade de ser rico? entao silvio santos transgrediu essa regra nao foi?

        3 – vc deixou o pior pro final, pois eu entendi q vc chamou os pobres de bandidos em potencial. em q mundo vc vive? enriquecer de forma facil e rapida todo mundo quer, agora dizer q os pobres vao fazer isso independente das consequencias isso sim eh uma afronta a eles todos.

      • Batata

        “Pelo que pude perceber a questão central, talvez, não seja o ser rico ou pobre, mas se refere muito mais as posturas adotadas frente a essas desigualdades, a banalização da riqueza e os efeitos que essas exibições(me refiro ao rality) irão causar em parte consideravel da população, como por exemplo o consumo exagerado por parte das pessoas menos abastardas.”

        isso pra mim eh duvidar da inteligencia das pessoas. vamos proibir as propagandas da ricardo eletro e das concessionarias de veiculos pq estimulam o consumismo e as pessoas menos abastadas, q nao tem discernimento necessario e vao consumir o q nao podem e vao se endividar. vamos proibir as propagandas de briquedos pois as nossas crianças vao se tornar consumistas desde pequenas.

        e o q seria banalizar a riqueza? defina isso pois eu nao entendi o q vc quis dizer. eu penso q tornar algo banal eh ruim, mas banalizar dinheiro nem sempre eh problema. dinheiro nao eh o problema, a falta dele q eh e todos sabemos as consequencias da falta dele. claro q quem tem dinheiro deve usa-lo de forma racional, pois acarreta mais lixo blablabla e outras coisas q sao de outro debate. mas por mais ruim q pode ser, eu defendo q as pessoas gastem seu dinheiro da forma q quiserem, pois vivemos em um pais livre.

  8. eh crime ser rico entao? entao se fosse o programa “mulheres pobres” seria ideal, pois eh politicamente correto mostrar soh pobreza num pais serio nao eh?

    entao vc nunca assiste nenhuma novela da globo, pois SEMPRE ha um nucleo rico e isso eh uma afronta a um pais onde pessoas nao tem o q comer, nao eh?

    parece q toda pessoa com renda acima de X reais tem ter preocuçao social, eh a mesma coisa dizer q todo gay tem q ser militante de movimento gay ou q todo negro tb deve ser militante de movimento negro. cada um escolhe o q quer fazer de sua vida oras!

    e qual o problema de sonhar em ter uma condiçao de vida q o dessas mulheres. se ser pobre fosse bom, todo mundo gostaria de ser, neh nao?

    nao sou rico, mas eu estudo, trabalho e corro atras para q eu deixe de pegar transporte publico e comprar um veloster. sou futil e alienado neh? pode ate ser, mas eu quero viver com conforto!

    se a pessoa tem dinheiro pra gastar, qual o problema dela gastar como quiser? pois mesmo vivendo num pais onde as pessoas nao tem o q comer, vivemos num pais LIVRE. acho q eh viver num pais onde haja liberdade do q em um onde seja todo mundo igual porem sem liberdade.

    • “eh crime ser rico entao? entao se fosse o programa “mulheres pobres” seria ideal, pois eh politicamente correto mostrar soh pobreza num pais serio nao eh?”

      Então Felipe, ser rico no brasil com a fortuna dessas mulheres é crime sim, basta revisar os livros de história e ver como se deu e se dá a distribuição de renda no Brasil e parar para pensar as custas de quem essas fortunas foram construídas e são mantidas. Quanto ao programa Mulheres pobres, já existe basta você assistir, se for daqui de Salvador, Na mira, se liga Bocão, Balanço geral, Brasil Urgente, e outros que não me lembro.

      E só a título de informação conforto é diferente de excesso, que é o que demonstra esse programa. Ninguém realmente quer ser pobre, mas ser excessivo as custas da miséria alheia é impensável, pelo menos para mim.

      PARABÉNS PAULA PELO TEXTO, MUITO BOM!

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