Pra não dizer que não falei de pretos

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Essa semana, numa conversa prosaica com algumas colegas de faculdade, uma delas disse que estava organizando um seminário para o 20 de novembro juntamente com outros estudantes de outros cursos, e que estava também contactando alguns nomes para palestrar neste seminário. Eu, curiosa como sempre, quis saber o que será debatido nesse evento. Ela me informou que a pretensão era debater sobre o pós 20 de novembro, e levantar discussões acerca de racismo na FACED (Faculdade de Educação da UFBA). Onde, segundo a colega, não há espaço para discussão dessas temáticas.

Quanto a não haver espaço para discussão sobre racismo e relações etnorraciais na FACED, eu até concordo. Só não entendi o seguinte: eu não sei onde se instaura a conjuntura do pós-vinte de novembro. O pós-treze de maio, eu até compreendo, mas o pós-vinte de novembro, não. Mas tudo bem, prossegui. Ouvi-la discorrer sobre o assunto, sem opinar, é claro, até porque não concordei muito com a ideia de promover esse evento no mês de novembro, mas não entraria em debate com ela por conta disso. Afinal de contas, a ideia era dela, e ela me pediu sugestão e integração para promoção do evento. Como não concordava, não queria ouvi-la dizer “se não ajuda, também não precisa atrapalhar”. Sigamos em frente.

Agora vocês hão de perguntar por que não concordei com a ideia da colega em promover um evento como este na faculdade, já que defendo essas ideias, alimento discussões como essas e acho de total pertinência o debate sobre esse tipo de temática na universidade, um espaço de excelência e extremamente elitista, principalmente se tratando da UFBA.

É simples: não acho que devamos abrir espaço para discussão sobre preto, relações etnorraciais, ações afirmativas, promoção da igualdade racial, equidade étnica, dentre outros, somente no mês de novembro. Por quê? Porque sou preta e sofro os efeitos do racismo o ano inteiro. Sou achacada pelas atrocidades impostas pelo racismo, em prol de uma hegemonia branca, todos os dias. Tão logo, está explícito o fato de eu não concordar com o mês do novembro negro.

Até porque também entendo que esses eventos, de certo modo, não colaboram em quase nada, sendo feitos exclusivamente só neste mês, para nossa causa. Se pararem para observar o que tem de evento que acontece nesse período, dá até pra passar o mês inteiro comemorando a negritude desse povo sofredor.

Gostar da raça negra e não se considerar racista não é sair por aí proferindo idiotices como “Eu amo acarajé”. “Eu sou filha de negros, me considero negra, adoro a Bahia e amo acarajé” (palavras ditas por uma colega de faculdade num caloroso debate ocorrido em aula). Gostar de preto e não ser racista é gostar de um quitute oriundo da cultura africana, que está a cada dia sendo brutalmente expropriado da sua cultura de origem? Faz-me rir.

Ser considerado negro é sair na caminhada do vinte de novembro da Senzala do Barro Preto, no Curuzu, até o Pelourinho? Vestido com aquelas roupas coloridas, que até parecem indumentárias do bloco carnavalesco Ilê Aiyê?  Nada contra o bloco (o trabalho desenvolvido pelo Ilê é mais do que louvável e deve ser respeitado), mas o modo como as pessoas adequam as roupas e as personificam numa identidade negra estereotipada, às vezes assusta. É ir ao Sarau Bem Black toda quarta-feira no Bar Sankofa e ficar proferindo versos ao vento dizendo que está promovendo ação política em conjunto? Que conjunto? Até concordo que deva haver um momento de descontração; afinal de contas, não somos de ferro. Até o divino descansou no sétimo dia, não seremos nós que levaremos tudo nos peitos, como diz a gíria. Mas daí a promover movimento político dentro de um bar cantando a saudação a Exu, tomando uma Sminorff, falando de poesia, promover concurso do maior cabelo black feminino, sem pular dos muros dali? Qual o real propósito?  Ponto de Cultura? Não sei. Até hoje, não descobri.

Em novembro, não me sinto mais negra quando me convidam a participar de evento que tem o toque do agogô e abará como aperitivo.  Ou alguns artistas dançando a capoeira. Pensam o quê? Por acaso o mês de novembro é o mês-cota para se falar de preto no ano?

Para além de tudo isso, creio que devamos provocar situações de enfrentamento ao racismo muito mais contundentes. Com mais força do que os festejos dessa época. E os racistas de plantão estão por aí criando situações que visam nos exterminar muito mais do que imaginamos. Ali Kamel, Demétrio Magnoli, Yvonne Maggie, Ziraldo, Silvio Santos, Caetano Veloso, João Ubaldo Ribeiro, Antonio Natalino Dantas, Paulo Gabriel Nacif, Célia Maria Marinho de Azevedo, Lilia Schwarcz, Peter Fry, Rafinha Bastos, Marcelo Tas, Maurício de Sousa, Jair Bolsonaro, Demóstenes Torres, José Arthur Gianotti e cia sabem muito mais sobre preto e relações de poder instauradas com o racismo do que muitos de nós envolvidos com a causa e alguns que se dizem militantes.

Malcolm X e Kabengele Munanga já diziam que, antes de tudo, precisamos fortalecer nosso discurso para que possamos partir para o enfrentamento político. Ação política à moda Panteras Negras. Acham que estou exagerando? Ou acham que nos Estados Unidos o racismo é mais agressivo do que no Brasil porque lá os lugares já estão pré-estabelecidos? Há lugar de preto e lugar de branco? Escola de preto e escola de branco? Bairro de preto e bairro de branco? E há também uma Ku Klux Klan?

No Brasil, de fato, não há essas discriminações explícitas (até porque falar na cara pega mal aqui, é feio, deselegante…). E confesso que na verdade nem precisa, porque preto sabe onde pode entrar. Não há quem diga que não entre nesta ou naquela loja de grife, mas há o segurança que te segue e te copia pelo rádio-transmissor por toda a loja até você se sentir incomodado e ir embora (e se você disser alguma coisa, ainda sairá como a errada da história porque “quem não deve não teme”). Há bairro de preto e bairro de branco aqui também. Os moradores da Graça e de Cajazeiras que o digam. Ah! E há também uma Ku Klux Klan, com arma, poder e autorização do Estado para executar todos os pretos e pobres da periferia. A PM faz isso com muito prazer, obrigada. E quem estiver duvidando, dá uma olhadinha no Mapa da Violência 2011 e depois nós conversaremos.

Ainda tenho de aguentar um infeliz me dizer que promove eventos em novembro que é pra não dizer que não falei de pretos.

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  1. Pingback: ENEM e o racismo perverso da educação brasileira | Escrevivência

  2. Concordo com as críticas, mas qual é sua sugestão afinal?
    Acredito que essa visibilidade conseguida no mês de novembro, já é resultado da luta de muitas e muitos. Existem lugares, como onde eu moro, que pra conseguir com que se lembre do dia 20 de novembro já é um sacrifício enorme (ano passado, mais uma vez, a assembleia legislativa votou contra o feriado no dia 20), imagine fazer eventos para que o mês todo as pessoas discutam a questão do racismo, do preconceito, das desigualdades sociais.
    Enfim, é claro que é muito pouco, mas é um primeiro passo, acredito que é assim que as maiores coisas acontecem. Desmerecer tudo e todos é complicado.

  3. Concordo plenamente com suas colocações Paula…
    Acredito que ser negro é muito mais do que ter um cabelo black,sair em blocos afros e etc.Ser negro é primeiramente se reconhecer com tal e lutar por nossos direitos.
    E parabéns pelo texto!!!
    Beijossss

  4. Concordo plenamente minha nobre colega, passei por uma situação constrangedora, fui a vítima, mas o PM reverteu o quadro. E realmente fazem com muito prazer, mesmo você estando coberta de razões.
    Depois te conto o ocorrido.

  5. Ana, vc poderia aproveitar o próprio evento para tecer todas essas posições e considerações. Desconstruindo essa lógica de “comemorações” no mês de novembro, apontando caminhos e outras reflexões para um grupo de estudantes que, ainda que possua boa intenção(e eu pude perceber isso no dialógo com ele-também me procuraram), está carente exatamente do processo formativo mais crítico e profundo. Não deixe de dar a sua contribuição crítica.

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