“Você é Bahia ou é Vitória, Afro?”

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Numa tarde de domingo, fui visitar meu pai e aproveitar para ver meu irmão, a mulher dele e a família dela, estas últimas meio a contragosto, diga-se de passagem. E a caminho da casa do meu irmão, eis que o encontrei, pois a família de sua esposa já estava em retirada, e nos cumprimentamos na rua mesmo. Meu irmão muito carinhosamente me apresentou; eu, educadamente (ou fingidamente, como queiram), cumprimentei a parentada da minha cunhada, e eis que é lançada a pérola. A madrinha de minha cunhada comenta que eu era muito parecida com a sobrinha dela. Ela simplesmente diz:

– Oh, ela parece com Paulinha. Ela também é AFRO!

Não entendi. Que diabos ela queria dizer me chamando de AFRO? Mentalizem agora a cena: eu dando um golpe de voadora, enfiando meus dois pés na cara dessa mulher. Foi o que me veio à mente no momento. Contive-me.

Pensem que voltei fula para casa. Primeiro, porque não queria fazer esse programinha; segundo, por ter que ouvir alguém me chamando de AFRO.

Acredito que deva estar estampado na minha cara que sou AFRO. Preta e rasta é AFRO.

O engraçado de tudo isso é que sequer abri a boca para despejar meu discurso para que ela me estereotipasse como AFRO (até porque uma preta do cabelo trançado não precisa abrir a boca para ser discriminada, maltratada ou simplesmente invisibilizada).

Isso me remete a tantas outras situações que tenho vivenciado ultimamente.

Dia desses, uma professora de uma escola em que fiz estágio recebeu a incumbência de dar um tema a um evento do FIEDI (Fórum Internacional de Educação, Diversidades e Identidades) que falava sobre diversidade. A professora, então, olha para mim e diz:

– Paula, você que entende de diversidade, diga-me um tema para eu colocar aqui.

Estupefata e consciente do que ela queria me dizer, respondi:

– Que tipo de diversidade? Sexual, cultural, etária, étnica…

Ela prossegue.

– Não sei. É sobre diversidade!

Só porque sou preta, falo de preto, levanto discussão acerca de relações etnorraciais, sei falar sobre diversidade? (isso é porque o branco é o padrão. Preto é o diverso)

* * *

Situações como essas têm sido corriqueiras na minha vida.

Ano passado, outra professora da mesma escola, ao adquirir uma coleção didática sobre costumes e tradições africanas, se remete a mim e diz:

– Paula, estou com uma coleção que é a sua cara. Lembrei de você!

Acho que não preciso dizer aqui o que pensei.

Pode parecer piada tudo que venho relatando até aqui, mas para bom entendedor, meia palavra basta. Não preciso dizer qual associação essas pessoas fazem da minha pessoa com essa temática. O pior, ou melhor, disso tudo, não sei, é que fiquei rotulada.

Concordo que depois de certo tempo, de acordo com o direcionamento político que tomamos, assumimos posturas. Posturas essas que estão presentes no nosso discurso, no nosso comportamento, bem como nas nossas decisões. Mas daí as pessoas ficarem me correlacionando o tempo inteiro a assuntos etnorraciais… E se fosse só isso, tudo bem, o pior é que falar de preto é levar a pecha de ser problemática, levar tudo a sério, não ter senso de humor, saber falar de diversidade, por mais que essa diversidade não seja étnica.

E de fato sou isso mesmo. Porque sei que é por conta, também, da minha aparência que as pessoas me descaracterizam. As ofensas contra os negros vêm sempre a título de piada, de simples e despretensioso comentário. E é baseada nessas “brincadeiras” que parto pra cima de qualquer um que queira me desqualificar ou me desprestigiar por conta de uma maldita hegemonia branca. Malcolm X já dizia que devemos ser enfáticos na luta contra o racismo. Que devemos fortalecer nosso discurso e combate ao racismo do mesmo como éramos atacados, ainda que o contra-ataque fosse feito impiedosamente.

E é por conta dessas inquietações que vivo acerca da minha posição política, que não aceito nenhum tipo de comentário racista que fira minha identidade como pessoa negra. Porque sei que diante dessas atitudes “mal interpretadas” estão ideias e conceitos muito bem estabelecidos e que nos rechaça todos os dias, delimitando nosso lugar na sociedade, nos condicionando sempre a aceitar papéis subjugados. É o famoso fator condicionante, “filho de preto tem de ser empregado e filho de branco tem de ser doutor”. Como se o inverso fosse inaceitável ou impossível. Branco argumentador é filósofo e preto questionador é militante, chato, prolixo, que só sabe reclamar de tudo.

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  1. Tem sempre um bom momento para respondermos certas coisas porem deixamos passar em nome da educação e do bom senso. Da proxima não dê a voadora apenas pessa para ela explicar será que ela sabe o quão racista é ou não?

  2. Amei amiga, nosso lugar na sociedade não estabelece cor de pele, modo de modelar nossos cabelos e tão pouco o modo de vestirmos.

  3. Amei o post, Aninha. A cada dia cresce a minha admiração por você. Continue assim, minha amiga. Ah! Quero aperfeiçoar o golpe voadora com você…risos. Felicidades sempre!!!!!!

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