Sejamos cada vez mais sonoras, visuais e a(l)tivas

Padrão

Cresce a cada dia o movimento de mulheres, em especial o de mulheres negras, o que denota não só a força do empoderamento feminino frente a questões que nos atingem diretamente, bem como a conquista por espaços de poder antes nunca experimentado por muitas de nós.

Falo isso com a certeza que tenho ao discorrer por essas linhas do poder que uma mulher negra possui quando transmite sua fala adiante horizontes eivado de vícios que solapam nossa imagem e representatividade atuante.

Frente a essa questão, não desconsidero os ataques vis e deletérios que sofremos no mundo real e virtual. Isso apenas demonstra o quanto nossa atuação/presença tem sido incômoda e sinônimo de afronte aos que querem renegar-nos ao silenciamento de um espaço/lugar social subalternizado – estamos em processo de transformação, e isso leva tempo.

A fala, a escrita e especialmente a presença física da mulher negra em alguns espaços sociais causam a fúria de muitos a ponto de provocar a externação do ódio que uma sociedade alimenta todos os dias a conta-gotas. Em doses homeopáticas para que não tenhamos dimensão da agressão.

Isso tem sido quase que cotidiano nas mídias sociais. Diversos são os casos registrados de/por mulheres negras com significativa visibilidade social que são agredidas pública e mordazmente por indivíduos que nos consideram seres desprezíveis, e, portanto, merecedores dos ataques mais covardes.

Atentemos para o fato de que se trata de mulheres negras com significativa presença na mídia televisiva, o que por sua vez, não diminui o impacto das agressões.

Agora, invertamos essa lógica para o universo das mulheres negras que vivem no anonimato. Como é o reflexo dessa violência simbólica e diária no nosso cotidiano? Pois então, é esta a nossa rotina: desafiar e ser desafiada todos os dias nos lugares sociais aos quais somos relegadas, expor nossas necessidades como forma de combate à violência simbólica, física, sexual e tantas outras que sofremos. E, ainda assim, ocupar espaços novos para muitas de nós. Espaços que nossas gerações anteriores jamais puderam adentar.

Os espaços que conquistamos são fruto de muita luta que teve início com/em nossas predecessoras. Os bancos das universidades são um deles e todo dia aparece quem nos diga que não deveríamos estar lá, que a universidade não é nosso lugar e que descaradamente duvidem dos nossos desempenhos acadêmicos. Os altos cargos ratificam a epopeia que é enfrentar a misoginia estatal – sim, vivemos num Estado misógino que corrobora com as agressões das quais somos vítimas – e evidenciam a dureza de poder prosseguir para que possamos abrir espaços, a fim de que outras tantas mulheres negras cheguem ao alto escalão. É uma jornada árdua, mas necessária.

É nesse sentido que assinalo nossa necessidade de sermos cada vez mais sonoras, visuais e a(l)tivas. Reforcemos o empoderamento da mulher negra em todos os contratos sociais que firmarmos nas situações e locais mais inusitados que possam surgir. Esse é o único modo de sermos vistas.

É bem verdade que a escrita é uma ferramenta de poder que possui um uso para além do simbólico. O pleno domínio no mundo letrado ainda é uma realidade a que temos chegado aos poucos, e da qual devemos fazer uso ad eternum. E é por meio dele que devemos fazer-nos presente.

A sonoridade, a visibilidade e a altivez da nossa imagem devem e são representadas por escolhas que reafirmam nosso lugar social. Nosso lugar de fala é por demais importante no processo de reconstrução de imagem isento de estereótipos. E é por intermédio da fala que surgirão outros componentes tão importantes para o construto dessa representatividade positiva que tanto ensejamos/almejamos.

Por isso, usemos mídias sociais, veículos de comunicação oficiais ou não para referendar nossa atuação e presença.

É certo que toda batalha é severa e requer muitos esforços, a fim de que consigamos tomar assento em determinadas situações. Mas, reafirmo que é sim necessária, ainda que longevo possa ser o vislumbre do sucesso. O triunfo não será gozado por nós em vida, mas certamente abriremos espaços para que outras possam usufruir dos direitos e garantias sociais que buscamos. Assim foi feito por nossas mães, avós e bisavós – que não estão mais aqui para ver o fruto das batalham em que se envolveram. Elas abriram espaço para que ocupássemos os bancos das universidades, para que estivéssemos à frente dos cargos de chefia por elas não experimentados.

Para além da fala e da escrita, façamo-las representar visualmente com o reforço da nossa identidade étnica, do nosso credo/religiosidade e do sentido que está em reafirmar a pluralidade dos indivíduos.

Deixemos que a estética transite não só pela nossa beleza física, mas também pela nossa voz, pelo nosso letramento e nossa competência acadêmica. Chega de aparecer na televisão somente como passistas de escola de samba ou como negras gostosas a atiçar os instintos mais sacanas da macharada. Temos muito mais a falar do que nós mesmas podemos imaginar. Que toda e qualquer tentativa de silenciamento das nossas falas caiam em solo infértil, pois nossa capacidade de abstração caminhará a passos largos no universo letrado que ocupamos.

Avante, isso é só o começo.

Anúncios

Nós, mulheres pretas, também temos o direito de amar – e ser amadas

Padrão

Não aceite migalhas de afeto. O amor próprio é o elixir que está faltando no coração de muita preta por aí.

Ao longo dos tempos, tenho visto muitas mulheres, especialmente as pretas, serem preteridas por força de um contrato social elaborado especialmente para nos excluir. Aquele famoso jargão, “mulher preta não é pra casar” (sic!).

Isso é facilmente percebido nas relações afetivas que são constituídas informalmente – “juntar os trapos” -, e que dispensam maiores formalidades no envolvimento dos casais, sob a ótica de que não é importante” constituir uma relação mais séria conosco.

Não é preciso ir muito longe para ver o tanto de mulher preta que compartilha relacionamentos não acordados pela união estável/casamento. Isso não se configura um problema na relação afetiva, desde que ambos os envolvidos concordem com o seu estado de convivência. Entretanto, devo dizer que o reflexo dessa informalidade ratifica toda vez e sempre o modo como somos vistas e reportadas socialmente.

O sonho do matrimônio ainda é um legado conferido a quem detém o valioso patrimônio da cor – mulheres brancas – que, por sua vez, são em si representações de status de poder e sucesso social. Tal observância advém da vida prática. Não requer muita expertise qualquer inferência a respeito – basta ver quais mulheres figuram ao lado de homens que são a representação do poder no mundo [não se atentem às exceções, please].

Se observarmos com cautela, veremos muitos casos de mulheres pretas que por gerações são tratadas como menores frente ao matrimônio. Um disfarce nem um pouco amoroso que nos acomoda num lugar social de desprezo, nos condicionando a viver com migalhas amorosas e que determinam nosso lugar de subalternidade no espaço.

Aqui, não se faz relevante as estatísticas de homens pretos que preterem mulheres pretas pelo ideal de beleza e prestígio que a branquitude confere. Não me deterei a falar dos homens pretos, pois a minha atenção aqui é exclusivamente para nós: mulheres pretas.

Pois bem, e é falando de nós e para nós que volto minha fiel atenção, tendo em vista este texto ser imensamente autoral de uma mulher preta que ama e é amada. Que anseia pelos mesmos desejos que todas as outras mulheres suscitam em viver um dia: o gozo pleno da felicidade.

Sempre que falo de mulheres, especialmente as pretas, volto toda a minha observância, afeto e respeito no que discorro. Seria extremamente desonesto e insensato falar de um lugar apropriando-me de uma fala que não a minha e dando ganho de causa ao que não experiencio. Isso não seria sororidade. E é por falar de sororidade que aqui estou mais uma vez, discorrendo linhas para falar de amor, amor puro e sincero, amor despretensioso, amor de entrega, e, sobretudo, respeito.

Falar de amor por vezes soa piegas, inapropriado, ou até mesmo desnecessário. Rebato. Sim, rebato, pois, em tempos tão austeros, falar de amor é contraventor. Amor para a mulher preta é ultrajante. Acreditem, há quem pense que é um ultraje amar; amar uma mulher preta.

O ‘pecado original’ de amar uma mulher preta desloca o lugar social de quem se põe ao seu lado, já que não somos dignas de afeto.

Qualquer que seja o tempo, o afeto proporcionado pela relação que envolva uma mulher negra torna-se passível de desprezo e chacota social. Alimenta-se no imaginário social que a mulher preta é mais fervorosa no sexo, e com isso, é objeto de desejo para os infortúnios mais despropositados que atuam no campo sexual-antropológico (e depois há quem não entenda por que as mulheres pretas são as mais vitimadas pela violência sexual no Brasil). Isso encontra-se eivado no tecido da sociedade, sendo herança do nosso passado escravista, tão ensejado diuturnamente.

As denotações que atuam no campo da sexualidade são muito mais vibrantes e calorosas das que atuam no campo do debate racial. Aqui, me aventuro a falar de ambos quando falo do amor da/para a mulher negra.

Já discorri em outras linhas sobre a representação sexual da mulher negra e dos inconvenientes que isso nos traz. Assim como já me detive a discorrer sobre relações de raça e gênero. E de modo mordaz, apontei situações nas quais somos a todo momento violentadas por não ser nosso o direito exclusivo sobre os nossos corpos.

A quem confere se não as nós mesmas o direito de amar e sermos respeitadas por isso? O direito de amar e ser amada dentro de um contrato social ainda é uma realidade muito aquém do esperado por muitas de nós. E por menor que seja esse efeito simbólico de constituir uma relação matrimonial, isso tem tido um efeito impactante nas nossas vidas.

Somos mulheres, muitas, frutos de relações afetivas furtivas, filhas de mães solteiras, que não gozaram do direito ao véu e grinalda. O estado civil altera todo o sentido socioantropológico que vem sendo resgatado pelas/para as mulheres pretas. O casamento, para algumas de nós, não é um caprichinho, e sim a afirmação de um valor social que sempre nos foi tacitamente negado.

Por mais estranheza que o que escrevo aqui te cause, isso faz parte da nossa realidade há incontáveis e longos anos. Não lembro de precisar reportar-me tão enfaticamente às questões que atentam à mulher negra que não fosse requerendo e retomando uma fala que insistentemente pleiteia um espaço de poder. Falar de amor é também requerer um espaço de poder que nos foi/é negado.

Frente às conquistas que temos alcançado, falar de amor abre uma seara sociológica que apenas principia discussões maiores a serem alavancadas. Estas mal-traçadas linhas são apenas uma gota do que almejamos e ansiamos de modo sincero e justo.

Não esperamos estar indignamente nos rótulos de cervejas, tendo nossa imagem vendida de modo vil. Muito menos sermos representadas de modo esdrúxulo por homens que transfiguram um estereótipo de mulher negra que em nada contribui ao que buscamos ser.

Desejamos, sim, a dignidade de sermos respeitadas e amadas superando assim o acordo tácito que nos violenta física e simbolicamente. Por isso, falemos de amor, respeito e sororidade entre nós e para nós.

Fernanda Torres, o machismo e sua irritação desamparada

Padrão

Hoje, ao acordar, quase como de costume, acessei a internet e a primeira notícia que vi foi sobre um texto que a atriz e escritora Fernanda Torres publicou no blog da Folha, site do qual ela é colunista, falando sobre sua irritação frente à vitimização do discurso feminista.

Fernanda Torres

Logo pensei: ora, não deve ser nada de tão aviltante o que ela publicou frente à figura que representa e o canal que veicula suas publicações; vindo de onde veio, só podemos esperar isso mesmo. Resolvi ler o texto para tirar minhas próprias conclusões. E em resposta a atriz, escritora e colunista da Folha, escrevo esse texto.

Cara Fernanda, concordo contigo quando diz que “a vitimização do feminismo te irrita mais do que o machismo”. Devo concordar também com o fato de você afirmar textualmente que, “Não me incomoda o machismo, confesso, talvez seja uma nostalgia de infância que carrego. A geração que me criou era formada por machões gloriosos, de Millôr a Miéle, irresistíveis até nos seus preconceitos”.

Pode parecer estranho, mas o machismo se faz nostálgico quando não atinge nem vitimiza em larga escala mulheres brancas, de classe média alta, muito bem nascidas, mas tão bem nascidas, que só precisou ter saído do ventre de Fernanda Montenegro para ter acesso às benesses que só você tem e usufrui. Mulheres como você nunca vão sofrer na vida o desamparo e a agressão que o machismo dispensa a quem não nasceu no mesmo berço esplêndido que você. Nunca há de passar na sua cabeça de escritora quantas das mulheres têm sido assassinadas e violentadas por seus companheiros, pais, irmãos, colegas de trabalho, vizinhos e tantos outros homens que lhes são próximos. Sim, porque a violência contra a mulher parte de quem lhe é mais próximo.

Não há de pairar sobre ti também a dor da violência verbal ao ouvir um fiu-fiu, que a sua babá Irene, a tal mulherão, ouvia quando saía contigo pelas ruas. Tampouco, sentirá a dor que só o estigma da violência sexual a trará, deixando marcas que jamais se apagarão sobre seu corpo, sobre sua alma e seu inconsciente; elas sempre estarão ali lembrando-a de que foi vítima de uma violência tão brutal por ser mulher, e muitas das suas dirão que foi por merecimento, e que no mínimo você deve ter provocado usando uma saia curta, uma blusa decotada, um vestido que denotasse a sinuosidade do seu corpo sutil.

Foi simultaneamente interessante e assustador perceber a veemência que a sua fala traz sobre sua simpatia com o machismo, a ponto de considerá-lo nostálgico. E partindo desse pressuposto, o machismo pode até ser nostálgico, mas quando ele não nos atinge, ou melhor, não só quando ele não nos atinge, mas quando não nos compadecemos com a outra. Quando afirmamos publicamente que o machismo irrita muito menos que os discursos sobre a “vitimização feminista”. E isso só denota o egoísmo que lhe envolve como ser humano incapaz de se compadecer com a violência que o machismo provoca em grandes e estratosféricas escalas. Afinal de contas, boa parte dos homicídios no Brasil são oriundos do machismo. O mesmo que lhe parece simpático.

A tal “vitimização feminista” que tanto fere os seus brios tem sido um grito de socorro das muitas mulheres, que ao contrário de você, tiveram a chance de nascer Fernanda Torres, ser uma mulher que ostenta o patrimônio da cor – a branquitude num país racista como o Brasil lhe é de todo conveniente – uma mulher que nunca precisou deixar os filhos em casa para cuidar dos filhos de outras mulheres, assim como a sua babá Irene provavelmente fez com os delas enquanto cuidava para que você tomasse banho, fosse bem alimentada e fizesse as lições de casa.

Fernanda, assim como você, sei que existe zilhões de mulheres que pensam do mesmo jeito e sob a mesma lógica de que o mundo é esse cercado em que você vive, cheio de seguranças e babás, em que nem o porteiro do prédio onde mora levanta a cabeça para cumprimentá-la em sinal de obediência/subserviência porque simplesmente você é branca e bem nascida, ou como dizem por aí, você é a madame.

Então, peço-te encarecidamente, da próxima vez que publicar um texto com esse caráter, jogue suas cartas fora. Sim, suas cartas. As cartas de alforria das serviçais que te servem e sofrem desse machismo simpático e nostálgico. Libertem-nas do desagrado de conviver com um ser insensato e sem nenhum espírito de humanidade para com a outra. A Irene vai te agradecer por isso.

 

 

 

 

Considerações sobre o afrogenocídio em curso no Brasil

Padrão

Há pouco mais de um ano no bairro do Cabula, em Salvador, aconteceu uma chacina que exterminou doze jovens na localidade de Vila Moisés. Um ato arbitrário, covarde e cruel perpetrado pela PM baiana e abertamente aplaudido pelo governador do Estado, senhor Rui Costa, quando afirmou publicamente que a ação dos policiais assemelhava-se ao de jogadores de futebol: “é como um artilheiro em frente ao gol, tem que decidir em alguns segundos como é que ele tenta botar a bola para dentro do gol”, (…) “depois que a jogada termina, se foi um golaço, todos os torcedores da arquibancada irão bater palmas e a cena vai ser repetida várias vezes na televisão. Se o gol for perdido, o artilheiro vai ser condenado, porque se tivesse chutado daquele jeito ou jogado daquele outro, a bola teria entrado”. Diante de tal declaração, não há argumentos que contradigam o posicionamento do Estado frente à truculência/violência cometida por policiais no estado da Bahia, e não só aqui.

4

De todo modo, nos assombra pensar que se um chefe de Estado se posiciona desta maneira, não temos a quem recorrer frente à situação de calamidade em que nos encontramos. É lamentável dizer, mas situações como estas são recorrentes na cidade de Salvador, bem como em todo o país. Os casos de assassinatos de jovens pretos nas periferias das grandes cidades saltam a olhos nus frente às estatísticas e os altos índices de violência na sociedade.

1

0Parte-se do princípio de que “todo pobre e preto é vagabundo” e que “bandido bom é bandido morto”, o que confirma o modus operandi das polícias brasileiras em todo o território nacional.

O mais aviltante é ver que a força que o Estado exerce suprime qualquer reação contrária à sua arbitrariedade. Pois no acontecido de Vila Moisés, a grande mídia teve acesso às notícias, o caso foi exibido e noticiado nacional e internacionalmente, movimentos sociais fizeram frente ao acontecido, comissões de justiça organizaram moções de repúdio à violência do braço-armado estatal e de apoio às famílias vitimadas. E, um ano depois do acontecido, por uma infeliz coincidência, era carnaval, e, como presente à população, o governador do estado, presenteou-a com uma festa momesca “democrática” – um carnaval sem cordas para os foliões pipocas –, um investimento de mais de R$ 60 milhões, como um cala-boca para a população que há um ano fora violentada pela força policial.

(Isso não significa que a população de Salvador esqueceu-se do primeiro aniversário da chacina. Houve quem fosse ao Curuzu no dia da saída do bloco Ilê Aiyê para constranger o governador sobre o ocorrido há um ano.)

O que é isso, senão a política do pão e circo para todos? Ou melhor do circo, pois o pão e o circo eram dados pelos imperadores romanos, os governantes atuais só dão o circo. Quer comer pão? Vá comprar!? A conjuntura social em que vivemos só vem a ratificar o estado de calamidade pública a que estamos submetidos. Truculência, arbitrariedade, agressões, política de extermínio, esses e outros compõem a prerrogativa máxima do braço armado do Estado, que é a polícia.

03

Não obstante disso, contamos ainda com a virulência social em que tudo isso se transforma em estado de repressão.

Casos como o de Vila Moisés não estão estanques ao que acontece cotidianamente. O assassinato do menino Joel, no bairro do Nordeste de Amaralina, ocorrido no ano de 2010 é mais uma prova cabal de quanto a força policial é grotesca e assassina. Apesar de ser noticiado, e o caso ter servido de inspiração para um documentário, as autoridades negaram-se a reconhecer a ação desastrosa dos policiais envolvidos e, em represália ao acontecido, impediram que o documentário sobre a vida do garoto fosse exibido aos moradores no bairro onde ele morava.

Esses e outros casos ilustram o cenário de guerra em que se encontra o estado da Bahia, mas não só ele, o Estado nacional, que consente que forças policiais ajam com truculência e arbitrariedade contra a população sob a justificativa de prender bandidos e promover a paz.

3

E para além desses casos de violência policial, não há como não interseccionar o quesito raça em ambos os casos, e isso se faz notório inclusive nas notas de jornais quando se faz referências a “jovens” quando se trata de pessoas de classe média/classe média alta e brancas, e quanto falam de “menores” quando se referem aos adolescentes pobres, por redundância negros, oriundos das zonas de pobreza.

A relação raça/cor mais que se imbricam na ação policial. O Mapa da Violência 2012 nos mostra claramente qual a cor do homicídio no Brasil.

tabela

Com base nesses dados, e nas ações que são perpetuadas no nosso cotidiano, não nos resta dúvida de qual alvo a polícia escolhe como “bandido”.

O propósito fiel de exterminar negros no Brasil está se firmando há séculos. Pois, esta era umas das premissas do nosso projeto de nação pós-abolição da escravatura, e quando da importação de europeus como mão de obra barata para compor o quantitativo de gente para o trabalho livre em algumas regiões do país. A tendência era povoar o país com europeus, exterminar negros e ao longo dos anos extinguir a mancha deixada pelo escravismo no Brasil. Projeto este que foi fadado ao fracasso, pois a escravidão sozinha não cuidou de eliminar toda a raça negra do país, tão logo as investidas para seu extermínio se ergueram por meio de ações estatais que impermeabilizaram a inserção social do grupo, mantendo-os à margem das garantias e direitos sociais.

Isso está refletido nas ações que o Estado perpetuou como garantia de solapar os direitos necessários à população negra, e a força policial é uma das garantias de extermínio da população negra no país.

01

O que Nina Rodrigues, ancorado pelos estudos de Cesare Lombroso, fez no século XIX, se ratifica no plano de governo de Rui Costa e seu secretário de segurança pública. Guardadas as devidas proporções, o cenário se ressignifica, pois o racismo com o passar do tempo se sofistica.

 

5

O projeto político que Nina Rodrigues e demais construíram há dois séculos, se firma com doses de chumbo nos dias atuais. A perpetuação do racismo vilipendia a população negra e a abate como porcos. A violência policial é um sinal grotesco dessa política de estado que reafirma seu compromisso vil fundado nas bases do extermínio sob a égide de promover a paz. Pois, crê-se na máxima de que “bandido bom é bandido morto”. Mas qual é a cor desse bandido?

No Brasil esse bandido tem raça, cor e endereço. O preto, pobre, da periferia nunca deixará de ser a bola da vez do grande lance futebolístico, em que nós estaremos com espectadores e impossibilitados de promover ações enérgicas contra quem que escolhe pelo tom de pele seu alvo.

02

Da Mulata Assanhada à Faixa Amarela: o racismo, o sexismo, a cultura de violência e as molas propulsoras da Música Popular Brasileira

Padrão

Semana passada, estava assistindo a um programa de TV exibido no canal fechado Bis sobre uma turnê do DJ holandês Tiësto em Kuala Lumpur, na Malásia. Em seguida, começou um outro programa musical de samba cuja cena inicial foi um clip em que o cantor e compositor Dudu Nobre cantava a música Mulata Assanhada, composição de Ataulfo Alves, na qual um dos trechos diz o seguinte: “Ai, meu Deus, que bom seria/Se voltasse a escravidão/Eu comprava essa mulata/E prendia no meu coração.”

Distraída que estava, fiquei estupefata ao ouvir a composição e, ato contínuo, me dediquei a buscar sua letra e ver em versos o que sua composição trazia.

A música foi interpretada por grandes ícones da MPB, Elza Soares & Thiaguinho, Elis Regina, e por assim sê-la está passiva de ser questionada. Só que não.

Ciente da “licença poética” concedida aos compositores para rabiscarem em verso e prosa as maiores atrocidades em ritmo musical, sei que confrontar o que se entende como MPB é quase um desacerto, senão um desacato, ou quem sabe até um crime de lesa-pátria. Mas, devo confessar que, diante de tamanha atrocidade expressa na letra desta música, não me permiti ser passiva, como assim o fiz diante de tantas outras que cantarolaram por aí.

É notório que a escravidão no Brasil durou oficialmente 388 anos – e estamos no processo moroso de reparo social há apenas 127 anos; a PEC das Domésticas , o sistema de cotas  e os ataques ao Programa Bolsa Família  estão aí para mostrar o quão tenso e conflituoso é tentar mexer – ainda que timidamente – no nosso passado escravista a fim de reparar os nossos crimes históricos. Ou seja, ainda estamos bem longe de promover cidadania e garantia de direitos equânimes aos oriundos do regime escravista. Tão logo, musicar um evento desastroso para a nossa sociedade atrelando a isto relação de amor é de uma conotação agressiva, que trata de violar os direitos mínimos necessários adquiridos por aqueles que foram vitimados pelo regime. É então, tratar com descaso o ocorrido e invalidar a luta social estabelecida em prol da sua extinção.

Lembrei-me da cena de abertura do primeiro capítulo da minissérie Suburbia, em que Érika Januza estreou na carreira de atriz interpretando uma trabalhadora doméstica que foi estuprada pelo patrão ao som de uma música de Roberto Carlos. A Rede Globo, como sempre, prestou mais um enorme desserviço à sociedade brasileira ao nos fazer acreditar que estupro e sexo são a mesma coisa. Gilberto Freyre pouco é bobagem.

Falar da escravidão com o descompromisso e sem se ater à tragédia que proporcionou é de uma leviandade sem precedentes, pois tende a invalidar conquistas promovidas por políticas de reparação que há muito tentam se firmar.

E há um propósito fiel nas composições que retratam situações do cotidiano, e até mesmo eventos fatídicos e de tragédia com tamanho desdém que se isentam de qualquer responsabilidade. Pois, trata de garantir que o fosso e as assimetrias de classe/cor se esvaiam a ponto de criar pontes nas conjunturas sociais que se valem da violência a fim de corroborar com o desnível social que nos achaca.

Mas não só da escravidão se atém os compositores. A cultura da violência ultrapassa as fronteiras do permissivo e invade o cotidiano das pessoas a fim de pormenorizar sua prática. Ao que temos então a música Faixa Amarela, de composição de Zeca Pagodinho, que traz o seguinte: “Mas se ela vacilar/ dou um castigo nela/ dou-lhe uma banda de frente/ Quebro quatro dentes e cinco costelas/Vou pegar a tal faixa amarela/Gravada com o nome dela/E mandar incendiar/Na entrada da favela.”

A composição incute no imaginário popular que a violência contra a mulher não só é comum, mas necessária, pois torna digno de ser quem o pratica. Mais uma vez cantada em verso e prosa, se traveste de amor um ato de violência que se justifica numa sociedade em que esta prepondera.

Ou seja, tratamos aqui de abordagens que partem do nosso passado histórico e recaem sobre o senso comum.

A explorar um pouco mais desse vasto universo musical, vos trago outra composição muito conhecida e interpretada por um das maiores figuras da música brasileira, Elis Regina: “Nega do cabelo duro/Qual é o pente que te penteia/Qual é o pente que te penteia/Qual é o pente que te penteia, ô nega”.

Semelhante a essa há também, “Nega do cabelo duro/Que não gosta de pentear/Quando passa na Baixa do Tubo/O negão começa a gritar”, interpretada por Luiz Caldas, grande músico baiano – segundo dizem -, considerado o “pai da Axé Music”.

Perante os padrões de beleza que se configuram, tratar a diversidade com deboche e desprezo é firmar o contrato social que garante que o bom e o belo é ser branco e ter cabelo liso, adiante isso foge-se à regra.

Questionar o inquestionável é ferir os brios de um grupo privilegiado que por ter assegurado o direito que os acomoda num conforto social ditado pelas assimetrias de classe, cor e gênero.

A música é mais um veículo a transmitir essas assimetrias, e através dela se estabelecem padrões de beleza, regras sociais, estilos de vida em comunidade, e tantos outros fatores que acomete quem está em desvantagem frente ao privilégio de não ser fruto de um sistema de classe que não preza pelo respeito e diversidade entre os povos.

A variedade musical da nossa sociedade nos mostra o quanto ainda estamos confortavelmente ancorados nesse sistema, que ainda preza pela cultura de violência, pela negação social, e, sobretudo em tratar como insólito e inválido o outro.

Quando me descobri feminista

Padrão

Devido a algumas percepções do meu cotidiano que me afet(av)am (in)diretamente, debrucei-me sob leituras que julguei pertinentes e necessárias a fim de entender o que me cerceava como mulher, e o que me rotulava por ser mulher e negra. Lembro que esse foi o pressuposto para eu pensar minha condição social no mundo no qual estava inserida, e, de posse dessas leituras, meu inconsciente retomou algumas situações do meu passado e da minha memória afetiva que delineou meu posicionamento político diante de determinadas fronteiras.

A princípio, devo recordar uma situação que me ocorreu quando eu tinha oito anos de idade, e que me fez pensar por que e de qual lugar eu tomava para mim a condição de ser feminista (por mais que eu não reivindicasse esse rótulo para mim completamente).

maya

Certo dia, meu pai chegou do trabalho, foi ao banho, e minha mãe, atrelada com os afazeres domésticos, imediatamente largou o que tinha à mão, foi esquentar a janta para logo em seguida pô-la na mesa para ele. Eu, com oito anos, não concebia o porquê de uma pessoa, sendo ela mulher, ter de esquentar a comida para outra, no caso o homem, sendo que se ele estava com fome, ele deveria esquentar sua própria comida. Naquele tempo, eu não entendia muito bem como as situações transcorriam em meio à ordem social vigente para os nossos padrões de convivência numa sociedade patriarcal. Esse foi o fio da meada que me circundava.

Em momento oportuno, me apropriei de cabedal teórico sobre o feminismo negro, e pude perceber quais eram os demarcadores sociais que subjuga(va)m a mulher, em especial a mulher negra, à mera condição de subalterna.

Tão logo, vi a necessidade urgente de questionar, debater e sobrepor a ordem social que havia demarcado o meu lugar na sociedade, e, assim, partir para o enfrentamento diante das condições que me foram dadas.

Foi o que eu fiz: mergulhei a fundo em leituras de Bell Hooks, Alice Walker, Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Chimamanda Adichie, Neusa Santos Souza, dentre outras, a fim de burlar o círculo vicioso no qual estava envolta e romper com os rótulos que me foram atribuídos.

Primeiramente, fiz uma imersão nas leituras, estas, por sua vez, como numa digressão psicanalítica, retomaram situações que me ocorreram quando da minha infância, mas que, por conta da imaturidade pueril, não me davam argumentos necessários ao que acontecia – momentos semelhantes aos acontecidos quando dos meus oito anos, e que por ora não compreendia. Aos poucos, fui relembrando casos e situações do meu espaço doméstico visto sob a ótica da normalidade, mas que me provocavam extremo furor. É importante salientar que devo retomar alguns dados da minha vida cotidiana familiar para que se possa entender o porquê da minha altivez e rebeldia, que mais adiante serão esmiuçadas.

Sou a filha mais nova de quatro irmãos – um já falecido – e que foi criada sob a égide da religiosidade cristã e do militarismo. Sempre superprotegida por ser a mais nova, a caçulinha da família, não só por meu pai, mas também pelos meus irmãos, tive uma formação escolar amparada pela educação militar. Ou seja, o militarismo extrapolava as fronteiras do meu ambiente familiar. Isso foi o suficiente para adestrar-me socialmente.

Era uma lição diária o que meu pai repetia para mim: eu deveria estudar, trabalhar, não casar e acima de tudo, nunca depender – financeiramente – de homem nenhum. Essa foi a premissa da minha criação até a idade adulta. E assim cresci, com esse lema que transcendia os limites do meu cotidiano. Um cotidiano cercado de subalternidade, submissão e obediência.

(Era bem difícil entender como um homem machista, autoritário, violento por definição, que submetia a minha mãe a uma verdadeira ditadura, podia ao mesmo tempo dizer que eu não deveria lutar para ter o meu e não depender de homem para nada porque “homem não presta”. Mas isso eu já expliquei em outro texto )

Estudei, trabalhei, não casei, e sempre busquei por minha autonomia financeira. Pensar o contrário era reviver tudo que minha mãe passava, e que eu repudiava. Em meio ao instrumental que meu pai se incumbiu de oferecer-me, eu o arguia diante os seus feitos. Ele ensinava aos meus irmãos a tratar com desrespeito as mulheres da rua, a sentar de perna aberta, a não conter sua necessidade fisiológica de urinar e aliviar-se no primeiro poste, a namorar logo cedo para firmar o ethos da masculinidade, ao tempo em que eu deveria ser prendada e recatada, para que ninguém se atrevesse a fazer comigo o que os meus irmãos faziam com as garotas da rua. Tão logo passei a questioná-lo. O sonho então se transformou num pesadelo. A menina obediente criada como um garoto, que não deveria se sujeitar a vontade de quem quer que fosse, agora passaria a questionar sua posição de macho alfa, e não mais aceitaria seus desmandos. A altivez e rebeldia agora tomavam conta de mim de modo tão palpável que se tornava a cada dia assustador.

Onde estava aquela criatura dócil e dedicada que nada questionava? Confesso que a adolescência é uma fase de imenso furor na vida de qualquer ser humano, pois a audácia e a altivez lhe são peculiares e desafiadoras. O que foi fundamental para eu travar um campo de batalha no meu âmbito doméstico-familiar, diante os questionamentos que me cercavam, a vida que levava, os desmandos a que era submetida. Advém daí tamanha rebeldia e altivez. Questionar era (é) para mim fundante em qualquer relação. O direito de questionar me faz ser quem eu sou, e, sobretudo, firma o contrato de uma relação horizontal para que se possa estabelecer um diálogo necessário.

E é por questionar e defender o direito de assim fazê-lo que fui buscando para mim a identidade feminista – ainda que, como já disse acima, eu não reivindicasse o rótulo. O direito de não ponderar a igualdade de gênero perante os indivíduos, o direito de contrapor ideias que têm como premissa a razão e o óbvio da objetividade masculina. O direito de achar estranho e anormal as estatísticas que apontam os elevados níveis de violência contra as mulheres.

Ou seja, lá no auge da minha infância havia uma veia feminista que esbarrava no autoritarismo e na falta de informação necessária às arguições a que hoje disponho. Lá, na minha infância, estava guardado o meu feminismo. Um feminismo que não compreendia bem o sentido e a ordem das coisas, mas que se intrigava com as relações que eram constituídas. Sem saber fazer o devido uso dos argumentos (afinal de contas, eu era uma criança), mas que percebia a estranheza presente nos meandros da relação machista do meu pai para com minha mãe, o que me causava estranheza ver que cabia a minha mãe as tarefas domésticas, enquanto que meu pai dizia que homem não lavava pratos; me causava estranheza quando meu pai inseria meu irmão mais velho na vida sexual do modo mais comum e antigo que os pais se utilizam para assim fazer, ao tempo em que eu, como menina, deveria me preservar e privar, inclusive do casamento, um mal nada necessário.

Foi urgente a necessidade de repensar minha condição perante o mundo, pois foi diante dele que se ergueram as minhas dúvidas mais insurgentes. Foi no meio familiar, escolar, na vida comunitária, no espaço de trabalho que se ergueram meus questionamentos diante o que me era posto.

Quando meu pai dizia que eu, ainda criança, tinha de cuidar dos meus sobrinhos, ao tempo em que para meu irmão não cabia a mesma obrigação. No momento em que, por estudar em colégio militar, devia obediência ao superior pela patente e pelo status de masculinidade. No instante em que sofri meu primeiro assédio, aos treze anos de idade quando estava a caminho da escola. Quando fui por diversas e incontáveis vezes assediada sexual e moralmente no trabalho, por ser mulher, negra e, por conta disso, considerada e tratada como inferior socialmente. Quando, na família, não aceitaram o fato de eu ter estudado e ter sido a primeira a ingressar na faculdade, ter um emprego público e uma estabilidade que me propiciava uma comodidade necessária, ao tempo que meu irmão mais velho não gozava das pequenas benesses que arduamente adquiri (que a meritocracia não seja a medida de todas as coisas, mas neste caso específico, esta muito me serviu). Quando comecei a delinear meus anseios nos meus escritos e fui arbitrariamente questionada sobre a minha formação e vinculação partidária, por acharem que por ser mulher e negra, eu não tinha competência e inteligência necessárias para defender minhas ideias sem o esteio de um diploma ou grupo de militância.

Foi diante tudo isso que julguei mais que necessário o meu posicionamento político frente à sociedade que me relega ao rés do chão que me desampara. Parto da premissa de que assimetria social não se repara com política de governo, e sim de Estado. Uma política de Estado efetiva que se insira nos moldes de uma constituição cidadã, e não de um Estado com prerrogativas legais fundadas no machismo contemporâneo e arcaico, e que veicula a violência contra a mulher como mera estatística; uma violência amparada em números.

Pois, cabe-nos pensar o quão violenta é a permissividade do Estado em não punir com severidade atos infratores de agressão à mulher. Situações de estupro, em que muitas delas, senão todas, são vistas como motivadoras do crime e não como vítimas.

1

A esquizofrenia social nos conforma na ideia de que nós, mulheres, achamos normal e até mesmo comum o fato de uma em cada dez mulheres ser agredida por seu marido/companheiro dentro do seu espaço doméstico, e tal ação ser justificável por se estabelecer aí uma relação conjugal (“em briga de marido e mulher, não se mete a colher”). Ou seja, partilhar um espaço doméstico sustenta a premissa de que a mulher pode sim ser propriedade do homem, e no caso ou eventualidade desta ser cobiçada por outro, a culpa é única e exclusivamente dela que “não se deu ao respeito”.

RESPEITO

Cremos no fato de que os crimes passionais movem-se pela paixão obsessiva, mas não atentamos que esta se firma na lei colonial que fala sobre o crime contra a honra, que dizia que o marido tinha o direito de matar sua esposa em caso de traição por parte desta. Essa era a prerrogativa das Ordenações Filipinas, da época do Brasil Colonial, que perdurou no país até meados da década de 1920. O que mudou de lá pra cá? A conjuntura legal estabeleceu novos parâmetros, no entanto, a configuração social em muito se assemelha.

Sei que diante tal situação houve avanço no sentido de minorar os efeitos da violência contra a mulher. Mas o ganho social ainda é ínfimo diante da tamanha desvantagem na qual nos encontramos.

Não devo aqui desconsiderar todo o esforço investido com ações em prol da igualdade na garantia de direitos entre homens e mulheres, mas ainda estamos muito aquém de algumas questões.

O desserviço prestado em diversos campos da sociedade nos exibe claramente que ainda estamos firmados em contratos sociais que prezam pela assimetria de gênero. E podemos facilmente notar quando adentramos o campo da saúde, pois os índices de violência obstétrica só ratificam que ainda há muito que prosperar.

Deste modo, devo aqui dizer que não reivindico para mim a condição de feminista por modismo ou fetiche. A transversalidade em que o feminismo tem se instaurado perpassa toda a conjuntura que lhe insere num único viés.

As relações de poder instauradas no tecido social reverberam que ainda há muito que se fazer, e toda atividade laboral é extenuante. E como não ser diante de tamanha necessidade de representar o diverso, o que não compõe o padrão?

Não se adequar aos moldes de uma identidade de gênero que zela pela masculinidade heteronormativa, cristã, cis e branca é afrontar os direitos já constituídos de quem o é. Por isso, reafirmo a necessidade de repensar qual paradigma vingamos quando arguimos essa posição como única e formadora de padrões oriundos de um círculo excludente e violento, ensimesmado de razões que solapam o direito à cidadania e o livre pensar quando estamos fora desse padrão.

E mais uma vez ratifico que devemos confrontar todo e qualquer pensamento que nos acomode na qualidade de minoria, no seu sentido semântico. Não somos minoria. Reunamo-vos em prol de uma verdadeira e válida equidade de gênero.

Reafirmemos o compromisso de promover ações que caibam no bojo social vigente, e, sobretudo, assegurem o direito de ser mulher na instância que nos cabe. A mulher que trabalha, que estuda, que é arrimo de família, a que tem marido, a que é mãe solteira, que escolheu não ter filhos, que é cis, trans, hetero ou homoafetiva, que pretende casar, que preza por sua liberdade sexual.

Que não prepondere aqui um estatuto do privilégio, e sim, a garantia de direitos que prezem pela igualdade de gênero, e acima de tudo, se sobreponha aos ditames socialmente postos sobre a mulher.

É pensando nisso que retomo minha condição de feminista.

 

 

 

 

“O dia em que a Terra parou”

Padrão

Reuniões desmarcadas, contratos de trabalho cancelados, negócios desfeitos, relacionamentos amorosos em crise, amizades estremecidas, compromissos casuais por hora também suspensos. Um simples “bom dia” deixou de ser dado porque o WhatsApp está desativado por 48h no Brasil, em virtude de uma decisão judicial.

Hoje, acordei e, ao ligar meu celular, fui bombardeada com mensagens sugerindo a instalação de outros apps na tentativa de “manter a comunicação”, visto que o “zap” parou. Não sabia se ria ou se tentava discursar filosoficamente sobre a dependência quase química das pessoas a um equipamento tecnológico, e tão recente nas nossas vidas quanto é o celular e todas essas novidades que pululam nas prateleiras das lojas e nos anúncios publicitários todos os dias, enfim.

A “aplicativização” (um caso grosseiro de neologismo) da vida é algo que tem mudado a vida das pessoas. E quando digo “mudado”, estendo a discussão que parte do melhor para o pior sentido que isso possa ter. Quase ninguém mais se dá ao trabalho de procurar nada com paciência. Há aplicativo para tudo: para rastrear correspondências nos correios, para movimentar a conta bancária, para pagar a fatura do cartão de crédito, para medir a frequência cardiorrespiratória durante a corrida noturna, para ver os filmes em cartaz e comprar ingressos de cinema, para jogar xadrez, para identificar chamadas telefônicas feitas a partir de números não gravados na agenda do celular, para ler livros em formato ebook ou epub, para pegar receitas culinárias, para chamar um táxi, para saber quais ruas e avenidas estão congestionadas e quais estão livres. Somados a todos estes (e muitos outros que eu nem sei que existe e para que servem), há aplicativos para quem está na pista à procura de sexo casual e descompromissado e para “fazer amizades” – seja lá o que isso signifique. Aquela história de cuidar do corpo, tomar um banho de uma hora, vestir a lingerie da sacanagem e uma roupa provocantíssima por cima, colocar aquele perfume, dar um trato no cabelo, por uma maquiagem específica de “tô na pista pra negócio” e sair para caçar não existe mais.

A coisa é tamanha que nós não sabemos mais viver sem recorrer a esses benditos aplicativos. Quando um deles (ou todos eles) ficam desativados sabe-se lá por que razão, nós só faltamos rasgar as nossas vestes de desespero. E agora? O que será de mim? Como é que eu vou viver? O que eu vou fazer? E se aquela pessoa que sempre visualiza as minhas mensagens e nunca respondeu a nenhuma delas resolver fazer isso hoje? É o horror, o horror, o fim dos tempos, O APOCALIPSE! Seremos jogadas na fornalha seca, onde haverá fogo e ranger de dentes…

Eu diria até que seria um caso de endogênese digital. Sim, porque a endogênese corresponde à qualidade do que se forma no interior de algo. Ou seja, a endogênese digital prepondera que a qualidade de nossas vidas e por consequência nossas relações estão imersas em sua era digital e nada mais. Funciona como um processo celular – no sentido biológico da palavra – e não digital, do qual trata esse texto, mas a simbiose dos sentidos semânticos ratifica o que quero dizer em ambos os casos. A analogia tem validade. Mas como eu ia dizendo anteriormente, o uso de aplicativos hoje tem tornado a nossa vida um sucesso quando nos confere a capacidade de resolver quase tudo de que precisamos através de um único equipamento, o celular. Ou um fracasso quando nos denota a incrível capacidade que fomos perdendo ao longo do tempo de nos comunicar de modo mais objetivo com as pessoas, em que se constata o efeito sinestésico da vida; dar um oi pessoalmente, cumprimentar com um abraço, sair de casa para ir à pizzaria e voltar para comer a pizza em casa, discar no telefone o número de um táxi no momento de emergência, seja ela boa ou ruim. São ganhos e perdas ao qual estamos condenadas quando ingressamos nessa nova era digital. É o mundo líquido do qual nos fala Zygmunt Bauman.

E não que eu seja saudosista, piegas, ou até mesmo antiquada, mas confesso que sou da época – expressão que denota discretamente que minha geração já está pra lá de ultrapassada – que amigas se comunicavam por cartas. Sim, cartas, e todas manuscritas, é claro. O ato de escrever manuscritamente está quase caindo em desuso, pois, quando me arrisco, tenho a impressão de que vou desenvolver, no mínimo, uma tendinite (lembrei as minhas aulas de biologia sobre a lei do uso e do desuso de Lamarck, que disse que o uso constante causa hipertrofia e o desuso, atrofia). Mas ainda preservo as cartas, todas bem guardadas como símbolo de um tempo que sei, e lamento, não voltará mais. Aquele tempo em que, como disse Karnal, lambíamos muitos selos. Enfim.

 

Essa plasticidade que o mundo tem adquirido de lidar com quase tudo nos torna cada vez mais dependente e menos autônomos de nós mesmos. Esvai-se a capacidade mínima que possuímos de administrar coisas e pessoas num simples toque. A vida digital é assim. Tudo apenas num toque.

Mas não o toque singelo de dois indivíduos. É o toque que reconhece nossas impressões digitais e nos concede o acesso a um mundo inteiramente feito e comandado por códigos binários que se alternam na composição dos signos digitais. O biopoder foucaultiano.

O binarismo na era digital é o logos que rege toda sua dinâmica sensorial. O que na vida moderna é de uso único e exclusivo dos equipamentos. Ou seja, estamos fadados ao fracasso de sermos binários. O que em poucas palavras define-se em ser bom ou ruim, feio ou belo, doce ou amargo. A extensão da vida nos permite sermos muitos mais que isso. A vida nos deixa extenuantes de sensações e sentidos que extrapolam o limite do maniqueísmo. Não, não somos. Ainda que o mundo queira estabelecer esse muro simbólico, a fim de desafiar ou conformar os significados do caráter do ser humano, não somos interligados por efeito binário. E que bom.

Mas para além do binarismo tecnológico, o que aqui se faz redundante, mas necessária à compreensão por parte de quem os está lendo, desmoronamos numa cascata digital que determina desde o tipo de pessoa com a qual devemos nos envolver afetivamente, até ao que podemos antropofagicamente consumir: comida, bebida, leitura, estilo de roupa, tudo que se adeque para o nosso bem-estar social. Tão logo, isso envolve o ethos. A formação da nossa moral e caráter agora totalmente dependentes da era digital.

Percebamos o quão isso nos torna frágil diante um mundo que nos controla, nos vigia e nos cerceia tal qual um tribunal. Um mundo que ao lhe conferir acesso a essa rede de conexão mundial estabelece qual estilo de vida devemos adotar. Num modo bem otimista de pensar, estamos todas, infinitamente todas, sendo monitoradas e controladas pelo Big Brother tal qual foi concebido por George Orwell no livro 1984. Foi o que esse mundo se tornou, fonte de informações, notícias e dados que nos vincula a um único lugar, o WhatsApp. E aqui nos vemos presos a essa teia que nos limita a cada instante de ser quem somos, seres humanos.

E voltando ao título do texto, O dia em que a Terra parou, foi um sábio presságio feito por Raul Seixas, o eterno Maluco Beleza, a tudo que estamos passando hoje.

 

P.S. Abaixo segue um vídeo que é um comercial de um banco. Abrindo a ressalva de que não estou aqui fazendo propaganda gratuita, muito menos tentando alavancar seu índice de visualizações, e por consequência, ajudar a promover a imagem de um dos bancos que mais injetou dinheiro no período da ditadura civil-militar no Brasil (leiam o livro 1964: a conquista do Estado, escrito por René Dreifuss para entender o que eu estou falando). O que julguei interessante foi a mensagem transmitida no comercial, e que aqui se faz perfeitamente cabível ao que discorri no texto.