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QUEM VAI PAGAR A CONTA?

01

(Por Raphael Mukumbi Lisboa)

QUEM VAI PAGAR A CONTA?

Quem vai pagar a conta
De mais um vida
Tirada
Mai uma bala achada
Em um corpo negro
Favelado?

Quem vai ser preso
Por tratar um ser humano
Como saco de merda?

Quem vai responder
Por crime de assassinato
Homicídio legalizado
Tutelado pelo
Estado?
Quem vai pagar a conta
De mais um “erro”
“deslize”
Ou uma simples “má conduta”?

Quem morreu foi quem perdeu
A vida..
Mais uma mulher pra compor os ricos
Números de mortos pela mão da
Policia!!!
Culpam o trafico
Culpam o morro
Arranjam desculpas
Afastam acusados
Mas não mudam
Condutas

Ninguém paga a conta
Todo mundo faz de conta
Que nada disso
Existe

Não tem Viva Rio saindo as ruas
Nem bandeira branca pedindo paz
Pela ruas das grandes capitais.
É apenas mais uma vitima qualquer
Mais um corpo caído em uma favela brasileira
Mais uma negra que teve ousadia de nascer
No Brasil.

02

Eu, Paula Libence, mulher preta, pobre e moradora da periferia de Salvador também poderia ser Cláudia da Silva Ferreira. E por isso não me calo. E pergunto: QUEM VAI PAGAR A CONTA?

*Créditos literários a Rapkael Mukumbi Lisboa, pois…

Sou Raphael “MUKUMBI” Lisboa de Souza, estudante PRETO do primeiro semestre de História da UFBA, mas também poderia ser Cláudia da Silva Ferreira. Mais uma vítima da violência policial, mais uma vítima do racismo institucional.

Quantos mais terão de morrer? Quanto mais terão seus corpos arrastados e profanados?

 
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Publicado por em 19/03/2014 em Publicações

 

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Infância, música e pobreza: sua criminalização e alguns aspectos correlatos

Falar sobre música e infância é por demais interessante. Eu já escrevi um texto no qual se imbricavam música, juventude, sexualidade e mídia, e olha que deu o que falar. O mais interessante, e por ora divertido, foi ver as pessoas vociferando seu ódio na caixa de comentários como se estivessem sendo afrontadas pessoalmente com tudo que escrevi – como se eu tivesse escrito o texto com a intenção deliberada de atacá-las. Achei o maior barato, e confesso que me diverti um pouco com isso, mas o que ficou notadamente marcado quando resolvi abordar esses aspectos foi perceber o tradicionalismo discursivo presente em alguns comentários. Nada mal, creio que cada pessoa tem o direito de expor sua opinião da maneira que lhe cabe. Partindo da prerrogativa que não ofenda o outro, tá valendo.

E agora me proponho a falar novamente sobre música, mas trago como pano de fundo a infância e a pobreza, bem como sua criminalização.

Ora, com as inovações das tecnologias da informação, o acesso às mídias virtuais teve um verdadeiro boom entre os jovens. A informação ganhou agilidade e mutação nos segundos em que é posta na rede mundial de comunicação. Ferramentas como Facebook, WhatsApp, Instagram e outros tem batido recorde de acesso e popularidade. Todos querem estar conectados.

E como toda essa rede de acesso à informação é vitrine de um mundo de consumo em que todos querem se inserir, essas ferramentas servem para propagar em proporções gigantescas e de modo dinâmico tudo que está na moda. A relação de poder que se estabelece numa rede de comunicação muitas vezes consegue transpor limites fronteiriços que estão entrepostos entre o ter e o que quero ser.

A relação de poder se perpetua em diversas áreas, e na música não é diferente. Sempre vejo circular nas redes sociais imagens de jovens, muitas vezes crianças ainda, dançando funk ou o pagode baiano. As crianças se exibem em coreografias tidas como sensuais e até mesmo “pornográficas”. Confesso que não aparenta ser interessante apreciar esse tipo de comportamento ainda na mais tenra idade. Mas o que não entendo é a depreciação que muitos se dispõem a fazer envolvidos numa vil hipocrisia.00

Afirmar que uma criança que dança funk está mais propensa a um futuro indigno é de uma violência tão brutal, quanto afirmar que é também por causa do funk que essa geração de jovens está toda perdida. Ora bolas, partindo do pressuposto que funk é um ritmo originário das periferias, e nelas reside a grande massa populacional que habita esse país, estamos apontando estatisticamente que boa parte da população tende a ser prematuramente mãe solteira, pai delinquente e todos comporão o exército da massa de manobra por gostar de funk.02

Como educadora que sou, devo afirmar em alto e bom som que gostar de funk ou de pagode não faz ninguém mais ou menos delinquente ou irresponsável que outra. (Ao que me consta, não há nenhuma relação entre criminalidade e música.) Conhecer a realidade que cerca cada um é no mínimo honesto, a fim de que se possa inferir algo sobre seu caráter.01

Falar que crianças oriundas da pobreza não terão um futuro digno porque praticam dança sensual e se exibem num jogo que preza pela valorização dos corpos é não deter da menor sensatez que valide um argumento diferente do “eu acho ridículo tudo isso”.

O bom senso foge aos nossos olhos diante de tudo que desprezamos, ou afetivamente aceitamos. E isso me faz lembrar uma situação que ocorreu no tempo em que trabalhei numa escola em Salvador, e tive de realizar uma atividade diagnóstica, a fim de constatar alguns estudantes que porventura tivessem dificuldade com a escrita. Para executar tal atividade, me utilizei da música como instrumento de trabalho.

A tarefa consistia no seguinte: o grupo (eu não fiz sozinha a atividade) tinha de coletar dos e das estudantes o estilo musical que mais lhes agradavam, estes teriam de escrever num papel o nome da banda ou música em troca de uma brincadeira em que havia troca de doces. No final da atividade, fora constatado que noventa por cento da turma gostava da música de uma banda de pagode muito famosa em Salvador, A Bronkka.

O mais engraçado em ter realizado essa atividade foi, posteriormente, ouvir a regente da turma afirmar que desconhecia a tal banda favorita de seus estudantes, bem como desconhecia também a apreciação de seus estudantes por tal ritmo. Segundo a professora, ela nunca havia escutado nada daquela banda musical, pois no local onde ela reside ninguém toca “esse tipo de música”. Ou seja, como ela não foi apresentada à banda, ela ignorava completamente a música que eles faziam. E assim era com seus estudantes, todos moradores de periferia, que ouviam tocar no rádio de suas casas, na casa do seu vizinho, nos eventos sociais em que estavam envolvidos (aniversários, batizados, casamentos e outros) sempre o mesmo ritmo e por isso apreciavam imensamente a ponto de desprezar outro ritmo mais bem aceito socialmente por simplesmente ignorar sua existência.

Ou seja, nós apreciamos tudo aquilo que nos é apresentado. Como disseram os Racionais MCs, as pessoas se espelham em quem está mais perto. Não dá para gostar de música clássica quando a comunidade em que se vive só toca arrocha. Falar que crianças que dançam funk estão perdidas é um juízo de valor infame para quem sequer apresentou a estas crianças a NEOJIBA, a Jam Session do MAM, a OSBA, e tantas outras.

Quantos Joões Carlos Martins serão necessários para apresentar às crianças música clássica num projeto itinerante que leva eruditismo às periferias do Brasil? Quem sabe assim as crianças poderão escolher se gostarão de funk ou música erudita.03

É muito fácil achincalhar publicamente uma menina favelada que “rala a tcheca no chão” ou se acaba no arrocha, mas alguém foi lá mostrar a ela alguma coisa diferente? Quantas pessoas já se deram ao trabalho de montar alguma oficina de balé em alguma associação comunitária ou centro social urbano de um bairro periférico?

Até lá, retruquemos nossos preconceitos dentro de nós mesmo antes de proferir opiniões que em nada contribuem para mudar o cenário em que vivemos atualmente. Se somos capazes de promover mudanças, que a promovamos positivamente. Sejamos, nesse sentido, construtivistas.

 
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Publicado por em 24/02/2014 em Publicações

 

“Matei por amor”: a complexa noção do ataque vil às mulheres

O que faz um homem esfaquear sua ex-companheira numa passarela da cidade de Salvador e levá-la à morte por desconsiderar a hipótese de ela não querer mais viver uma relação contigo?

Foi essa a pergunta que o meu companheiro fez hoje à noite após eu ter contado a ele um caso que vi no jornal a respeito de uma mulher de 20 anos de idade, moradora do Parque São Cristóvão, que foi brutalmente assassinada pelo ex-marido, um homem de 35 anos, com 15 facadas quando estava a caminho do trabalho, num grande shopping center de Salvador.

Respondi a pergunta dele da seguinte forma:

A complexa noção de que mulheres são (estão) subordinadas ao poder do homem. O poder do patriarca, chefe de família. E o poder do homem sobre a mulher passa do pai para o marido nessa maldita sociedade machista em que vivemos.

Somos criadas (adestradas) desde a mais tenra idade a pensar e agir sob a tutela de um ser masculino (pai, avô, tio, irmão e, posteriormente, o marido). Não detemos de autonomia suficiente para gerir sequer nossa vida e sermos donas dos nossos corpos. E assim segue.

A religião cristã nos diz isso quando prega que uma mulher fora extraída da costela de um homem, e por isso lhe deve obediência. Não se submetendo a tal obediência, só lhe resta o castigo. Tão logo, Eva foi expulsa do Jardim do Éden, e toda a sua geração paga pelo feito até hoje. Está posto nas Sagradas Escrituras.

A família nos ensina isso a todo o tempo, desde quando nascemos, quando separa roupa e brinquedos de menina X menino (a ambivalência do rosa X azul). Quando a nossa mãe diz que devemos sentar de pernas fechadas, nos comportar e nos resguardar sexualmente para sermos consideradas “moças direitas”, e o nosso irmão adquire o consentimento para fazer o quer e bem entende, pelo simples fato de ser “homem”.

A escola também nos educa nesse sentido, quando planeja campeonato de menina X menino, e nos instrui a sermos boas mães e cidadãs.

A TV exibe a todo instante que “mulher tem que se dar ao respeito”, caso o contrário é considerada uma “periguete”.  A exemplo, temos a “periguete” Valdirene, interpretada por Tatá Werneck na novela Amor à Vida, e o  sommelier  “conquistador”, interpretado por Cauã Reymond que come todo o elenco feminino da série Amores Roubados.

Entender o que se passa na cabeça de uma criatura que dá golpes de faca em uma jovem por não aceitar o fim do relacionamento perpassa pela análise socioantropológica do cotidiano que nos cerca, da sociedade que se sustenta numa base patriarcal que nos agride de modo vil. É ter a perspicácia para notificar tais ações e se valer dos sentidos que estão imbricados em tudo que se passa.

É isso que se passa na cabeça de um homem que mata a mulher com quem se envolveu pelo fato de esta não mais querer se envolver com ele.

 
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Publicado por em 08/01/2014 em Publicações

 

Uma biblioteca acaba de ser queimada…

Madiba, ou como muitos conhecem, Nelson Mandela seguirá sua trajetória em outro horizonte.

Segundo um provérbio africano, quando uma pessoa idosa morre, queima-se uma grande biblioteca. No caso de Madiba, foi queimada uma biblioteca incomensurável.

Seu histórico de luta, suas conquistas, seus 27 anos de prisão por lutar contra o regime no Apartheid na África do Sul permanecerá presente na memória dos seus fiéis seguidores. E não só na memória, mas na luta que travamos e travaremos em prol de uma igualdade que ele tanto prezava.

Assim como os demais que encamparam a luta pelo reconhecimento do povo negro, o nome de Nelson Mandela, sua história de vida e luta pela dignidade do seu povo ecoará nos quatro cantos do mundo, a fim de que nunca esqueçamos tudo que ele fez até os seus 95 anos de vida. Vida que dedicou a um povo.Vida que esteve em abstenção quando foi mantido na prisão.

Sua serenidade para lidar com todos que o oprimiu e/ou ceifou momentos de sua vida há de ser lembrada e memorada por todos, a fim que tenhamos a mesma serenidade para continuar na luta antirracista.

Ainda que me debruce por várias linhas, faltarão palavras para expressar o que foi Nelson Mandela na conjuntura política da África do Sul.

Faltarão palavras que possam extravasar o que muitos de nós, do outro lado do Atlântico está sentindo neste exato momento.

Faltarão palavras…

Siga em paz, Madiba!

Madiba 1

 
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Publicado por em 05/12/2013 em Publicações

 

A representação social da mulher negra nos programas de TV: do estereótipo à sexualização

Novembro Negro. Semana da Consciência Negra. Esse foi o advento que originou esse post.

Esse texto é uma versão revista e ampliada de uma palestra proferida por mim no dia 13 de novembro de 2013, na abertura da Semana da Consciência Negra da Escola Municipal da Palestina.

nega maluca

Ao ver a imagem acima, pergunto: Qual mulher negra ao ver essa imagem consegue se identificar, ou melhor, quantas de nós, mulheres negras, olhamos no espelho e nos vemos desse jeito?

Imagino que a resposta das mulheres pretas que lerão esse post será negativa. Não. Eu não me identifico com essa imagem. Ou, não. Eu não sou o que vejo na imagem. Pois bem, é com essa enquete que levantarei alguns pontos pertinentes à representação social da mulher negra nos programas da televisão brasileira. Para tanto, farei uma breve digressão ao nosso passado escravista, a fim de compor o cabedal teórico suficiente para coadunar os pontos do que será apresentado adiante.

O Brasil viveu mais de trezentos anos, mais precisamente, trezentos e cinquenta oito anos de regime escravista negroafricana. A historiografia nos diz que homens, mulheres e crianças foram sequestradas de várias regiões de África e trazidas para o Brasil, a fim de servir o sistema comercial e exploratório que a escravidão perpetuou.

Mulheres africanas que aqui aportaram vilmente tiveram sua força de trabalho explorada, sua cultura expropriada, e sua sexualidade abusada.

Para atender as necessidades do regime em que foram postas, negras escravizadas desde muito cedo foram forçadas a trabalhar para garantir o conforto das mulheres brancas portuguesas – sinhás –, lavando, passando, cozinhando, cuidando dos filhos e servindo de ganhadeira (escrava de ganho; executavam atividades remuneradas, e entregavam a (o) senhor/senhora uma quota diária do pagamento recebido). E não somente isso, a escravizada também “servia” sexualmente ao seu senhor, que, por ser propriedade, era lhe dado o uso que fosse julgado conveniente, inclusive o de ser estuprada para satisfazer os impulsos sexuais dos senhores de engenho. E ainda há quem diga que as relações entre senhores brancos e escravizadas negras foram consensuais.

Para além da simples satisfação das taras sexuais dos senhores de engenho, dos filhos e dos cupinchas destes, muitas dessas mulheres eram engravidadas para gerar leite e servir de ama de leite aos filhos das sinhás, e seus filhos servirem de mão de obra escravizada para seu senhor. Ou seja, além de estupradas, seus filhos eram-lhe tirados do colo para servir de mercadoria, e produzir riqueza com sua força de trabalho. Ser escravizada a extrai do status de pessoa humana, e a condiciona ao papel social da bestial.

Ou seja, a violência sexual não era só uma questão de sadismo senhorial. Era uma prática inserida na ordem econômica da época.

Diante de todos esses destratos sociais pelos quais passavam as mulheres negras escravizadas durante os trezentos e cinquenta e oito anos de escravidão negroafricana no Brasil, o reforço à desintegração de sua identidade continua sendo veementemente incorporado no tecido da sociedade brasileira, e se ancora nas estruturas sociais que preconizam sua inferioridade.

No avançar dos anos, a concepção de mulher negra construída pela escravidão a confere toda sorte de desprezo e desmazelo estrutural. E por conta disso, toda sorte de preconceitos e discriminações nos são lançadas.

As heranças escravistas deixaram marcas tão densas quanto as marcas de ferro nos seus corpos que as identificavam com as iniciais dos nomes da família que pertenciam.

Deste modo, o preconceito contra a mulher negra a restringe aos porões sociais mais profundos, lhe dizendo que: sua força de trabalho é maior, e assim pode ser explorada (“as negras são fortes”); seu tipo físico não é o padrão ou o desejável, e suas características físicas se tornam motivo de piada, e então é degenerada; és produto de consumo, o que remete a imagem da mulher como fonte de sexo fácil.

Perante o exposto, a mulher negra ocupa o mais baixo nível da escala social. E isso se dá nos postos de trabalho, nas relações matrimoniais – prova disso é a clarividente escolha dos jogadores de futebol, não só eles, às mulheres brancas para constituir relação afetiva matrimonial –, nas peças publicitárias, nos programas de TV (ver A Negação do Brasil), nos espaços de poder, e tantos outros que seu acesso é restringido.

Pirâmide Social da Mulher Negra

É com base nesse espectro que as grandes mídias reorganizam esses destratos sociais, e aloja-os no mote dos estereótipos. Nessa linha, a representação social da mulher negra ampara-se no esteio dos resquícios escravistas presentes na nossa sociedade.

Nas peças publicitárias, isto se faz notório nas imagens abaixo:

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“É pelo corpo que se conhece a verdadeira negra”. Essa é a mensagem que a Brasil Kirin Indústria de Bebidas S.A., detentora do logotipo da cerveja Devassa nos diz. Que a mulher negra é identificada pela suntuosidade do seu corpo, que reiteradamente é remetida à fonte de sexo fácil.

A mulata faceira, que tem o molejo na cintura e exala o “cheiro exótico” para conquista de um bom homem.

As reminiscências do passado escravista vêm à tona numa peça publicitária de uma cerveja, o que nos mostra que a condição atual da mulher negra não sofreu um avanço positivo a ponto de reverter seu sentido representativo nos espaços públicos.

Sua sexualização se dá no sentido de conceder ao outro o direito de usufruir dos plenos poderes de usar e abusar do seu corpo como uma propriedade, e assim incidir nos pressupostos defendidos por Freyre (2006) quando definiu a serventia sexual da escravizada: (…) “Da que nos iniciou no amor físico e nos transmitiu, ao ranger da cama-de-vento, a primeira sensação completa de homem”.

Afinal de contas, como bem cantarolou Joaquim Silvério de Castro Barbosa, na marchinha de carnaval “O teu cabelo não nega”, sucesso do carnaval de 1932: “O teu cabelo não nega, mulata/Porque és mulata na cor/Mas como a cor não pega, mulata/Mulata eu quero o teu amor”.

Adiante, o grupo Bombril, numa campanha que visava “valorizar a mulher”, presenteou-nos com a peça “Mulheres que brilham”, e utilizou como imagem o estereótipo da mulher negra, e o seu cabelo crespo associado à lã de aço que vende no mercado.

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Tão acintosa quanto a peça publicitária é tirar-nos o direito de reconhecimento de nossa identidade para aceitação e construção da autoestima da mulher negra que é tão destruída.

Afrontar-nos de modo tão vil. Essa foi a intenção do grupo Bombril ao criar a peça num país que é o segundo maior consumidor de cosméticos do mundo, perdendo apenas para os Estados Unidos. Pois os padrões de beleza construídos aqui nos diz que temos de ser branca, ter cabelos lisos e sedosos. Tão logo, ter cabelo crespo não significa estar dentro do padrão de beleza exigido.

Mas não foi só esse grupo que afirmou isso num comercial. A marca Dove também deu suas tacadas na divulgação de mais um produto da sua linha de cosméticos amplamente comercializados no mundo.

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Na imagem exibida acima, a marca Dove afirma que seu produto detém o poder de deixar sua pele linda e macia. Na imagem uma mulher negra é utilizada para representar o antes, e a mulher branca o depois do produto. E no fundo da tela, duas superfícies que representam a pele antes e após o uso do produto (áspera e lisa).

Creio que não há forma mais explícita de subjugar a mulher negra como não-ideal, pois no sentido em que se toca, esta tem a pele áspera, escura e indesejável podendo ser comparada a uma lixa de construção. Em contraproposta, a mulher branca é símbolo da beleza ideal. Pele lisa, clara, quase um porcelanato de tão liso e espelhado que ele possa transparecer. Essa peça publicitária só contribui para reforçar a imagem da mulher negra como “antimusas da sociedade”, como disse Sueli Carneiro.

A ordem social que vigora não só infere, mas remete a todo o momento que a mulher negra está sujeita a qualquer valoração que lhe possa ser feita.

Sua condição de usufruto perpetua uma série de barbáries e atentados violentos, e isso nos mostra quão vil sua imagem foi incutida no imaginário popular, e tem ajudado a fomentar toda má sorte que lhe é lançada.

O desprezo, o despropósito e o descaso com que são tratadas as achacam no pré-sal da dignidade humana.

Desfigurar suas características físicas, bem como debochá-las é um forma encontrada de não assegurar um poder de decisão sobre si. Pois uma mulher negra “não serve para casar”, está fadada a servir como step sexual de homens incontrolados instintiva e sexualmente, e por isso tem que aceitar o que Deus lhe reservou, ou seja, qualquer um bem intencionado, ainda que não seja do seu agrado. O que vem a justificar os estupros, pois mulher negra (e feia) não tem escolha, tem sorte.

*          *         *

A imagem que segue abaixo compõe a seara do que tomamos como humor racista. Para tanto, me utilizarei dos programas de TV, que tem se constituído um solo fértil no que tange às construções negativas da mulher negra.

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Julgo a imagem acima clássica por exibir Billy Van, personagem interpretado pelo “humorista” William H. West (1853-1902), um ícone norteamericano que representava o blackface nos espetáculos de Minstrel Show no início dos anos de 1900 nos EUA, associado a imagem de Rodrigo Sant’anna que representa a personagem Adelaide em 2013.

Minstrel Show era um espetáculo realizado por companhias de teatro compostas exclusivamente por atores brancos que pintavam suas faces de preto e faziam todo tipo de deboche no palco para configurar a imagem do negro na sociedade americana. (Ver Bamboozled)

Importado dos EUA, como quase tudo que consumimos na televisão brasileira, o blackface passa a ser encenado por Rodrigo Sant’anna em Adelaide, que se transfigura de mulher negra, descabelada, desdentada, suja e mal instruída.

Temos aí mais um reforço ao estereótipo negativo construído acerca da mulher negra no Brasil.

Adiante, temos a representação negra feminina como símbolo do exagero, da macaca de circo representada por Priscila Marinho, na personagem “gentilmente” apelidada de “Chocotona”, na novela Aquele Beijo, de autoria de Miguel Falabella (o mesmo que adorava esculachar os costumes da pobreza no Sai de Baixo através do seu alter-ego Caco Antibes), exibida pela Rede Globo nos idos de 2011/2012.

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Em sequência, temos a negra servil, que se ajoelha e pede perdão e leva um tapa da sinhá, na cena que foi ao ar em 20 de novembro de 2010, em mais uma novela Global, Viver a Vida. Um tapa na cara do Movimento Negro, na data em que se comemora o Dia da Consciência Negra.

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Para além da ridicularização da mulher negra na figura da Chocotona, ou da servidão de Helena, interpretada por Taís Araújo, há também a hipersexualização da Globeleza, a mulata suntuosa de todos os carnavais que a emissora transmite. Ou ainda, as musas do carnaval exibidas no Caldeirão do Huck.

12.1

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O que me causa estranheza, é o fato de que mulheres negras antes tidas como antimusas, ganham notoriedade no carnaval e passam a ser musas, e tem sua sexualidade exacerbada pela mídia.

A TV brasileira, de fato, tem se especializado em arremessar a mulher negra nos mais improváveis valões sociais existentes, e concomitantemente reforça sua hipersexualização na figura da mulata rebolativa dos eventos carnavalescos.

Quem não se lembra do “Pi pi pi pi pi, olha o recalque!”, de Maria Vanúbia, interpretada por Roberta Rodrigues, na novela Salve Jorge, ano passado? A mulata faceira que tomava banho de sol na laje e fazia a alegria da vizinhança?

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As desfigurações da mulher negra nos espaços de mídia no Brasil se dão no mais amplo leque a que possa se estender o racismo sem ódio.

As nuances do racismo se fazem presentes em diversas plataformas de comunicação. E como diz que a vida imita a arte, a estrutura racial na qual está dividia o país não deixa de ser representada nos programas de TV, nas peças publicitárias ou qualquer outro espaço inserido no seio da sociedade, pois o racismo se perfaz do arcabouço sistêmico social – precedente histórico escravista – para agir de modo contundente e dissimulado.

Na imagem abaixo temos mais um reforço ao estereótipo negativo à mulher negra transfigurado em modelos que usam peruca de lã de aço num desfile de moda organizado por Ronaldo Fraga. O renomado estilista com a pretensão de fazer uma “singela” homenagem à cultura negra põe perucas de lã de aço nas modelos.

Devo pensar. Se ele queria mesmo homenagear a cultura negra, por que não fazer um desfile com temas da cultura negra ou com modelos exclusivamente negras? Fica a dúvida.

05

 

Quem não se lembra da polêmica em torno da marca Cadiveu, que exibiu cartazes com fotos de pessoas de peruca black, e a seguinte frase: “Eu preciso de Cadiveu”?

Por que precisaríamos de Cadiveu para alisar nossos cabelos quando na verdade o que queremos é ser respeitada como somos: mulheres negras, de cabelos crespos e volumosos?

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Até aqui foram elencadas uma série de situações envolvendo ataques à mulher negra. Seja quanto ao seu físico, ou até mesmo à sua sexualidade, e os fatores intrínsecos que acometem.

Mas devo dizer que na tentativa de contrariar o que é dito, algumas mulheres seguem na contramão do preconceito e mostram que é possível reverter o cenário atual no que tange a representação social da mulher negra.Sueli Carneiro

As mulheres negras têm contornado esse cenário, e desfeito sua objetificação no sentido de propor debates e trazer à tona uma ressignificação de sua imagem. E são elas:

Ana Célia da Silva Ana Maria Gonçalves Carolina Maria de Jesus Elisa Lucinda Ivete Sacramento Luislinda Valois Mãe Stella de Oxóssi Vilma Reis

Sendo assim…

REFERÊNCIAS:

CARNEIRO, Sueli. Liberdade de Expressão e Diversidade de Gênero. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=IwdVISYxoSc. Acessado em 11/11/2013

CONCEIÇÃO, Fernando. Como fazer amor com o negro sem se cansar e outros textos para o debate contemporâneo da luta anti-racista no Brasil. São Paulo: Terceira  Margem, 2005.

FREYRE, Gilberto. Casa grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. 51ª ed. São Paulo:Global, 2006.

GONÇALVES, Ana Maria. Carta aberta ao Ziraldo. Disponível em http://www.idelberavelar.com/archives/2011/02/carta_aberta_ao_ziraldo_por_ana_maria_goncalves.php Acessado em 22/11/2013

____________. Um defeito de cor. 6ªed. Rio de Janeiro:Record, 2010.

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. 9ª ed. São Paulo:Ática, 2007.

LIBENCE, Paula. A vênus negra, a mulata exportação e o corpo da mulher negra na sociedade do espetáculo. Disponível em: http://escrevivencia.wordpress.com/2013/01/11/a-venus-negra-a-mulata-exportacao-e-o-corpo-da-mulher-negra-na-sociedade-do-espetaculo/. Acessado em 12/11/2013

____________. Bonde das Maravilhas, a sexualidade da mulher negra e a hipocrisia nossa de cada dia. Disponível em: http://escrevivencia.wordpress.com/2013/05/17/bonde-das-maravilhas-a-sexualidade-da-mulher-negra-e-a-hipocrisia-nossa-de-cada-dia/. Acessado em 12/11/2013

SANTOS, Rogério. Racismo é engraçado? Disponível em: http://efemeridesbaianas.blogspot.com.br/search?q=racismo+%C3%A9+engra%C3%A7ado. Acessado em 12/11/2013

____________. O sapatinho da Cinderela, o alisamento de cabelo e a opressão racista. Disponível em http://efemeridesbaianas.blogspot.com.br/2010/12/o-sapatinho-da-cinderela-o-alisamento.html. Acessado em 22/11/2013

 
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Publicado por em 22/11/2013 em Publicações

 

O efeito pastoreio nas redes sociais

Em comemoração ao Dia das Crianças, algumas pessoas no Facebook resolveram homenagear a data pondo fotografias suas dos tempos de infância. Acho lícito. Se você tem um perfil pessoal, não há nada que o impeça de usá-lo como quer e bem entende. Partindo da premissa de que não agrida ou ofenda a outra, tá valendo.

Mas, até agora, o que não consegui entender foi essa ação em massa de revirar o baú das lembranças familiares, do tempo em que fotografias eram tiradas naquelas máquinas hoje consideradas de uma breguice sem tamanho, com aquele velho filme Kodak de doze, vinte e quatro ou trinta e seis poses, a fim de recuperar fotografias dantescas e colocarem no perfil de uma rede social. Se isso for uma brincadeira por conta do Dia das Crianças, eu acho meio sem graça, o que não me parece ser.Pastoreio

A ação transparece uma suposta ideia de pastoreio. Sim, pastoreio. Um homem num pasto vai pastoreando as ovelhas. Isso é pastoreio.

Despido de qualquer sentido político, as pessoas seguem sendo pastoreadas por uma rede social. Isso muito me assusta, pois pensando que o Dia das Crianças não passa de uma data pura e exclusivamente comercial (como todas as outras “datas comemorativas” existentes ao longo do ano), criada para alimentar os anseios capitalistas e a necessidade de um mercado que nos exaure, penso que seja uma tremenda falta de bom senso.

Daí devo inferir o quanto é fácil manipular a outra. Como é fácil colocar as pessoas para fazer o que alguém, sabe-se lá quem, diz. O bom e velho “comportamento de manada”, em que as pessoas fazem algo sem nem saber o que estão fazendo. Todo mundo fez, eu vou fazer também.

O Terceiro Reich, liderado por Adolf Hitler na década de 1930, exterminou milhares de judeus, ciganos, negros e homossexuais numa ação igualzinha a que se repete no Facebook. Os ideais nazistas foram introjetados na mente do povo alemão quase que da mesma maneira: a máquina de propaganda, liderada por Joseph Goebbels, elaborou várias peças publicitárias, filmes, cartazes e livros com o intuito de enfiar a ideologia nacional-socialista na cabeça das pessoas e todas elas compraram a ideia sem nem saber o que estavam levando. Sem contar os discursos do Führer, apoteóticos, espetaculares, cheios de efeitos especiais e jogos de cena, tudo para levar o público ao êxtase e fazê-lo entender que aderir ao projeto nazista e executar tudo o que o líder mandava era certo e recomendável.Hitler 1

O único fator que se difere é que a ação proposta pelo ditador estava eivada de sentido político: matar pessoas que não pertencessem à raça ariana. Hitler e os demais oficiais tocavam as ovelhas do seu exército dizendo que eles deveriam matar todo e qualquer cidadão que não fosse da raça ariana.Hitler

Pode parecer exacerbada a analogia, mas se essa ação do Facebook partisse de um pressuposto político como as revoltas que aconteceram no Brasil no mês de junho faria sentido – o que não é o caso. O que fica explícito é o caráter manipulável das pessoas, e por isso demonstro aqui minha indignação, não com o propósito de condenar quem o faz, mas de sinalizar que ações como essas denotam nada mais nada menos o fator de vulnerabilidade da opinião pública. É também por isso que a Rede Globo faz tanto sucesso num país como o Brasil.

E aproveito para socializar pela enésima vez um texto que publiquei já há algum tempo sobre o que a voracidade capitalista faz conosco sem que percebamos: Feliz Dia Das… – As Felicitações que o Capitalismo nos Impõe.

 

 

 
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Publicado por em 11/10/2013 em Publicações

 

Pelo direito de ser puta: uma discussão sobre sexualidade, gênero e raça no Brasil

Imagino que ser puta seja uma tarefa árdua. Chamá-las de “mulher de vida fácil” é uma tremenda desonestidade, pois a vida das mulheres que, por (falta de) opção, caíram na prostituição é tudo, menos fácil. Ficar na rua, exposta ao relento, sem nenhuma segurança, correndo o risco de levar um golpe de taco de beisebol desferido por um pitboy; entrar num carro sem saber se sairá dele viva; atender um cliente nojento, grosso, repugnante, que quer te tratar como lixo, te obrigar a satisfazer os desejos sexuais mais inconfessáveis e ainda chamá-lo de “gostoso” sem ter a menor garantia de que ele pagará o programa e de que ele não te matará de porrada. Sem contar as enormes chances de pegar uma doença sexualmente transmissível e/ou de engravidar de um homem que você nunca mais verá na vida, e ter de parir e criar uma criança que será chamada pelo resto da vida de “filho da puta”. Vocês acham que levar uma vida dessa é fácil? Eu, não.

<p><a href=”http://vimeo.com/14814248″>A PONTE</a> from <a href=”http://vimeo.com/user1075619″>joaowainer.com</a&gt; on <a href=”https://vimeo.com”>Vimeo</a&gt;.</p>

No entanto, o que mais provoca incômodo numa sociedade de base patriarcal e fundada nos pilares machistas na qual vivemos é a liberdade sexual que as putas detêm. Uma mulher que faz o que quer com o próprio corpo, dá para o homem que bem entende e ainda ganha uns trocados por isso é uma coisa que definitivamente põe em perigo o lugar social das senhoras casadas e das “moças de família”. Afinal, saber que é possível viver de outra forma que não casar, virar dona de casa, engravidar, cuidar dos filhos, lavar, varrer, passar, esquentar a barriga no fogão e esfriá-la no tanque é mesmo muito afrontoso aos machos. Ah, isso com certeza é motivo de ódio por parte das outras que por pudor ou hipocrisia não se deleitam ao prazer de ser quem é.

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O texto que escrevi há três meses sobre o Bonde das Maravilhas gerou muita discussão e feriu os brios de uma gente hipócrita que insiste em patrulhar a sexualidade alheia e puni-la no tribunal inquisitivo da moral e dos bons costumes. Houve quem o considerasse polêmico. Eu discordo por pensar que tudo que soa polêmico faz parte de algo que deve ser negado ou não discutido. Algo que visa manter uma conveniência óbvia e perfeita. Ser condenado à vala comum do silêncio e do esquecimento.

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Mas o que vou discorrer nessas linhas parte de uma discussão sobre o texto do Bonde, e que, por ser polêmico, tornou-se ofensivo aos olhos puristas da nossa sociedade.

O texto foi repostado em vários outros blogs e sites da internet, e alavancou outras discussões a respeito do grupo por parte de outras pessoas que também defendem o direito das integrantes de dançar e não ser condenada por isso. Daí, socializei todas as repostagens e resultados: o que provocou mais que incômodo; o que pude ver foi o ódio explícito e mordaz. Não dimensionei o furor que as meninas do Bonde provocariam.

Tudo começou com a repostagem que fiz no Intelectualidade Afro-brasileira, um grupo do Facebook defendido por alguns membros por ser voltado para discussões axiológicas, epistemológicas, e que funda os princípios da hermenêutica discursiva. Ponto. Houve até quem dissesse que este detinha de um nível mais elevado de discussões.

Tento entender o que é um “nível mais elevado de debate” que não caiba o viés de sexualidade, gênero e raça. Eu, do alto da minha ignorância, imaginei que um grupo com esse nome sustentasse discussões a respeito de racismo também. Enfim.

Até que uma pessoa, também membro do grupo, desferiu contra mim toda sorte de agressões, e finalizou chamando-me de “puta”. Puta por defender o direito de garotas que dançam e detêm autonomia sobre seus corpos e o direito de usá-los como bem entendem, fazem sucesso na mídia e estão cagando para o que outros proferem a seu respeito. E mais: puta e pedófila por defender, e, assim, “propagar o abuso sexual de crianças” veiculando meu texto.

Por que escolhi ser puta

Por que escolhi ser puta 2

Confesso que foi um choque. Nunca havia entrado num debate tido como intelectual e ser chamada de puta como se estivesse na ponta de um brega. E olha que o grupo é de um nível mais elevado, fico pensando se não o fosse.

Pois bem, sou puta, e até gostei da alcunha.

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Sou puta, pois sou livre para ser quem sou e não temer maiores rechaços por proferir o que penso. Sou puta por defender o direito de expressar-me discursiva ou sexualmente do modo que mais me convém.

Ser puta na nossa sociedade, como já foi dito no início do texto, não é tarefa fácil, principalmente quando nos deparamos com ideias machistas em quase todos os campos de atuação. Puta no feminino é algo ruim, e traz consigo todo o desprestígio de ser quem o é. Puto no masculino carrega o aspecto positivo, e mais uma vez machista de conceder ao homem a condição proeminente de ficar puto e assim sustentar sua verve de macho por conta disso.

Puta quando é atribuído à mulher tem o dom de colocá-la na vala da sociedade como o pior dos seres que a habitam. Puta quando é atribuído ao homem, neste caso me refiro aos homoafetivos, tem o poder de descaracterizá-lo e remetê-lo ao lugar da mulher, que, por convenção social, idealização religiosa ou prepotência discursiva é inferior ao homem.

O objeto de desejo do texto sobre o Bonde é levantar um questionamento pertinente aos rechaços que as garotas vêm sofrendo por serem que são: negras, faveladas e jovens de sucesso. Sim, sucesso que não confere somente a Anitta, criadora do quadradinho de quatro, e que só não o faz para parecer fina. Onde está a fineza de Anitta? Está no ataque às garotas?

A capacidade abstrata de algumas pessoas é, de fato, um fator relativo quando se trata de leitura mais densa e complexa. Até aí, tudo bem. O que não entendo nem admito é ser agredida por pessoas que não detêm dessa capacidade abstrata, e por isso, desferem toda sorte de ódio contra isso. Liberdade de expressão? Talvez. Eu diria que isso passa pela liberdade de opressão. Sim. O direito que alguns investem para oprimir o outro por não concordar com suas ações.

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O direito de ser puta é meu por excelência, e isso ninguém tira. Então só tenho a lamentar por todas que não se permitem ser quem é, ou falar o que pensa.

Se ser puta é defender o direito de outras mulheres fazerem com seus corpos o que bem entenderem, sou puta.

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Se ser puta é marchar contra a violência física, verbal e simbólica contra a mulher, sou puta.

Se ser puta é defender o direito ao aborto, pois entendo que o corpo é propriedade minha, e não do Estado, sou puta.

Se ser puta é acreditar na possível sociabilidade de termos mulheres se amando com outras mulheres e constituindo famílias em seus lares, e não serem ofendidas por conta disso, ou serem agredidas física ou verbalmente, sou puta.

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Se ser puta é pensar que posso conviver com mulheres que usam seu corpo como instrumento de trabalho, e não me sentir superior a elas por conta disso, sou puta.

Se ser puta é ter consciência de que dançar e cantar funk não é justificativa para os casos de abuso sexual de jovens e adolescentes, e para isso, eu desafio quem me apresente tais estatísticas que comprovam a relação do funk com os estupros, sou puta.

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Ah! Finalizo esse texto com a declaração feita por Nilton Luz, negro, gay, economista, militante do movimento negro e LGBT. Imensos agradecimentos pelas palavras.

“Eu quero entrar nessa briga e ser chamada de puta pelos machistas, até que essa palavra deixe de significar a escravização do corpo das mulheres. As putas são livres, as putas sabem viver, eu sou puta com muito orgulho.”

Ele também é puta.

 
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Publicado por em 20/08/2013 em Publicações

 

Feminismo negro: por que me toma?

No dia 25 de julho, celebra-se o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. A data foi escolhida em virtude do 1º Encontro de Mulheres Negras da América Latina e do Caribe, realizado em julho de 1992, na cidade de Santo Domingo, na República Dominicana. O último dia do evento aconteceu no dia 25 de julho, quando foi criada a Rede de Mulheres Negras da América Latina e do Caribe, para a troca de informações, o estreitamento das relações e promoção de ações conjuntas de luta e resistência da mulher negra. E por ter sido uma data de decisões tão importantes, o dia 25 de julho foi escolhido como Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. Dia de comemorar e de ampliar parcerias, dar visibilidade à luta, às ações, promoção, valorização e debate sobre a identidade da mulher negra.Carolina Maria de Jesus

E devido a tudo isso, eu decidi escrever hoje um post que versasse sobre a importância dessa data para a história das mulheres negras na atualidade, relembrando e valorizando sua luta para a conquista de espaços nunca dantes alcançados. Além disso, resolvi debruçar-me também sobre o negacionismo histórico que velam essa data e exaltam o dia 08 de março, Dia Internacional da Mulher.Lélia Gonzalez

A celebração da data detém uma importância mais que simbólica quando ressalto o histórico de lutas de mulheres negras no país. E por isso me debruço, com especial atenção, ao que tomo como feminismo negro . De antemão, devo salientar que esse não será um post que colocará em voga um debate sobre as vertentes feministas e suas relativas importâncias às mulheres. Mas levantarei aqui pontos a serem observados, com a devida cautela, a fim que possa desmistificar qualquer assombro que a minha fala possa causar.Conceição Evaristo

A comemoração feita hoje à mulher negra latino-americana e caribenha é mais que necessária, e, por si só, remete a um fator relevante: o recorte racial feito às comemorações feministas no Brasil. Pois todas nós sabemos que há outra data importante que é celebrada, o dia 08 de março – Dia Internacional da Mulher – cuja comemoração, oficializada em 1910, faz alusão ao acontecido em Nova York, em 1857, em que mulheres trabalhadoras de uma fábrica lutavam por melhores condições de trabalho e foram mortas num incêndio criminoso ordenado pelo dono da fábrica. E que não mantém nenhuma relação com a data de hoje.04

Os protestos organizados por mulheres, sobretudo norte-americanas e europeias, exercem importância significativa na vida sociocultural do nosso país. Para tanto, devemos lembrar que esses fatos em nada corroboram para a luta e causa da mulher negra no Brasil.Ruth de Souza

Devemos alertar para o fato de que essas mulheres – brancas europeias e estadunidenses – não provocaram nenhuma inovação frente aos nossos antepassados históricos. O que aconteceu no ano de 1857 em Nova York e posteriormente no ano de 1962 no Brasil – início da comercialização da pílula anticoncepcional –, devo dizer que foram feitos grandiosos que visavam a minorar os efeitos que achacam a mulher. Ser mulher é uma condição agravante diante a realidade misógina em que vivemos. Ainda assim, devemos perceber quais aspectos estão imbricados nos simbolismos dessas datas, bem como o enaltecimento histórico de cada uma delas. Pois em 1962, o advento da pílula anticoncepcional foi considerado uma grande revolução na vida sexual e reprodutiva das mulheres brasileiras. Mas devo dizer que muito antes disso – os anos da escravidão –, negras escravizadas faziam uso de beberagens[1] a fim de evitar a concepção. E isso nos mostra que os acontecimentos históricos adquirem notoriedade conveniente ao seu tempo e a um determinado grupo social. Ou seja, a análise histórica é seletiva.

* * *

A princípio, devo comentar sobre as mulheres negras que foram escravizadas no Brasil, no século XVI, a partir da década de 1530. Mulheres que foram sequestradas de suas terras, expropriadas de sua cultura, costume e família; estupradas, colocadas em condição de objeto sexual, égua de carga e máquina de trabalho, a fim de satisfazer um sistema econômico escravista, e (por que não dizer) racialista. Devo considerar que o conceito de racismo e/ou racialismo é oriundo do século XIX, mas as atrocidades sistematizadas e justificadas pela ciência neste período são bem mais antigas, para não dizer milenares.

Essas mulheres que foram trazidas e jogadas nas casas grandes e senzalas do Brasil para dar de mamar, amolengar o bolo de comida, tirar o bicho de pé, contar histórias para os filhos dos senhores de engenho e propiciar-lhes “as primeiras sensações de homem”[2] lutaram contra o regime em que foram postas de modos bastante diversos. Muitas se envolveram em rebeliões e revoltas, outras resistiram promovendo e afirmando sua religiosidade, e outras tantas tiveram de sobreviver da barganha pela alforria. Elas tiveram de negociar[3] com o senhor de engenho ou até mesmo com sua sinhá sua liberdade, e para isso eram submetidas a trabalhos árduos, e não raro subumanos. Viveram como escravas de ganho (saíam às ruas para vender produtos com a obrigação de destinar parte da féria semanal ao seu dono, e a outra era poupada para compra da alforria). Era essa a vida das escravizadas chamadas popularmente de “ganhadeiras[4]: lavadeiras, quituteiras e rendeiras, que “ganhavam a vida” na esperança de comprar sua alforria, alcançar a tão sonhada liberdade e viverem do seu jeito próprio, exercendo autonomia sobre si.03

Sobre isso, Gonçalves (2010) nos relata os desafios que Kehinde teve de enfrentar para sobreviver como escravizada e comprar sua alforria:

“A idéia do Francisco foi logo apoiada por todos que estavam sentados à nossa volta, querendo ouvir os relatos sobre os meus primeiros dias como escrava de ganho.

(…)

No fim do primeiro mês, o dinheiro foi certo para pagar a sinhá, sendo que nada sobrou, nem para mim nem para o aluguel da cozinha, o que me deixou bastante desanimada, pois nunca tinha trabalhado tanto.

(…)

O Sebastião perguntou se a sinhá sabia que eu conseguia ler e escrever e eu disse que achava que não. Ele comentou que era melhor que continuasse assim, para que a minha carta de alforria saísse mais barata.” (GONÇALVES, 2010, pág. 251-252)

É diante toda essa luta travada por mulheres negras escravizadas durante séculos em busca de liberdade e cidadania que cerro a minha defesa nessa causa. E digo-vos sem o menor pesar que por todos esses fatores é que me identifico com a causa do feminismo negro. Isso se deve aos impropérios que nos são desferidos por conta de um negacionismo histórico vigente que acomete milhares de mulheres pretas às valas de uma sociedade que insiste em manter sua estrutura colonialista, decrépita e eivada de assimetrias de classe e etnia.

Foi por causa de muitas mulheres que equilibraram sobre suas cabeças cestos, tachos, trouxas e tantos outros artefatos que eu defendo essa causa. O que referencio na vida de muitas Kehindes, Adeolas[5], Carolinas, Lindauras, Marias e tantas outras, justifica o que comemoramos hoje.01

A referência de Simone de Beauvoir à luta feminista no mundo é importante, mas não contempla as problemáticas enfrentadas pelas mulheres pretas.

A dita ousadia de figuras como Chiquinha Gonzaga, Pagu e Leila Diniz são relevantes por ter quebrado tabus em suas épocas, mas isso não agregou os feitos anteriores das negras escravizadas.

E escrevo tudo isso com o aval que me cabe de ser uma mulher preta e consciente das lutas dos meus antepassados. Minha mãe era lavadeira, função herdada de minha avó, que notadamente fora herdada de minha bisavó e assim seguiu. Se, hoje, não sou também lavadeira, foi porque minha mãe travou uma luta árdua e solitária para que eu fizesse diferente, assim como tantas outras que a nossa história não conta.Luislinda Vallois

Se sair às ruas na Marcha das Vadias e alimentar o ideal de luta feminista em protesto ao acontecido em Toronto, no Canadá, em 2011, for maior que o feito da negra Zeferina[6] na Batalha do Quilombo do Urubu, em 1826, de fato, eu desconsidero Simone de Beauvoir e tantas outras.

Se a queima de sutiãs, realizada por mulheres brancas de classe média, é mais relevante para a causa feminista do que a atuação de Maria Felipa, eu me faço omissa à luta feminista. Pois o que esta mulher negra, nascida na Ilha de Itaparica, fez ao liderar um batalhão composto integralmente por mulheres negras nas lutas pela Independência do Brasil na Bahia, em 1823, sendo o mais notável feito o incêndio de 42 navios da esquadra de guerra portuguesa, não for fator relevante, esse feminismo não me representa.

Como representação de um feminismo negro e insurgente referencio D. Maria da Glória (in memoriam), D. Albertina (in memoriam), D. Maria da Conceição (in memoriam), D. Lindaura, D.Celina, D. Da Luz, Terezinha Conceição, Lélia Gonzalez (in memoriam), Sueli Carneiro, Carolina Maria de Jesus (in memoriam), Conceição Evaristo, Luislinda Valois, Mãe Stella, Ruth de Souza, Elisa Lucinda e tantas outras que lutaram e ainda lutam para garantir uma atenção à mulher negra no nosso país.

Nos mais, seguimos em frente e celebrando mais essa conquista: 25 de julho – Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha.


[1]  “Todas as manhãs, menos nos dias em que eu estava de regras, a Esméria me dava uma beberagem para evitar filhos, tendo dito que, se falhasse, se eu sentisse que estava pejada (grávida) porque as regras não vinham ou por qualquer outro motivo ou pressentimento, era para falar imediatamente com ela”. GONÇALVES, Ana Maria. Um defeito de cor. 6ª edição. Rio de Janeiro:Record, 2010, pág. 239.

[2] FREYRE, Gilberto. Casa grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. 51ª edição. São Paulo:Global, 2006, pág. 367.

[3] REIS, João José & SILVA, Eduardo. Negociação e conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo:Companhia das Letras, 1989, cap. 4.

[4] SOARES, Cecília Moreira. As ganhadeiras: mulher e resistência negra em Salvador no século XIX. Disponível em: http://www.afroasia.ufba.br/pdf/afroasia_n17_p57.pdf Acessado em 24/07/2013.

[5] “(…) Adeola morava em uma loja perto de Santo Antônio Além do Carmo, tinha nascido no Brasil, filha de pai africano e mãe crioula, e era liberta desde pequena.

Os pais tinham sido escravos de ganho de duas irmãs que moravam para os lados da freguesia da Barra, sendo que o pai era carregador de palanquim e a mãe, vendedora de acarás, cujo ponto foi herdado pela Adeola. (…)”. GONÇALVES, Ana Maria. Um defeito de cor. 6ª edição. Rio de Janeiro:Record, 2010, pág. 244.

[6] REIS, João José. Rebelião Escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835. Edição revista e ampliada. São Paulo:Companhia das Letras, 2003, pág. 102.

 
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Publicado por em 25/07/2013 em Publicações

 

Mãe solteira: os impactos de uma solidão feminina

Creio que ser mãe solteira deve ser uma barra muito pesada para uma mulher enfrentar na vida. Pois, ser mãe solteira não significa apenas o fato de ter de criar seu filho sozinha, mas trazer consigo os impactos sociais que supostamente nunca serão superados. A “culpa” de ter gerado um filho, muitas vezes fruto de uma gravidez indesejável, a “necessidade” embutida no imaginário de muitas mulheres da presença masculina, e, consequentemente, a maternidade como função social e algo que possa torná-la, de fato, mulher. São vários os fatores que resultam numa maternidade que não é acolhida.02

Historicamente, muitas mulheres passam pelo dissabor de ser mãe e não poder contar com a presença de um pai (e eu não falo só das mulheres pretas, pobres e faveladas). A representação simbólica de um pai numa relação parental não é permissiva apenas à procriação. Muitas de nós, mulheres, sabemos disso, até mesmo sem ter experimentado a maternidade.

Mas o que proponho explicitar aqui é o fato de que muitas mulheres se tornam mães solteiras na presença ou ausência de um homem. E isso não deveria acontecer, mas é um caso muito comum.

Mulheres ainda jovens se enlaçam no matrimônio, que são orientados pelo mito bíblico do “crescei e multiplicai-vos”. E muitas delas se deparam com a maternidade cedo ou tarde (muito mais cedo do que tarde, diga-se de passagem). Não importa o tempo. A maternidade ainda que no último minuto tem de ser contemplativa à sua figura.

Não devo aqui preterir as tantas mulheres, e nesse bojo eu me insiro, que não almejam na maternidade seu ideal de vida e satisfação plena. Mas não falo delas. Remeter-me-ei aqui tão somente às mulheres mães, por escolha ou falta dela.01

Pois bem, venho falar de muitas mulheres que, imersas numa moral cristã, se constituem mães, a fim de satisfazer e compor um ideal de família bem próximo do modelo judaico-cristão – que coordena as estruturas sociais da nossa cultura ocidental – e, por sua vez, a maternidade ressoa como uma condenação. Uma condenação que subjaz às demais estruturas que lhe são impostas pelo simples fato de ser mulher. Tão logo, isso se contrapõe à ideia de que ser mãe é alcançar o refrigere de um padecimento edênico. O fato de ser mãe, por si só, remete à mulher assumir a responsabilidade única de internalizar esse papel como se a acometesse aos deveres que agora são seus, exclusivamente seus, e por isso, não cabe a outro fazê-lo. Afinal de contas, a criança cresce dentro do ventre feminino, portanto é a mulher que tem de segurar a barra sozinha.

Estou deste modo a dizer que mulheres se tornam mães muitas vezes por entender que assim elas terão permissividade suficiente para assumir lugares longe de qualquer outra condenação moral – o da “boa moça”, mulher “de família”, “senhora de respeito” e “boa mãe” – , mas que lhes proporcionam tantas outras dores e desconfortos.

Um exemplo claro do que acabo de dizer é o fato de mulheres com parceiro fixo, que se representa na figura de um namorado ou marido, se submeterem à maternidade por puro capricho e necessidade masculina. E, aliada a essa necessidade presente na figura do homem, impera o descompromisso inerente a uma figura paterna que possa representá-lo. Ou seja, várias dessas mulheres engravidam, carregam seu feto no ventre durante nove e longos meses, sentem a dor do parto, produzem dentro de si o alimento para sua cria succionar, e assumem toda responsabilidade por aquela criança.

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Tudo isso remete à ideia de toda e qualquer isenção de responsabilidade paterna. Assumir a paternidade perfaz algo mais que constar do nome no registro de nascimento, ou até mesmo prover as condições materiais necessárias ao crescimento e desenvolvimento da criança (e ela que se vire para dar conta do resto). Ser pai pressupõe cuidado, acolhimento, envolvimento, e, sobretudo, participação.

Gerar um filho não é uma tarefa unilateral. Não é uma tarefa única e exclusivamente feminina. Tanto a maternidade quanto a paternidade se constituem na conjunção carnal. Quando dois indivíduos se envolvem sexualmente, e desse envolvimento provém a fecundação. Toda e qualquer responsabilidade gerada a partir dali passa a ser dupla. E mais que isso, a maternidade e a paternidade tendem a ser constituintes de um processo responsável, muito longe de ser um jogo de regras em que uma é penalizada em detrimento de outro que se isenta.03

Diante disso, não é válido analisar a maternidade solitária num espectro desvinculado da presença do homem. Há mães que são solteiras mesmo na presença de seus companheiros. São porque o querem (ou não). Porque entendem que sua condição física-social é um passaporte para as agruras que a vida possa lhe impor, e com isso não veem e/ou buscam meios de infringir esse processo. Várias são as razões que condenam uma mulher a uma maternidade solitária.

Assumir a responsabilidade social de ser mãe solteira porque o homem que ajudou a gerar seu filho foge à responsabilidade também é algo a ser ponderado aqui. E isso difere de qualquer analogia à maternidade independente. Ser mãe por uma vontade inconsolável de querer gerar e assumir sozinha uma criança não deve, de forma alguma, ser posto em evidência quando trato tangencialmente dessas questões que envolvem a maternidade solitária. Essa abordagem ultrapassa os limites que aqui apresento.

Ter um filho e cuidar dele porque o pai se ausentou física, simbólica e oficialmente desse papel é um retrato cruel na vida de muitas mulheres. Para todos os efeitos, ele está ali, mas, na prática, ele não se ocupa com nada relacionado à criação do filho ou da filha.

Trato aqui dos muitos casos de mulheres casadas que geram filhos, mas assumem a responsabilidade desse filho única e exclusivamente sozinha. Ou seja, para ser mãe solteira não basta não ter a presença de um pai ainda que no registro de nascimento. Há mães solteiras, com pai presente no registro e em casa. O pai que atinge a paternidade, mas não a contempla. O pai que ao lado de sua mulher e filho ignora a responsabilidade de assumi-los.

Assumir um filho perpassa pelo cuidar, acariciar, alimentar, levar ao médico, trocar fralda. Participar ativamente de todas as etapas de sua criação, mas que por conta da cultura machista em que fora criado, essa postura não lhe cabe, pois isso é coisa de mulher. Mulher é quem cuida, dá banho, acalma o choro, acalenta, alimenta e muito mais. Portanto isso não o cabe.

O homem só quer saber da criança quando ela está de banho tomado, cheirosa, sadia, alimentada, bem cuidada e bem tratada. Pois quando o filho ou a filha dele traz alguma queixa da escola para casa ou precisa de que ele resolva algum impasse dentro de casa, a primeira coisa que ele diz é “pergunte à sua mãe”.

As estatísticas que versam sobre mães solteiras apontam para os casos de mulheres que geram e criam seus filhos solitariamente. Mas não tratam dos muitos casos em que o pai presente fisicamente se ausenta simbólica e paternalmente.05

Os impactos de uma maternidade solitária promovem efeitos tão catastróficos quando aos de uma mãe solteira por ausência física. A inércia paternal dos homens que optam por assim se comportar é muito mais cruel e mordaz devido às responsabilidades que lhe escapam e sobrecaem na mulher.

Buscar razões para explicitar os diversos casos que acometem as mulheres nesse aspecto é desnecessário, pois sabemos quais são, mas a atenção a esses casos é primordial. Eles existem e passam despercebidos por todas nós. Isso aqui é só uma provocação.

 
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Publicado por em 16/07/2013 em Publicações

 

A decisão de não ser mãe

Falar sobre cultura machista, ideal cristão, vida social e família são fatores centrais na definição dos papéis que homens e mulheres devem desempenhar na nossa sociedade, e que explicam parte da má sorte que mulheres ao redor do mundo sofrem pelo simples e grandioso fato de ser mulher. Mas não me deterei a versar sobre a violência contra a mulher, a assimetria social perpetuada entre homens e mulheres e que fomentam outras séries de questões. Não que essas abordagens não sejam importantes. Mas por hora, me prontificarei a falar de algo tão constante na vida das mulheres, e que ganham pitadas de bom humor por quem os pratica: a maternidade.

Desde pequenas, somos amestradas a cuidar da casa, ter filhos e ser boa mãe e esposa. Isso se instaura no nosso primeiro momento de vida, quando nossas mães e nossos pais decidem que a cor do nosso quarto será rosa e não azul, que devemos brincar de boneca e não jogar bola, quando só devemos pensar em namorar após completar 18 anos, ao contrário dos nossos irmãos que deve arranjar uma namoradinha na pré-escola, e que nós devemos ficar bonitas e prendadas para arrumar marido ao invés de estudar e ter uma profissão.

Brinquedos sexistas

Essa gama de fatores está imbricada no nosso cotidiano e senso comum de tal modo que não nos permitimos questionar a inversão de valores que propositalmente possa ser posta.

02

Para adentrar mais sobre essas questões, tomarei como exemplo alguns acontecimentos cotidianos que me cercam.

Hoje, 15/07, completo 31 anos, e tenho sentido o peso da idade desde o ano passado, quando completei 30. Nunca pensei que os 30 pudesse pesar tanto na vida de uma pessoa. Afinal de contas, nessa sociedade machista, sexista e misógina em que vivemos, uma mulher com mais de 30 anos “já está velha”, enquanto os homens que já passaram dessa marca estão “ficando mais experientes”.

Claro que não é por questão estética, muito menos por eu achar que preciso de um botox para esconder um pé de galinha que surge. Não é nada disso. Afinal de contas, se eu não quisesse envelhecer já teria tomado uma providência eficaz diante disso, e não estaria escrevendo esse texto.

O peso dos 30 surge da cobrança que venho veementemente sofrendo por ter chegado até aqui e não ter tido um filho. Ainda, como ouço.

03

Eu sou a caçula de uma família com quatro filhos e a única que não gerou um filho. E a cobrança surge por parte de toda a família. Com exceção, é claro, do meu pai e da minha mãe, que não me criaram para ter família, muito menos para ser mãe.

Hei de confessar que a decisão de não ter filhos surgiu quando eu ainda era ainda mais jovem do que eu sou, e se confirmou quando eu completei 15 anos. Pois a ideia de ter filhos e constituir família me remetia ao fato ter de lavar, passar, cozinhar e cuidar do marido e dos filhos sem ter vida própria. E isso era tudo o que eu não queria.

Ter filhos era como se fosse viver fadada ao fracasso de não fazer outras escolhas na vida. Não poderia estudar, trabalhar, nem pensar em algo mais audacioso. Isso tudo foi imputado em mim quando eu era muito jovem, pois minha irmã engravidou ainda na adolescência e escolheu não tocar a vida, e por isso meu pai dizia que minha sina seria a mesma, afinal de contas, eu tinha um espelho enorme dentro de casa.

Isso provocou um efeito contrário na minha vida. Internalizei tudo isso e temi imensamente que aquilo acontecesse comigo. E atrelando falta de informação e temor, preferi não arriscar.

Com o passar do tempo, a ideia foi amadurecendo de tal modo, a ponto de eu me manter a todo o tempo na defensiva e encrespar algumas vezes que alguém cogitava a possibilidade de eu ter um filho. E, até hoje, mantenho uma postura extremamente áspera diante alguns comentários a respeito.

Quando eu tinha 19 anos, arranjei um namoradinho de porta que logo de cara disse que estava apaixonado, coisa e tal, e que queria ter um filho meu. Pirei total. Eu era uma garota. Tinha apenas 19 anos, e tudo em que eu não pensava era ter um filho. Isso foi motivo suficiente para eu não passar de beijinhos e abraços com o dito cujo, se é que vocês me entendem.

O tempo foi passando, fui cuidando da vida e cogitando outras possibilidades mais interessantes. Vários eram os fatores que insistiam para que eu gestasse: adolescente pobre, preta, favelada, com precedente histórico de gravidez juvenil na família, sem muita perspectiva de ter sucesso na vida, e com a maioria das colegas e vizinhas de bairro com pelo menos um filho enfileirado.

Não estou deste modo reforçando a ideia de que toda adolescente pobre e periférica está fadada à maternidade pela falta de perspectiva de vida e futuro. Mas os fatores adversos agem em sintonia para os acontecimentos dos fatos. A falta de informação adequada, a falta de oportunidade e perspectiva de vida, a situação de miséria em que muitas vivem são fatores condicionantes para uma gravidez indesejável.

Eu vi muitas jovens que cresceram comigo e moravam no mesmo bairro não terem tido outra dimensão da vida a não ser ter sido mãe solteira e trabalhar num subemprego – quando surgia. Talvez por não terem sido apresentadas a outros mundos, ou até mesmo por alguém lhes terem dito que aquela seria sua sina e seu lugar, e portanto deveria se conformar. Não era isso que eu queria para minha vida, e aposto que muitas delas também não.

A possibilidade de uma garota com oportunidade de estudo e trabalho prosperar na vida é muito maior do que uma que não tem sequer ensejo para tal.

Eu almejava e ainda almejo realizar vários projetos na vida, que uma maternidade só tenderia a interromper metade, senão boa parte das minhas realizações pessoais – apesar das forças contrárias se unirem para festejar meu fracasso. Pois preta e pobre moradora de periferia tem que trabalhar, ou melhor, lavar privada de branco, não inventar modismo de estudar. Estudar é pra filho de doutor. Filho de empregado tem de ser empregado também.

Esse é o pensamento vil de um grupo que insiste em manter e se beneficiar das assimetrias sociais e conter a ascensão social de muitas jovens negras.

E muitas sabem que não falo nenhuma mentira.

A tensão em que eu vivia era tanta que afetava inclusive as relações amorosas. Uma gravidez indesejada me atemorizava a ponto de eu evitar me relacionar com medo de fazer sexo e engravidar. A relação de namoro, sexo e gravidez foi construída de modo tão brutal que eu ignorava os métodos contraceptivos e sua eficácia.

Falta de informação, medo de repetir as estatísticas do bairro paupérrimo onde morava; adolescente e grávida, pânico de não prosperar na vida por conta do rumo que ela tomaria depois de ser interrompida com a presença de um bebê, insucesso escolar e fracasso profissional. Uma série de questões assolava meu imaginário hiperbólico.

E com isso a resistência aumentava, e os importunos também.

Essa situação só foi melhorando por volta dos vinte e cinco anos. Lembro que certa vez uma cabeleireira disse-me que uma mulher que não se torna mãe não atinge sua completude. Para tudo. A maternidade é o ápice da vida de uma mulher? E quem não a realiza não se torna mulher? Tô lascada…

Em outro momento da minha vida, um momento extasiante de pura felicidade, quando finalmente consegui entrar na universidade, no ano de 2009, fui à casa de uma amiga dos tempos de escola dividir essa alegria. A mãe dela, cuja filha já estava cursando faculdade paga (pois esse povo não estuda em faculdade privada, e sim em faculdade paga), ao conhecer meu namorado e atual marido, disse que já era tempo de eu ter um filho. A duras penas, eu havia acabado de ingressar na faculdade. Essa mesma criatura, que disse que eu deveria ter logo um filho, e meu namorado deveria convencer-me a tal, já que a ideia não me agradava, afirmava que a filhinha mais nova dela, de 21 aninhos, tinha de estudar, e se opunha ao fato dela ter namorado.

Entenderam como funcionam as coisas? A filhinha dela branquinha que estudava em faculdade paga não podia namorar, pois tinha de estudar. Já eu, pretinha, tinha de largar a faculdade para cuidar de filho, e quem sabe, depois arranjar um bico de empregada lavando as calcinhas da filha dela para comprar o leite da criança, e sobreviver de ajuda humanitária.

Pimenta no rabo dos outros é refresco! A dor mais suportável é, de fato, a dor do outro.

Meu irmão mais novo tem uma filhinha de um ano. Era o sonho da vida tornar-se pai. Lembro que, desde o primeiro casamento, ele queria realizá-lo. Para minha insônia. Depois que ele tornou-se pai, as pessoas não se detêm a outra coisa a não ser encher meu saco perguntando quando virá o meu (filho).

E para ser mais inconveniente, meu marido é o filho dos três irmãos que também ainda não teve filhos. Sofre horrores com as pressões alheias (“só falta o seu”).

Lembro que em meio a essas discussões de ter ou não ter filhos, uma ex-colega de trabalho resolveu me explicar a importância de ter filhos: nós precisamos de alguém para cuidar de nós na velhice. Minha cara de tédio e má vontade foi tanta que a aspereza da resposta criou um estranhamento entre nós quando disse que se ela visitasse os asilos da cidade veria o contingente de idosos abandonados por seus filhos. E que ter filhos não nos dava nenhuma garantia de cuidado na terceira idade, para isso deveríamos recorrer a um geriatra ou cuidador, parecia ser mais seguro.

O engraçado (ou estranho) é a invasão de privacidade e total devassa que as pessoas fazem na nossa vida, e suas reações quando respondemos à altura, pois elas se dão ao direito de se sentir ofendidas – mas acham que os absurdos que falam sobre a minha vida são a coisa mais natural do mundo.

A decisão de ter ou não filhos parte do pressuposto de condições mínimas e necessárias para cuidar de uma criança. Aquelas palavrinhas bonitas disfarçadas de direitos sociais que estão no texto da nossa constituição: lazer, saúde, educação e moradia são princípios básicos a serem instaurados antes de pensar em ter um filho. Ou pelo menos deveria.

04

Ter um filho e não ter sequer espaço físico para colocá-lo é demais assombroso. Aquela ideia de que “casa de pobre é igual a coração de mãe: sempre cabe mais um” não me apetece. Até porque vivi minha infância e adolescência morando num quadrado com meio mundo de gente, e sequer tinha espaço para me coçar. Não gostei da experiência, portanto não pretendo repeti-la.

Pior que isso é ter de ouvir que para ter filho não precisa pensar, basta fazer. Depois cada um dá uma coisa e assim ajuda-se a criá-lo. Há maior estado de miséria que esse? Isso beira a calamidade pública, porque depois de feito eu terei de amealhar as migalhas sociais que temos de nos contentar e dizer que estou criando um filho.

Eu não preciso pensar, mas fazer. E depois que o filho estiver no mundo, um dá uma coisa, outro dá outra, e assim vai levando. Mas se eu aparecer na porta de quem disse isso com uma criança nos braços para pedir o leite e a fralda, essa mesma pessoa olhará para a minha cara e dirá que, agora, eu tenho de me virar. “Se vire, dê seus pulos. Arranjou filho sem ter condições de criar? Agora, aguente!! Sou eu que vou ter de sustentar filho dos outros agora?”

Portanto, não. Eu não pretendo ter filhos. Filho não é e nunca foi projeto de vida para mim.

Diante a atual situação de vida que levo, ter um filho seria estar fadada ao fracasso e não prosperar pessoalmente.

Viver de migalhas, eu já vivo. Viver sem saúde, educação, moradia e lazer, eu sei bem o que é isso, e não desejo a ninguém.

As privações que passei e passo na vida são suficientes para não querer reproduzi-las ao próximo, ainda mais esse próximo sendo meu dependente direto.

Ser mãe é padecer no paraíso para quem tem condições de criar um paraíso. Do contrário, ser mãe é purgar na terra e ansiar pelo inferno.

Até a próxima.

 
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Publicado por em 15/07/2013 em Publicações

 

A taça do mundo é nossa!

A Copa das Confederações é o evento que tem causado um tremendo e insuportável caos nas cidades-sedes dos jogos. Verdadeiros colossos trajados de arenas de futebol, reconstruídos com verba pública, e que, depois da Copa do Mundo, ficarão inutilizados.

O estádio do Maracanã, situado no Rio de Janeiro, por exemplo, foi reinaugurado dia 2 de junho com o amistoso entre Brasil e Inglaterra. O povo brasileiro está empolgadíssimos por ter a honra de ser o país com o maior número de títulos de futebol no mundo e que em 2014 sediará a Copa do Mundo. “Penta! Penta! Penta! Somos penta campeão do mundo”, gritaria Galvão Bueno se estivesse escrevendo esse texto.

Não sei se alguém lembra qual o país sediou a última copa do mundo, mas acho importante relembrar: África do Sul. Esse país sediou a copa do mundo de futebol no ano de 2010 e muitas pessoas que nem sabiam que ele existia passou a pronunciar com ênfase e veemência seu nome. Afinal de contas, África é tudo a mesma coisa. País, continente, essa distinção geográfica não tem muita importância, lá só tem africano mesmo!

Mas o que eu sei que poucos lembram é de como se deu essa euforia futebolística da Copa do Mundo que agora vivemos no Brasil. Sei que alguns remeterão à vuvuzela. Não seria exatamente sobre isso minha abordagem. Penso que seria inútil falar sobre esse souvenir ensurdecedor que se tornou febre nos estádios onde aconteceram os jogos. Não me deleitaria sobre isso, pois abriria uma seara de problemáticas que por ora dispenso. Só sei que o Brasil também tentou ter sua vuvuzela, mas foi uma ideia que não deu muito certo. O mestre Brown, capitão do mato que tentou capitaneá-la não teve tanto sucesso quanto esperava, enfim.

O que muitos, de fato, não lembram é que cidadãos sul-africanos tiveram de ser desalojados de suas cidades e de suas casas para serem amontoados em blikkiesdorp (palavra da língua africâner, que significa, em português, cidade de lata), containers situados a quilômetros de distância dos estádios que sediaram os jogos. Nada diferente do que já era feito na época do apartheid, em que a população negra era expulsa das grandes cidades e colocadas para “morar” em regiões extremamente distantes das vistas da sociedade branca. Foi assim que surgiram os bantustões, sendo o mais conhecido deles o de Soweto, habitado atualmente por mais de dois milhões de pessoas.

E o efeito mais cruel, se é que ser despejado de sua casa e alojado num container seja menos cruel, é que muitos dos estádios que foram construídos com verba pública dos contribuintes sul-africanos hoje são verdadeiros mausoléus, pomposos elefantes-brancos que não servem nem para visitação pública dos turistas. Ou seja, educação, saúde, moradia e emprego não foram garantidos em prol de um acordo numerário entre a FIFA e o governo sul-africano. Será que alguém lembra esse ínfimo detalhe? Creio que poucos. 

BLIKKIESDORP

Além de residências, houve vários casos em que escolas públicas primárias foram desativadas para serem transformadas em alojamentos para trabalhadores. E as crianças também foram, pasmem, colocadas em “escolas” improvisadas em containers.

Nós, aqui no Brasil estamos vivendo um déjà vu. Isso mesmo. Um déjà vu futebolístico de tudo o que aconteceu na África do Sul se repete aqui no Brasil com a mesma brutalidade capitalista que se soma aos interesses de governo e as empreitadas magistrais das grandes negociatas estrangeiros, e nacionais, diga-se de passagem.

O que está sendo feito nas cidades-sedes ultrapassa os limites do acinte social. A FIFA impõe uma ordem, e os governos das cidades acatam (afinal de contas, os governos são nada mais do que fantoches do grande capital). Até aí, acho “pertinente”, pois o dinheiro que essa gente tá levando por trás desses eventos não é pouco, e acatar uma decisão da FIFA não seria muita coisa. Certamente não seria nada de mais, se essas imposições não gerassem tantos transtornos em cidades que, como as da África do Sul, não detêm da menor infraestrutura pública.

Salvador está no rol das grandes cidades do país. Não sei muito bem por quê, já que a cidade é um ovo, sua geografia é péssima, não funciona com um sistema público de transporte adequado. Pelo contrário, se você, turista que queira conhecer Salvador, quiser vir visitá-la vai ter que se locomover de ônibus, e com uma frota que chega a ser piadística de tão pequena.

Não há metrô, ou melhor, há um projeto que desvia dinheiro público há mais de dez anos. Há uma linha de trem, que faz um trajeto minúsculo (Paripe-Calçada), pois funciona num raio de menos de cem quilômetros e não transporta nenhum ser que more além do subúrbio ferroviário de Salvador. Isso com muita boa vontade. Sem trem e sem metrô, Salvador avançou do bonde para o ônibus.

Ah, e sem contar que as vias de tráfego na cidade são caóticas, pois com a geografia desfavorável, as ruas muito estreitas e as obras urbanas que a cidade vem passando na tentativa de “viabilizar” o acesso de veículos, o único jeito é viajar de helicóptero. E isso o governador do estado sabe muito bem, pois é o meio de transporte que utiliza. Ao tempo em que reles mortais que não ocupam o mesmo posto que ele vão às favas nos quilometráveis congestionamentos que a cidade exibe como sinal de avanço por ser a mais nova metropóle urbana.

Posto tudo isso, ainda há quem creia que a Copa das Confederações e a Copa do Mundo vieram para trazer emprego e renda para os baianos. Renda, eu até concordo, mas não para os baianos. Já emprego, eu argumento. Se vender sandulixo dentro do estádio e aprender a falar outro idioma para perguntar se o turista quer acarajé ou cerveja é emprego, eu desconheço o sentido de subemprego.

Mas voltemos à geografia da cidade. Com as fortes chuvas que têm assolado Salvador, além dos congestionamentos, outro problema a ser enfrentado é o escoamento das águas pluviais. Salvador é uma cidade que não possui boca-de-lobo. Incrível isso. Eu também acho. Não consigo imaginar como é possível.

Sem contar outro detalhe importante que é o fato de que rios urbanos, que ao longo do anos se tornaram fossas públicas, foram transformados em avenidas, ou seja, pavimentados. O que era pouco virou bobagem.

Com as chuvas e sem escoamentos adequados, as estradas e avenidas tendem a absorver a água da chuva inflitrando-as, ou seja, abrindo verdadeiras crateras que parecem mais com o buraco da camada de ozônio. Foi isso que aconteceu na semana passada na BR-324, a via de entrada e saída da cidade, na altura do Porto Seco Pirajá.

O tamanho do buraco cabe um navio de tão grande, e tudo isso tem gerados trasntornos incomensuráveis ao tráfego. Sem contar que já se passou uma semana e nada foi feito. E no sábado próximo já iniciam os jogos da Copa das Confederações. Ou seja, a manutenção desse buraco torna-se um ponto estratégico para manter toda a população do bairro de Cajazeiras, Castelo Branco, Pirajá, Valéria, Águas Claras, Palestina e demais longe da Arena Fonte Nova. Não se construíram containers. Na verdade, nem precisou, mas o isolamento da periferia através de algumas estratagemas “ocasionais” funcionam com mais eficiência do que se possa imaginar.

BR-324

O mesmo acontece na Baixa do Fiscal, a via de saída de quem mora no subúrbio ferroviário de Salvador. Trafegar por aquele trecho tem sido uma aventura épica. Obras de recapeamento asfáltico realizadas no local, mas precisamente entre o Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico e a Feira do Curtume, têm travado todas as vias de acesso afluentes e bairros adjacentes da região: Largo dos Mares, Calçada, Viaduto dos Motoristas, Largo do Tanque, Fazenda Grande do Retiro, San Martin, Liberdade, São Caetano. Quem segue nesse sentido simplesmente não sai dali, passa o tempo todo no ônibus. Está insuportável transitar por aquela região!

E pensar que coincidentemente esses acontecimentos na BR-324 que isola um bairro como Cajazeiras, o maior em índice populacional, considerado o maior bairro da América Latina, e a “obra” na saída da Avenida Suburbana, que impede a saída de moradores do segundo maior bairro também a nível populacional, na véspera dos jogos é mero acaso do destino é sem dúvida não ter a mínima percepção crítica para visualizar o que acontece ao nosso entorno.  Na África do sul há o blikkiesdorp, a cidade das latas, e no subúrbio de Salvador, no bairro de Paripe há a Cidade dos Plásticos. Lá é como cá!

No mais, vamos pra frente, pois a taça do mundo é nossa, com brasileiro não há quem possa!

 
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Publicado por em 11/06/2013 em Publicações

 

Resposta da autora do Escrevivência a algumas pessoas inconvenientes, grosseiras, mal-educadas e desavisadas

O post de ontem “Bonde das Maravilhas, a sexualidade da mulher negra e a hipocrisia nossa de cada dia“, rendeu-me bons frutos. O sucesso foi além do esperado. Nenhum dos meus outros textos teve uma repercussão tão grande quanto este: 4.339 visualizações; 2.639 visitantes, 3.224 acessos ao post publicado, vindos do Brasil, Estados Unidos, Alemanha, Portugal, México, Argentina, França, Itália, Canadá, Reino Unido, Espanha, Japão e Venezuela – e tudo isso só ontem!

Post do Bonde

E vocês, leitor@s, acompanharam nas redes sociais cada postagem que fiz, inclusive dos relatórios do número de acesso ao próprio post. E, com isso, algumas pessoas quiseram conhecer a autora do Escrevivência. Natural! Vários adicionamentos de pessoas que não sei de onde saíram, mas que curtiram a postagem. Achei super bacana. Eu só não contava com a indiscrição de algumas pessoas ao questionar a minha capacidade intelectual.

Colocar a autoria dos textos que eu escrevo e publico no meu blog sob suspeita é um pouco demais pra mim. O comprometimento com minha formação ultrapassa os limites do Ctrl+C e Ctrl+V, quiçá a hipótese de plágio.  É muito abuso! Como bem disse, esse processo está sendo construído a duras penas, e requer de mim um esforço imenso, para que possa me expor da maneira como venho me expondo através do Escrevivência.

Tudo que escrevo contará positiva ou negativamente à minha imagem. E quanto mais ofereço, mas serei cobrada. Esse é um preço alto que estou disposta a pagar.

Deste modo, não aceito que ninguém venha até mim, muito menos pessoas que eu nunca vi na vida questionar a fidedignidade dos meus posts. Se eu não admitiria que questionamentos desse tipo viessem de pessoas que eu conheço, não seria de uma pessoa que eu não sei nem de que buraco saiu que eu aceitaria isso.

Coisas do tipo: se escrevo de modo tão crítico, no mínimo devo ser filiada a alguma entidade do movimento negro, ou coisa do tipo. Ou até mesmo questionar a minha habilitação acadêmica. Pois, se há uma coisa que defendo de modo ferrenho é a minha formação como pedagoga. E por causa dela, eu me dou ao direito de agir com a minha criticidade totalmente permissiva ao meu processo formativo e acadêmico.

Eu só poderia pensar e discutir as coisas que eu discuto nos meus textos se fosse filiada a algum movimento organizado? Minha capacidade intelectual esta vinculada a uma organização política? É isso mesmo ou entendi errado?

E o meu direito de pensar livremente sobre assuntos que me atingem diretamente como pessoa, não entra em voga?

O fato de eu estudar Pedagogia não me dá o cabedal (ou o direito) suficiente para levantar aqui discussões como as que levanto, e de modo tão crítico? Por acaso, pedagoga não sabe pensar de modo crítico e contundente? Ou isso é uma idiossincrasia de quem estuda História, Filosofia, Antropologia, Sociologia ou congêneres?

Lembro que certa vez uma colega de curso, namorada de um amigo meu, jurou de pé junto pra ele que eu era estudante de História, por conta das coisas que abordava e gostava de estudar. (Eu defendo uma vertente da Pedagogia pouco adotada: uma pedagogia antirracista. Construtivismo, Behaviorismo, Piaget, Vygotsky, Wallon, Skinner… não me tomam. Eu não sei nada sobre essas coisas.) A criatura queria debater comigo sobre minha formação, e questionava-me: “Mas você não estuda História? Tem certeza?” Deu vontade de dizer à sujeita: “Não. Não tenho certeza. Quem estuda sou eu, mas eu não sei qual é o curso que eu faço. Quem sabe é você”. Como se estudar Pedagogia fosse uma coisa que eu fizesse quando estivesse enjoada de fumar maconha. Mas contive-me.

Essa não fora a primeira vez. Ultimamente tenho ido a arquivos fazer pesquisa para a minha monografia, e isso gera um estranhamento bastante incômodo em algumas pessoas: o fato de eu, como estudante de Pedagogia, estar mergulhada num acervo histórico. Como se isso não me fosse permitido. Certa vez, um cara vendo-me pesquisar documentos do século XIX veio perguntar o que estava fazendo. Quando disse, ele perguntou se eu era antropóloga. Eu, pacientemente, e mais uma vez, disse que não e qual era a minha formação. O sujeito ficou estatelado e boquiaberto sem saber o que dizer. Uma estudante de Pedagogia dentro de um arquivo histórico era algo que, para ele, não estava no domínio do inteligível.

Isso sem contar o número de vezes em que tive de explicar pacientemente que estudo Pedagogia, não História ou Antropologia.

Perceberam o estranhamento perante a definição de lugar que alguns devem ocupar? Estudar Pedagogia é algo que faço por prazer, e por isso, posso dá-la a vertente que mais me identifico. Que bom que isso é permitido, ainda! Apesar da grande quantidade de gente tentando me desencorajar a fazer isso, eu sigo em frente. Pois a uma pedagoga não é concedido o direito de gostar de ler, estudar, pesquisar, muito menos de pensar, e tão criticamente como eu penso.

Deste modo, resolvi mais uma vez me expor e dizer para alguns desavisados que minha formação é qualificada. Exijo de mim o maior grau de excelência que posso dar. Não estou aqui de passagem, ou até mesmo, vislumbrada com esse modismo bloguístico.

Todas as vezes que me apresento, faço isso com nome e sobrenome. Sei onde estou e para onde quero ir.

No mais, é só.

Segue abaixo trechos de uma conversa no Facebook com um sujeito que eu não sei de onde veio e que me adicionou à sua rede de contatos, mas teve a infelicidade e indiscrição de questionar-me sobre a autoria dos meus textos. Tão logo, julguei necessário escrever esse post aos demais desavisados.

PARTE 1Parte 1

 

PARTE 2

Parte 2

 

PARTE 3

Parte 3

 

PARTE 4

Parte 4

 

PARTE 5

Parte 5

 
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Publicado por em 18/05/2013 em Publicações

 

Bonde das Maravilhas, a sexualidade da mulher negra e a hipocrisia nossa de cada dia

Há algum tempo, tenho visto algumas repercussões nas redes sociais extremamente ofensivas e incômodas em relação a um grupo de jovens dançarinas do Rio de Janeiro, o chamado Bonde das Maravilhas. As meninas, adolescentes na faixa dos 13 aos 20 anos de idade, vieram a público mostrar o inacreditável. Danças tão cheias de contorcionismos que confesso que a primeira vez que assisti ao vídeo, julguei ser humanamente impossível se equilibrar na nuca para dançar. Tanto que vi outras vezes e, boquiaberta, não conseguia crer, enfim.

Mas o que tem causado tanta polêmica, se assim posso dizer, na mídia, não são os contorcionismos dançantes que as meninas do Bonde das Maravilhas apresentam ao seu público, e sim a estranheza social de ver garotas jovens, bonitas, negras e periféricas dançando e cantando de modo tão singular.

Fiquei a me perguntar por que o ataque ao grupo tem sido tão severo. Por que essa antipatia mordaz às garotas?Bonde do Recalque

Revirei e retirei do fundo do baú alguns grupos que fizeram sucesso com danças sinônimas ao do Bonde, o que não foi tão necessário, pois temos mulheres que dançam funk e põe seus bumbuns pra cima sem causar maiores estranhamentos por parte do público hoje. Mas creio que vale a pena relembrar de alguns.

Suponho que muitos ainda se lembrem do grupo É o Tchan!. O grupo ganhou fama e notoriedade em meados da década de 1990 com danças tão “insinuantes” e “pornográficas” executadas pelas dançarinas Carla Perez e Scheila Carvalho quanto as do Bonde das Maravilhas.

As dançarinas do É o Tchan! seguravam e amarravam o tchan ao seu bel prazer, e nem por isso ninguém as levou ao ministério público. Lembro que Gugu Liberato, no seu antigo programa Domingo Legal, explorou bastante a imagem do grupo e ainda criou um quadro chamado “Banheira do Gugu”, em que mulheres ficavam praticamente nuas em rede nacional e num horário em que as crianças ainda estavam na sala.

Até aqui, ninguém disse nada. Por que será? Perceberam a diferença?

Há também um grupo mais recente de funk, também do Rio de Janeiro, chamado Gaiola das Popozudas, formado só por mulheres e liderado pela funkeira Valesca Popozuda, que trazem a público ritmos dançantes e eivados de insinuações – do tipo “balança o rabo” e “late que eu tô passando” – e nem por isso caiu no desgosto popular. As garotas do referido grupo são mulheres brancas. Elas trazem consigo o patrimônio da cor, o que por si só é um fator extremamente favorável na busca pelos quinze minutos de fama na mídia.

Ah, tem mais uma figurinha cativa. Lembram-se da Gretchen? Lembram o sucesso que ela fez na década de 1980 com o Conga Conga, que inclusive a atual novela das nove remasterizou para a personagem de sua filha, Thammy Miranda? Pois bem, Gretchen ganhou fama e notoriedade com danças insinuantes para a época (afinal, estávamos falando de década de 1980, período em que o Brasil vivia os momentos finais da ditadura). E como os purismos do século XXI condenam o Bonde das Maravilhas, esse é um aspecto que vale lembrar. Não só fama e notoriedade na mídia alavancaram a carreira da cantora e dançarina Gretchen, assim como ela ganhou prêmios e mais prêmios com essa dancinha insinuante e com sonoplastia puramente sexy hot, porque era assim que Gretchen cantava. Parecia que estava gozando!Quadradinho e gravidez

Não condeno nenhuma dessas cantoras e/ou dançarinas. Só parto do princípio que minha mãe desde cedo me ensinou: “o pau que dá em Chico tem de ser o mesmo que dá em Francisco”. Se for pra escrachar tem de ser geral, e não fazer o que essa mídia podre e asquerosa está fazendo, dando de cacetada no grupo do Bonde das Maravilhas. E o pior de tudo, é a participação popular de uma gentinha hipócrita nas redes sociais.

E pra não dizer que sou insuportável (porque sou mesmo), a mídia tem jogado pra debaixo do tapete as Panicats, assistentes de palco do Programa Pânico na TV.

Isso sem contar a Anitta, outra jovem cantora de funk que largou a faculdade de administração e um estágio numa transnacional pra seguir seu sonho de virar artista e ficar famosa. Aos vinte anos, ela é sucesso nacional. Sua trajetória artística e história de vida ganharam os louros da Rede Globo, exibido naquela medíocre revista eletrônica semanal.Quadradinho

Ah! E ela sabe dançar o quadradinho, só não o faz, pois tem de parecer fina. Quer dizer que Anitta largou a faculdade pra seguir um sonho de menina, ao tempo que as que são malhadas atualmente são piriguetes, burras e futuras prenhas solteiras? Muito bom. Adoro o contexto em que Anitta se insere, frente à análise que a mídia perfaz.

Difícil levantar esse debate sem trazer à tona os aspectos sociais e raciais imbricados nesse bojo teórico reflexivo que envolve o Bonde das Maravilhas.

Não há como não falar da sexualidade da mulher negra sem atentar aos detalhes sutis que emanam dos ataques ao grupo nas redes sociais. Pois, falar que fazer o quadradinho de oito traz como consequência direta uma barriguinha de nove é o extremo do julgamento que se possa deliberar sobre mulheres jovens negras e moradoras de periferia.

Quadradinho de Grávidas

Afinal, só mulher preta e pobre transa casualmente e engravida nesse país, e ainda por cima tem o sacrilégio de tornar-se mãe solteira? As brancas de classe média e de boas famílias também fazem isso, oras!! Maria Rita, a filha da saudosa musa Elis Regina, transou casualmente sem o menor compromisso que uma mulher branca do nível social que ela representa possa “merecer”, e engravidou duas vezes, diga-se de passagem, de homens diferentes.

Volto à pergunta. Por que ninguém malha Maria Rita? Porque ela é branca, rica, canta MPB e não mora na favela? Ah, e mais, porque fora alfabetizada? Sim, porque fazer quadradinho de oito é impossível já que se fosse quadradinho de oito não seria quadradinho e sim octógono. Total coisa de quem não concluiu sequer o ensino primário. Não é o que proferem por aí? Ou só eu que estou vendo?

Quadradinho Octógono

Ou melhor, as meninas do Bonde “emprenham” cedo porque o único destino de meninas pretas, pobres e faveladas é “abrir o rabo pra parir”, ao tempo que branquinhas de classe média alta, ricas e famosas enfileiram um filho atrás do outro e muitas vezes são mães solteiras porque curtem uma “produção independente”, ou até mesmo porque “são férteis”. Faça-me o favor!

Mulheres brancas de classe média têm filhos “do primeiro e do segundo relacionamentos”. Mulheres pretas e faveladas têm filhos “com um e com outro”. Já perceberam isso?Educação Digna x Quadradinho de oito

Se for pra jogar na masmorra o Bonde das Maravilhas, tratemos de assegurar o mesmo valhacouto para todas as outras que as antecederam nesse processo provocativo e pornográfico.

Não estou deste modo a defender as representações pejorativas que possam surgirBonde das Analfabetas desse movimento musical e a representação que a mulher negra, por sua vez, está cerceada. Só defendo o direito dessa mesma mulher negra não ser condenada por suscitar ações que outras mulheres brancas, ricas e com formação escolar reproduzem sem passar pelo mesmo crivo midiático ao qual se expõe.

No mais, creio que muito ainda se tem para discutir. Isso aqui é só uma provocação.

 
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Publicado por em 17/05/2013 em Publicações

 

Senso crítico: o que é, para que (não) serve

É com esse questionamento que inicio mais esse textículo.

Desde a mais tenra infância, escutamos nossos pais e nossas mães dizerem que temos de estudar para “ser alguém na vida”, como se nós já não fôssemos alguém ou como se nós só nos tornássemos alguém depois de termos adquirido um diploma universitário. Como menos de 3% da população brasileira consegue entrar na universidade, concluo que vivemos numa nação de indigentes. E é nessa leva que ingressamos nos espaços escolares antes mesmo de deixarmos de usar as fraldas descartáveis, o que “no meu tempo” (nossa, quanto saudosismo nessa frase) era de pano mesmo.

Daí, vamos para o jardim de infância, maternal, pré, prezinho, seja lá qual nome tem agora, depois ingressamos para o ensino fundamental um, em sequência o dois, e por fim, o ensino médio. Pra quem quer (e tem condições, disposição e interesse de) seguir, há a faculdade.

Parece até que nunca pararemos de estudar. E não pararemos mesmo, pelo menos é essa a sensação que tenho. Foi assim que seguiu minha vida escolar, e desde sempre ouvia os professores dizerem que os alunos não gostavam de estudar, não queriam (e ainda não querem) nada com a hora do Brasil (até hoje não entendi muito bem qual a relação de uma coisa com outra) e assim por diante.

Mas será mesmo que os alunos não querem nada com o estudo? Ou são os professores e as professoras que não querem nada com os e as estudantes? Pra que diabos vamos à escola ou à faculdade? Pra passar o tempo, pra não ser obrigada pelo pai ou pela mãe a começar a trabalhar logo cedo, sendo que esse não é o esporte favorito de alguns? Não há uma única alma que queira, de verdade, estudar e enveredar por essa linha por puro prazer, sem ter de fazer nada obrigado? Assusta-me a ideia do contrário, enfim.

Após terminar o ensino médio, levei exatos oito anos para ingressar na faculdade. Tive uma série de contratempos na vida, meu pai e minha mãe se separaram, e eu acabei tendo de assumir a responsabilidade da casa. Tornei-me arrimo de família ainda muito jovem, e pensar em estudar era coisa sofisticada demais pra quem tinha de trabalhar e manter a casa com uma mãe idosa, uma irmã desempregada, parasita e preguiçosa e três sobrinhos menores de idade. Afff, quanta coisa chata tive de contar para que entendam onde quero chegar. Pulemos essa parte.

Pois bem, quando ingressei na faculdade, em 2009, tive um pouco de dificuldade para entender a dinâmica do ensino superior. As demandas eram muitas, como ainda são, e tudo era pra já. O que não havia aprendido em onze, doze anos de vida escolar pregressa, tive de aprender “natoralmente” na faculdade, se é que vocês me entendem. Mas fui lá, encarei, afinal de contas, era aprender ou aprender. Eu não havia prestado vestibular para desistir na primeira etapa. E tentar era a minha única possibilidade. Tentei.

O ritmo era tão acelerado que tudo o que era solicitado tinha de ser feito pra ontem, e com a destreza de um maestro.  Lembro que muitas das colegas haviam acabado de concluir o ensino médio e caído de paraquedas na universidade. Muitos vícios, muitas manias, e muita coisa a ser apreendida em tão pouco tempo.

Logo no primeiro semestre, alguns professores chegaram a afirmar que não sabiam como havíamos entrado num espaço como aquele (elitizado, ainda mais se tratando de universidade pública e federal) sem “saber ler nem escrever”. Houve um caso particular de um professor que sutilmente disse que nós éramos “analfabetas”.  Fiquei estarrecida com tais declarações. Quem não ficaria? Pensar no esforço danado que fiz para estar ali, e vir alguém dizer que eu não sabia ler nem escrever era demais pra mim.

Apesar da acidez na crítica, depois de um tempo entendi, ou melhor, constatei a fala dos (as) professores (as). E eles tinham razão. Éramos oriundos de escola pública. Aquela escola pública que não nos ensina o básico, quem dirá a ler e a pensar. E por conta dessa deficiência, não era de se estranhar que não soubéssemos ler, quiçá escrever. Fui levando.

(Se bem que não é só isso. Esses professores e essas professoras disseram o que disseram porque Pedagogia é um curso altamente desprestigiado e ocupado majoritariamente por mulheres negras, pobres e moradoras de bairros de periferia. Os e as estudantes de medicina, de direito e de engenharia também não são primores; muita gente dessa turma, apesar de ter estudado em boas e caras escolas particulares, são burras e preguiçosas pra cacete, e nem por isso o corpo docente entra esculachando a turma do mesmo jeito que esculacha o pessoal de Pedagogia. Isso me faz lembrar de um de um caso de um conhecido que disse que quando ele era estudante de Estatística da UFBA, havia uma professora que só tirava dúvidas dos queridinhos e das queridinhas dela. Quando essas pessoas levantavam o braço e diziam que não haviam entendido tal assunto, ela saía do lugar dela e pegava no lápis para explicar. Já quando ele dizia que estava com dúvida, ela olhava para a cara dele com o maior desprezo e dizia: “Não entendeu? Vá estudar, pois isso aqui não é segundo grau”.)

Com tudo isso fui tentando superar as tais deficiências de ser oriunda de escola pública, e de ter passado muito tempo sem estudar. Foi cruel. Tive de passar mais tempo do que gostaria tentando absorver de tudo um pouco, sem perder de vista o meu foco na formação acadêmica que prezava.

Leitura e mais leitura. Muitas noites mal dormidas e muitos finais de semana para compensar o atraso. E para além de tudo isso, contava com a ajuda de um parceiro que acompanha (va) todo o meu processo acadêmico formativo, e que sempre me diz (ia) que eu tinha de qualificar minha crítica e estudar mais se quisesse me destacar.

No primeiro momento, quando ouvi-lo dizer “qualifique sua crítica”, me senti ofendida. Logo pensei: “Para que merda estudo tanto? Pra esse cara me dizer que todo esforço de nada tem valido? Que lance é esse de qualificar minha crítica?” Um mar de questionamentos. O caso ficou mais complicado.

Fui atrás dessa qualificação crítica. Pensa que foi fácil? Para tudo o que questionava, ele me sugeria um livro. Podia ser um buraco na parede feito à furadeira. Ele me saltava com um livro que trazia explicações teóricas sobre o tal buraco. Pra vocês entenderem o quão tenso ficou. Já que eu queria qualificar minha formação, tinha de aprender a superar meus próprios limites e estudar. A receita de quase tudo na vida é estudar. Não resolve tudo, mas no mundo acadêmico, boa parte dos meus problemas foi sanada com muito estudo.

Mais adiante, em outro momento na faculdade, lembro como se fosse hoje, de um fato que me ocorreu quando ainda estava no quarto semestre, e numa aula uma professora entrou na sala e trouxe uma provocação sobre o caso Monteiro Lobato, o possível veto pelo MEC por suas obras apresentarem conteúdo de cunho racista, e tal. A professora apresentou a discussão e questionou a turma sobre o conhecimento do caso. Para sua frustração, ninguém, ou quase ninguém, sabia do que ela falava. E em tom de arrogância e pura prepotência, ela gritou aos quatro cantos da sala que era um absurdo as pedagogas não estarem acompanhando a notícia e sequer saberem do que se tratava.

Timidamente, uma colega se manifestou e disse que havia ouvido falar sobre. Tomada a primeira iniciativa, eu pedi a palavra e mostrei meu posicionamento diante do caso, inclusive porque estava acompanhando a discussão, havia lido todas as notas que saíam no jornal e na internet sobre o caso. E ainda afirmei que achava coerente a postura que estava sendo tomada pelo MEC por entender o contexto do acontecido, e que Monteiro Lobato não me representava, bem como não havia feito parte da minha infância. Levantei uma discussão teórica sobre o autor. Ponto

Me lasquei! Foi a gota d’água para a tal professora levantar toda sua fúria e partir em defesa do finado escritor. Ela falou até que se sentiu ofendida porque Lobato fez parte da sua infância e ela não conseguia ver nada do que estavam apontando sobre sua obra.

Minha ousadia foi maior quando retruquei que o fato de ela não ver conteúdos racistas na obra do referido autor e falar de sua obra com um saudosismo afável não minorava o fato. Ou seja, o fato de ela não ver, não queria dizer que nada daquilo não existisse. Como bem disse Ana Maria Gonçalves, “não é sobre você que devemos falar”.

A partir dali, percebi que havia qualificado minha crítica. E havia qualificado tanto, que ao final do semestre na entrega das notas, a tal professora lembrou bem do comentário que eu havia feito na aula sobre Monteiro Lobato, o qual ela tomou pra si, e então se sentiu ofendida, que me deu a nota mínima para ser aprovada na disciplina. Isso porque ela não encontrou argumentos para me reprovar, caso contrário assim o faria.

Depois de então, percebi que esse lance de qualificar crítica é um tanto quanto contraditório. Os mesmos professores que afirmam com veemência que os alunos não gostam de estudar, são desinteressados são os primeiros a vetar a capacidade crítica do estudante. Pode isso?Pensamento Quadrado

Alguns professores têm o mau hábito de dizer que estudantes são preguiçosos, não gostam de estudar e ainda se utilizam da célebre frase “esses meninos não querem nada”. Mas quando aparece um interessado, os mesmos professores são os primeiros a rechaçar a estudante que demonstrou ter adquirido um nível desejado de criticidade. É como se dissessem: “Adquira o tal senso crítico, mas não é para usá-lo contra mim. Pois se você se meter a besta comigo… já sabe. Aqui, o esquema funciona na base do ‘eu mando e você obedece’”.

Aí eu pergunto, pra que porra a gente estuda tanto, adquire o tal do senso crítico (que não vende no mercado)?

Pra sermos rechaçados? Pra o professor nos dar pouco cartaz e desprezar nosso esforço em aprender um determinado conteúdo, que segundo ele, nunca conseguiríamos dominar?

Diziam que eu tinha de qualificar a minha crítica. Pronto. Fui lá e qualifiquei. Essa onda de qualificar a crítica leva mais tempo do que possamos imaginar. Boas horinhas de bundinha na cadeira, mais duas dúzias de boas referências literárias, mas uma centena de documentários auxiliam nesse processo.

Mas volto à pergunta: pra que tudo isso mesmo, hein? Pra vir um professor de não sei das quantas dizer que somos avançados demais e vetar nossa capacidade de construir massa crítica e o direito de questioná-lo?
Quer saber? Se há uma coisa que aprendi no decorrer desse processo de aquisição de conhecimento foi que professor não gosta de aluno que estuda, muito menos o que questiona, pois isso dá muito trabalho. Fá-lo-á remexer coisas que nem ele mesmo lembra que ensinou, e outras que ele nem sabia que existia. Esse ou essa docente terá de reconhecer que não sabe tudo e voltar a estudar, a ler e a se atualizar, e isso é muito cansativo. O que não suporto é essa onda de dizer que aluno não estuda e quando aparece uma fina alma que resolve assim fazer, esse mesmo professor o achaca até ele se esvair numa gota de ignorância que possa surgir.

 Ânsia por conhecimento

Nessa ânsia de aquisição de conhecimento, comecei a participar de muitas atividades (seminários, palestras, mesas-redondas, simpósios, cursos de extensão e tudo mais), pra ver se conseguia agregar o máximo de conhecimento no menor tempo possível. E desde o primeiro semestre que entrei num ritmo frenético de formação continuada. Houve colegas de curso que me chamavam de “caça-eventos”. Ridículo de pensar!

Ano passado, atrelada às atividades da faculdade, resolvi fazer duas formações à distância. E, nesse ano, iniciei mais uma. Quase fiquei louca com tanta formação. Para além das atividades da faculdade, das leituras, dos documentários, havia três cursos de formação. Uffaaa!!! Parecia que não acabaria nunca. Consegui findar uma.

Nessas formações todas que realizo, mantenho um compromisso sério com a excelência. Tento dar o máximo de mim, pois sei que serei cobrada depois. Cedo ou tarde, a cobrança virá. É aquele lance de “quanto mais você oferece, mais será cobrada”. É mais ou menos assim. Tanto que o Escrevivência surgiu de uma atividade acadêmica e uma necessidade urgente de superar uma dificuldade enorme que sentia de escrever. Pensei que se criasse um blog e o alimentasse com uma frequência regular, essa dificuldade tendia a minorar. E foi assim, está minorando. Eu penso.

Certo dia, Roger Pinto disse que os textos que publico no Escrevivência representam a aquisição de musculatura intelectual necessária para a monografia – que, por sinal, está bem próxima.

Conversa com Idelber Avelar

Como falei anteriormente, estou realizando algumas formações à distância, e, numa delas, houve uma proposta de atividade sobre literatura afrobrasileira. Eu não sabia (como ainda não sei) muita coisa sobre o tema. Mas eu tinha de fazer a atividade. Li o material de apoio, busquei fontes que complementassem a leitura e resolvi procurar uma pessoa com cabedal suficiente para me esclarecer mais detalhes sobre o assunto.

Fui atrás de Idelber Avelar, professor titular de literatura da Tulane University, uma pessoa super acessível e conhecedora do assunto que tanto buscava. Conversamos pelo Skype, e ele me esclareceu algumas dúvidas pertinentes à literatura afrobrasileira das quais eu tinha imensa dificuldade de entender por desconhecer o assunto, e pelo fato de muitas pessoas associarem um conceito a outro, e acabarem confundindo, enfim. Além dos esclarecimentos, Idelber Avelar ainda sugeriu, se por acaso eu quisesse enveredar sobre a temática, a coletânea Literatura e Afrodescendência no Brasil: antologia crítica, organizada pelo professor Eduardo Assis Duarte, da Universidade Federal de Minas Gerais, para que pudesse entender melhor e me apropriar mais sobre o assunto. E assim o fiz. Adquiri a coletânea, e foi muito bacana, pois ela me ajudou a fazer a tal atividade do curso de extensão, e servirá a posteriori para estudos mais aprofundados que eu queira seguir.

Perante tanta dúvida e inquietação, Idelber Avelar disse que o que tenho de fazer mesmo é ler, estudar, pegar os livros e buscar os conteúdos, pois assim estarei afiada para um bom debate. Confesso que fiquei empolgada com o conselho que ele havia me dado, pois não tenho feito outra coisa além disso. Senti que estava no caminho certo.

E assim parti para o processo de feitura da atividade. Tanto esforço, tanta busca teria de valer de alguma coisa.

Sabe qual foi meu retorno diante tanta investida? Uma resposta totalmente frustrante da minha tutora ao dizer que a bendita atividade que havia feito sobre literatura afrobrasileira estava “avançada demais”. Putz! Pirei na fita. Juro que por essa não esperava. Como é isso? Me esfalfei toda pra nada? Ou melhor, li “pacacete”, busquei fontes de informação pra ela me dizer “está avançada”! PQP…

Socorro, não estou sentindo nada (…) Socorro, alguma rua que me dê sentido”. Pra que banana eu me esforcei tanto? Esperava o quê? Um comentário do tipo “mais do mesmo”. Difícil processo esse, hein!

Será que se tivesse feito qualquer coisinha ela não aceitaria e ainda diria que estava ótimo? Penso que sim. Aquele lance de que professor não gosta de aluno que estuda, pensa e questiona faz todo sentido aqui.

  

Suprassumo da exigência

Não sei se tô entrando na neura de estudar demais e superar essa merda de ensino que temos, até mesmo na faculdade. Não sei. Só sei que busco um diferencial e pago um preço por isso.

Semana passada, ao realizar outra atividade de outra formação, deparei-me com uma situação extremamente inusitada. Havia uma atividade a ser enviada, mas para isso eu tinha de ler um material de apoio, pois sem fazer isso seria impossível responder a questão. Fui à leitura do material, que fora duramente densa, mas essa leitura fora difícil pelo fato de eu não dominar alguns conteúdos ali abordados, além da leitura ser cartográfica. Tive de fazer um esforço homérico para ler o texto com o Google Maps aberto. Difícil pacas, mas fiz.

No decorrer da leitura, me deparei com alguns erros conceituais, de digitação, e algumas referências a imagens e mapas que não foram inseridas no texto. Só que com o avançar da leitura, os erros ficavam cada vez mais evidentes e grosseiros.

Fiz a atividade e sinalizei ao tutor da minha turma sobre esses erros, que me informou que repassaria “minha queixa” à coordenação do curso. Esperei.

Passou mais de uma semana e nada de retorno. Os demais cursistas realizaram a atividade e foram avaliados, ao tempo que eu ainda estava sem resposta. Até que ontem, resolvi interpelá-lo sobre o assunto. E mais uma vez, mais uma frustração. O tutor me deu uma resposta totalmente evasiva e insensata que não convence nem o criador do conto do vigário.

Fiquei puta da vida. Será que ele não gostou do meu posicionamento em apontar as falhas grosseiras do material de referência no curso produzido por mestres da academia? Dane-se! O mínimo de competência é de se esperar de quem se arvora em produzir um material e indicá-lo numa formação de professores. O que queriam que eu fizesse? Fechasse os olhos e fingisse que não vi nada daquilo? Poupe-me! Se não tem competência, não paga pra ver. Titulação e competência acadêmica são duas coisas completamente distintas.

Atiro com aquele famoso bordão “se num guenta, pra que veio”?

Esse processo construtivo de senso crítico, dominação e apropriação de conhecimento é tenso, porque pensar e fazer pensar incomoda muito mais do que eu imaginava.

Não entendo a razão de aprender a pensar de forma tão crítica sobre as coisas, se posteriormente o direito de questioná-las não será concedido. E quando assim o faço, sou tomada como “cri cri”, “problemática”, “implica com tudo”, “muito crítica” (esse “elogio” já virou meu sobrenome), dentre outros.

Difícil.
Fazer mais do mesmo, isso não me cabe. Não foi para isso que eu estudei (e ainda estudo) tanto.

pressão social

 
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Publicado por em 15/05/2013 em Publicações

 

A última fronteira do feminismo: abrir uma garrafa de vinho

Desde pequena, sempre achei estranho algumas coisas que aconteciam à minha volta, e no meu ambiente familiar.  Não as entendia bem naquela época como as entendo hoje, enfim.  

Tive uma família relativamente grande, e meu pai era o mantenedor dessa família – pelo menos ele achava que era, como se todo esforço que a minha mãe fizesse não tivesse serventia. Afinal de contas, ele era o patriarca que saía para trabalhar, enquanto minha mãe tinha de cuidar dos filhos e da casa.

Tomemos um exemplo: meu pai trabalhava fora e quando chegava em casa, era minha mãe que tinha de esquentar a comida dele e pôr na mesa. Caso contrário, ele não comia e ainda brigava. Ele pensa(va) que essa era a obrigação que minha mãe tinha como mulher e dona de casa.

Eu, ainda garota, não entendia o porquê daquilo, já que era ele que iria comer, por estar com fome, mas era minha mãe que tinha de fazer o prato. Eu não entendia a razão do acontecido, muito menos sabia explicar a lógica dos fatos. Como eu já disse, eu era apenas uma garota quando comecei a perceber tudo isso.

O tempo foi passando, e eu entendia cada vez menos o comportamento da minha mãe e de outras mulheres à minha volta. E desde cedo decidi que não queria casar nem ter filhos, pois o sinônimo de casamento e procriação pra mim era levar a vida que minha mãe levava, e isso eu não queria nem a pau. Tinha pavor só de pensar, ou melhor, ainda tenho.

Pois bem, foi vendo algumas coisas pelas quais minha mãe e algumas mulheres da minha família passavam é que fiquei irritada com tudo aquilo e cada vez mais rebelde e questionadora.

Meu pai até hoje não suporta esse meu jeito questionadora e retruquenta (não é à toa que não conseguimos viver por muito tempo no mesmo espaço). Isso me lembra daquele lance de dois corpos não ocuparem o mesmo lugar no espaço. Nós dois somos assim. Ele é do tipo “eu mando e você obedece”, e eu sou do tipo que não aceita receber e obedecer ordens. Imagine o confronto em viver assim.

Ele diz(ia) que sou muito “osada”. Hoje, consigo dar poucas e boas risadas com isso, apesar de entender o significado escroto do seu pensamento machista.

E assim fui crescendo. “Osada”.

O engraçado de tudo isso era que o mesmo homem que dizia que lavar prato, cuidar da casa e dos filhos eram atribuições da mulher, me criou com um jeitinho peculiar e um pouco intrigante. Ele, como militar, me inseriu muito jovem num universo tipicamente masculinizado por natureza, para que eu aprendesse a “marra” que o militarismo poderia propiciar. Fui parar numa escola militar para formalizar o “pensamento de menino” que deveria ter pra não pensar em casamento.

Meu pai desde cedo – quando eu nem sabia direito o que era a vida – dizia que eu tinha de estudar e trabalhar. E nada de querer saber de homem, “porque homem é uma raça que não vale nada”. E assim segui. Ouvi direitinho o que ele me dizia. Afinal de contas, saber que homem não presta era fácil, bastava olhar pra ele e ver as atrocidades machistas que ele fazia.

Essa “educação de homem” que ele me deu não foi pura benemerência. Ele sabia muito bem o que fez com as filhas dos outros, e por isso não queria nem imaginar a filhinha caçula passando por metade das escrotices que ele já aprontou por aí. Postura que ele mantém até hoje.

Pimenta nos olhos das filhas dos outros é colírio. Nos da filha dele, arde.

Logo comecei a cuidar de mim com toda a responsabilidade e desenvoltura de quem não precisa de um homem pra trocar a lâmpada queimada. Isso mesmo. Sempre quis ter autonomia. Ser dona das minhas vontades. Falar por mim e fazer tudo que me fosse permitido sem precisar do consentimento do outro. Tudo isso que estou relatando pode ter um viés feminista (haverá quem diga). Nunca parei para pensar se tenho ou não um declínio para o feminismo. Na verdade não curto nenhum tipo de rótulo, principalmente aqueles atribuídos por conta dos ideais que defendo. Esse é o meu jeito de ser e pensar. Autônoma.

Mas se é pra ser, que seja. Creio que isso seja mais uma questão de gênero a ser quebrada. Defendo a ideia de que mulher não precisa de homem pra ser feliz (nesse aspecto, discordo totalmente de Tom Jobim quando ele diz que “é impossível ser feliz sozinho”). Defendo a ideia de que mulher não representa nem de longe o “sexo frágil” da relação. Aliás, não sei quem foi o imbecil que propagou esse merda.

Defendo a vontade de cada mulher fazer sexo com quem queira e não ser chamada de puta. Defendo a ideia de que mulher não nasce pra ter filhos, e assim sua completude feminina seja alcançada com a maternidade. Há muitas mulheres sem filhos e felizes pacas por aí. E gosto disso.

Defendo todo e qualquer direito da mulher ter quantos parceiros ela possa e queira ter. Homem com várias mulheres nessa maldita sociedade ocidental é garanhão, já mulher que pega dois numa balada é vagabunda. Que é isso? As mulheres também têm o direito de “se divertir”.

Mulher trabalha, faz faculdade, aula de idioma, escreve livros, dá palestras e consultorias, enfrenta fila em banco, troca a lâmpada, troca o botijão do gás e a resistência do chuveiro, dirige e pega trânsito congestionado (troca pneu e faz calibragem), conserta a maçaneta, ajeita o parafuso frouxo do disjuntor, toma cerveja com as amigas, vai ao shopping, joga conversa fora, fala abertamente sobre sexo, pede para usar camisinha, vai ao supermercado, abre latas de condimentos usando o abridor, enfim. Tudo isso mulher faz sem precisar de homem nenhum pra auxiliá-la. Confesso que mais da metade das coisas que citei realizei sem precisar de um homem pra isso.

Ah! Quanto ao abrir latas de condimento usando o abridor foi algo extremamente inusitado na minha vida. Passei vinte e nove anos sem saber pra que um abridor funcionava. Aí vocês me perguntam se eu nunca havia aberto uma lata. Mas é claro que sim. Eu usava uma faca. Esse era o modo mais prático que usei pra abrir as benditas latas. Até que alguém me ensinou a tal finalidade do abridor. Depois desse dia, não aceitava que mais ninguém abrisse uma lata para mim. Fique muito feliz.

Agora só me resta a última fronteira a vencer: abrir uma garrafa de vinho.vinho Nooosssaaa!!!! Se há alguma coisa que me martiriza por não saber fazer é tirar uma rolha de uma garrafa de vinho. Mas deixa estar, daqui a pouquinho essa não será mais uma barreira, e sim uma atribuição. Que assim seja. É assim que penso. É assim que sou. Isso também é uma questão de gênero.

 
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Publicado por em 05/05/2013 em Publicações

 

Perguntaram-me se gostava de música. Ao que respondi…

Certo dia, numa conversa prosaica com uma pessoa, falávamos sobre diversão, viagens e coisas prazerosas na vida, quando ela disse que recentemente fez uma viagem a um determinado lugar, que agora me fugiu da memória, e ouviu uma música de Chico César. Então, lembrou que há exatos dez anos, em 2003, fez uma viagem para o mesmo lugar e ouviu a mesma música, e de repente, bateu aquela saudade de viajar e ouvir a música de novo. Coincidência, não? Ele só soube que a sensação foi imensamente prazerosa ao lembrar o acontecido. E afirmou que fazer viagens é algo que lhe proporciona imenso prazer.

Até aqui, tudo bem. A tal pessoa olhou pra mim subitamente e perguntou se eu curtia Chico César. Eu, como não acompanho a carreira deste artista, e por isso não conheço as suas obras, afirmei que a única canção que ouvi muito vagamente e conhecia pelo refrão era Mama África, a minha mãe… De fato, isso é tudo que sei sobre Chico César. Não que ele seja um artista pouco interessante. Na verdade, eu nunca tive o menor interesse em saber o que ele faz. Sei lá!

A cara de espanto que essa criatura fez foi imensamente indescritível nas linhas desse textículo que aqui exponho. Era do tipo “Como assim? Você não conhece Chico César?!” Após a expressão assombrosa diante à minha resposta, veio a pergunta rápida e caricata de quem olha e não vê me mim uma pessoa que aprecia muito mais do que se possa imaginar (riso irônico): “Você gosta de música?” Ao que respondi: depende. Se gostar de música for ouvir Robyssão no último volume dizendo que o “poder está na tcheca”, a resposta é não. Eu não gosto de música.

Imediatamente a conversa ganhou outro viés e findou.

Adoro quando isso acontece, porque as pessoas tem mania de julgar as outras pela aparência. Eu, preta, com essa cara de ralé, não gosto de música, ou melhor, não conheço o que é música. E isso ficou extremamente nítido na pergunta da pessoa com quem proseava. A prepotência humana é imensamente infeliz nesse aspecto.

Era óbvio que uma pessoa da minha estirpe não sabia apreciar Chico César, imagino que tenha pensado. Se não conhece Chico, é melhor nem falar de Tom Jobim, Gal Costa, Elis Regina e congêneres.

Pois é, o que essa pessoa não sabe, e nem vai saber (pelo menos no que depender de mim), que falar das coisas que aprecio é algo que não costumo fazer, a não ser entre amigos, o que não era o caso. Aliás, falar da minha vida e dos aspectos peculiares que a circundam é coisa que não faço com qualquer pessoa.

O que sei é que não curto Chico César. Ou não tive o interesse de querer ouvir o que ele canta. O que sei é que nada sei – alguém disse isso, só não lembro quem.

Curto mesmo é John Coltrane, Thelonious Monk, Louis Armstrong, Maria Rita (meu porre ultimamente), John Legend (amoooooo), Miles Davis, Rappin’ Hood, José James, Wilson Simonal, Victor Wooten, Seu Jorge, Péricles (minha Galinha Pintadinha, como bem disse Roger Pinto), Sade, Tracy Chapman, Whitney Houston, Pedro Mariano, César Camargo, Juliana Ribeiro, Jackson Five, James Brown, ABBA, Michael Bublé, Joss Stone, Amy Winehouse (a falecida tinha uma voz deliciosa e totalmente jazzística), The Temptations, Bezerra da Silva, Arlindo Cruz, Fernanda Takai (tem uma voz suave e aconchegante que gosto muito), Sam Hop (Açaí Granola é uma música fantástica! Eu só me lembro da Feira de São Joaquim quando ouço).

Deu pro gasto? Isso foi só o que lembrei que há na minha humilde discoteca virtual!

 
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Publicado por em 19/04/2013 em Publicações

 

Ser negro no Brasil

Ser negro no Brasil de hoje requer assumir posturas e tomar atitudes extremamente mordaz, a fim de que possa sobreviver às estruturas racistas existentes. SOUZA (1983) nos diz que ser negro no Brasil, é tornar-se negro, “é tomar posse dessa consciência e criar uma nova consciência que reassegure o respeito às diferenças e que reafirme uma dignidade alheia a qualquer tipo de exploração”. Requer entender as bases racialistas sobre as quais a nossa sociedade está apoiada, e assim poder confrontá-las numa postura consciente a qual devemos estar sempre atentas.

Quanto a isso, concordo plenamente. Precisamos, sim, tomar posse de uma consciência que ultrapasse as barreiras sociais de existência do indivíduo.

Mas é notório dizer que as assimetrias sociais existentes no Brasil, por conta do seu percurso histórico de colonialismo e escravidão que perdurou por mais de trezentos anos, estão imbricadas com as assimetrias raciais, e isso é uma marca inegável na nossa historiografia.

Em meio às discussões e conquistas que vem sendo alcançadas, devo dizer que muito tem sido feito para a garantia do direito à cidadania de pessoas negras.

Mas, para além do que disse SOUZA (1983), devo confessar o que perpassa no ato de ser negro no Brasil de hoje, e para isso sugiro que assistam aos dois vídeos abaixo, para entender parte da minha crítica ácida e mordaz ao sentido que se toma o fato de ser negro no Brasil.

As estruturas racistas no Brasil adquiriram docilidade historiográfica através da ideia incutida no imaginário popular de que vivemos numa nação que fora construída e levantada por três matrizes raciais, e com isso o conceito de mestiçagem ganha forma, a fim de desfazer qualquer “mal-entendido” dos negros em relação aos não-negros. E Gilberto Freyre foi um dos maiores fomentadores (senão o maior de todos) do conceito de mestiçagem no Brasil. Em seu “clássico” Casa-Grande & Senzala, ele afirma que:

Todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo – há muita gente de jenipapo ou mancha mongólica pelo Brasil – a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena ou do negro. No litoral, do Maranhão ao Rio Grande do sul, e em Minas Gerais, principalmente do negro. A influência direta, ou vaga e remota, do africano.

Na ternura, na mímica excessiva, no catolicismo em que se deliciam nossos sentidos, na música, no andar, na fala, no canto de ninar menino pequeno, em tudo que é expressão sincera de vida, trazemos quase todos a marca da influência negra. Da escrava ou sinhama que nos embalou. Que nos deu de mamar. Que nos deu de comer, ela própria amolengando na mão o bolão de comida. Da negra velha que nos contou as primeiras histórias de bicho ou de mal-assombrado. Da mulata que nos tirou o primeiro bicho-de-pé de uma coceira tão boa. Da que nos iniciou no amor físico e nos transmitiu, ao ranger da cama-de-vento, a primeira sensação completa de homem. Do moleque que foi o nosso primeiro companheiro de brinquedo. (Grifos meus)

Posto isso, fica fácil tentar desconstruir a ideia de descaso e desamparo social experienciado por negras e negros neste país. Sendo assim, apontarei diversas situações do que é, de fato, ser negro no Brasil.

O primeiro vídeo mostra um garotinho loirinho, de olhos azuis cobrindo-se de lama afirmando veementemente que quer ser negro, e este ainda detém de um caráter dócil e engraçado. Além da propensa finalidade de infantilizar o público, por isso, o uso da imagem de uma criança, que nem de longe refaz a conjuntura social que uma criança negra vivencia.

Pois, ser negro é ser barrado na porta giratória da agência bancária, pelo simples fato de o segurança supor que você, por ser preto, é ladrão. Ser negro é morar em bairros de periferia cuja infraestrutura pública (asfaltamento, iluminação pública, sistema de água e saneamento, transporte coletivo, escolas, hospitais) não chega. E a única representação do Estado que se faz presente é a polícia, e sabemos bem o porquê.

Ser negro no Brasil de hoje está para além da afirmação identitária e social, pois lembro que os negros dos séculos XVIII e XIX, ainda que forros, tinham de carregar a todo o tempo sua carta de alforria para provar sua liberdade e não correr o risco de ser capturado e vendido como escravo. O mesmo acontecia na África do Sul no regime do apartheid, em que negros tinham de carregar o passe, no qual deveria constar nome, idade, raça, em que bairro morava, para onde estava indo, o que tinha para fazer naquele lugar, e quanto tempo era necessário para executar a tarefa. Em caso da não apresentação desse documento ou recusa em apresentá-lo ao policial podia-se ser preso. E quando a população se rebelou contra isso, a polícia abriu fogo e matou 69 pessoas em Sharpeville, no dia 21 de março de 1960.

Diante disso, me parece verossímil estabelecer uma analogia entre os casos acima, inclusive pela permanência desses aspectos ainda presentes na nossa realidade. São aspectos atemporais e que se renovam a cada dia, ganhando forma e estrutura sofisticada para manter-nos nos lugares de onde nunca devemos sair. E isso se faz notório quando se ouve a pecha do “procure seu lugar” ou “se compreenda”. Quem nunca ouviu isso na vida? Essas são palavras que personificam as definições de lugar ao qual negras e negros estão subjugadas. Deste modo, ser negro no Brasil é enfrentar todos os transtornos e barreiras sociais que estão postas.

Ser preto neste país é compor o exército da população carcerária brasileira, que segundo dados do IBGE, em pesquisas realizadas em 2012, constavam de 549.577 detentos, ao tempo que o número de habitantes no país, também dados de 2012, estava no índice de 193.946.886 pessoas. Ou seja, de acordo com cálculos feitos por Catarino Neto, professor de Matemática do Quilombo Ilha, cerca de 0,28% da população brasileira está no xilindró (a cada 351 pessoas que gozam de sua liberdade, uma está presa). E quem compõe esse exército? Pretos, pobres e favelados.

Essa estatística também abrange o campo educacional, porque ser negro no país é ajudar a compor o índice de analfabetismo, média que abrange sujeitos em sua maioria com mais de dezoito anos. O que quer dizer que 9% da população, dos quase 200 milhões de habitantes, é analfabeta nesse país, ao tempo que menos de 3% dessa mesma população ocupa os bancos universitários, mas atentemos para o fato de que esse último índice situa-se no fator global da população, pois quando se reporta à população negra nas universidades, haverá uma queda vertiginosa nesse quantitativo. Por isso, a implementação do sistema de cotas se faz mais do que necessária para começar a corrigir essa distorção.

Há quem diga que essas estatísticas não fazem recorte racial, e assim não dá pra saber quanto desse índice é composto por pretos ou não. Eu vos digo que nem precisa, pois num país em que negros – não falo de exceções, e sim das regras – começaram a adentrar os espaços escolares apenas no século XX (a duríssimas penas, diga-se de passagem), quando essa permissividade já era concedida aos não-negros há bem mais tempo, cerca de um século antes, pra ser bastante bondosa, não dá pra estabelecer critérios equitativos entre ambos.

*          *          *

Falemos agora do segundo vídeo, no qual uma garotinha branca e de cabelos lisos, sedosos e esvoaçantes ao vento, esperneia, berra aos quatro cantos da casa que “quer ter cabelo duro”. Recentemente, uma amiga da rede social compartilhou esse vídeo marcando meu nome e dizendo: “Olha, Paula, que gracinha o que a menina diz. Que fofa!”. Eu, sem saber do que se tratava, assisti ao vídeo e vi o mar de comentários que diziam achar “lindinho” o que a garotinha havia feito. De fato, pode ser muito engraçado, muito “bonitinho”. E é. É exatamente isso que o racismo faz, nos trata como bichinhos de estimação e usa de artimanhas para nos ofender, e ferir nossa autoestima. Será mesmo que essa garotinha gostaria de ter um “cabelo duro”. O que seria, de fato, um cabelo duro para ela?

Com um discurso ferrenho acerca de estética corporal da mulher negra, e com um escrito fundante a respeito da construção e valorização da autoestima pelo cabelo, eu não sou a pessoa mais indicada para apreciar produções como a do segundo vídeo e achá-las “bonitinhas”. Confesso que odiei o vídeo, não vi nada de engraçado, pelo contrário, repugnei a postura da pessoa que me marcou por ter associado à minha imagem a uma produção como tal. Mas não levantei, na época, discussões axiológicas, a fim de não me indispor em conversinhas infundadas de redes sociais.

Mas volto à pergunta. O que seria mesmo um “cabelo duro”? Duro, segundo HOUAISS (2008), significa “algo que resiste ao desgaste e à penetração resistente, algo impenetrável”. Cabelo de pessoas negras seria algo impenetrável e concreto? Não, não seria, como de fato não é. Mas a aspereza em registrar e firmar esses conceitos fomenta no imaginário de um indivíduo bases sólidas, das quais, muitas vezes, ele tenta desfazer. Isso quando consegue. Na maioria dos casos, afirmar sua negritude através do cabelo é um processo extremamente penoso numa sociedade que prega um padrão estético de beleza que preconiza a lisura do cabelo.

Digo isso porque meu trabalho consiste numa educação antirracista e jamais gostaria de vivenciar as dimensões sofríveis de uma criança diante a aceitação de sua identidade negra. Reporto-me à singularidade também de quem tem garotas negras na família e que não espera vê-las afundadas no ódio de ter um “cabelo duro”.

Ser negro no Brasil é também confrontar ações que nos acometem todos os dias ao epistemicídio nas universidades, ao afrogenocídio nas zonas urbanas das grandes cidades, ao feminicídio de muitas mulheres negras que morrem violentamente, a violência obstétrica sofrida por tantas outras em hospitais por não terem anestesia nos partos, ou fazerem abortos, e por isso, não devem ter direito à assistência médica adequada.

Isso é ser negro no Brasil. Resta alguma dúvida?

E se você acha que eu estou exagerando ou vendo coisa onde não existe, vista minha pele por um dia e, depois, me conte como foi a experiência.

FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. 51ª ed. rev. São Paulo:Global, 2006.

HOUAISS, Antonio; VILLAR, Mauro de Salles. Minidicionário Houaiss de língua portuguesa. 3º ed. rev. e aum. Rio de Janeiro:Objetiva, 2008.

SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro: as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascenção social. Rio de Janeiro:Edições Graal, 1983.

 
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Publicado por em 12/04/2013 em Publicações

 

Pelo direito de ser fútil

Eu tô de férias. Quero uma vida fútil por um mês.

Acabei de findar um semestre na faculdade extremamente cansativo e denso. Estudar nas férias de dezembro e janeiro não é nem um pouco agradável, e no mês do carnaval, então? Nem me fale. Passei por tudo isso nesse semestre. E o pior de tudo foi ir à faculdade numa Salvador de 30ºC com sensação térmica de 50ºC!

E esse ano, pela primeira vez desde quando ingressei na faculdade, em 2009, realizei a proeza de conciliar férias da “facul” com as férias do trabalho. Ainda que não seja para minha alegria, pois tenho um acervo documental para pesquisar, em no mínimo três arquivos diferentes, durante esse mês de abril insosso por natureza, além de dez livros que estão na fila esperando para serem lidos e fichados. Essa é a fase pré-monográfica e dura de viver. Um saco!  Foi pra isso que tirei férias do trabalho. Mas deixemos isso pra lá.

O que tenho a dizer mesmo é que tô de saco cheio de bancar esse gênio intelectualóide da mocinha que tem orgasmos quando adentra uma livraria, que assiste filmes de cunho educativo, e aos poucos perde a sensatez de assistir um besteirol na TV (haverá quem diga que isso não é perda de sensatez), que ao invés de ter uma estante cheinha de bonequinhos de louça e biscuit em casa, tem uma estante de livros, e que passa horas e mais horas lendo e analisando livros, artigos e congêneres, e assistindo a documentários, dentre outros materiais que possam surgir, como se aquilo fosse parte das atividades acadêmicas que tenho de cumprir, mas na verdade não é. Parte mesmo de um anseio voraz por conhecimento. E o que é pior, as pessoas acharem que só porque eu estou na U N I V E R S I D A D E,  sei explicar todos os fenômenos climáticos, atemporais, hermenêuticos, propedêuticos, epistemológicos, gnosiológicos, ontológicos, fenomenológicos e onomasiológicos que acontecem nesse mundo.

Tô de saco cheio do trabalho medíocre que faço. Que não me edifica e não o largo por não ter outra fonte de renda segura e que possa manter-me na faculdade. E por falar em faculdade, já pensei em abandoná-la também, sabe? Largar sem culpa, sem medo de ser feliz. Sem sofrer as consequências de abandonar o ensino superior e ter de viver numa central telefônica trabalhando como atendente de telemarketing (tenho pânico só de pensar nessa possibilidade).

Pra falar a verdade, tô cansada dessa vida de acordar às cinco da manhã todos os dias, ir à faculdade, pegar ônibus lotado e passar em média duas horas e meia num engarrafamento (em dias normais, porque a situação atípica é eu chegar à faculdade em uma hora e vinte), não ter horário de almoço, e muitas vezes contentar-me com um sanduíche vagabundo dessas lojas de fast-food que tem por aí, e ter de sair correndo pra um trabalho que fica no além do quinto dos infernos, e que ainda por cima, não me apetece. E depois dessa trajetória épica, chegar em casa pra lá das dez e meia da noite e ajeitar as coisas para, no dia seguinte, começar tudo de novo – e ainda por cima ter de dormir pra lá de meia noite, uma hora da manhã. Ou seja, a quantidade de horas que durmo diariamente (média de cinco, quatro horas e meia) é inferior ao que um adulto da minha idade necessita para ter uma vida saudável (oito horas de sono). Cansei!

Quero, nesse mês de férias, ser totalmente fútil. CharutosQuero rever meus amigos de longa data que há tempo não vejo, tomar cerveja com algumas figuras cativas e agradáveis, pelas quais tenho imenso carinho. Comida ChinesaQuero comer comida chinesa e fazer uma sessão de vinho, charuto e petiscos veganos aqui em casa. Quero ouvir som no último volume e incomodar a vizinha, que por sinal, é chata pacas. Quero falar e rir alto das bobagens que digo. Charutos e VinhosQuero mudar a cor do cabelo, depilar, pintar as unhas de vermelho, pôr um salto alto, comprar um batom rosa pink, mais rosa do que o que já tenho em casa, comprar uma bolsa, roupas novas e um vestido longo da Negrif que custa nada mais, nada menos que R$130,00, quando eu sei que essa grana podia me render outras peças cosidas por uma costureira de bairro, que me cobraria exatamente esse valor por meia dúzia de vestidos. Quero o direito de me expor ao ridículo e sem me sentir constrangida por conta disso.

619-02273330Ah! Quero também ir à ilha, pegar um sol “magavilhoso”, voltar bronzeada com minha marquinha de biquíni e depois pôr uma blusa tomara-que-caia para exibir minha marca. Adolo! Quero me sentir poderosa.Marca de Biquini

Hoje, dia dez de abril, é meu primeiro dia das férias do trabalho, e passo pelo constrangimento de ser importunada vááááriaaasss vezes pela chefe, que não sabe onde se situa nada e pensa que eu sou o GPS do trampo. Confesso que hoje me senti uma prostituta pelo fato de receber ligações intermitentes que solicitavam a minha presença…. no trabalho (“eu preciso de você aqui na escola AGORA!”). Pode isso? Sou o que mesmo? Eu tô de férias, caralho. Te vira!

Acho que eu quero mesmo é um trabalho medíocre, num lugarzinho de merda, que possa pagar-me o suficiente para sustentar esses pequenos surtos de luxuosidade dos quais falei anteriormente.

Na verdade, quero viver de escrever. Tenho muito mais tesão em fazer isso do que executar meras atividades burocráticas e levar essa vida de cão.

Pronto. Falei.

 
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Publicado por em 10/04/2013 em Publicações

 

Qual é a cor da família brasileira?

É sabido que a construção da sociedade brasileira deu-se de modo extremamente violento e abrupto. Iniciou-se com a chegada dos portugueses em 1500, em que estes, num processo “civilizatório”, colonial e escravista roubou, aniquilou e expropriou milhares de indígenas que aqui viviam, a fim de lançar luzes à nova terra, então pagã.

Anos mais tarde, ainda no século XVI, negros africanos foram sequestrados de suas terras e jogados aqui, também para dar continuidade a esse maldito processo “civilizatório” e atender as demandas da economia mercantil.

Séculos se passaram, índios e africanos colonizados, e europeus colonizadores constituíram o que temos hoje, a nação brasileira.

Foi essa a ideia que Gilberto Freyre, em sua obra Casa-Grande & Senzala, incutiu no imaginário popular ao dizer que: “Todo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo – há muita gente de jenipapo ou mancha mongólica pelo Brasil – a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena ou do negro”.

Ao apreciar esse grande “clássico” da historiografia nacional, pode-se perceber o quanto índios, negros e brancos construíram “harmonicamente” o Brasil. A visão romanesca presente na obra, de fato, nos remete à ideia fictícia de paraíso racial existente aqui.

Os conflitos existentes em todo o processo colonizador e “civilizatório” foram ignorados diante essa afirmação e a imagem que temos é a de que três matrizes ajudaram voluntariamente a construir a sociedade brasileira, essa nação mestiça.

Mais adiante, no século XIX, após a abolição da escravatura os projetos de branqueamento do país passaram a constituir ações que ajudaram a implantar novas teorias racialistas, que projetavam em curto prazo a extinção da raça negra no Brasil. Isso porque o advento da libertação dos escravizados, com a assinatura da Lei Áurea em 1888, gerou uma série de problemas à sociedade da época. Negros libertos agora ganharam às ruas. Sem moradia, emprego, educação, saúde ou qualquer outro direito social que lhes assistissem, muitos viviam na mendicância, e com isso o governo tratou logo de fazer a limpeza etnossocial das cidades, a fim que essa “massa podre” fosse banida de uma vez.

E daí, eis que surge mais um ideal que afrontava a população negra excluída, e que objetivava mantê-la o mais longe possível de qualquer sinal remanescente, mas próspero, de civilização. O princípio da eugenia apostou na imigração europeia para compor a nova mão de obra trabalhista das lavouras, antes exercidas por negros africanos. Entretanto, devemos ressaltar que os imigrantes europeus trazidos para o Brasil no pós-abolição não se espalharam por todo o país. Eles e elas se fixaram nas regiões mais dinâmicas da economia nacional e de clima mais próximo do clima da Europa (regiões sudeste e sul, respectivamente). O nordeste, que no passado colonial foi a região mais rica do país, entrou em franca decadência depois da abolição da escravatura, e por isso pouquíssimos foram os brancos europeus que vieram para cá.

Mário Theodoro, em seu artigo A formação do mercado de trabalho e a questão racial no Brasil, nos disse que:

O trabalho escravo, núcleo do sistema produtivo do Brasil Colônia, vai sendo gradativamente substituído pelo trabalho livre no decorrer dos anos 1800. Essa substituição, no entanto, dá-se de uma forma particularmente excludente. Mecanismos legais, como a Lei de Terras, de 1850, a Lei da Abolição, em 1888, e mesmo o processo de estímulo à imigração, forjaram um cenário no qual a mão-de-obra negra passa a uma condição de força de trabalho excedente, sobrevivendo, em sua maioria, dos pequenos serviços ou da agricultura de subsistência.

Nesse contexto, a consolidação da visão de cunho racista, de que progresso do país só se daria com o “branqueamento”, suscitou a adoção de medidas e ações governamentais que findaram por desenhar a exclusão, a desigualdade e a pobreza que se reproduzem no país até os dias atuais.[1]

Ou seja, a composição etnogeográfica do Brasil foi estrategicamente pensada.

Chegado até aqui, adentro essa discussão com a proposta de explorar o que há por trás do imaginário popular quando se trata do pertencimento étnico de algumas famílias brasileiras. De antemão, julguei necessário fazer esse apanhado histórico acerca da formação e composição étnica brasileira, a fim de que pudesse constatar as abordagens que virão a seguir.

* * *

Para tratar cautelosamente do assunto que pretendo abordar, faço uso da empiria inebriante que é viver em Salvador, cidade situada na região nordeste do país, majoritariamente negra, mas que carrega a esquizofrenia do ideal de brancura no imaginário de algumas pessoas que por aqui vivem. Tão logo me remeto a pensar que tipo de sociedade se faz representar pelas pessoas que habitam Salvador, senão a negação de sua identidade. Seria um retrato idealizado de brancura que hostiliza a possível ideia de se ver como negro (a)?

Como estudante de Pedagogia, tive a oportunidade de conhecer algumas instituições escolares. Vale salientar que todas são públicas e situadas em bairros periféricos de Salvador, cujo público frequentador é composto por crianças e jovens negros e negras em situação de vulnerabilidade social. Sei que é uma redundância dizer que negro é pobre, tendo em vista que pobreza no Brasil tem cor, como bem disse Luiza Bairro. O economista Marcelo Paixão, em palestra proferida no Instituto Cultural Steve Biko no dia 14 de junho de 2012, complementa muito bem essa informação ao dizer que, no Brasil, raça e classe são fatores altamente imbricados. A possibilidade de uma pessoa pobre ser preta é muito maior do que uma pessoa branca. Por sua vez, a possibilidade de uma pessoa rica ser branca é muito maior do que uma pessoa preta. Além disso, vale destacar que as pessoas mais ricas no Brasil são brancas e do sexo masculino. Em suma, raça, classe e gênero são critérios fortemente entrelaçados.

É por isso que o combate ao racismo também tem de ser feito contra o machismo, o preconceito de classe e a homofobia, pois o racismo não age sozinho. Todas essas ideologias unem forças para manter o macho branco e rico no controle de todas as engrenagens de comando no Brasil, como bem disse o presidente do STF, ministro Joaquim Barbosa.

Nas visitas às escolas, me deparei com situações que eu poderia dizer serem esquisitas. Confesso que busquei entender o contexto, a originalidade da ideia, o objetivo de quem pensou em desenvolver a obra, e de fato, entendi. Tanto que o resultado é esse texto.

Numa escola específica, tive o desagrado de ir ao momento de comemoração ao Dia das Mães. Não vejo muito sentido, a não ser o capitalista, para essa data, e o meu descontentamento começou por aí.

Ao chegar lá, estudantes reunidos por turma haviam produzido cartazes em homenagem às suas mães e fixado-os na área que correspondia à quadra esportiva. Lembro bem, era uma área grande em que muitas mães foram recebidas pelas professoras e direção da escola, afinal de contas, era um momento festivo. Estavam todas lisonjeadas com as produções dos seus filhos.Dia das Mães

O que me causou espanto foi o fato desta escola estar situada num bairro paupérrimo de Salvador, onde só havia crianças negras e as produções dos estudantes só continham fotos de famílias europeias. Isso mesmo! Europeias. O que vi estava muito longe de ser um espectro de família brasileira, muito menos soteropolitana. Fachada da Escola

Não estou aqui para definir qual a cor de cada um, mas creio que seja necessário criar um senso de identidade e pertencimento étnico nos estudantes desde cedo. Projetar no inconsciente infantil um ideal de brancura no qual ele não se enquadra sob nenhuma hipótese é demasiadamente violento. Pois meninas quando crianças sonham com a boneca Barbie, em ter seus cabelos loiros, esvoaçantes e a pele alva. Coisa que elas não terão nem sob pena de morte.

Não suponho que caiba a mim esse papel, que, do alto da minha prepotência, direi a partir de então quem é preto e quem é branco no país, ou melhor, estipularei o mesmo padrão de negritude adotado nos Estados Unidos, o da última gota de sangue. Não é isso! Só penso que os e as profissionais docentes devem ter o máximo de cuidado quando abordam padrões étnicos. Eu não posso, nem vou aqui tentar impor um novo conceito de identificação étnica para cada um, mas ainda acredito na necessidade de repensar com imensa destreza o modo como lidamos com a nossa prática docente, e como se dão os impactos de uma educação racialista no Brasil. Tentar desconstruir estereótipos  e ressignificar o sentido de identidade é um bom caminho a ser seguido, pois seguindo o modelo atual, estaremos mais do nunca fadadas ao fracasso escolar.

Pois no Brasil, ser negro é tornar-se negro. Perceber os aspectos imbricados nessa temática é dever das profissionais da educação. Uma escola que almeja executar uma prática cidadã deve incluir a questão racial tanto no currículo escolar, como na prática pedagógica. As bases legais por si só não garantirão o pleno desempenho e a execução das atividades que doravante irão tratar do respeito à diversidade. Sabemos que é necessário muito mais do que isso para que as ações se concretizem.

A escola precisa, de fato, rever os enunciados e o modo como o segmento negro vem sendo tratado e retratado nos cartazes, nas exposições, nos livros didáticos, nas celebrações e nos auditórios. Tudo isso representa desvelar o silenciamento pertinente sobre a questão racial na escola.

  • GOMES, Nilma Lino. Educação cidadã, etnia e raça: o trato pedagógico da diversidade. In: CAVALLEIRO, Eliane (org.) Racismo e anti-racismo na escola: repensando nossa escola. São Paulo:Selo Negro, 2001.
  • FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. 51ª ed. rev. São Paulo:Global, 2006.
  • SILVA, Ana Célia da. A discriminação do negro no livro didático. 2ª ed.. Salvador:EDUFBA, 2004.
  • SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro. Rio de Janeiro:Graal, 1983.
  • THEODORO, Mario. A formação do mercado de trabalho e a questão racial no Brasil. In: THEODORO, Mário. As políticas públicas e a desigualdade racial no Brasil 120 anos após a abolição. 2ª ed. Brasília:IPEA, 2008.

[1] THEODORO, Mario. A formação do mercado de trabalho e a questão racial no Brasil. In: THEODORO, Mário. As políticas públicas e a desigualdade racial no Brasil 120 anos após a abolição. 2ª ed. Brasília:IPEA, 2008. p 19.

 
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Publicado por em 15/02/2013 em Publicações

 
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Reminiscências do nosso passado escravista – Parte 4

CARNAVAL EM SALVADOR

 
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Publicado por em 14/02/2013 em Publicações

 

A carne mais barata do mercado é a carne negra?

Apesar de sermos tratados como invisíveis pela mídia, de não sermos tratados como pessoas pelos jornais e telenovelas, de sermos reiteradamente mostrados como bandidos, no caso dos homens, e como empregadas domésticas ou mulatas bundudas e gostosas, no caso das mulheres, tenho observado que há uma produção crescente de produtos e artigos de preto no mercado. Roupas, cosméticos, livros, músicas, filmes, dentre outras coisas, com a temática negra não param de surgir na mídia. Por que isso acontece? O que está por trás dessa onda? Nesse texto, tentarei humildemente fornecer algumas pistas para entender melhor a que se deve isso e, especialmente, quais são os interesses subjacentes ligados a essa nova “onda negra”.

Uma breve digressão ao nosso passado escravista: o tráfico de escravizados

Vocês já pensaram qual o valor do negro no mercado? Não?! Na época da escravidão, um negro tinha um valor altíssimo no mercado escravista. Sua força de trabalho era exorbitantemente capitalizada. Especialmente se esse escravo fosse homem, jovem, de boa saúde e com bastante força para o trabalho. Veja a imagem abaixo:

Jornal do Commercio

Posto fim ao regime escravista, após mais de 350 anos, o comércio de africanos escravizados no Brasil fora proibido em 1850 com a promulgação da Lei Eusébio de Queirós, e daí não podia mais comercializar pessoas.

Sabe-se que muitos mercadores de escravos fizeram fortunas com a troca e a venda destes durante muitos anos. Mas isso foi até o século XIX. Hoje no século XXI, não se ouve mais notícias de que alguém adquiriu um negro para trabalhar em sua fazenda, na plantação de açúcar. Ou que outrem contratou os serviços de uma mucama à sua casa grande.

Leilao de Escravos

As relações escravistas existentes em todo o período de comércio de escravizados, de fato, hoje não mais perduram com as mesmas características. Atualmente, não se pode mais comercializar pessoas, de acordo com o que assegura a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ela é enfática ao vetar o tráfico de escravizados, bem como a escravidão. Veto esse que é endossado pelo Código Penal brasileiro, no artigo 149.

Mas o fato de não mais haver autorização legal para comercializar diretamente negros não significou que não se podia mais usufruir do que o negro deixou como legado. Sua história, seus costumes, sua cultura, sua religiosidade, dentre outras, tornaram-se os novos alvos da cupidez capitalista, e continuam a render lucros vultosos para muita gente.

Os mercadores de escravizados dos séculos passados hoje não mais existem. O que temos atualmente são os usurpadores do legado cultural que os negros deixaram e muito das suas histórias. São alguns pesquisadores da cultura negra. Pessoas que versam muitíssimo bem sobre negro, negritude, escravidão, candomblé, cotas raciais, raça e racismo no Brasil. Ganham muito dinheiro com suas publicações e seus trabalhos, mas que só querem usufruir desse legado sem propiciar nenhum benefício ao grupo que se tornou objeto de estudo dessa galera.

É muito fácil dizer que estuda preto. Que tem títulos e mais títulos acadêmicos obtidos com estudos sobre preto. Que entende de cultura negra – mas não gosta de preto. Que diz que lugar de preto é no tronco. Que assina todo e qualquer manifesto contra o sistema de cotas no Brasil. E que pensa que esse bando de preto jamais deveria ter saído de suas senzalas.

* * *

O mercado de escravos no Brasil vigorou por longos séculos, mas precisamente do século XVI ao século XIX. As primeiras embarcações com negros trazidos d’África para serem escravizados chegaram ao final da década 1540. O comércio escravista foi o filão de mercado desse período por conta do processo “civilizatório” e colonizador em que se deu a construção da atual sociedade.

A exploração de mão de obra de negros escravizados não era algo novo. Os muçulmanos já faziam isso bem antes dos portugueses, e foi com aqueles que estes aprenderam a comprar e vender negros africanos. Já era empregada em outros países (inclusive em Portugal; não é por acaso que Luiz Felipe de Alencastro, no livro O Trato dos Viventes, chama a cidade de Lisboa do século XV de “capital negreira do ocidente”), e foi aplicada aqui por conta do cultivo da cana de açúcar, que, ao contrário do que pensam, não foi uma invenção brasileira, e sim a transposição de uma experiência desenvolvida com sucesso pelos portugueses em algumas regiões do continente africano. O que mostra que além da força de trabalho, o conhecimento acerca do processo de produção de açúcar também fora explorado pelos portugueses.  Daí fez-se necessária a aquisição de mão de obra que exercesse o cultivo e com isso deu-se início o mercado escravista no Brasil.

A exploração de negras e negros no Brasil com a escravidão não se constituiu de modo estanque aos interesses políticos, econômicos e sociais da época. Para além do que dizem sobre o processo escravista no Brasil, esteve em jogo uma rede de contatos e interesses que serviram de favorecimento exclusivo a um grupo que não só obtinha lucros financeiros com a venda de escravizados, mas angariava favores políticos e títulos de benemerência diante à sociedade. A exemplo destes, temos o Conde Joaquim Pereira Marinho, um dos maiores mercadores de escravizados na Bahia durante o século XIX, que fez fortuna com a venda de escravizados, foi fundador do Banco da Bahia e provedor da Santa Casa de Misericórdia e do atual Hospital Santa Isabel (há até uma estátua do Conde Joaquim Pereira Marinho na porta do hospital).Estátua do Conde Pereira Marinho

Quando Pereira Marinho morreu, em 1887, ele deixou em testamento uma quantidade de dinheiro tão fabulosa que serviu para manter a Santa Casa durante muito tempo e financiar o restante da construção do HSI. Francisco Félix de Sousa, o Chachá, também foi um dos maiores traficantes de escravizados no Brasil. Nascido em 1754, mudou-se para a África Ocidental ainda na juventude e se tornou um homem muito rico e poderoso por conta do comércio de negros escravizados. Morreu em 1849, e os seus descendentes ainda são ricos e poderosos até hoje no Togo.

Anos se passaram com a comercialização de negros e negras escravizadas, e a proibição definitiva do tráfico se deu em 1850.

O fato de a extinção do tráfico ter sido oficializada, e a marinha britânica ter colocado os seus cruzadores em posições estratégicas do oceano Atlântico para prender toda e qualquer embarcação suspeita de envolvimento no “infame comércio”, não significou que a venda e troca de escravizados também fosse eliminada. Muitos negros continuaram na condição de escravizados por longos anos. Consta na história do país que em 1888 todos eles foram declarados livres, com a assinatura da Lei Áurea.

* * *

A cultura negra como um bem comercial: quem fica com essa grana?

Passado esse apanhado histórico, adentro no que de fato quero expor com esse escrito. Tive de compor essa prévia sucinta sobre o histórico escravista no Brasil e citar alguns nomes importantes de mercadores de escravizados, a fim de que entendessem a que ponto pretendo chegar.

Como se sabe, não foi só a mão de obra de negros que fora explorada. Sua cultura, seus costumes e seu conhecimento também foram alvos da exploração portuguesa. Hoje, no século XXI, não há mais permissão legal para traficar e escravizar pessoas. Isso fora abolido há algum tempo. E como não se pode comercializar pessoas, o capitalismo lançou-se de outras estratégias para continuar ganhando dinheiro em cima da população negra: pegar o legado cultural e artístico desta, transformá-lo em um produto de mercado e vender a preços altíssimos. Mas, como assim? Tráfico cultural? Isso mesmo.

Dos séculos XV ao XIX havia os mercadores de escravizados, pessoas que lucravam com a venda de negros. Adiante esse período, temos os mercadores da cultura do negro. O que esses mercadores do século XIX queriam era apenas a exploração da força de trabalho. Não cabia oferecer-lhes qualquer benefício. A expropriação, o desrespeito e o desamparo sofrido por estes foram de um acinte assombroso.

O mesmo acontece hoje. E temos exemplos claros do que digo. Yvonne Maggie, Lilia Moritz Schwarcz (autora dos livros O Espetáculo das Raças, 1993 e História do Racismo no Brasil, 2012), Célia Maria Marinho de Azevedo, Isabel Lustosa, Peter Fry, Manolo Florentino (autor do livro Em Costas Negras), Caetano Veloso, o mesmo que cantou em verso e prosa a beleza das moças pretas do Curuzu, da Federação e da Boca do Rio na música Beleza Pura, mas votou contra o acesso dessa moça na universidade. Veja aqui. Temos ainda, Mário Maestri, um dos articulistas do livro Divisões Perigosas: políticas raciais no Brasil contemporâneo. Cujos organizadores da obra são nada mais, nada menos que Peter Fry, Yvonne Maggie, Simone Monteiro e Ricardo Ventura Santos. Coincidência ou similitude?

Marcos Chor Maio, organizou o livro Raça, Ciência e Sociedade e foi um dos signatários de Todos tem Direitos Iguais na República Democrática.

João Ubaldo Ribeiro, escritor brasileiro, autor do livro Viva o Povo Brasileiro assinou o Manifesto “Carta dos 113” contra as cotas em 2008. Isso sem contar o Ziraldo, o cartunista, autor da obra célebre O Menino Maluquinho, e de outras obras para o universo infantil. Também autor do livro o Menino Marrom, e muito simpático das ideias de Monteiro Lobato. E ainda afirmou que no Brasil vivemos um “racismo sem ódio” devido à inexistência de uma Ku Klux Klan.

Demétrio Magnoli, autor de Uma Gota de Sangue, fala sobre a história do pensamento racial no Brasil e é terminantemente contra o sistema de cotas nas universidades públicas, por achar que estamos criando uma espécie de “racismo às avessas”.

Ele afirmou também que “A escravidão não foi um fato racial. Foi um fato econômico, do capitalismo mercantil, e foi bastante democrática, no seguinte sentido, num sentido bem específico: se você tiver dinheiro, você pode comprar um escravo, mesmo se você foi escravo. Ex-escravos compraram escravos”. Confiram o que ele disse aqui

E não podia faltar, é claro, o mestre Brown. Ele mesmo. Carlinhos Brown, compositor e músico baiano que se traja de modo muito típico nas suas apresentações e que “brilhantemente” teve a ideia implantar no carnaval de Salvador um novo circuito carnavalesco, o Afródromo. Foi de autoria dele também a criação da “vuvuzela brasileira” para a Copa de 2014, a caxirola, uma adequação do caxixi, instrumento de origem africana utilizado em rituais religiosos. Ah, sem contar sua participação no batismo da cantora Cláudia Leitte. Sim, ele participou da celebração em que esta foi nomeada Negalora, no lançamento do seu álbum de mesmo nome. O que esse cara faz é um verdadeiro estupro cultural. Ultrapassa os limites da expropriação cultural.

Negalora

Tá bom pra vocês? Essa analogia dos mercadores de escravizados do século XIX com os expropriadores da cultura negra do século XXI, que se opõem a qualquer meio que garanta os benefícios à população negra têm mais em comum do que imaginamos. Ou melhor, eles só criaram outra forma de explorar a mesma mercadoria: no período colonial, a exploração era física; hoje, a exploração é simbólico-cultural.

 
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Publicado por em 19/01/2013 em Publicações

 

A Vênus Negra, a “mulata exportação” e o corpo da mulher negra na sociedade do espetáculo

Recebi de presente o filme “Vênus Negra” de um amigo, já no finalzinho do ano passado. À primeira vista não sabia nem do que se tratava a obra, e o título também não me sugeria nenhuma ideia. Resolvi assisti-lo, pois só assim teria minhas dúvidas sanadas. Confesso que logo nas primeiras cenas, não sabia o porquê de estar apreciando aquilo, e logo entenderão o motivo. Pensei em desligar o computador e fazer algo mais interessante, mas ainda assim hesitei e resolvi seguir assistindo-o. Julguei necessário para entender algumas coisas que, fora de contexto, parecem não fazer nenhum sentido.Saartje na jaula

Vênus Negra retrata a história da sul-africana Saartjie Baartman, ambientada na Europa do século XIX. Saartjie foi uma mulher negra que trabalhava como doméstica na fazenda de Hendrick Cezar, seu então dono.

Saartjie foi levada à Europa com a finalidade de se apresentar em espetáculos circenses como uma selvagem que fora capturada na Cidade do Cabo. E como selvagem a ser exibida na Europa cosmopolita da época, tudo tinha de parecer o que temos ainda hoje como “exótico”, “diferente”, “exacerbado”. Como detinha de formas corporais bastante robustas, e as nádegas muito proeminentes, o que era aspecto bastante explorado nas apresentações, e bastante reforçado, pois seu dono a obrigava a comer muito para engordar e compor o personagem que representava. Saartjie usava roupas coladas ao corpo a fim de que ficasse “exoticamente” delineado e atraísse o público. Nos espetáculos, ela ficava dentro de uma jaula, não falava o idioma do local, e era exibida como a “Vênus Hotentote” (ver significado de Hotentote aqui).

Além de ser exibida como a selvagem, tinha de se jogar em cima do público com atitudes violentas, com a pretensão de atacá-lo, afinal de contas, ela era uma africana no meio dos europeus em pleno século XIX. Nada mais justo do que ver uma selvagem, brutalizada e sem a menor noção de civilização. Até porque a ideia do africano selvagem era usada para justificar o avanço colonial europeu sobre o continente africano no século XIX. Os europeus eram os “superiores” que tinham a missão de levar as luzes da civilização que viviam nas trevas do paganismo e do obscurantismo. A invenção do selvagem

Tratada como escrava nas apresentações, Saartjie chamou não só a atenção do público que a apreciava, bem como da corte local, que a levou ao tribunal com o propósito de que esclarecesse a relação estabelecida entre esta e seu dono Hendrick Cezar, tendo em vista as acusações que este último sofrera por tratá-la como escrava.

Uma pessoa que fica presa a uma espécie de coleira, presa numa jaula, obedece tão e unicamente suas ordens, na visão mais grotesca que se possa ter não passa de um animal domado ou coisa do tipo. Era o que a relação escravista da época permitia associá-la.

O “causo” não foi adiante, pois, treinada e ameaçada pelo seu dono, ela desmentira qualquer relação escravista existente. Afirmou apenas que era uma artista e tinha ido à Inglaterra fazer espetáculos a convite de Hendrick. Caso passado e esquecido. Mas não para por aí, os eventos ganharam mais notoriedade. Outras relações de sociedade foram estabelecidas e Saartjie fora vendida a outro dono, domador de animais, que, de modo mais agressivo, a tratava como escrava, e via nela a oportunidade de enriquecimento fácil e a submetia não só aos espetáculos circenses e grotescos que fazia, ele organizava os “shows” fechados para alta sociedade em Paris, onde os convidados não só a tocavam, como a exploravam quase que sexualmente. Ou seja, em nenhum momento até aqui ela fora tratada como pessoa, que tivesse vontade própria e autonomia sobre seu corpo para decidir o que seria feito sobre ele. O francês levou Saartjie a Paris para exibi-la como selvagem na corte francesa, mas, como ela passou a não mais aceitar isso e não fazer o que se esperava que ela fizesse nas apresentações, ele a abandonou na rua e ela, sem ter para onde ir, resolveu prostituir-se para sobreviver.

Mais adiante, anatomistas se interessaram por Saartjie, pois estudavam “seres” com formas e aspectos fisionômicos diferenciados à época. Suas formas foram apreciadas e analisadas por médicos e cientistas franceses, liderados por Georges Cuvier. Torna-se então objeto de curiosidade. Vale lembrar que a medicina foi parceira do projeto colonialista europeu ao usar a legitimidade acadêmica para criar e divulgar a ideia de que as africanas traziam as marcas da “inferioridade” no corpo e especialmente nas suas feições fisionômicas.

Toda sua trajetória de vida fora de exploração e uso do seu corpo. Seja para espetáculo, se é que se pode chamar o que fazia de espetáculo, e os abusos sexuais que sofrera até o fim da vida, quando fora detectada com uma doença infecciosa que a levou à morte, e não se sabe o que de fato levou a óbito.  Seja de base de estudo na tentativa de comparar suas formas, a de uma mulher negra Hotentote, ao de um macaco, que veementemente o filme reproduziu.Saartje e os cientistas

E ainda depois de morta, foi de grande valia ao domador de animais, que a vendeu aos anatomistas da Escola Real de Medicina de Paris, que medicamente, mas eu diria, fria e brutalmente, desmantelaram-na, antes de fazer uma estátua do seu corpo, a fim de que fosse exibida e posteriormente estudada na própria instituição. Partes de seu corpo foram extraídas, analisadas e apreciadas por estudiosos do período. (O domador de animais vendeu o corpo de Saartjie aos anatomistas para não ter de arcar com as despesas do enterro dela. Como os médicos já estavam interessados em estudar o corpo da moça ainda quando ela estava viva, eles não perderam a chance de explorar o corpo dela depois de morta).

Depois de assistir a Vênus Negra, mergulhei num tremendo contrassenso, pois não consegui entender a relação do título com a película. Já que Vênus é a deusa do erotismo, da beleza e do amor e o filme não denotou nenhum desses aspectos. Em nenhum momento fora assemelhado à deusa da beleza com o desenrolar da obra, tendo em vista que a personagem não teve sua beleza exaltada. O que fora feito foi apenas a exotização do seu corpo, que deveria ser tocado para obter a confirmação de que tudo lhe parecia real diante de uma sociedade que desconhecia aquelas formas, por lhe parecerem extravagantes e impróprias ao corpo de uma mulher europeia, e por si só não cabia nos moldes da época.

Eu poderia dizer que uma dose de racismo, sexismo e machismo ilustrou a película, talvez sim, talvez não. Até porque sustentar esse discurso sem embasá-lo seria de todo desnecessário e não é a isso que me proponho, bem como não pretendo fazer uma resenha fílmica. Mas o que quero entender, muito mais do que esclarecer, é a relação da sociedade científica com Saartjie. Aqui, eu julgo necessário citar o racismo científico presente naquela época, ao afirmar que esta detinha de características semelhantes à de um primata. A obra firmou isso de modo bastante contundente, no momento da medição de seu corpo, e das comparações feitas à espécie animal em questão. E fatos como este não aconteceram por acaso. Não foi um mero recorte que o filme se propôs a fazer sem nenhuma pretensão. Raimundo Nina Rodrigues ao final do século XIX, influenciado pelos estudos de Cesare Lombroso e pelo médico francês, Arthur de Gobineau, que escreveu um livro intitulado Ensaio sobre a Desigualdade das Raças Humanas, também defendia os ideais de raça. Ele acreditava e defendia piamente que negros detinham formas cerebrais diferenciadas dos brancos, e que aqueles tinham extrema propensão ao crime.

Num momento mais recente, Antonio Natalino Dantas afirmou que “baiano só toca berimbau porque tem uma corda só, caso tivesse duas ou mais não o saberia tocar”. Há quem diga que ele falou de baiano, não de preto. Neste caso, eu respondo. Quem toca berimbau na Bahia é preto, tão logo, sua ofensa tem um direcionamento étnico, epistemologicamente falando.

Eu diria que diversas Saartjies estão presentes no nosso cotidiano, pois é possível notar que as passistas de escola de samba, por exemplo, e guardadas as devidas proporções, são apresentadas com a mesma finalidade que Saartjie era apresentada no século XIX: para divertir o público e levá-lo ao delírio ao apreciar o aspecto selvagem da mulher que assusta o público ao mesmo tempo que deixa todos os presentes extasiados e loucos de desejo. A ênfase à passista da escola de samba, aqui, não é por acaso, pois esse é o espectro de mulher brasileira vendida pelas agências de turismo e entretenimento de todo o mundo, inclusive brasileiras. A mulher fácil, boa de sexo, fervorosa na cama. A mulata do bundão, gostosona, que tem e faz algo a mais no sexo, é caliente, e está sempre disposta a realizar todos os seus impulsos mais animalescos e instintos mais sacanas.

E por que não falar da exotização da mulher negra? Na cena em que Saartjie se apresenta ao púbico parisiense, num momento em que tem de se fazer inofensiva e deixar o público tocá-la, as mulheres que a apreciam querem senti-la. Tocar sua pele, e sentir a textura do seu cabelo. É uma das cenas mais estarrecedoras, pois o que vi, é parte do que muitas mulheres negras passam ao tentar assumir sua identidade usando seu cabelo natural.  A textura e a forma do cabelo são aspectos que provocam espanto na aparência de outrem, tendo em vista que se torna bela, diferente e exótica.

Carnaval

Mais uma vez, não posso deixar de opinar sobre a rejeição a essas terminologias, pois sei o significado subentendido que representa quando se faz referência à mulher negra quando se afirma que ostenta uma “beleza exótica”.Identidade Preta

Cabe aqui também um adendo a respeito do turismo étnico. Sim. Vênus Negra abre espaço para que se aborde a respeito da novidade do momento, pois no decorrer do filme, ingleses e parisienses querem conhecer a besta fera que veio da África (e muitos europeus, justamente após terem vistos espetáculos como esses em seus países de origem, foram ao continente africano a fim de conhecer de onde vieram e como viviam esses seres “fantásticos”, “maravilhosos”, “pitorescos” e “assustadores”). Tudo que é exótico e diferente provoca sensações diversas. Todos querem contemplar.

Daí surgem as conotações para o turismo étnico no Brasil, ideia que vem sendo defendida com a finalidade de ser implementada, ou melhor, já foi implementada. As visitas aos safáris africanos, onde há desde animais selvagens até as tribos isoladas do mundo e que não tem nenhum contato com humanos civilizados, vem sendo praticado aqui no Brasil também. E a mídia tem dado um reforço esplêndido. As empresas de turismo, inclusive, já vendem até pacotes de viagem com hospedagem nas favelas para que os turistas possam conhecer e apreciar o dia a dia de selvagens brasileiros que habitam morros e favelas no país. Saber como eles vivem, comem, trabalham, se comportam. Tudo digno de muito espetáculo, é claro.

Diante de tudo isso, ainda dizem que os tempos são outros. Não vejo diferença alguma do que fora visto em Vênus Negra e do que vivemos nos tempos modernos. Assistam e tirem vossas conclusões.

 
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Publicado por em 11/01/2013 em Publicações

 

A esquizofrenia do “natal à brasileira”

Há algumas semanas, fui ao centro de Salvador resolver algumas coisas e, ao passar pelo shopping, vi que a decoração natalina já estava toda pronta. O shopping todo decorado, com aqueles enfeites característicos, uma árvore enorme, cheia de bolas gigantes e coloridas, com seu pisca-pisca reluzindo esperança, e no meio disso tudo não podia faltar, é claro, a casinha do Papai Noel.

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A casinha cheia de exuberância, toda confeitada; ao seu redor trenós, renas, neve – muita neve – e as ajudantes do Papai Noel. Aquele Papai Noel de barba branca, rechonchudo, usando óculos, com o sorriso bonachão, sentado na sua poltrona e coberto com aquela roupa vermelha que o superaquece e seu gorro.

Em meio ao cenário natalino construído naquele shopping, pessoas ao redor, muitas pessoas, e todas eufóricas a fim de apreciarem o que viam de estupendo e único. E no meio de tanta gente, crianças. Ah, essas não podiam faltar. Afinal de contas, sem elas não teria muita graça todo aquele cenário e o bom velhinho trajado de vermelho.

Na correria das atribuições que consumiam meu tempo até ali, parei para apreciar a cena. E entendi muito pouco do que vi, essa foi a primeira impressão, pois me dei ao trabalho de questionar o porquê daquela gente toda apreciando um cenário que não parecia particular à nossa cultura, aos aspectos climáticos da época e da cidade  (Salvador é uma cidade muito quente), mas continuei, e mais adiante percebi que, de fato, havia entendido tudo o que tinha visto e notei uma esquizofrenia muito peculiar do brasileiro: o de apreciar aspectos importados e que não cabe, por si só, na nossa cultura.thumbs

Percebamos que o Brasil é um país situado nos trópicos, tão logo, não há neve, a não ser nos estados do sul, o que não quer dizer que por lá cai neve o ano inteiro. Sendo assim, é chuva e sol, e em algumas regiões eu diria até que é sol e sol, com algumas pancadas de chuvas, como bem diz a garota do tempo. E daí surge a particular estranheza de adotar aspectos que não se adequam à nossa cultura, como é o fato de alguns estabelecimentos comerciais utilizarem a típica decoração natalina estadunidense.

Para. Para tudo. A colonização mental em que vivemos é tanta que não nos causa mais estranheza, ou sequer um mero espanto, ver uma multidão apreciando algo que não lhe é peculiar nem de perto. Muitos que se deparam com o artefato construído, a fim de dirimir nossa mínima sensatez e camuflar o estado de miséria em que vivemos, só veem a neve, o Papai Noel e a rena, nos filmes, e, diga-se de passagem, nos filmes da década de 1990 exibidos todos os anos pela Rede Globo. Não nos parece estranho cultuar um evento festivo, como é o natal, todo caricato à moda norte-americana?

Ver crianças crescendo e acreditando na boa e velha piada de pôr o sapatinho na janela para que o bom velhinho venha presenteá-las não seria de todo absurdo, se isso estivesse apenas no campo do imaginário infantil. Infelizmente não é assim.

Empresas investem pesado para que isso continue se perpetuando na nossa cultura. Uma cultura eivada de resquícios colonialistas que nos fazem acreditar a todo instante que o que vem de fora é sempre melhor (o famoso “complexo de vira-lata”, como disse Nelson Rodrigues), e assim seguimos alimentando essa grande indústria cultural que desova todo o lixo estrangeiro para o Brasil.394988_476218152431186_1794252801_n

Ah, mas há quem diga que não tenho espírito natalino. Que isso, Paula, é natal, época de festas, de reconciliação, de paz, de perdoarmos uns aos outros. Você também, hein, não desconecta! De fato, não desconecto meu faro para essas questões em particular. E por que deveria mesmo, hein? Para ser mais uma vítima do golpe de mercado, que nos faz adotar ideologias e conceitos infundados, a fim de sustentar uma lógica inescrupulosa? Não, não dá pra mim. É demais para meu estômago.

 
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Publicado por em 02/12/2012 em Publicações

 

Reminiscências do nosso passado escravista – Parte 1

 
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Publicado por em 20/09/2012 em Publicações

 

Reminiscências do nosso passado escravista – Parte 2

 
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Publicado por em 20/09/2012 em Publicações

 

Reminiscências do nosso passado escravista – Parte 3

 
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Publicado por em 20/09/2012 em Publicações

 

A representação da criança negra nos livros de literatura infantil: como se dá e quais são os pressupostos

O livro de Júlio Emílio Braz, Felicidade não tem cor, retrata a história de um garoto negro chamado Fael, que, por se sentir incomodado com os apelidos que recebia devido à cor da sua pele, resolveu procurar Cid Bandalheira, locutor da rádio Roda-Viva FM, em busca do endereço do pop star Michael Jackson, com vistas a descobrir o segredo para se tornar branco. Um traço marcante do enredo do livro é que quase todos os personagens, em particular, as crianças da história, têm apelidos por conta de uma característica física ou comportamental que traz. Como se não bastasse, Fael, o personagem central da história, é, desde o início, chamado somente por apelidos. O nome dele mesmo só é revelado na página 13.

Confesso que nada há de engraçado na história de uma criança negra que, por conta de sua cor, é chamado sempre por vários nomes que só servem para desqualificá-lo. É muito comum que no período da infância, e entre amigos de escola, algumas crianças tenham o hábito de criar apelidos para designar alguns indivíduos do seu círculo. Todavia, essa prática, no imaginário de uma criança pode lhe trazer vários traumas e estigmas que certamente irá interferir em alguns aspectos da sua vida, ainda que na posteridade. Isso me faz lembrar o que Consuelo Dores Silva nos diz acerca do significado do nome para uma criança negra no seu processo de socialização extra-familiar, quando ela afirma o seguinte:

No processo de socialização fora da família, o primeiro elemento de sua identidade, que o negro perde, é o nome.  O sentido de inferioridade, a baixa estima, a falta de conhecimento das lutas, das conquistas e da resistência cotidiana de seu povo passam a contribuir com a construção de uma identidade negativa e a deixá-lo no lugar que os herdeiros da mentalidade escravocrata desejam que ele continue na escala da pirâmide social.[1]

Na história, há também a presença da boneca negra, igualmente rejeitada pelas crianças da escola na caixa de brinquedos, que atua como narradora, a Maria Mariô. Que se faz solidária a Fael, pelo fato de também ser negra e rejeitada.

No meio de suas aventuras, há Romãozinho, o garoto que importuna Fael, dando-lhe apelidos como “carvão”, “zoião”, “negão”, “Pelé”, “picolé de asfalto”, “macaco”, “anu” e tantos outros. Dentre todos esses, o que mais incomoda Fael é o de “carvão” ser chamado por essa palavra o deixa furioso. E quanto mais ele se irrita com os apelidos que lhe são dados, mais zombam dele. E Romãozinho não larga do seu pé.

Mas tudo começa quando a Dona Evangelina, professora, resolve pedir uma redação aos seus estudantes, com o título “O que eu quero ser quando crescer”. Fael, já incomodado por ser tão pretinho e motivo de chacota na escola, resolve dizer na sua redação que quer ser branco. Para constrangimento da Dona Evangelina, que não entendeu por que o garoto havia dito que queria ser branco. Afinal de contas, até a professora o chamava de “escurinho”. (Isso só mostra o quanto o racismo é insidioso, pois a pessoa que mais deveria combater esses apelidos ofensivos à cor da pele do menino termina, na verdade, usando a sua posição de autoridade para incitar os colegas de turma a humilhá-lo sistematicamente). Ela acabou ficando sem saber o que dizer. Nesse contexto, a personagem que representa a professora ignora as implicações existentes no processo educativo e de socialização de uma criança, a ponto, de ela também criar uma identidade negativa para o garoto. Esse comportamento só denota o despreparo de boa parte das educadoras com a pedagogia antirracista, pois lidar com questões de heterogeneidade, seja ela racial ou de classe é algo que precisa ser estimulado já na formação, com o fito de chamar a atenção delas para a problemática racial brasileira e principalmente com as manifestações do racismo presentes na nossa linguagem cotidiana. E a psicologia social nos diz que a autoestima de um indivíduo depende também de suas origens sociais. Tão logo, advém daí a importância de valorizar essas origens na construção da identidade pessoal de uma criança.

Após o acontecido, Fael, que era importunado pelos colegas, passou a não ter mais paz. Desse dia em diante, até a boneca Maria Mariô se compadece do escárnio que é feito com o garoto e resolve ouvir toda a sua lamentação por conta dos abusos.

Além da boneca Maria Mariô, sua eterna e fiel ouvinte, Fael tem como companheiro o garoto “Cera”, de nome Geraldo, mas que leva essa alcunha por dizerem que ele não toma banho e seu ouvido vive cheio de cera. Juntos, eles são rejeitados por toda a escola.

Na tentativa de compartilhar algumas angústias, Fael apresenta a boneca ao seu companheiro, mas este a rejeita por entender que brincar de boneca é coisa de menina. E ele é um menino, ora bolas! Cera, de nome Geraldo, que é comumente reconhecido pelo apelido, é mais uma criança que cresce envolvido no conceito infundado de “coisa de menina” e “coisa de menino”. É revoltante ver presente no livro didático aspectos que reforçam o sexismo e a heteronormatividade como padrão na sociedade, tendo em vista que corpos masculinos e corpos femininos, coisa de menina e coisa de menino, não passam de construções sócio-históricas, e a família, bem como a escola, como instituições sociais, atuam nesse processo educativo, que de certa forma perpetua os padrões heteronormativos existentes.

Nesse âmbito abre-se uma seara para discutir questões sobre diversidade sexual e gênero nos espaços formais de ensino. Que tipo de cidadão pensa-se em formar quando o embutimos o conceito de que usar rosa é de menina e usar azul é de menino? O contrário não se insere no campo da permissividade? Se não, abrimos aí uma demanda de seres que na tenra infância cresce aos ensinamentos de que boneca é para meninas, e carros é para meninos, e desenvolve conceitos firmados de que sua heteronormatividade é algo a ser seguido e firmado a todo o instante, incitando assim comportamentos sexistas, que posteriormente gerarão implicações diversas acerca da formação identitária de cada um.

Nesse aspecto, não paro de questionar que tipo de ensinamento essa literatura nos traz. E Moscovici (1978) nos diz que “A representação social funciona deste modo como uma preparação para a ação, não sendo somente na medida em que guia o comportamento, mas na medida em que remodela e reconstitui os elementos do meio em que o comportamento teve lugar”.

Fael gostava de falar muito da família, e esta é pequena, composta por sua mãe, Dona Juliana, e seu pai, Seu Gilberto, muito conhecido como “Gil da Banana”. É que ele tem uma barraca de frutas na feira, e é a maior barraca que lá existe. Mas por lá Fael também tinha apelido. Como seu pai era chamado de “Gil da Banana” por conta de sua grande barraca de frutas, seu filho era então chamado de “Bananinha”, para desgosto de Fael. Isso o deixava enfurecido. Ou seja, ninguém se referia a ele pelo nome de batismo, e sim por apelidos. Vilma Reis tem uma fala extremamente pertinente nesse aspecto, pois ela nos diz que o racismo se encarregará de nos nomear inferiorizando-nos como pessoas que somos, caso não reconheçamos a importância de dizer nosso nome e sobrenome onde estivermos. Temos de nos apresentar como nome e sobrenome, senão o racismo se encarregará de atribuir.

Seu Gil da Banana era muito famoso entre todos. Isso porque ele era diretor de bateria da escola de samba do bairro. Ele era sambista dos bons e isso o deixava muito alegre. Noto mais uma vez aqui a imagem do negro como sambista, bom de bola, cheio de molejo. Qualidades estas inerentes ao homem negro. Universo que perfaz a associação da imagem do negro contemplada apenas nessas esferas. Não tenho nada contra os sambistas e jogadores de futebol, antes que alguém pergunte. Só estou questionando essa definição de lugar. O que de fato me causa indignação é o modo como ele está representado. Um homem negro, bonachão, de bom coração, vendedor de frutas e sambista. É a velha dinâmica da escala social em que o negro só serve para trocar as pernas numa gingada de capoeira, ou tocar os tambores de um lundu.

Ele e Dona Juliana eram pais maravilhosos para Fael, que sentia imenso orgulho dos dois. Mas o que a boneca Maria Mariô não conseguia entender era como pessoas tão animadas e bem dispostas, como elas tinham um filho tão cabisbaixo e triste que vivia pelos cantos. Maria Mariô não conseguia entender o porquê daquilo, e isso lhe causava aflição, já que ela era amiga e ouvinte do garoto.

Fael não costumava comunicar a Dona Juliana sobre as reuniões de sua escola, e pouco falava sobre o que lá acontecia. Mas sua mãe, muito observadora que era, resolveu conversar com o filho, e numa manhã Fael resolveu perguntar à sua mãe por que eles eram daquela cor, tão pretinhos. Dona Juliana ficou sem saber o que dizer diante da pergunta, mas queria entender o motivo da pergunta de seu filho, e ele apenas dizia que ninguém gostava de gente assim tão pretinha. Fael ainda insiste e questiona a mãe se ela gostava de ser preta… e fica sem resposta, para sua decepção. E mais uma vez Maria Mariô cede seus ouvidos às reclamações do garoto diante das respostas que nunca lhe eram dadas.

Maria Mariô ouvia pacientemente todas as aflições de Fael e tentava explicar algumas coisas pra ele, afinal de contas, ela bem sabia o que ele passava. Ela era uma boneca negra rejeitada no meio das bonecas brancas da caixa de brinquedos. E isso me faz lembrar o teste do racismo feito com crianças negras, em que ao serem postas de frente com bonecas negras e bonecas brancas, e questionadas sobre qual elas achavam má, as crianças apontavam às bonecas negras. E quando se questionava sobre qual boneca elas gostavam, elas afirmavam que gostavam da branca. Ao final do teste foram questionadas com qual boneca elas se pareciam, e elas apontavam na direção da boneca negra. É terrível pensar que o racismo manifesta seus efeitos também na infância, quando uma criança negra se reconhece como má por ser negra.

Então, ela sabia do aperto que o garoto passava, mas quem disse que ele ouvia? Ela era só uma boneca. Fael não a ouvia, mas com ela desabafava todas as suas angústias. E numa dessas conversas, Maria Mariô tenta explicar ao garoto que ele devia esquecer essa história de ir atrás do Michael Jackson em busca da tal fórmula que o fizesse ficar branco de uma vez, pois se já enchiam a paciência dele chamando-o de “carvão”, se ele fosse branco o Romãozinho não perderia a oportunidade de chamá-lo de “branco azedo”, “leitinho”, “branquelo”, e por aí vai. E se ao invés de branco, a fórmula desse errado e ele ficasse amarelo, que nem os “japa”. Ah, aí sim ele não gostaria nem um pouco porque vários nomes lhe seriam atribuídos, e um deles deveria de ser muito “engraçado”, “Fujiro Nakombi” ou “Tesujo Akueka”. Já imaginaram se Romãozinho resolve agora enchê-lo com esses nomes de “japa” por conta da sua cor amarelada?

E se ele ao invés de amarelo ficasse agora meio vermelhinho? O Romãozinho o chamaria de “Índio”, “Bugre”, “Aritana” ou até mesmo “Raoni”. Pode? Romãozinho não o deixaria em paz. E se diante de tudo Fael ficasse com jeitão de nordestino? Romãozinho poderia chamá-lo de “Paraíba”, pois assim ele já era chamado e ele não gostava.

Mas Maria Mariô não deixava de cogitar as nuances de Fael caso ele não ficasse branco com a tal fórmula de Michael Jackson.

E se agora ele ficasse azul da cor do céu? Ou laranja? Ou melhor, rosa? Aliás, melhor não. Rosa é “cor de menina”, talvez Fael não gostasse. Hummmm… Maria Mariô tenta achar uma solução e pensa. E se Fael fosse um camaleão que pudesse mudar de cor conforme o lugar em que estivesse? Mas no fim ela pensou que bom mesmo seria que ele fosse de todas as cores e assim esqueceria essa ânsia de ser de uma cor só, branco, já que ela não via o que havia de errado em ser da cor que ele era.

Diante das nuances e estereótipos descritos pela narradora, e então boneca Maria Mariô, nota-se mais uma série de preconceitos instituídos aos grupos sociais representados por orientais e seus descendentes, quando ela sugere a cor amarela ao seu amigo e ouvinte Fael, e ao mesmo tempo lhe atribui uma série de novos vulgos, de cunho discriminatório e segregacionista. Para além do amarelo, tem-se o índio, que aqui é personificado como “bugre”, o que também não seria uma solução viável para o garoto, sendo que aí está embutida a ideia do índio como ser desprovido de qualquer conhecimento do mundo civilizado. Há também a rejeição por conta da regionalidade, em que a boneca ainda o compara com seu importuno colega Romãozinho, que é chamado de “Paraíba” por ser de origem nordestina, diz-se ser de “cabeça chata”, uma característica peculiar atribuída às pessoas desse grupo.

Ao fim, ela infere que Fael tem de ser mesmo é de todas as cores. Vejo aqui o mito da democracia racial existente nesse país, em que diz que somos uma mistura de raças a constituir um só povo, ou melhor, somos todos mestiços.  Seria desse modo um reforço das ideias presentes no negacionismo racial em que vivemos? É por não termos um regime de apartheid presente no país, que demarca lugar de preto e lugar de branco, bairro de preto e bairro de branco, escola de preto e escola de branco, não temos um racismo cruel que nos discrimina a todo o instante em que vivemos? Sendo assim, desconsidera-se qualquer hipótese viável neste campo de discussão. Afinal de contas, é muito mais fácil negar o racismo em que vivemos do que escancará-lo. Ao tempo em que existiu nos EUA e África do Sul, regimes separatistas raciais, Toni Morrison (2004) nos mostra o seguinte: “Não, não, eles dizem. Você não pode entrar aqui. Afastem-se da porta. Esta escola é somente para crianças brancas”. (tradução minha). Ou ainda Morrison nos mostra o que temos na imagem abaixo[2].

De volta à escola, Fael participa de um jogo com seus amigos, e ele manda bem no jogo. Mas para seu azar Romãozinho nesse dia resolve encher seu saco soltando mais ofensas do que comumente, e o ápice do ataque foi quando Fael perde um gol e Romãozinho grita: “Tá com o pé torto, negro burro?”

Dessa vez Fael se enfurece e parte pra cima de Romãozinho. E os dois danam-se a brigar, a ponto de todos se reunirem em volta e ficarem gritando até chamar a atenção do diretor, que veio aos dois e deu uma bela suspensão. Creio que dessa Fael não escapa.

Mais tarde em casa, depois do acontecido na escola, ele leva uma bronca de seu pai. Seu Gilberto fala, e fala demais. E Fael mais ainda fica chateado por saber que ele não havia provocado aquilo, mas seu pai fala tanto que parece até sermão e lhe diz: “Em preto todo mundo presta atenção. Quando você faz alguma coisa correta, não fez mais do que a sua obrigação. Quando erra, mesmo que erre pouco, todo mundo diz que nós somos assim mesmo, que não merecemos confiança e que não temos educação”.

Ivete Sacramento (ex-reitora da UNEB) recebeu uma carta anônima enviada um dia depois da aprovação do sistema de cotas na universidade, em que a pessoa que escreveu diz, dentre outras coisas, que espera que os 40% de negros que entrarem na UNEB através das cotas tenham um mau desempenho para mostrar que preto é burro mesmo. Vejam trechos da carta aqui. 

Essa fala nada mais é do que o retrato mais nítido do ditado racista que diz que “preto quando não caga na entrada, caga na saída”. O que seria a representação da fala de Seu Gilberto ao passar essa bronca em Fael? Ou não é notável na construção discursiva do personagem a ideia que reforça que independente do que faça o negro jamais terá razão, e tudo que fará não será mais que um dever a ser cumprido? Fael não concorda e tenta se defender, seu Gilberto não deixa, mas ele insiste e diz: “Se ele fosse branco não teria que ouvir nada daquilo, e que ninguém cobra nada de menino branco”. Aqui, vale recordar o que disse Winnie Mandela (1988): “Na mais tenra idade, tive consciência de que os brancos se julgavam superiores a nós. E podia ver quão inferior meu pai parecia em comparação com os professores brancos. Isso fere nosso orgulho, quando se é criança”.

Depois da bronca, Fael está decidido e diz ao pai que irá atrás da fórmula mágica que fez Michael Jackson ficar branco. Ele irá de qualquer jeito atrás disso. O pai se espanta ao ouvi-lo e diz que é bobagem.

No mesmo dia à noite, Fael resolve voltar à escola, pegar sua parceira e ir atrás de Cid Bandalheira em busca do endereço do astro. Ambos atravessam a cidade à procura da rádio Roda-Viva FM. Fael quer porque quer falar com Cid e pegar o tal endereço. Ele não vê a hora.

Ao chegar à rádio, ele faz mil peripécias para conseguir falar com o Cid. Afinal de contas, todos querem falar com o radialista. Depois de muito pelejar, ele finalmente consegue.

Ao se deparar com o Bandalheira, Fael se assusta ao ver um homem que adora música e dançar preso a uma cadeira de rodas. No intervalo entre uma música e outra, Cid questiona o que de fato ele foi fazer por lá. Ele, meio que sem jeito, pede o endereço e diz o motivo. Cid Bandalheira, com um sorriso largo, pergunta qual era a razão que ele tem para querer ficar branco que nem o Michael Jackson. E Fael diz que se ele for branco ninguém mais o chamará de “carvão”, mas Cid ainda o questiona se ele fosse branco se gostaria de ser chamado de “branco azedo”. E Fael se espanta dizendo que não.

Exibida numa visão simplista, a fala do personagem de Cid Bandalheira remonta mais uma ideia sobre o “racismo às avessas”. Será mesmo que o efeito causado numa criança negra ao ser chamada de “carvão”, “negão”, “picolé de asfalto”, é o mesmo efeito numa criança branca ao ser chamada de “leitinho”? Cabe aqui uma imensa ressalva a ser feita, pois o significado que há por trás das palavras que ofendem uma criança negra é muito mais contundente, tendo em vista seu precedente histórico. E este é muito mais aflitivo, porque os apelidos colocados nas crianças negras trazem a marca da inferioridade e remetem a contextos que só lhes reservam a qualidade de incapaz, em que está subjulgado. Enquanto que a branquitude é sempre associada à ideia de bondade, inteligência, honestidade e bom caráter.

Isso só vem a reforçar o ideal de brancura ao que lhe é atribuída e os privilégios que a sua cor lhe traz. Pois ser branco no Brasil, é a garantia de um caráter patrimonial que a cor oferece, já dizia Muniz Sodré.

Na sua cadeira de rodas, Cid explica que quando era criança também tinha um monte de apelidos, mas que ele dava um jeito fazendo o que os outros faziam com ele. Colocava apelidos também, e depois de um tempo as outras pessoas acabavam esquecendo e ele seguia sua vida. Mas Fael olha para ele sem continuar entendendo o que deveria fazer para se livrar daqueles apelidos, e Cid resolve explicar o que é preconceito. Cid diz que preconceito são algumas bobagens que pensamos e dizemos aos outros. “Era como se fosse assim, quando acreditamos que somos o que as pessoas dizem da gente ou pra gente. É aquela coisa que eu penso e você acaba acreditando que é verdade”. E Fael questiona se Cid não queria ficar branco. Ao que ele responde que se isso não o deixaria mais bonitão, nem faria com que ele tocasse guitarra como Jimi Hendrix, ele não queria ficar branco.

Desconsidero aqui o significado de preconceito, pois, segundo o dicionário Houaiss, preconceito é o julgamento ou opinião concebida previamente; opinião formada sem fundamento justo ou conhecimento suficiente. No contexto em que a história discorre, adaptar o conceito de preconceito ao universo infantil se faz necessário, por conta das adequações de fala que o autor que se dedica a esse público deve fazer. O que não é o caso no presente discurso, tendo em vista todo o recorte que os personagens tiveram. Falar que preconceito “são algumas bobagens que pensamos e dizemos aos outros” é desprezar os efeitos degenerativos que este causam. Sendo assim, vejo de modo proposital a explicação que é posta e está longe de ser inócua, inclusive pelo seu caráter mais uma vez simplório que lhe é dado.

Fael após ouvi-lo resolve seguir seu conselho e esquecer a ideia de ir atrás de Michael Jackson. Os dois, como se parecessem bons e velhos amigos, agitam a rádio; Fael pede para tocar suas músicas favoritas e Cid avisa aos seus pais onde ele se encontra para que se tranquilize, já que era tarde e não sabiam onde Fael havia ido.

No dia seguinte, na escola, todos querem falar com Fael e saber como ele havia se tornado amigo do famoso Cid Bandalheira. Todos vêm até Fael e tenta conversar e saber mais sobre o acontecido, e ele todo contente explica. Após a noite na rádio, todos se aproximam do garoto amigo de Cid, e, enquanto ele brinca com as crianças da escola, ninguém mais o importuna com os apelidos chatos que lhe tiravam a paciência. Sua aparição no programa fez ficar notado na escola e fazer novos amigos. Nota-se aí a presença de uma mensagem subjacente e falaciosa de que as pessoas negras sofrem preconceito por conta da exclusão e da invisibilidade social a que são postas. Pois quando uma pessoa de pele preta fica rica e famosa, ela automaticamente se torna imune aos efeitos do racismo.

Ao final do enredo, o autor nos traz como desfecho que toda aflição vivida pelo protagonista finda com sua aparição na rádio local, em que ele é anunciado e acaba se tornando amigo do radialista famoso, e conhecido por todos, ganhando fama e notoriedade. Como se a solução dada para o desaparecimento dos preconceitos contra ele fossem maquiadas nas relações que agora constituiria. Seus amigos esqueceriam que ele era negro pelo simples fato de ele ter aparecido na rádio. Ou melhor, sua nova condição de estrela pelos seus quinze minutos de fama havia apagado todo o seu martírio em torno do preconceito racial em que vivia. Será mesmo? Será que isso ficará claro no consciente de nossas crianças quando resolvermos trabalhar esse material em sala de aula, depois na enxurrada de preconceitos que se viu até aqui? Ou será responsabilidade docente executar a tarefa de desfazer do imaginário infantil todo esse circo de horrores que está posto nos livros de literatura e didáticos? Os e as profissionais da educação são tão poderosos assim a ponto de fazer com que uma criança passe a não mais acreditar naquilo que vê e é reforçado diuturnamente? Pois o currículo escolar é o da reprodução da cultura dominante e do controle social dos dominados, e ainda segundo Ana Célia da Silva, nele consiste:

Tal qual o esquema histórico racial elaborado por Fanon1, a partir da visão do outro, do branco, tecido com detalhes, anedotas, contos, no Brasil, a imagem que o branco faz do negro é construída com detalhes, anedotas, contos, provérbios, noticiários de jornais, artigos de revistas, programas e anúncios de TV. Essa representação tem como um dos seus principais veículos de disseminação o currículo escolar brasileiro.[3]

Não creio que doravante seja somente de responsabilidade docente desfazer tudo que vem sendo veiculado nos livros. A escola não está fora da sociedade, e as pessoas que trabalham nela nasceram e foram criadas no mesmo mundo que as demais pessoas, e por isso receberam o mesmo condicionamento cultural que todas as outras pessoas também receberam. Pois construir uma ideia ou uma identidade é tarefa menos árdua que desfazer toda uma construção feita em torno de algo. Afinal de contas, tivemos mais de trezentos anos de negação de nossa cultura e identidade, e por isso não precisamos prosseguir nessa linha. Pois o massacre feito à população negra até os dias de hoje é oriundo dos anos de extermínio físico e cultural que a sociedade brasileira ainda insiste em negar. A nossa história é, até hoje, marcada pela resistência a todas essas formas de extermínio a que estamos submetidas.

Se inventariarmos todos os ataques à cultura, identidade, modo de vida, aspectos da religiosidade, contribuição da culinária, notaremos que ainda temos um saldo devedor que não nos foi pago. Os nossos ainda são mortos e atacados nas favelas, nas avenidas e praças deste país. Digo isso sem medo de fugir às estatísticas, pois ao constatar o que está nas geladeiras dos IMLs veremos que não há nada de exagero na minha fala. O que mostro é a maneira nada sutil de ataque à população negra, e esta se faz também na tenra idade.

Ainda acham que felicidade não tem cor? Pois saibam que felicidade não só tem cor, como endereço e status social. Estipular que uma criança negra que passa toda a sua infância sendo discriminada por conta da sua cor, e com isso todas as oportunidades lhe são negadas, por ela pertencer a um grupo social que representa a minoria nesse país, terá a mesma sorte que uma criança branca que, ainda que pertencente à mesma classe social da negra, trará consigo os atributos que a branquitude lhe ofertará, e isso irão amenizar os percalços a seguir, é mais que do que precisamos discutir. Os lugares sociais de brancos e negros podem até ser os mesmos, mas a branquitude oferece uma vantagem social ao branco que nem ele mesmo faz ideia. Afinal, quantas vezes vocês já ouviram um branco pobre olhar para a cara de um preto pobre e dizer “pelo menos eu não sou preto”?

  • BRAZ, Júlio Emílio. Felicidade não tem cor. Coleção Girassol. 2ª ed. São Paulo. Ed. Moderna, 2002.
  • HOUAISS, Antonio. VILLAR, Mauro de Salles. Minidicionário Houaiss da língua portuguesa. 3ª edição revista e aumentada. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008. p. 597.
  • LIONÇO, Tatiana. DINIZ, Débora (organizadoras). Homofobia e educação: um desafio ao silêncio. Brasília: Letras Livres: EdUnB, 2009.
  • MORRISON, Toni. Remember: the journey to school integration. New York: Houghton Mifflin Company, 2004. p. 32.
  • MOSCOVICI, Serge. A representação social da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar. 1978 Apud SILVA, Ana Célia da.  A representação social do negro no livro didático. Salvador: EDUFBA, 2011. p. 27.
  • SILVA, Ana Célia da. A discriminação do negro no livro didático. 2ª ed. Salvador: EDUFBA, 2004. p. 41
  • SILVA, Consuelo Dores. Negro, qual o seu nome? 2ª Edição – Belo Horizonte: Mazza Edições, 1995.  p. 14.
  • SODRÉ, Muniz. Entrevista no Programa Roda Viva, em 25/06/2012. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=LPxH2Z2Dzi0. Acessado em 27/08/2012)
  • VAIL, John J. Winnie e Nelson Mandela. Coleção Os grandes líderes. São Paulo: Ed. Nova Cultural, 1988. p. 19.

[1] SILVA, Consuelo Dores. Negro, qual o seu nome? 2ª Edição – Belo Horizonte: Mazza Edições, 1995.  p. 14.

[2] MORRISON, Toni. Remember: the journey to school integration. New York: Houghton Mifflin Company, 2004. p. 40

[3] SILVA, Ana Célia da. A discriminação do negro no livro didático. 2ª ed. Salvador: EDUFBA, 2004. p. 41

 
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Publicado por em 28/08/2012 em Publicações

 

O que as músicas Geni e o Zepelim, de Chico Buarque, Na Geral, da banda No Styllo, e a sessão de estupro na Paraíba têm em comum?

Como sempre, esse mundo virtual me fascina. Antes, o que só era acessível na academia, nas rodas de conversa e nos cafés científicos, pode com relativa facilidade ser encontrado nas redes sociais. E que ferramenta incrível é o Facebook! Nela, fico sabendo de eventos acadêmicos, eventos culturais; recebo livros, músicas e tudo mais que essa rede possa oferecer.

E foi navegando mais uma vez nesse mundo virtual que soube do lançamento de um livro intitulado Pagodes Baianos: entrelaçando sons, corpos e letras, de Clebemilton Gonçalves do Nascimento, e tive a ideia de escrever esse texto. O livro me fez lembrar de um dos primeiros textos que fiz para o Escrevivência, e retomo essa ideia porque além de sentir mais uma vez a necessidade de falar sobre a violência contra a mulher, creio que seja de total pertinência compartilhar algumas ideias, e, quem sabe, esclarecer algumas dúvidas entre a relação estabelecida entre gênero, sexualidade e poder presente nas estruturas sociais existentes.

E é falando de violência contra a mulher que retomo a discussão acerca das músicas do pagode baiano, pois é do conhecimento de todas nós, mulheres, que ainda temos uma dívida irrestrita de servidão e obediência aos padrões morais de nossa época, ao regime patriarcal de Estado. Ainda que em tempos atuais essa ideia possa parecer contraditória, mas se constata numa triste realidade.

E é nesse contexto que muitas mulheres têm sofrido consequências drásticas por conta de um discurso machista alimentado pelos poderes e representações do Estado (não só por parte do Estado, mas da sociedade civil como um todo; afinal, a burocracia estatal não consegue controlar tudo – por mais que os prepostos do Estado queiram isso). E esse discurso é veementemente legitimado pelo Estado, e sustentado pela mídia, que não só fomenta as ações vistas como “normais” por parte desse grupo de cantores de pagode, como reafirma a cada instante o que essas músicas trazem em suas letras inserindo novos conceitos na sociedade, que por sua vez, não questiona os aspectos imbricados nesse cenário, e assumem daí novas posturas e constroem valores que deixam de ser questionados, por doravante pertencerem ao campo da normalidade.

Quando falo de conceitos, vos trago o termo recente criado no cenário musical baiano, que atingiu dimensão nacional graças às novelas da Rede Globo, e vem sendo adotado por indivíduos que ultrapassam a linha de limite do bom senso, e utilizam do entretenimento sensacionalista midiático para reforçar o ataque violento às mulheres. E este novo conceito é o da piriguete: mulher dona da própria vida e da própria sexualidade, que não se detém às imposições patriarcais sobre o que fazer com o seu corpo, e se arvora de autonomia sobre seu vestuário e estilo de vida. E Clebemilton do Nascimento (autor do livro citado no início do texto) nos diz em seu artigo intitulado; Piriguete: a construção discursiva da mulher nos Pagodes baianos, que “Nas letras de pagode, o corpo se apresenta como uma arena de disputa e de relações de poder e veicula um discurso masculino que quer ter um poder de controle sobre a sexualidade da mulher”.

E é divagando nesse campo que discuto sobre a representação que o corpo traz na sociedade, e as conotações de hibridismo cultural em que está inserido. Porque se atentarmos para os conteúdos, as ideias fomentadas e os tipos de comportamentos que as músicas promovem, serão notados os efeitos que elas geram diante a incitação em que é feita. E com isto as provocações que se abrem para que sujeitos se ponham diante de um corpo, que ele entende como seu num jogo de conquista de poder e dominação que irá exercê-lo.

Sendo assim, não se faz mais notório os atos de violência contra a mulher, bem como os desmembramentos que isso gera por conta dessas músicas. Pelo menos é isso que os cantores dessas bandas colocam nas cabeças das pessoas que ouvem as músicas que eles cantam, pois estes trazem consigo um público cativo, que além de consumirem essas músicas, alimentam as ideias que elas trazem. E não só isso: adequam-nas ao seu cotidiano. Pois quando uma música nos diz que “mulher é igual a lata: um chuta e outro cata”, e vimos isso repetido no comportamento dos homens, já não mais pertence ao campo da normalidade, creio eu.

E essa síndrome violenta que deixa de ser subjetiva e tem se materializado fora do campo da abstração, pois os índices de atentado violento às mulheres estão aí para nos fazer inferir sobre os desajustes que vêm ocorrendo, não é coisa dos dias atuais tão e unicamente promovida pelos cantores de pagode baiano. Claro que essa temática tem ganhado mais notoriedade em dias atuais, mas outros músicos brasileiros também trouxeram em suas composições/interpretações atitudes de incentivo à violência contra a mulher. E me desculpem as fãs e amantes de Chico Buarque, mas na música Geni e o Zepelim, Chico fez a mesma incitação que as músicas do pagode baiano fazem, quando disse que “Joga pedra na Geni/Joga pedra na Geni/Ela é feita pra apanhar/Ela é boa de cuspir/Ela dá pra qualquer um/Maldita Geni!”. Creio que pensem que isso não passa de um blefe, e como sou muito cuidadosa com o que escrevo e publicizo é que vos trago aqui a letra da música, a fim de que possam constatar o que acabei de dizer.

Doravante, é válido pensar de que modo esse tipo de comportamento vem ganhando espaço que não os shows e eventos públicos em que encontramos essas tais músicas, mas como isso tem moldado o comportamento das pessoas. De que forma essas letras são personificadas nas atitudes de homens que arrogam (reivindicam para si) o direito sobre o corpo e a sexualidade da mulher. Por mais que isso pareça assustador, é a mais pura e dura realidade.

Aproveito a ocasião para contar um caso verídico que me foi relatado por um conhecido que serve muito bem para mostrar a que ponto chega a naturalização da violência sexual contra a mulher, e também denunciar como os homens são criados desde cedo para tratar as mulheres como bens pessoais dos quais eles podem dispor como bem entender. Disse esse conhecido que, em uma aula, estava discutindo sobre a qualidade do sistema de transporte coletivo de Salvador, especialmente sobre como as pessoas são obrigadas a pagar caro para viajar em ônibus lotados, desconfortáveis, sujos além de ter de passar horas esperando no ponto e enfrentar os famigerados engarrafamentos. Ao que uma estudante disse que, no caso das mulheres, a situação é pior porque, como se isso tudo não bastasse, ainda têm de enfrentar as “roçadas” dos homens. Após a menina ter falado isso, um estudante sentado ao lado dela pediu a palavra e disse o seguinte: “o que é que tem, professor? Besteira! Uma roçadinha de vez em quando é até bom”. O meu conhecido ficou escandalizado com o que ouviu e perguntou ao estudante dele se ele não tinha consciência do que havia acabado de falar. Ao que ele completou: “Bobagem. Eu só não admito que ninguém faça isso com a minha mãe, pois se eu ver algum gaiato procurando ousadia com ela, eu dou um murro. Mas com a mulher dos outros…” Ou seja, ele só não admite que ninguém faça isso com a mãe (ou a namorada) dele. Já com a minha mãe ou comigo, os homens podem fazer o que quiserem. Pimenta no rabo da mãe – ou da namorada – dos outros é refresco.

O que faz um jovem pensar em agir assim diante às mulheres que não pertençam ao seu círculo familiar? Só porque é a mãe dele merece mais respeito que as outras? Ou melhor, só a mãe dele merece o devido respeito? As demais que se danem?

Cenas como essas são presenciadas cotidianamente por muitas mulheres que lutam para não perpetuar esse cenário de horrores em que vivem e sofrem atentados violentos por conta disso. E são homens com esse tipo conceito formado, que promovem ações mais danosas que as “roçadas” nos coletivos.

Pois o ataque deixa de ser verbal e passa a ser físico. Os ataques violentos saem das ofensas ditas nas letras das músicas e ganham espaço nas casas, nos bares, nas ruas e avenidas que essas mulheres frequentam, e, por não serem consideradas donas de si, são agredidas física e sexualmente. Ou melhor, essas músicas são nada mais do que a naturalização de práticas violentas contra a mulher já existentes em nossa sociedade, e que esta encara, também por conta dessas músicas, encara com naturalidade.

No início desse ano, mas precisamente em fevereiro, foi amplamente noticiado um caso estarrecedor ocorrido na cidade de Queimadas, na Paraíba: um estupro coletivo organizado como festa de aniversário. Um caso que chocou o país por conta dos requintes de crueldade utilizados em seu exercício. Dez homens envolvidos, sendo dois irmãos. O fato consistiu no seguinte: um dos envolvidos, ex-cunhado de uma das vítimas estuprada e posteriormente assassinada, faria aniversário e pediu de presente ao seu irmão uma sessão de estupro com algumas garotas do bairro. Nesse aniversário em que as meninas estariam presentes, haveria uma simulação de assalto promovida pelos próprios envolvidos, a fim de assustar as garotas, e, com as mulheres assustadas, eles partiriam para o ataque. Nesse atentado, seis mulheres foram vitimadas. Ou seja, o caso é tratado com total escárnio a ponto de homens fazerem do atentado sexual às mulheres algo que está para além do objeto de desejo que elas representavam. Eles detinham o direito de usá-las da forma como quisessem e bem entendesse, e depois dispensá-las do modo que os conviesse, matando-as. E tudo isso foi feito como uma festa!

Conseguem perceber até aqui o grau de seriedade e complexidade de tudo o que falei até então? As relações de poder postas nas músicas sejam do pagode baiano, como a exemplo de Na Geral, da banda No Styllo, ou de célebres da música popular brasileira como Chico Buarque, atingem dimensões que são propositalmente criadas para que sejam executadas. As relações sociais, de gênero, e, sobretudo de poder que estão entrelaçadas nestas constituem os fatos que presenciamos nos noticiários, e nos casos que nos parecem alheios, mas que são mais pessoais do que nós mesmas possamos determinar. Digo isso, porque quando um homem, “faceiramente” chama uma mulher de piriguete, ele previamente sabe a que tipo de mulher ele está se referindo. Esse novo conceito referencia um conjunto de valores que são atribuídos e personificados na figura de uma mulher que merece ser desvalorizada por ser uma piriguete, e sendo assim, deve ser desrespeitada, linchada física e verbalmente.

As músicas são veiculadas numa proporção extraordinária, e à mesma proporção mulheres têm sido vitimadas por atores – porque encenam em si a necessidade de dominar uma mulher – que creem piamente na vertente que essas músicas trazem. Enquanto isso acontecimentos como o da Paraíba se reverberam causando pouco estranhamento público, por ser considerado simplesmente como mais um atentado homicida, mas um caso de violência a ser registrado e ponto. Sem mais, seguimos em frente num país que alimenta uma estrutura perversa de desrespeito à mulher, e tem sido formalizado desde a letra de uma música ao ato violento em si.

 
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Publicado por em 24/08/2012 em Publicações

 

Por que eu acredito na educação

Pessoas, quero conversar mais uma vez com vocês, queridas (os) apreciadoras (es) dos meus escritos. Confesso que fiz os meus últimos escritos num momento de fúria, de raiva extrema, em que algo ou alguém feriu meus brios, e a única forma que encontrei de desabafar foi escrevendo aqui tudo que acreditava ser coerente ao que defendo, ao que vivo, estudo e a quem represento nessa minha luta diária pela sobrevivência. Sim, porque viver é para poucos e sobreviver é a nossa missão diante da miséria na qual nos encontramos. Infelizmente. Porque um dia alguém me disse que o sol é pra todos, mas a sombra, essa sim, é pra os mais espertos. Achei um pouco injusto quando ouvi, mas diante das dimensões do mundo capitalista do qual fazemos parte, vejo que isso deixa de ser uma ideia para se constatar num fato. Enfim, mas é sobre outra coisa que quero falar.

Como sabem, sou estudante de Pedagogia, e há tempo sinto a necessidade de falar sobre educação sob a minha ótica pedagógica. Falo de tanta coisa aqui nesse meu diário de bordo – racismo, machismo, televisão, misoginia, prostituição, consumismo, preservação dos animais, globalização, sistema de cotas – e constatei que ainda não havia falado sobre educação tão objetivamente quanto necessário como farei nesse post.

A princípio, vou relatar uma situação que aconteceu comigo durante uma atividade de estágio numa escola pública da Rede Municipal de Ensino de Salvador.

Ano passado, fui visitar a escola na qual faria minha observação/intervenção pedagógica e enquanto esperava na diretoria por alguém responsável pela Unidade Escolar que me atendesse, no caso a diretora, eu presenciei uma situação cotidiana ao ambiente e que despertou extrema estranheza à postura docente que vi naquele espaço. Antes de tudo, não quero aqui apontar posturas certas e erradas exercidas pelas professoras e doravante sugerir um novo modelo a ser seguido. Só tive a necessidade de relatar o que vi, pois como estou em processo de formação, achei importante, a fim de que percebamos todos os dias como nossa postura pode interferir na vida de um estudante, e a depender de como agimos, isso pode trazer malefício e/ou benefícios à sua vida escolar. A nossa postura em sala de aula não é e nem deverá ser isenta, pois não é possível educar ninguém sem assumir uma determinada postura política, como bem disse Moacir Gadotti neste trecho:

Educados que fomos numa pedagogia na qual nos era proibido relacionar o ato pedagógico ao ato político, estamos poucos acostumados à esse tipo de análise. Preferimos ignorá-la. Se educar é conscientizar, a educação é um ato essencialmente político. Portanto ninguém educa ninguém sem uma proposta política, seja qual for (grifos do autor).[1]

Essas observações não estão alheias à minha formação acadêmica. Digo isso por conta do compromisso social que pretendo ter com a educação, do papel que pretendo representar diante do trabalho que viso exercer. Há quem ache que tudo isso não passe de um monte de baboseira influenciada por alguma corrente pedagógica que defendo (houve até quem me dissesse que eu esquecerei tudo isso quando estiver atuando profissionalmente, pois todas essas coisas não passam de “panfletagem universitária”). Vos digo que depois que vocês lerem o livro Quando Eu Voltar a Ser Criança, de Janusz Korczak, dentre outros que têm contribuído para a visão que tenho sobre o ato de educar, vocês entenderão o que falo.

Prossigamos, pois constatarei o que quero, de fato, esclarecer nas linhas adiante.

Voltemos à visita à escola. Quando cheguei lá, pude presenciar uma situação em que um estudante se encontrava transtornado, com um comportamento tido como “agressivo”, pois ele já tinha gritado e agredido fisicamente a professora e os colegas da turma, xingado os funcionários da escola, inclusive a vice-diretora. E ele estava mesmo destinado a não conversar com ninguém diante do que havia ocorrido, visto que ele estava na direção da escola para receber uma punição diante do comportamento que tivera momentos antes. Afinal de contas, levar punição pra casa é saber que será punido duas vezes.

Enquanto esse caos havia se instaurado, o vigilante, a funcionária da limpeza, o auxiliar de secretaria e demais resolveram  condenar o garoto. Cada um dava um parecer diferente e hostil, é claro, do “dito-cujo”. Fique estupefata com o que estava acontecendo diante de mim e indignada com a postura do tal menino. Não conseguia conectar uma coisa a outra. Mas fiquei curiosa para saber o que acontecia e quais motivos o levaram a estar tão arredio com todos à sua volta.

Resolvi bancar a bisbilhoteira. Já tinha até esquecido o que teria ido fazer na bendita escola. Fui falar com ele e saber por que se comportava daquele jeito. Não deu outra. Fui completamente ignorada, enquanto era advertida pelos funcionários da escola que o deixasse de lado, porque ele era “mal-educado” assim mesmo. Ataquei de pentelha. Queria saber ao menos o seu nome, sua idade, sua série e o que tinha acontecido. Muita pergunta pra quem não queria falar, estava sendo condenado, e ainda chorava de ódio. Enfim, insisti. O chamei para irmos à secretaria da escola beber uma água, tentar se acalmar e sentar um pouco para aguardar a diretora da escola, a mãe dele que em casa já havia sido acionada para comparecer à escola. E o garoto (M.S.D., 9 anos) me ouviu. Resolveu me acompanhar, ainda com muita resistência, com a cara fechada e resmungando às minhas perguntas.

M.S.D. sentou-se na cadeira próximo da mesa onde eu também aguardava e começamos a conversar. Em prantos, ele me dizia que estava na sala fazendo atividade e numa brincadeira o colega começou a brigar com ele, o que acabou numa confusão na sala de aula, em que a professora o expulsou da sala e mandou que chamassem sua mãe para conversarem. Eu, ouvindo seu relato, tentei saber por que ele estava daquele jeito, tinha xingado às pessoas e estava com a cara tão fechada, visto que era um garoto tão bonito. Nesse meio tempo, percebi que ele estava com a mochila e uns papéis na mão, e vi que eram alguns desenhos. Perguntei se era ele que os haviam feito. M.S.D. disse que sim e então, pedi para vê-los. Ele me mostrou e vi que eram desenhos ótimos e de personagens de animações japonesas que os garotos adoram. Questionei se era ele quem havia feito aquele. Ele disse que sim, com a ajuda do seu irmão, e que ele tinha aprendido a desenhar com seu irmão. Aí foi que resolvi, de fato, testá-lo. Pedi para que fizesse um desenho meu, ali, naquela hora. M.S.D., não garantia, mas topava fazer, até porque ele nunca havia desenhado ninguém, só personagens de desenhos animados, mas tentaria.

Pediu para que eu ficasse numa posição em que ele pudesse pegar os meus detalhes, e não se mexesse. Foi o que fiz. Senti-me uma Monalisa posando para Da Vinci. Ninguém nunca tinha feito um desenho meu! Aqui estão os desenhos que ele fez e me deu de presente.

Depois de tanta conversa, chega a mãe de M.S.D. para saber o que havia acontecido com seu filho de novo, já que aquela não era a primeira vez que ela recebia queixas do garoto. Enquanto isso, alguém mandou chamar a professora para que esclarecesse o que havia se passado e viesse conversar com a mãe de seu estudante.

Alguns trechos da conversa da professora com a mãe de M.S.D. que registrei enquanto aguardava alguém me atender nesse meio tempo:

- “Eu estou aqui para ensinar a leitura, a escrita, a ele “ser alguém na vida” e não ficar tomando empurrão de aluno. Eu não vou deixar um menino desse tamanho vim pra cá me bater.

- Chame J. (estudante) para falar aqui sobre o que aconteceu em sala.

M.S.D. se dirige à professora e esta o corrige:

- Você não, senhora!

- Ele não respeita ninguém. É uma valentia, minha senhora. Inclusive porque se ele continuar nessa valentia toda, não sei não. Isso é pra segurança dele.

- Eu não tô ganhando pra apanhar de aluno. Tô ensinando você a ser alguém no futuro.”

A mãe questiona sobre o que aconteceu em sala que provocou esse tipo de comportamento por parte do seu filho.

- “Ele está proibido de merendar por uma semana. Ordem da vice-direção devido à guerra de comida que outros estudantes e ele fazem em sala. Ele xinga auxiliar, diz que agredirá professora, vice-diretora, diretora.

- Por causa da valentia, tem muito valente embaixo do chão.

- Posso falar? (M.S.D. pede)

- E no dia que você me chamou de desgraça?”

(A professora diz que estava trabalhando um texto na sala e que os alunos começaram a bagunçar falando coisas como “pica, miséria” e ela resolveu parar para explicar o significado de cada uma dessas palavras).

Diante do exposto, fiquei sem palavras. Não sabia direito o que se passava diante de tudo o que havia visto. Eu fiquei estupefata, indignada, boquiaberta, até meio abobalhada com o relato da professora em relação ao garoto que há pouco instante estava conversando comigo e tinha até feito um desenho meu demonstrando seu talento e seu lado artístico para um garoto que “não fazia e nem queria nada com a hora do Brasil”. Achei estranho aquilo. Será que era loucura demais ou ele era bipolar? Uma hora se comportava de um jeito agressivo e em segundos estava amável que nem parecia. Não sei.

Depois, todos retomaram sua rotina, a professora voltou para sala, M.S.D. foi liberado para casa juntamente com sua mãe e eu fiquei tentando entender por que a professora havia falado tanta coisa dele que eu até então tentava conectar com os poucos instantes em que conversamos.

Fui o que resolvi fazer. Será que ele é um garoto tão “problemático” assim que não tenha mais jeito? Ele de verdade é um caso perdido, metido a valente e que não quer saber de estudar, e só quer arrumar confusão? Um estudante “que não quer nada”? E seu lado artístico já fora explorado em sala com atividades criativas? Depois de virem o desenho que ele fez de mim, será mesmo que ele não tem nenhuma habilidade a ser explorada em atividades em sala, no mar dessas habilidades e competências a serem alcançadas pelos estudantes no novo modelo educacional? M.S.D. tem uma noção ótima de perspectiva. Além de me desenhar, ele se desenhou me desenhando. Parece redundância? Voltem à imagem e tirem as suas conclusões.

Esse mar de questionamentos me assolou durante uma semana após a visita a essa escola.

Situações como essa, infelizmente, presenciamos corriqueiramente. Isso porque pretensamente queremos ter em sala garotos e garotas perfeitas, comportadinhas (os) e que obedeçam nossas ordens sempre. Sabe aquele lance “tudo o que meu mestre mandar”? É disso que falo. Situações como essas me fazem lembrar o vídeo Another Brick in the Wall, da banda Pink Floyd. Dêem uma olhada nele e saberão do que estou falando.

Será que essa professora algum dia parou para rever sua postura docente e averiguar por que todos os dias aquele menino “arrumava” confusão em sala “sem motivos”? Não estou aqui dizendo que temos a função missionária de salvar a vida dos alunos. Não é isso. Até porque acredito que só posso fazer um bom trabalho se o estudante quiser e se propor a aceitar as interferências que farei com meu trabalho no seu cotidiano. Caso contrário, nada feito.

Mas ela não podia tentar fazer o mínimo de esforço e querer mudar o cenário de uma educação precária, numa escola que não é atraente aos estudantes e não oferece o mínimo de condições para que se almejem condições melhores de vida? Digo isso porque sou oriunda de escola pública e presencio diariamente o cotidiano desta, e sei que, para o estudante, é muito mais atraente ir a uma lan-house ejogar Counter Strike a tarde toda do que ficar na escola ouvindo aquela professora chata falar por quatro horas ou mais e não ter sequer um espaço para o intervalo, uma vez que a escola não tem espaço adequado (a maioria delas, especialmente as da rede municipal, funciona em espaços alugados, mal-adaptados e/ou improvisados), quem dirá área recreativa. Não há biblioteca, brinquedoteca, sala de vídeo. Não há merenda de qualidade (às vezes, nem sem qualidade), porque é isso que garante a presença de muitos estudantes. Quando chove a sala de aula fica alagada. Não há água, sabão e papel higiênico para que se possa usar dignamente um sanitário, sem contar os outros problemas que estão presentes neste espaço que, por ser público, é tratado como se não fosse de ninguém. Então pra que valorizar, pra que cuidar? Não é meu mesmo!

Será que se ela tivesse um M.S.D. numa dessas escolas convencionais da rede privada, e de preferência confessional, essa professora teria a mesma postura?

Não quero colocar ninguém na berlinda. Só quero que constatem a relação posta entre o público e o privado e o trabalho de alguns professores na esfera pública, que é o espaço que vivencio. De nada adiantaria tratar esse caso como individual, como um problema exclusivo dessa professora, pois não é. Postura desse tipo é comum entre as profissionais da rede. Achar que exonerá-la resolveria o problema seria uma tolice da minha parte. Infelizmente, ela não é a única a manter esse comportamento.

*          *          *

Agora, quero falar de outra vertente presente no espaço público e do trabalho desenvolvido por alguns professores neste mesmo espaço. Pra vocês não acharem que só aponto críticas negativas deste espaço que tanto prezo.

No meu último post, falei sobre o sistema de cotas no Brasil e o significado de seu efeito na vida escolar de uma pessoa que é oriunda de uma classe social que é esmagada “tratoralmente”. E este me rendeu comentários. Um deles, inclusive, do professor Fábio Valente de Moraes, que leciona no Colégio Sara Kertész, localizado no Alto de Santa Terezinha, subúrbio ferroviário de Salvador, pertencente à Rede Pública Estadual de Ensino.

A fim de situar o contexto do que venho falando, vou explicar. Num post anterior recebi comentários de estudantes do professor Fábio, que utilizou meus escritos como material de aula. Fiquei extremamente lisonjeada com os comentários e mais ainda por saber da proposta da atividade, que era fazer uma resenha crítica do texto Meu cabelo, o racismo e o mito da caverna. Jamais pensei que meus escritos pudessem tomar a dimensão que tomaram: de ser utilizado como material de aula na rede regular de ensino, muito menos de que as minhas palavras exercessem um aspecto positivo na vida das pessoas que o leram. Recebi comentários no post, nas redes sociais e sites de relacionamentos dos quais participo.

O que quero abordar com isso é o fato do professor Fábio Valente desenvolver um trabalho bacana na escola em que leciona e acreditar na educação pública como algo que possa transformar a vida das pessoas que lá se encontram. Isso porque muitos dos estudantes dele, assim como todos os estudantes da rede pública, são vistos como reles mortais a serem execrados da sociedade rapidamente sem ter a menor chance de cogitarem qualquer outra possibilidade de mudança nas suas vidas ou almejarem coisa melhor (isso quando eles são vistos, pois, na maior parte do tempo, eles e elas são tratadas como pessoas invisíveis).

Essas pessoas estão fadadas a viverem subalternizadas pelo resto da vida, a ocuparem postos de trabalhos de subserviência que serão herdados dos seus predecessores. É este o horizonte que lhes são apresentados todos os dias quando alguém vos diz que não podem chegar lá, que não têm futuro, e que aquele “bondoso” professor está lá para ensiná-los a ser “alguém na vida”. Como se o fato de terem nascido já não os tornassem alguém com a mínima dignidade para viver.

Será mesmo que nessas escolas não há pessoas que sonham em mudar de vida, ter uma vida melhor, ter condições mínimas de alcançarem o que tanto desejam, ou até mesmo, sonharem com um pouco de dignidade que lhe restam?

Será que essas escolas nada mais são do que depósitos de gente desinteressada, e que por não terem mais nada o que fazer da vida, visto que não tem sequer acesso ao lazer, vão pra escola pra passarem o tempo porque cansaram de ficar em casa vendo novela?

É nessa merda que querem nos fazer acreditar todos os dias, quando nos dizem que esses estudantes de hoje não querem nada, esse povo não quer saber de estudar, só quer saber de vadiagem. Nos fazem constatar isso quando o noticiário nos aponta dados e estatísticas de que colégios estão jogados ao abandono por falta de estudantes. Quando dizem que o Colégio Central da Bahia está quase fechando por falta de público, sendo que em tempos passados este já foi referência no estado. Já abrigou nomes importantes, inclusive, do cenário político baiano. É isso que tentam nos impor. É essa a ideia que tentam nos incutir acerca da escola pública e dos estudantes que lá se encontram.

Será que alguém já se deu ao trabalho de questionar por que as escolas públicas estão sucateadas? Por que os professores são os profissionais de nível universitário que recebem os menores salários no Brasil? Por que as escolas públicas estão esvaziadas e os presídios estão superlotados? Do sucateamento presente neste espaço e do descaso de entidades do governo quanto à manutenção e preservação desse espaço, tendo em vista o trabalho que professores como Fábio Valente desenvolve? Não, né? Claro! E por que cargas d’água alguém se daria trabalho de valorizar um espaço que por uma questão ínfima de tempo não existirá mais?

É esse o questionamento que me assola todos os dias, ao afirmar veementemente que acredito na educação pública de qualidade e nos reparos que esta deve ter, bem como da valorização que o corpo docente precisa ter, para que possam ter condições mínimas e necessárias de desenvolverem um bom trabalho. Porque se o professor Fábio Valente de Moraes, do Colégio Sara Kertész, situada no subúrbio ferroviário de Salvador, desenvolve esse trabalho com seus estudantes das séries que vão do 6º ano de escolarização a EJA (Educação de Jovens e Adultos), imagine o que aconteceria se lhe fossem dadas condições necessárias para a realização de um bom trabalho.

É também por isso que continuo a defender essa educação. Porque sei que professores como este, com seu trabalho de conscientização política, que reconhece a função social do seu trabalho levará muitos jovens do Rio Sena e do Alto da Terezinha às universidades públicas, que são seu lugar de direito. Espero em vida ver muitos desses jovens nos PAF (Pavilhões de Aulas da Federação) da UFBA (Universidade Federal da Bahia), sim.

Vejam um pouco mais do trabalho do professor Fábio no vídeo abaixo, produzido por ele mesmo.

Agora, imaginem o esforço dobrado que professores dos quilombos educacionais (Instituto Cultural Steve Biko, COE-Quilombo, Bahia Street, Quilombo Ilha, Quilombo do Orobu, Bakhita) fazem para garantir esse acesso à educação, e tentar reparar os efeitos da péssima educação que seus estudantes têm acesso. Porque vocês hão de convir que fazer em oito meses o que deveria ter sido feito em onze anos é uma tarefa árdua e penosa. Mas, se o pessoal, trabalhando em regime de voluntariado, em espaços cedidos ou alugados, enfrentando todas as dificuldades possíveis e existentes (sendo a maior delas a descrença dos próprios estudantes nos seus potenciais), consegue fazer com que essa galera ingresse em Direito, Engenharia, Medicina, com alguns deles indo até estudar fora do Brasil, tentem imaginar o que aconteceria se essa equipe pudesse fazer esse trabalho dentro das escolas públicas baianas.

É por isso que educação não é, nunca foi, e dificilmente será prioridade nesse país.

P.S.: minha sogra voltou a estudar em 2009 na EJA (com todo o descaso que lhe é dispensado pelo corpo docente e pela direção da escola), depois de estar afastada por trinta e quatro anos da escola por ter sido obrigada a trabalhar para sustentar os filhos.  Em 2011, fez cursinho pré-vestibular no Instituto Cultural Steve Biko. Prestou vestibular para UFBA e obteve aprovação para o curso de Ciências Sociais.


[1] GADOTTI, Moacir. Educação e Poder – Introdução à Pedagogia do Conflito. 11ª edição – São Paulo: Cortez, 1998, p. 78.

 
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Publicado por em 23/05/2012 em Publicações

 

Carta aberta à minha amiga Allana Paim

 “…reservar cotas para negros no meu entendimento é uma forma de racismo”

É assim que começarei a falar sobre o sistema de cotas no Brasil. Primeiro quero explicar por que inicio o texto com essa frase. Participo de uma rede social, e nela publico toda sorte de coisas que acredito, defendo ou até mesmo repudio, enfim. E numa dessas postagens, uma amiga fez o seguinte comentário: 

Cara amiga Allana, quero dizer que sou a favor, sim, de uma escola pública de qualidade e que possa contemplar a todos. Afinal de contas, você, minha amiga, bem sabe que sou pedagoga, e mais do que ninguém anseio por uma escola pública de qualidade. Primeiro, por conta da minha formação: não tenho pretensões de me integrar à rede privada de ensino, até então, e não espero ser cooptada por esta, porque também acredito nos direitos que não são individuais e privilégios de uma minoria, mas coletivos e que toda e qualquer pessoa deve ter acesso. Sou oriunda de escola pública. Estudei até a antiga quinta série na rede privada, depois ingressei na rede pública. Estudei numa das melhores escolas públicas do estado – Colégio da Polícia Militar; lá, fiz o ensino fundamental e médio. Tive educação militar, porque se as escolas militares, juntamente com as federais e as de ensino técnico, são as melhores escolas da rede pública de ensino no país hoje, imagine na década de noventa. Só para você ter uma ideia, eu tive de me submeter a uma seleção pública para ser admitida no CPM (o que significa dizer que esta escola não queria, como ainda não quer, qualquer pessoa lá dentro). Ou seja, não estudei numa escola pública qualquer. Hoje, sou estudante da melhor universidade do estado em que moro – UFBA – que é uma universidade pública federal. Achas mesmo que não desejo uma escola pública de qualidade?

Agora, vou falar por que eu defendo o sistema de cotas no Brasil, especialmente por que sua constitucionalidade não se dá no campo do segregacionismo. Não sei, minha querida amiga, se você, moradora do bairro de Valéria, um bairro paupérrimo em Salvador (assim como Cajazeiras, bairro onde eu moro), foi contemplada com uma boa escola que oferecesse ensino de qualidade e oportunidade de ter ingresso nas melhores universidades do seu estado. Se não me falha a memória, você estuda na Faculdade Jorge Amado, uma faculdade particular, que foi feita para produzir mão de obra barata e de má qualidade para esse mercado de trabalho voraz que temos. Ou seja, você é mais uma a compor o exército industrial de reserva do sistema capitalista (como bem disse Karl Marx em O Capital), que tem por função fornecer mão de obra farta e barata e baixar os salários.

E onde entra o sistema de cotas até aqui?

Acredito que você, que estudou o ensino secundário em escola pública, teve aulas de história, como eu tive. E nas aulinhas de história, suponho que você não tenha aprendido nada sobre o sistema escravista e seus resquícios para a sociedade atual. Eu também não aprendi tudo que sei na escola. Mas tive de me esforçar para tentar entender o que acontecia no meu entorno. Sim. E sabe por quê? É simples. Minhas avós eram lavadeiras e marisqueiras lá em Mar Grande, distrito do município de Vera Cruz. Elas não tiveram chance de entrar numa escola, porque tiveram de trabalhar desde cedo para ajudar no sustento da família (entrar numa faculdade era algo com que elas nunca tiveram sequer a oportunidade de sonhar). Já meus avôs também não tiveram chance de estudar. E sabe por quê? Porque tinham de sair de madrugada pra pescar e, quando retornavam, tinham de encher os tonéis de água para os veranistas da ilha. Eles eram o que se chamava no período escravista de aguadeiro (função que meu pai posteriormente também exerceu). E assim foi com meu pai e minha mãe, que só tiveram a oportunidade de estudar até à antiga quarta série primária. Eles só precisavam mesmo aprender a escrever o nome. Meu pai teve a sorte de entrar no serviço público porque foi ‘catado’ na feira. Ãhn, como assim? Isso mesmo, na década de 1960 (mais precisamente, após o golpe civil-militar de 1964) havia um coronel da PM que estava à procura de homens para reforçar o braço armado do Estado e ir para o sertão caçar cangaceiros, enfrentar matadores de aluguel e correr atrás de ladrões de carga nas estradas. E foi nessa que meu pai se tornou funcionário público da Secretaria de Segurança da Bahia (ele só tem uma aposentadoria que lhe permite viver com um mínimo de dignidade humana hoje por causa disso). Minha mãe não teve a mesma sorte. Ela sempre trabalhou em casa de família, tomando conta dos filhos dos outros, costurava, vendia doces, enfim, se virava para ter seu trocadinho e sustentar a família. Ah, tem também minha querida tia Celina (irmã dela), que tem quase setenta e cinco anos e é analfabeta de pai e mãe (e não é aquela analfabeta funcional que temos hoje). Minha tia não conhece nem dinheiro, tanto que ela mora num além do interior de Feira de Santana, e é lesada pelo pastor da igreja. Sem meias palavras, além de tudo isso ela é roubada com a ajuda da alienação religiosa. Agora, tem a terceira geração da família, composta por mim e meus irmãos. Nós tivemos acesso à educação, porque isso meu pai sempre achou importante oferecer aos filhos dele. Eu sou a caçula de quatro filhos e a única que ingressou na universidade. Minha irmã mais velha só completou o ensino fundamental e trabalhou na casa de família a vida toda. Meu irmão sequer concluiu o ensino médio e trabalha como vigilante e cobrador de Topic (ele tem que se virar, pois a filha dele nasceu mês passado e ele precisa comprar o leite e a fralda dela). Meu outro irmão concluiu outro dia o ensino médio por exigências do trabalho, e também trabalha como vigilante – em dois ou três lugares diferentes, pois ele tem mulher e cinco filhos para sustentar.

Fazendo uma breve análise sobre os precedentes históricos de negras e negros no Brasil, dá pra explicar porque o sistema de cotas é constitucional – e fundamental para corrigir as abissais distorções entre brancos e negros no Brasil. É uma política de reparação, sim. E que tem por meta começar a saldar uma dívida história com a nossa sociedade, especialmente com os descendentes das pessoas que foram arrancadas da sua terra, trazidas para cá em condições subumanas, obrigadas a trabalhar debaixo de porrada, mutiladas, torturadas, estupradas e assassinadas quando resolveram gritar contra a indignidade em que viviam. Porque muitos negros e negras lutaram e morreram para que eu pudesse estar na UFBA hoje. Só que eu sou a exceção no meio dessa ilha de miséria que vivemos. A regra se vê todo fim de semana nas geladeiras do Instituto Médico-Legal à espera de reconhecimento da família para serem enterradas.

Ou você, Allana, gostaria que um português de Coimbra viesse ao Brasil, te levasse para seu país, lá te impusesse uma nova fé, uma nova língua, e te escravizasse para que produzisse riqueza pra ele, além de te chibatear quando dissesse que estava cansada, precisava de água e comida e não aguentava mais trabalhar – e no entremeio desse regime de terror, ainda te obrigasse a satisfazer todas as taras sexuais dele. E a única coisa que você receberia em troca seria mais chibata, agora em praça pública para servir de exemplo e nunca mais desrespeitar seu dono quando se recusasse a cumprir uma ordem dele. Depois disso tudo (e muito rapidamente), você estaria velha e inútil diante de tanta exploração. E ele, do alto da sua generosidade e caridade cristãs, resolveria te libertar para que aproveitasse seu fim de vida pedindo esmolas nas ruas, dormindo nos bancos das praças e tomando porrada da polícia por incidir no crime de vadiagem. Só que com um grande detalhe: você não teria dinheiro, não saberia falar a língua nata de Portugal, não saberia ler e escrever e não saberia o que fazer para voltar para o Brasil e rever sua família em Valéria. Ou seja, você estaria na merda.

Isso foi o que aconteceu com negras e negros escravizados no Brasil de 1500 até 1888. Mais de trezentos anos de escravidão. E agora vem você me dizer que não é favor de cotas pra negros porque parece inconstitucional? Inconstitucional é a pobreza, a miséria, o desemprego, o subemprego, os baixos salários, a violência policial, a falta de educação e atendimento médico de qualidade, a carência de perspectivas, a humilhação, a invisibilidade social, a exclusão, ser vista e tratada como bandida até que se prove o contrário. Faça-me o favor!!! Sugiro que conheça um pouco mais da história da construção da sociedade em que está inserida e perceba o que acontece à sua volta, ao invés de ficar soltando ideias como essa que não contribui em nada para ajudar a consolidar políticas públicas de reparação e igualdade de um povo que resiste para manter sua dignidade e o futuro de seus descendentes.

Se quiser a minha ajuda para isso, fique à vontade. Estou à sua disposição.

 
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Publicado por em 25/04/2012 em Publicações

 
 
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